A TEORIA JUNGUIANA E UMA EDUCAçãO MAIS REFLEXIVA E FACILITADORA DA FORMAçãO INTEGRAL DO SER

A teoria junguiana e uma educação mais reflexiva e facilitadora da formação integral do Ser

Os conceitos junguianos são muito pouco conhecidos pelos educadores, contudo esse conhecimento ajudaria muito a compreensão de reações de crianças e adolescentes em ambiente escolar. Além disso, facilitaria a realização de uma prática pedagógica mais humana e que, para além de conteúdos estanques, vislumbrasse também o ser humano que está diante da instituição.

Não se descarta aqui o relevante papel da escola enquanto transmissora dos conteúdos acadêmicos, mas antes o que é discutido é que conteúdos acadêmicos só se fazem relevantes quando desenvolvidos para a melhora da vida de todos os seres humanos. Por exemplo, de nada adianta a aprendizagem da leitura e da escrita se nela também não forem instigadas a apreciação e questionamento do belo, do grotesco, do incômodo, nas obras literárias ou da própria criação e fruição da criatividade na escrita. Pois, são essas aprendizagens que aproximam o ser humano dele mesmo e do coletivo e possibilitam a reflexão sobre a vida, sobre o mundo e a importância de cada ser no mundo em que vivemos.

A instituição escolar, para além de qualquer outro estímulo e conteúdo, deveria favorecer o indivíduo na sua busca pelo conhecimento de si mesmo, já que segundo Jung, este processo ao qual ele chama de individuação, é a capacidade que todo indivíduo tem, por meio do caminho de diferenciação, separação e integração, de sair da uniformidade rasa e alienante da normose coletiva em direção e em busca simultânea de profundidade e expansão evolutiva (2015, p. 63). Sendo assim, certamente esse deveria ser o objetivo principal da instituição que se propõe a formar indivíduos, contudo o que se percebe é o contrário, a escola busca, desde o início, educar para a aceitação de um único padrão, de um padrão coletivo, o que gera o desconforto e a inadaptação de um número cada vez maior de crianças e adolescentes.

É fácil perceber que algo não vai bem na instituição que deveria ser o lugar da disseminação do conhecimento e da ampliação da criatividade. Segundo Jung,

                                      "A sociedade acentuando automaticamente as qualidades coletivas de seus indivíduos representativos, premia a mediocridade e tudo que se dispõe a vegetar em um caminho fácil e irresponsável. É inevitável que todo elemento individual seja encostado na parede. Tal processo se inicia na escola, continua na universidade e é dominante em todos os setores dirigidos pelo Estado.." (2014 - pág. 41)

Um dos fenômenos que surgem para possibilitar a mudança do estado de consciência para que o indivíduo possa mudar seu estágio evolutivo são as crises. Sendo, portanto, possível pressupor que sintomas físicos, psíquicos, relacionais, assim como também o reagir de forma agressiva, apresentar problemas de aprendizagem, dentre outros, poderiam ser reflexo da inadaptação a modelos escolares que desprezam por exemplo os tipos psicológicos definidos por Jung e suas características únicas.

Marie Louise von Franz (2016) defende que não se deve precipitar um tipo sentimento, por exemplo, para a função pensamento imediatamente, porque possivelmente isso causará danos graves, pois o indivíduo perderá os campos onde se apoiar, portanto ao considerar apenas um tipo psicológico (geralmente o tipo pensamento extrovertido), a escola prejudica os outros indivíduos que podem inclusive retrair-se e assumir uma persona que, de fato, exige muito esforço para ser constituída e que, certamente, irá gerar reações e desconfortos futuros. Jung afirma que "Naturalmente, quem constrói uma persona boa demais, sofrerá crises de irritabilidade." (2015 p. 83,84)

Portanto, quando o educador leva em consideração os tipos apresentados por Jung, isso possibilita uma maior compreensão da individualidade do aluno e o ajuda, evitando que ele entre em conflito e consequentemente desenvolva reações de proteção que impeçam o seu desenvolvimento. Isso não quer dizer que o professor deverá identificar o tipo psicológico de cada aluno, o que seria inviável, o que o professor deve proporcionar são atividades que atendam a todos os tipos. Consequentemente, os alunos se encaixarão de forma tranquila nas atividades em que se sentirem mais confortáveis.

Além disso, a escola, assim como fez ao catequizar os índios, continua a reprimir o que considera negativo, inapropriado e que não corresponda aos padrões sociais dos quais ela comunga, o que geralmente leva ao surgimento dos "lados sombrios". Jung afirma que "As pessoas, quando educadas para enxergarem claramente o lado sombrio de sua própria natureza, aprendem ao mesmo tempo a compreender e amar seus semelhantes; pelo menos, assim se espera." (2014 p. 37). Sendo assim, novamente temos a confirmação de que a efetiva consideração do conceito junguiano ajudaria a transformar uma educação repressora e com censuras a temáticas polêmicas, em uma educação que possibilite a ampliação do conhecimento pessoal, através de discussões livres que possibilitem a reflexão sobre os mais variados temas.

Por: Andréa Alencar

Contato: andrea.alencar.mel@gmail.com

Membro analista em formação no Rio de Janeiro

 

Referências:

Jung, Carl Gustav. Psicologia do Inconsciente 7/1. Trad. Maria Luiza Appy. 24 ed, Petrópolis, Vozes, 2014;

_______________. O eu e o Inconsciente 7/2. Trad. Dora Ferreira da Silva. 27 ed. Petrópolis, Vozes,2015)

Von Franz, Marie Louse & Hilmann, James. A Tipologia de Jung Ensaios sobre psicologia analítica. 2 ed, São Paulo, Cultrix, 2016.


- 19/06/2019