ADOECER: UM PROCESSO ENTRE CORPO E ESPÍRITO

Adoecer: um processo entre corpo e espírito adoecer

Adoecer: um processo entre corpo e espírito

 

O contato com a doença ou as queixas físicas é muito frequente na prática clínica do psicoterapeuta, e costuma despertar sua curiosidade pelo lugar da doença nas relações psique-corpo e seus aspectos simbólicos. Adotar um modo de olhar que não seja redutivo e puramente causal já é, por si só, um desafio, visto que não corresponde à visão dominante em nosso atual paradigma científico e cultural. O ponto de vista mecanicista oferece a tendência a enxergar a doença como um processo vital isolado, destacado da totalidade da vida corporal, anímica, social e espiritual; é um ponto de vista materialista. A visão holística-sistêmica, um novo paradigma científico, nos lembra que não há processos vitais isolados, tudo está interligado. Uma manifestação qualquer em uma de nossas dimensões não pode, portanto, ser isolada de nossas outras dimensões, mesmo que o sofrimento possa estar predominantemente localizado em uma delas.

No entanto, a dimensão do espírito, irrepresentável, múltipla em sentidos, não costuma ser suficientemente considerada no processo de adoecer. Quando entra em cena, é imediatamente associada às experiências sublimes, às alturas, à transcendência e ao significado. Assim, sua presença evoca muito mais a possibilidade de ressignificação e cura, do que do adoecer em si. É comum a compreensão da doença como reveladora de algo a ser observado cuidadosamente e corrigido, mas não se costuma aventar a hipótese do adoecer como uma espécie de "intencionalidade" própria do espírito. A psicologia analítica, contudo, oferece uma possibilidade de compreensão acerca do espírito como uma experiência psicológica, de caráter autônomo, e ligada à numinosidade de uma ordem superior, sendo, contudo, "bipolar", guardando potencialidades percebidas pela consciência como positivas ou negativas, celestiais ou demoníacas; e, além disso, como um princípio que confere direção à experiência, vivificando a matéria, unificando nossos fragmentos, mas que não pode existir por si só, como único governante, devendo sempre estar em interlocução com a vida, que lhe corrige, complementa, e coloca os limites necessários à sua atuação, conferindo-lhe materialidade.

Sendo considerada a doença uma prerrogativa de um corpo vivo, faz-se necessária a compreensão acerca do que seria a vida como condição sine qua non para o surgimento da doença, bem como o resgate do espírito que lhe é inerente e lhe sopra a direção, como co-responsável pelo processo de adoecer, expressando-se na linguagem que lhe é própria via complexos, fatores constitutivos da personalidade individual, reconfigurando nosso entendimento sobre a doença como integrada ao todo da existência humana. No próprio desenvolvimento do campo da psicossomática, foi-se compreendendo a insuficiência de um olhar sobre as relações psique-corpo como uma simples teia de relações entre partes separadas e independentes, alcançando a compreensão do ser humano como um ser psicossomático. E mais, como um todo composto de suas dimensões corporal, psíquica, sociocultural, ambiental e espiritual em sinergia. No entanto, a nossa aproximação à dimensão do espírito ainda é incompleta. Ele ainda é visto como fator etéreo, habitando as alturas, sendo negligenciado em sua participação fundamental no processo do adoecimento, antes compreendido como o fator de reequilíbrio, e menos como pivô da criação da doença. Este reconhecimento é fundamental para o entendimento da matéria como não existindo sem sua contraparte espiritual, o significado, positivo ou negativo. O exílio imposto ao espírito como apartado de nossa experiência terrena precisa ser superado, em nome de um olhar integral para o adoecimento.

Quando pensamos nos novos paradigmas emergentes, imediatamente devemos pensar em qual teria sido a insuficiência de compreensão que evocou sua necessidade. E fica claro que, por mais que novos modelos, mais coerentes com nossas necessidades atuais, estejam disponíveis para nós, ainda não houve pela consciência coletiva sua devida assimilação, como uma nova forma de olhar e de pensar condutas, tanto individuais quanto coletivas. Vivemos hoje, sobretudo na sociedade ocidental, sob a influência de um modelo mecanicista e materialista, predominantemente. O mecanicismo é um conceito apropriado das ciências naturais, principalmente da física clássica, que promove uma separação entre o sujeito da experiência e o seu objeto de estudo, como uma forma de compreendê-lo com maior objetividade e neutralidade. Além disso, é um modelo altamente especializado, que enxerga na fragmentação em partes e olhar focado a maior possibilidade de se chegar a uma verdade científica, que envolve previsibilidade e controle.

As bases do pensamento sistêmico estão contidas na passagem das partes ao todo, com propriedades que não podem ser reduzidas às de suas partes constituintes, e nem compreendidas a partir delas isoladamente, é um pensamento processual e contextual. Além disso, contempla uma complexidade crescente à medida que passamos a níveis sistêmicos "superiores" (não em termos de valor, mas do quanto de inter-relações um sistema engloba), em que emergem novas propriedades. As fronteiras entre as partes se tornam assim menos discerníveis, mais fluidas, secundárias, porque "partes" passam a ser sempre entendidas como elementos não independentes de suas relações com as outras partes, com o todo.  Assim, todo o conhecimento científico objetivo não se torna inválido, mas aproximado e relativo, e sempre parcial.

Espírito é, sem dúvida, um termo controverso, com significados múltiplos, e que, por isso, gera inúmeras confusões quando mencionado, já que nunca se sabe ao certo sobre o que está se falando. Jung (2014) discute essa polissemia, para oferecer uma visão panorâmica sobre os usos do termo, mas tentando oferecer um contorno sobre o que estaria a ele relacionado em sua psicologia. Ele oferece, em primeiro lugar, a ideia mais genérica do espírito como "[...] o princípio que se contrapõe à matéria." (Ibid., § 385) Em alguns contextos, seria entendido como um princípio de atividade superior; em outros, um liame que une corpo e alma; ou ainda como funções psíquicas como a racionalidade e capacidade de pensar; pode ser visto como a base da espirituosidade; ou, por fim, como uma atitude particular a certo contexto (ideia presente, por exemplo, no conceito de espírito da época). É associado, de qualquer maneira, a um princípio de característica e funcionamento imaterial.

Diz Jung:

"É próprio do ser espiritual: primeiro, um princípio espontâneo de movimento e ação; segundo, a capacidade de criação livre de imagens, independentemente da percepção pelos sentidos; e, terceiro, a manipulação autônoma e soberana de imagens. [...] Não foi o homem que criou o espírito, mas este é o que o torna criativo, dando-lhe o impulso inicial e a ideia feliz, a perseverança, o entusiasmo e a inspiração. O espírito penetra de tal modo o ser humano que este corre o maior perigo de acreditar-se seu criador e possuidor. Na realidade, porém, o fenômeno primordial do espírito apodera-se do homem da mesma forma que o mundo físico é na aparência o objeto complacente das intenções humanas [...]. O espírito ameaça inflacionar o homem ingênuo [...]." (Ibid., § 393)

Dessa maneira, podemos entender o espírito na psicologia analítica como um fator psíquico inconsciente que é dinâmico, ativo, autônomo e criativo, que cria uma antinomia com a matéria, como um fator ordenador, que lhe confere forma e direção. Esse é um conceito que é aclarado por von Franz (1975), como um aspecto do inconsciente que "tem o poder de movimentar-se espontaneamente e, sem depender de estímulos sensoriais exteriores, produz imagens e pensamentos repentinos no mundo interior da imaginação, e até os ordena de maneira significativa." (p. 72) Seria, portanto, um movimento espontâneo que organiza imagens simbólicas segundo suas próprias leis e que direciona o desenvolvimento psicológico para um certo sentido, oferecendo o risco de ser apropriado indevidamente como uma capacidade egoica, levando o ego a enxergar-se para além de suas medidas.

O caráter autônomo e direcionador do espírito em nós nos leva quase invariavelmente a enxergá-lo como uma espécie de ordem superior. No entanto, é importante lembrar que este aspecto "superior" nem sempre é vivido pela consciência com uma atitude receptiva, já que a autonomia de certos conteúdos que irrompem e atrapalham sua continuidade podem ser entendidos como influências perturbadoras. Esses fatores autônomos presentes na psique (e que provocam perturbações) foram a base para que Jung desenvolvesse seu conceito de complexo, compreendendo que se tratava sobretudo de conteúdos autônomos experimentados em forma de projeção, normalmente vistos como estranhos ao indivíduo.

Os complexos sempre se constituem no choque entre as disposições inatas de organização da experiência humana, que é comum a toda a nossa espécie, chamadas por Jung de arquétipos, e as vivências pessoais que sejam afetivamente significativas, produzindo qualquer tipo de impacto sobre o indivíduo: isto implica em dizer que os complexos organizam todas as nossas experiências vitais, que neles se individualizam e diferenciam. Aqui está incluído o adoecimento como um processo vital entre outros, que se insere na dança dinâmica dos complexos.

Interessa notar que a formação dos complexos se dá pela própria impossibilidade de a consciência abarcar a totalidade de nossa natureza. Embora ela vá ampliando seus limites para que possa cada vez mais suportar a tensão implicada na vivência das polaridades, precisa da atitude focada. O grande risco é a identificação com um lado único da experiência, condicionando formas de olhar e reações repetitivas que desconsideram o lado oposto, e, portanto, a integralidade que é inerente à vida. Essa seria a "dissociação neurótica da personalidade" (JUNG, 1991, §207), fruto da unilateralidade consciente, que, aliás, define toda e qualquer forma de adoecimento na perspectiva junguiana (SALVADOR, 2020).

Os complexos são eminentemente psicofísicos, sendo constituídos pelos afetos, que podem, quando constelados, desencadear expressões emocionais, com seu equivalente fisiológico, sua bioquímica específica, e as imagens que a acompanham, a experiência psíquica do complexo. São eles os elementos em que estão aglutinadas todas as dimensões da experiência humana, e em seus movimentos residem os destinos desta experiência, definindo inclusive as perspectivas de saúde e doença que carregamos em nós. É um modelo de aparelho psíquico que permite levantar hipóteses sobre o adoecimento como o fracasso na tentativa de integração de todas as suas esferas, uma vivência fragmentada.

O conceito de doença costuma ser cercado de abstrações, sendo pensado frequentemente como uma alteração biológica, seja de estrutura ou de função, que traz algum tipo de mal-estar, afetando o organismo em sua homeostase, seja como um todo ou em suas partes, mas não costuma levar em conta a percepção subjetiva sobre o adoecer, ou, dito de outra maneira, a perspectiva que leva a viver um fenômeno como saudável ou doentio, além de não considerar essa manifestação como algo global, como um fenômeno que acomete o indivíduo por inteiro, e não só em seu aspecto físico. O movimento histórico e evolutivo das concepções sobre o adoecer, desde a concepção primitiva até o modelo psicossomático e a moderna compreensão holística, consistem basicamente em aproximações e afastamentos sucessivos entre nossas dimensões, em tentativas alternantes de um olhar mais objetivo ou de um olhar integrativo. Ramos (2006) afirma que:

"Se na medicina e na psicologia até então o termo 'psicossomática' tem sido usado, como vimos, para se referir a uma moléstia sem um diagnóstico claramente orgânico, o uso moderno do termo tem sido modificado. Ele deriva do reconhecimento de uma interdependência fundamental entre mente e corpo em todos os estágios de doença e saúde. Seria um reducionismo considerar que há doenças de causas puramente psicológicas ou puramente orgânicas. Há sempre um pluralismo na observação de qualquer fenômeno. Existe uma tendência a considerar todas as doenças como psicossomáticas, na medida em que elas envolvem a inter-relação contínua entre corpo e mente na sua origem, em seu desenvolvimento e sua cura." (p. 47)

 

Isto significa que a concepção da psicossomática já é integrativa, mas lhe falta ainda a devida consideração ao espiritual. Contudo, conforme anteriormente exposto, o espírito não pode prescindir de uma relação dialética com a vida. Eis outro princípio que não pode ser alcançado "em si", mas apenas a partir de suas manifestações nos chamados sistemas vivos.

Capra (2006) sintetiza em alguns princípios os critérios para que consideremos um sistema como vivo. Diz o autor:

"[...] a chave para uma teoria abrangente dos sistemas vivos reside na síntese dessas duas abordagens - o estudo do padrão (ou forma, ordem, qualidade) e o estudo da estrutura (ou substância, matéria, quantidade). [...] O padrão de organização de qualquer sistema, vivo ou não-vivo, é a configuração de relações entre os componentes do sistema que determinam as características essenciais desse sistema. [...] A estrutura de um sistema é a incorporação física do seu padrão de organização." (pp. 133-134) 

À estrutura e padrão de organização, se acrescenta a ideia de processo vital, um sistema vivo é sempre processual, há um fluxo contínuo de trocas de matéria e energia com o entorno. O padrão de organização, em que cada componente do sistema participa da produção ou transformação de outros componentes, equivale ao movimento contínuo do sistema em "criar a si mesmo", a autopoiese. Essa característica torna o sistema autônomo em sua organização, e capaz de criação contínua de novos padrões de comportamento. Dessa maneira, embora fechado em sua organização, um sistema vivo é sempre estruturalmente aberto, criando instabilidades em suas trocas, para que possa evoluir com novas ordens emergentes. E, por fim, o próprio processo vital é entendido como uma contínua incorporação de um padrão de organização em uma estrutura mutável, e esse processo contínuo seria cognitivo por excelência, independendo da existência de um sistema nervoso desenvolvido, embora precise de certo grau de complexidade para se manifestar. (Ibid.)

O corpo, assim como já estava posto na concepção junguiana, é um sistema vivo, e com a prontidão para a vida, a partir de sua complexidade estabelecida na continuidade de um processo evolutivo. E a partir da premissa de que só adoece quem está vivo, não é difícil, com esta apresentação, chegar à conclusão de que o processo de adoecer está implícito no processo vital, como uma possibilidade que sempre se apresenta no interior do funcionamento de um corpo vivo, a partir das trocas que faz com o seu entorno e da simultaneidade entre mudança e estabilidade, em que uma condição do sistema não se mantém estática, não permanece sempre a mesma, pode sofrer toda sorte de alterações em seu funcionamento, que podem levar a uma nova ordem evolutiva, novos padrões de funcionamento, ou mesmo, em seu outro extremo, à destruição. E o processo é considerado mental em sua essência, o que equivale a dizer que a matéria, para manifestar vida (e doença), não prescinde de algo que a ultrapasse e lhe dê um sentido. Conforme lembra Davies (2000), a complexidade biológica é "complexidade instruída, ou [...] complexidade baseada em informação" (p. 32). Esta instância que lhe confere significado é o espírito, conforme aqui entendido.

O espírito é uma vivência abstrata, mas nem por isso menos real. No entanto, uma questão que surge quase automaticamente é sobre esse cruzamento entre um princípio imaterial e a matéria, ou sobre como podem se comunicar e se afetar mutuamente, necessitando de um elemento intermediário que estabeleça a ligação. Na visão junguiana, esse elemento é o símbolo, entendido como um transformador de energia psíquica, ou ainda como "as formulações melhores possíveis de fatos ainda desconhecidos, ou respectivamente inconscientes, que se comportam de maneira compensatória para com o conteúdo da consciência, ou respectivamente para com a atitude consciente." (JUNG, 2012, § 427). Podem ser assim compreendidos como os elementos de ligação entre as tendências direcionadoras e inconscientes do desenvolvimento e o plano consciente, influenciado pelo valor de que estão investidas as imagens simbólicas que se lhe apresentam como novidades a serem assimiladas. Mas aquilo que permanece somente como algo etéreo, expressando toda a virtualidade de nossas possibilidades, mas apartado da vida que escolhe entre essas possibilidades e lhes dá materialidade é absolutamente estéril, precisa estar sempre inserido nessa relação. Do contrário, se torna um princípio autônomo e tirânico, que se alimenta de si mesmo, e nunca passa ao viver.

Nosso pensar costuma se voltar para a ideia de que a doença não faz parte do nosso desenvolvimento, funcionando antes como um entrave a ele. Essa é uma discriminação própria da limitação egoica, que precisa fazer este trabalho seletivo, separando as experiências em boas ou más, positivas ou negativas, certas ou erradas, mas sem levar em conta que não é este o funcionamento da natureza: para a totalidade, todas as experiências são neutras, e o que importa é o caminho do meio, que contemple a maior parte possível das possibilidades, o cenário mais completo que consigamos alcançar. Esta é a chave para compreender que a doença, enquanto possibilidade inerente à vida, embora se manifeste como desequilíbrio, não consiste em um erro da natureza. Adoecer é a sinalização de que nos afastamos da totalidade e nos limitamos excessivamente às nossas concepções e condicionamentos arraigados.

Diz Ziegler (2012):

"[...] Não é um erro da natureza, mas um plano da natureza, que nós decaiamos, nos desintegremos ou nos dissolvamos. [...] A seleção de doenças e mortes pertence à qualidade quimérica da existência humana, enquanto a saúde como tal é apenas de importância secundária.

Podemos olhar a doença como a transformação de traços recessivos e tendências em direção ao sofrimento físico. Enquanto são inconsistentes, caprichosos e normalmente mal adaptados, esses traços têm a curiosa tendência de somatizar e de aparecer como doenças identificáveis, as morbus. [...]" (p. 23)

 

Nosso olhar está sempre condicionado pela dinâmica de nossos complexos, e esse olhar é que determina se uma vivência será simbólica, comunicando novos potenciais, ou sintomática, defensiva. É este viés que determinará nossa atitude diante de qualquer sintoma. Ao mesmo tempo em que a doença desestabiliza, desorganiza, fragiliza, contém em seu seio também nossa grande tarefa redentora, nosso compromisso ético envolvido no entendimento dos filtros através dos quais enxergamos nossa realidade e nos posicionamos diante dela. Este compromisso é retomado por Boff (1997), quando compreende que o espírito é como fonte originária de toda a vida, sendo o humano portador de seu mistério, com a tarefa de cuidá-la, expandi-la, propagá-la. Diz que "toda espiritualidade tem a dimensão ética de defender e expandir a vida, evocar e guardar sua sacralidade [...]" (p. 24). E ainda, não sendo o homem o portador exclusivo do espírito, deve se conectar a todos aqueles que são portadores do mesmo mistério, todos os viventes, valorizados igualmente. À medida que nos conecta a todos os outros seres, ou traz a consciência de nossa desconexão, a doença traz, portanto, a consciência de nosso mito pessoal. Rothenberg (2004) lembra que "[...] Metaforicamente, um indivíduo aprofunda-se em certa doença como se fosse um alquimista à procura do espírito preso na matéria [...]" (p. 23), ou seja, temos apresentada a nós a tarefa de extrair do sintoma a descoberta acerca de nossa própria verdade.

            As belíssimas palavras de Hollis (2017), que nos recordam nossa natureza una e do espírito como um diretor da existência, encerram este artigo:

 

"Para a consciência ordinária, parecemos portar, na maior parte do tempo, corpos materiais fixados pela gravidade e costurados pela dor e pela mortalidade a esta terra prenhe. Mas somos também sistemas, energias, trocas, projeções, programas, campos de força e reproduções contínuas de tenebrosos roteiros tanto conscientes quanto inconscientes. O que anima essa reunião de matéria que passamos a habitar quando nascemos? O que sopra o spiritus nos pulmões da criança que grita? Esse spiritus - ésprit, re-spiração, in-spiração - é energia, um campo de força que sopra, sopra através da eternidade rumo aos corpos circunscritos no tempo, cujas trajetórias curvilíneas trazem-nos inexoravelmente de volta à terra. Mesmo que portemos corpos materiais, decadentes, mortais enquanto guinamos pela vida, continuamos não obstante, sendo campos energéticos de força imolados nas eternas chamas que dançam sobre a lápide da história.

Quando penso numa 'história', penso num espírito de modelar, um informe criado intencionalmente. [...]" (p 23).

 

 

Luiz Felipe Nascimento, Membro Analista em Formação pelo IJEP.SP

E. Simone Magaldi membro didata do IJEP

 

 

Referências:

BOFF, Leonardo (1997). Espírito e saúde. In: O espírito na saúde. Organização de Lise Mary Alves de Lima. Petrópolis, ed. Vozes.

 

CAPRA, Fritjof (2006). A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo, Cultrix.

 

DAVIES, Paul (2000). O quinto milagre: em busca da origem da vida. São Paulo, Companhia das Letras.

 

HOLLIS, James (2017). Assombrações: dissipando os fantasmas que dirigem nossas vidas. São Paulo, Paulus.

 

JUNG, Carl Gustav (1991). A Natureza da Psique, OC, vol. VIII/2 - 3ª ed. Petrópolis, Ed. Vozes.

 

JUNG, Carl Gustav (2012). Mysterium Coniunctionis, OC, vol. XIV/2 - 3ª ed.   Petrópolis, Ed. Vozes.

 

JUNG, Carl Gustav (2014). Os arquétipos e o inconsciente coletivo, OC, vol. IX/1 - 11ª ed. Petrópolis, Ed. Vozes.

 

RAMOS, Denise Gimenez (2006). A psique do corpo: a dimensão simbólica da doença. 3ª ed., São Paulo, Summus.

 

ROTHENBERG, Emily-Rose (2004). A jóia na ferida: o corpo expressa as necessidades da psique e oferece um caminho para a transformação. São Paulo, Paulus.

 

SALVADOR, Ajax Perez (2020). Determinantes do adoecimento. - Apostila do curso de pós-graduação em Psicossomática do IJEP.

 

VON FRANZ, Marie-Louise (1975). C. G. Jung: seu mito em nossa época. São Paulo, Cultrix.

 

ZIEGLER, Alfred J. (2012). Medicina arquetípica. São Paulo, editora Paulus.


Luiz Felipe Nascimento - 05/10/2021