ALMAS NEGRAS, BRANCAS, VERMELHAS E AMARELAS, UMA SÓ ALMA

Almas negras, brancas, vermelhas e amarelas, uma só alma Psicologia Junguiana

Há poucos anos, um jornalista brasileiro bem conhecido e já falecido, Paulo Henrique Amorim, foi condenado por crime de injúria racial por um Tribunal de Justiça do Distrito Federal, e recebeu uma pena de 1 ano e 8 meses de prisão, substituída por restrição a direitos. O que provocou tal decisão foi uma afirmação feita em um programa televiso, onde chamou o também jornalista, Heraldo Pereira, de "negro de alma branca". Aparentemente inofensiva, tal afirmação revela um quadro sombrio e preocupante da discriminação étnica estrutural da sociedade brasileira, que foi intensificada pela pandemia global que nos assola.

Interessa-nos explorar este tema, não somente por ser o resultado de toda uma teia histórica de relações humanas que produziram tal espectro, como pela amplitude que este problema atingiu na sociedade global atual e, particularmente, no Brasil. No seio dessas reflexões, torna-se fundamental aprofundar essas discussões, envolvendo a psique humana e a psicologia profunda, sem as quais qualquer esforço de entendimento de um assunto tão complexo, se torna um exercício incompleto. Ampliando essas discussões, duas óticas, que se interconectam e complementam, são importantes para aprofundar o entendimento sobre discriminação étnica: a histórico-cultural e a da psicologia analítica.

Frequentemente a questão da discriminação da população afro-descendente é associada com a escravização de africanos no mundo ocidental, que vigorou efetivamente entre os séculos XVI e XIX. Essa premissa, muito intensa na contemporaneidade, não se alicerça em nenhuma pesquisa bem fundamentada, pois a humanidade tem convivido com a escravidão há muito mais tempo e, portanto, a ideia de que a discriminação étnica teve um único berço e período de gestação não parece consistente com a realidade histórica. Há, por outro lado, defensores da inexistência de qualquer tipo de discriminação étnica, apoiados em linhas científicas que defendem a existência de somente uma raça na humanidade, a humana. Tais argumentos ignoram acintosamente que o racismo é, antes de tudo, produto de uma realidade histórica, social e cultural, estruturada a partir de características fenotípicas de indivíduos, que se reflete, também, como fenômeno econômico e político-social. É o fenótipo, conjunto  de características observáveis ou caracteres de um organismo ou população, que alimenta o imaginário social, e serviu ao longo da história para demarcar fronteiras entre grupos étnicos, em torno do qual são nucleadas as discriminações étnicas/raciais.

Uma das formas perversas de racismo, o estrutural, entendido como a formalização de um conjunto de práticas institucionais, históricas, culturais e interpessoais dentro de uma sociedade que frequentemente classifica grupos sociais ou étnicos como “superiores e inferiores”, e tão presente na atualidade, tem suas raízes na antiguidade. As religiões têm sua parcela de responsabilidade nesse contexto, e a própria Bíblia não tem uma única passagem de condenação à escravatura em suas inúmeras páginas, apesar de fazer diversas alusões à escravidão de judeus no antigo Egito. Maomé, o profeta do Islamismo, também não condenou a escravatura, possuindo e inclusive comercializando escravos, o que favoreceu a aceitação da escravatura entre os muçulmanos.  Entre os gregos a discriminação já era presente, baseada em argumentos de condição social e cultural, uma vez que se sentiam mais cultos que outros povos. Filósofos gregos, como Platão e Aristóteles (séc. IV e III a.c.), procuraram fundamentar a escravatura em aspectos particulares da natureza humana dos escravos. Os romanos construíram seu império utilizando mão de obra escrava oriunda dos povos conquistados, fundamentados na concepção de que, como povo mais forte, atos de violência contra os mais fracos eram aceitáveis. Na Idade Média, preponderam as discriminações baseadas na condição social, na qual os nobres eram reconhecidos como superiores em relação a outros grupos sociais, como os servos e os camponeses.

Atualmente, embora esteja muito difundida a noção de que o racismo acabou por gerar a escravatura de africanos e afrodescendentes, isto não corresponde à realidade histórica. Até ao século XVII, tanto um branco como um negro podiam ser vendidos como escravos, prática que era frequentemente associada a dívidas não pagas. Admitia-se que todos os homens podiam ser livres ou escravos, independentemente de suas origens étnicas, e as discriminações eram justificadas por diferenças culturais, e, sobretudo por diferentes condições sociais entre os indivíduos. As primeiras concepções racistas modernas surgem na Espanha, em meados do século XV, em torno de diferenças religiosas com judeus e muçulmanos e, posteriormente, estendida à relação com índios e negros. O cristianismo fomentou durante séculos, discriminações por diferenças étnicas que chegaram até os nossos dias.  

A palavra racismo surge na França no início do século XX e se popularizou ao longo das décadas que se seguiram, usada para denominar as concepções sobre superioridade e inferioridade racial que começaram a vigorar na Europa a partir do século XIX. Essas ideias, que contaram com aprovação de muitos cientistas, passaram a “justificar” ações políticas racistas em várias partes do mundo. Três exemplos notórios e relativamente recentes, entre tantos outros, enfatizam essa colocação: 1) a política antissemita na Alemanha nazista, nos anos 30 e 40, que culminou no holocausto; 2) o apartheid na África do Sul, entre 1948 e 1994; 3) as leis de segregação racial no sul dos Estados Unidos da América, que duraram até 1964.

O racismo ganhou força no século XIX, a partir de teses científicas eugenistas elaboradas por médico e antropólogos, que resultaram em doutrinas raciais. Técnicas como medição do tamanho do crânio de indivíduos de diferentes grupos étnicos, assim como análise de traços fisionômicos, foram amplamente utilizadas para determinar a “pureza racial”. A teoria da evolução das espécies de Charles Darwin foi amplamente utilizada por parte da ciência para consolidar o conceito de “raças superiores”. Essas verdadeiras doutrinas raciais passaram a ser usadas com finalidade política, para justificar o imperialismo europeu e a colonização dos continentes africano e asiático. Serviram, também, para consolidar regimes como o nazista, fomentando movimentos eugenistas que protagonizaram políticas de extermínio de “raças inferiores”. A África do Sul com seu apartheid e os EUA com suas políticas segregacionistas também protagonizaram movimentos similares de racismo.

De forma análoga a esses países, o Brasil desenvolveu um complexo cultural racista, que se mostra muito presente na vida cotidiana dos brasileiros. Apesar de não terem sido criadas políticas segregacionistas explícitas, aqui o racismo existe de forma velada, tendo se acentuado nessa pandemia, fato que se comprova pelo aumento do noticiário sobre o tema, facilitado pela amplitude da internet. Os negros são as maiores vítimas de preconceito social, pois compõem a camada mais pobre da sociedade que fica sujeita também a maior vulnerabilidade social; é a camada de menor escolaridade, são os que mais morrem assassinados, sendo as maiores vítimas da violência policial, representam a maior população carcerária, representam o 3º maior número de suicídios, depois de indígenas e da população LGBTQ, além de outros fatores negativos que justificam a afirmação de que há um racismo estrutural profundamente arraigado em nosso país. Justifica-se essa afirmação pela existência de um conjunto implícito de práticas institucionais e interpessoais que privilegiam determinados grupos sociais e étnicos em detrimento de outros, e que produzem disparidades dentro da sociedade brasileira.

Embora não seja um problema exclusivamente brasileiro, não se pode fechar os olhos a estas discrepâncias sociais que persistem à nossa volta, disseminadas na dimensão planetária, inclusive. Olhares históricos, culturais, políticos e científicos, corroboram essa afirmação. Mesmo grandes movimentos filosóficos do mundo ocidental, que foram disseminados nos últimos séculos e produziram grandes transformações no pensamento humano, como o Iluminismo e o Positivismo, não foram suficientes para produzir a evolução moral e as transformações necessárias para que os preconceitos étnicos fossem erradicados da face da Terra. Quero enfatizar, uma vez mais, que o Brasil não se furta a essa situação, mesmo que parcelas de nossa população insistam em afirmar que não há racismo em nosso país. Pelo contrário, observa-se que as recentes tendências políticas e o crescimento de uma direita conservadora e liberal, insuflada por movimentos religiosos de vários matizes, evidenciam contradições e paradoxos culturais, resquícios de uma herança colonial, que produziu e continua a produzir abismos sociais, que alimentam reivindicações de transformações sociais, mas que estão longe de serem efetivas, e que descortinam um longo caminho ainda à frente, para que nos tornemos minimamente uma sociedade equitativa (TANCETTI e ESTEVES, 2020).

Se por um lado, é mais visível a realidade racista quando observada pela ótica cultural histórica, ela se torna praticamente invisível se procurarmos compreender o racismo pelo lado subjetivo, a psique humana. Eu, que sou um “cidadão branco” e euro descendente, me sinto incomodado pelo fato de que faço parte, inconscientemente, de uma coletividade que discrimina indubitavelmente o “outro”, o “diferente”, aquele que possui uma cultura que me é “estranha”. Cresci em meio a sentimentos de discriminações, que carreguei comigo e que reconheço, me incomodam, pois ferem meus valores de ética, fraternidade, compaixão e justiça social. Porém, fazem parte de mim, eu os percebo nitidamente, frequentemente, apesar de serem “personae non gratae”. De que parte de mim vem o sentimento racista que percebo em meu interior, e que conflita com meus valores pessoais? Qual o papel do coletivo nesse constructo? Como a psicologia profunda analítica pode ajudar a trazer luz para um problema tão sombrio?

Não devemos nos esquecer de que o preconceito é insidioso e que todos fomos educados e condicionados a pensar de acordo com as estruturas coloniais e racistas. Portanto, o trabalho interno que cada indivíduo consciente deve fazer de forma contínua e ininterrupta é desconstruir o seu próprio racismo (CARIBÉ, 2018, p. 55).

 

Conteúdos conscientes e inconscientes, arquetípicos, se interligam intimamente e a psicologia analítica nos oferece novas dimensões para abordar e discutir as projeções individuais e coletivas, que estão na base do racismo estrutural que se perpetua na estrutura social, e que balizam experiências e narrativas individuais e coletivas da vida cotidiana. Um dos pioneiros no estudo das discriminações subjetivas foi Joseph Lewis Henderson, médico americano e psicólogo junguiano, cofundador do CG Jung Institute em San Francisco que, baseando-se no conceito dos complexos, conteúdos inconscientes afetivamente carregados que produzem dinâmicas de projeção e introjeção, desenvolveu o conceito de inconsciente cultural, definindo-o como o inconsciente de toda uma cultura ou nação, com suas representações, símbolos e valores coletivos, que se situa entre o inconsciente coletivo e o padrão manifesto de uma cultura, e se identifica com arquétipos, auxiliando na formação dos mitos, dos rituais, além de se inserir no processo do desenvolvimento individual. Favoreceu essa proposição neo-junguiana, o contexto histórico da época, pós Segunda Guerra Mundial, que tornou necessária uma compreensão analítica sobre os fatos ocorridos nesse contexto de conflito mundial, sob a ótica das particularidades de cada cultura, e que abarcasse as dinâmicas específicas por trás das noções de nacionalismo, preconceito e os respectivos complexos gerados.

Posteriormente, Samuel Kimbles, analista junguiano americano, embasado nas ideias trazidas por Henderson criou o termo complexo cultural para definir manifestações, afetos e conteúdos que se originam na esfera cultural, e que representa uma nova perspectiva psicológica para o entendimento de conflitos entre grupos e culturas (SINGER e KIMBLES, 2004). Complexos culturais surgem a partir de conflitos entre grupos e estabelecem uma tríplice ligação entre domínios do individual, do social e do arquetípico, e se expressam na sociedade em vertentes políticas, econômicas, sociais, geográficas e religiosas. De forma similar à dinâmica dos complexos da psique individual, os complexos culturais são relativamente autônomos, carregados de imagens e afetos, e de suma importância para a compreensão dos conflitos interpessoais e intergrupais, como os representados pelo racismo estrutural, pois se encontram intrinsecamente relacionados ao conceito de identidade cultural e enraizados na dimensão social e histórica de um grupo. Através deles explica-se os horrores que são cometidos devido às diferenças entre distintos grupos humanos, normalmente associados a posicionamentos sociais e econômicos, e que frequentemente resultam em manifestações de opressão, violência, discriminação e trauma, distribuídos de forma desigual entre as polaridades relacionadas, mas que afetam a todos os envolvidos, por se tratar de uma dinâmica relacional (TANCETTI e ESTEVES, 2020).

As experiências traumáticas resultantes dos complexos culturais são feridas históricas, que atravessaram e continuam a atravessar gerações e permanecem vivas no inconsciente cultural coletivo. Se tomarmos o Brasil como exemplo, podemos falar da herança escravocrata, cujos efeitos se perpetuam consciente ou inconscientemente tanto nos descendentes dos antigos escravos e nos descendentes dos brancos escravagistas, herança essa que também contagiou outros grupos étnicos que aqui aportaram posteriormente, gerando distorções coletivas em nível consciente, e que se traduzem na dificuldade de se enxergar a realidade daquele que é “diferente”, tornando-o “invisível” e precarizando o diálogo grupal, tão necessário para que se diminuam as mazelas de nossa sociedade, sedimentadas em grande parte na discriminação étnica. Nesse contexto, o discurso democrático da modernidade que tem como um de seus ícones a Declaração Universal dos Direitos Humanos, é uma meia verdade e o conflito e as tensões grupais são lugares comuns. Inconscientemente, todos somos afetados por esse complexo cultural, o racismo, e por suas polaridades, o “superior” e o “inferior”, o que dificulta sobremaneira nos tornarmos uma sociedade justa e psicologicamente saudável, perpetuando projeções sinistras baseadas na cor da pele, desconectadas da realidade, aprisionadas em uma história trágica e vergonhosa que teima em não nos abandonar, e que faz a todos, vítimas de um conflito que é, sem dúvida, psíquico, mas perverso em sua essência, e cujo caminho de redenção exige a dolorosa consciência da “negritude da nação”, imprescindível para restaurar o valor da herança africana na formação de uma identidade nacional (RAMOS, 2011).

Estas reflexões fomentam a ampliação de nossos conhecimentos sobre este grave problema psicossocial e nos convidam a reagir contra esse “status quo”, alimentado pela sombra individual e coletiva, que se nutre do complexo cultural histórico do racismo, que teima em nos acompanhar. É a sombra que nos habita, que exclui o outro, que nos ludibria ao permitir que vejamos falhas e faltas no próximo, mas não em nós mesmos. Entretanto, o racismo somente perderá sua letalidade quando dialogarmos francamente com nossa sombra e complexos, sejam eles negros ou brancos, poderosos per si, em contínua batalha com o ego, que resiste a ser controlado pelas emoções que invadem a consciência, ao mesmo tempo que lida com a constante sensação de ameaças que cada lado inspira no outro.

Como simpatizantes e seguidores da herança junguiana precisamos nos engajar e trabalhar para a integração de tais polaridades. Temos a obrigação de compreender as energias internas que nos impulsionam psiquicamente. Precisamos ser pacientes, mas intransigentes, com o compromisso de ampliarmos nossas consciências, orientadas ao respeito das diferenças da cor da pele, que não nos fazem mais ou menos humanos, pois nossa cor não vai mudar, nem podemos evoluir no caminho da individuação desejando que, os que nos são “diferentes” desapareçam, pois estamos aqui para ficar, sejam negros, brancos, vermelhos ou amarelos. Juntos, e somente juntos, poderemos lutar pela igualdade racial, onde ela for necessária (BREWSTER, 2016).  Finalizo estes pensamentos afimando que a herança cultural histórica e as reflexões da psicologia profunda nos convidam a pensar que, diferentemente da alegação feita pelo jornalista no início deste artigo, deveríamos deixar de nos preocupar em ter almas monocromáticas, mas sim nos engajarmos para integrar e sintetizar todas elas, nos tornando “uma só alma”. O guru indiano Chandra Mohan Jain percebeu isso, nos deixando uma preciosa lição:

 

Diz-se que, mesmo antes de um rio cair no oceano ele treme de medo.

Olha para trás, para toda a jornada, os cumes, as montanhas,

o longo caminho sinuoso através das florestas, através dos povoados,

e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar nele nada mais é

do que desaparecer para sempre.

Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar. Ninguém pode voltar.

Voltar é impossível na existência. Você pode apenas ir em frente.

O rio precisa se arriscar e entrar no oceano.

E somente quando ele entra no oceano é que o medo desaparece.

Porque, apenas então, o rio saberá que não se trata de desaparecer no oceano.

Mas tornar-se oceano.

 

Homero Mazzola – Analista em Formação pelo IJEP

Analista Didata: Santina Rodrigues

Referências bibliográficas

BREWSTER, Fanny. The Racial Shadow of American Politics, 2016. Disponível em: https://aras.org/sites/default/files/docs/00106Brewster.pdf

Acesso em 24 de maio de 2021.

CARIBÉ, Tereza.  Caminhos de volta: o retorno consciente às origens.In: OLIVEIRA, H. (Org.). Desvelando a alma brasileira: psicologia junguiana e raízes culturais. Petrópolis, RJ: Vozes, 2018. p. 28-59.

RAMOS, Denise. Cultural Complex and the Elaboration of Trauma from Slavery, 2011. Disponível em: https://www5.pucsp.br/jung/ingles/publications/24_05_2011_cultural_complex.html

Acesso em 20 de maio de 2021.

SINGER, Thomas e KIMBLES, Samuel L. The cultural complex: Contemporary Jungian perspective on psyche and society. New York, NY: Routledge, 2004.

TANCETTI, Barbara e ESTEVES, Jéssica Harumi. O racismo como complexo cultural brasileiro: uma revisão a partir do feminismo decolonial. Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, 2º sem. 2020. p. 49-61.


Homero Mazzola - 23/06/2021