ARTE MODERNA: O NÃO SENTIDO NUMA VISÃO JUNGUIANA

ARTE MODERNA: O NÃO SENTIDO NUMA VISÃO JUNGUIANA Psicologia Junguiana Psicossomática Arteterapia

Vivemos um momento em que a sociedade como um todo está fragmentada. Há uma onda de miséria humana, incertezas, falta de perspectivas e depressão. A virada no nosso século nos remete à virada do século passado. É percebido por todo o mundo e principalmente em nossa sociedade, uma nova e repetida onda de "inovação" artística.

Movimentos auto-intitulados "artísticos" emergem, e causam ainda maior estranheza e divisão. A necessidade de quebrar paradigmas ressuscita o questionamento: o que podemos classificar como "arte"? E, de que modo esta "arte" estaria ligada ao nosso dia-a-dia?

O início do século passado foi marcado pela eclosão da I Guerra Mundial, e foi também um período conturbado no campo da arte. Movimentos vanguardistas surgiram, provocando o rompimento com as tradições ocidentais. O mundo se encontrava em processo de ruptura, assim como a arte. Movimentos se espalhavam, tentando mudar o escopo burguês, que conferia à obra de arte um valor econômico, propondo ao invés disso um "não valor", para favorecer as leis do acaso. Observava-se já então um repúdio à lógica, e deste movimento surgiu o nonsense, o "não sentido". Como discorre o historiador da arte Giulio Argan, sobre o dadaísmo: "Desfinalizada e desvalorizada, a arte já não é senão um sinal de existência: significativo, porém, quando tudo é morte." (Argan, 1998, pág. 353).

Assim, ao invés do produto final, a obra acabada, é o processo de criação que passa a ser o mais importante, ou seja, o ato, a manifestação criativa em si, não mais o eventual sentido ou intenção da obra - sentido também ausente em um mundo em guerra, que se expressava por atos "sem sentido", porém de natureza oposta: pela destruição.

O futurismo, marco inicial deste processo, trouxe uma proposta de subversão, e mesmo o cubismo de Picasso, que valorizava a forma - geométrica -já apresentava uma disposição aleatória. O surgimento do dadaísmo, alicerçado no acaso e na negação de significados pré-estabelecidos, veio fundir-se no surrealismo de Salvador Dali, ilustre representante deste movimento que flertava, já então, com a psicanálise. Foi neste cenário que Freud e Jung davam voz ao inconsciente.

Essa disposição, considerada aleatória era, no entanto, uma forma de manifestação do inconsciente do artista. Mesmo apresentando-se de forma aparentemente acausal, havia uma conexão simultânea de fatores externos significativos com elementos psíquicos, capaz de provocar uma mudança interna. Enquanto isso, no campo da Psicologia Analítica, Jung usou o termo "sincronismo", no sentido de sincronicidade e pela primeira vez, em 1928, em sua obra Seminários sobre Análise de Sonhos, ao explicar o fenômeno de coincidências significativas entre eventos físicos e psíquicos que ocorrem em paralelo. O termo sincronicidade em si, porém, só veio a ser utilizado em 1930, na homenagem póstuma a Richard Wilhelm em O Segredo da Flor de Ouro (JUNG, 1984, página 14).

Nesse mesmo período, Jung se dedicava ao Livro Vermelho, trazendo à tona o seu próprio embate entre o espírito dessa época e o espírito da profundeza, referindo-se a manifestações do inconsciente em relação à iminente Primeira Guerra Mundial, ao relatar sua visão de outubro de 1913, quando fazia, sozinho, uma viagem de trem:

"Vi um dilúvio gigantesco que encobriu todos os países nórdicos e baixos entre o Mar do Norte e os Alpes. Estendia-se da Inglaterra até a Rússia, das costas do Mar do Norte até quase os Alpes. Eu via as ondas amarelas, os destroços flutuando e a morte de incontáveis milhares." (JUNG, 2016, pág.113).

Neste cenário é pertinente, portanto, considerar a manifestação da guerra não só no inconsciente pessoal como também no coletivo.

Neste contexto, a sociedade artística e erudita discutia o que seria (ou não), "Arte". Artistas evitavam classificar a si mesmos como "artistas", tentando deste modo desvincular a arte do processo criativo, ou seja, separar a Estética do Símbolo.

Independente de movimentos artísticos, que surgiam a cada piscar de olhos, todos convergiam, porém, para o mesmo ponto, a alma da criação, do processo criativo. E o que seria este processo, senão a projeção do inconsciente do artista, de forma sincronística com a realidade da época? O "não sentido" da realidade externa se encontrava com a busca de sentido da alma, ou seja, a busca de significado. O espírito dessa época, em um movimento constante e avassalador, atropelava o espírito da profundeza, criando um conflito coletivo. Em "O Homem e seus Símbolos", Jung explica:

 

"Os artistas, como os alquimistas, provavelmente não se deram conta do fato psicológico que estavam projetando parte de sua psique sobre a matéria ou sobre objetos inanimados. Daí a "misteriosa animação" que se apossa destas coisas e o grande valor que se atribui até mesmo aos detritos. Os artistas projetavam suas próprias trevas, sua sombra terrestre, um conteúdo psíquico que tanto eles quanto sua época haviam perdido e abandonado." (JUNG, 1964, pág. 254).

 

Ou seja, protegendo-se sob a leitura do não sentido, o artista liberta-se da consciência, do racional, alcançando um significado mais profundo, por meio da sincronicidade, à sua manifestação criativa. O nonsense seria, então, essa manifestação mais direta do inconsciente, não apenas de forma individual, mas coletiva.

Deste modo, a sociedade fragmentada está representada nos pedaços de papel colados "ao acaso"; na música que é tocada aleatoriamente, enquanto uma poesia é declamada no Cabaret de Voltaire; ou, quando fragmentos de materiais se unem despretensiosamente, sem um sentido artístico, ressignificando todo um contexto, como no ato de Hans Arp de rasgar seu desenho e deixar os papéis caírem, "aleatoriamente", da mesma forma que as varetas do I Ching.

Apesar da Arte ser vista até então em um sentido apenas estético, começava a ser percebido um significado psicológico. Em outras palavras, aflorou a percepção de que não foi à toa que tal artista pintou tal quadro, e daquela forma.

O acaso produz significado, assim como o próprio ato de juntar coisas aleatórias e considerá-las sem sentido. E o não sentido pelo não sentido busca incessantemente um significado, mesmo o de não ter sentido.

E, em que momento se vive hoje, senão uma repetição de um padrão, que surge quando o conflito entre essas duas "entidades" - o espírito dessa época e o espírito da profundeza - passa a dominar a sociedade?

O mictório de Duchamps se repete no estudante que defeca na fotografia de um "anticristo" (segundo sua própria definição); e a exposição de um corpo nu a crianças, gera tanta polêmica quanto o bigode na tela da Monalisa, deste mesmo artista. O grotesco sem nexo na poesia de Tzara se reproduz nas letras de musicas populares e em gritos de adversários ideológicos.

O espírito dessa época desafia e ao mesmo tempo se une ao espírito da profundeza mais uma vez, rasgando conceitos pré-estabelecidos em mil pedacinhos, para que os mesmos se reorganizem na busca de um novo significado, em uma nova síntese.

Ana Paula Vianna Weyting Calabria, Advogada, Analista Junguiana em Formação, pelo IJEP

Contato: 21 983512626 / anawcalabria@gmail.com - Copacabana - Barra da Tijuca e Recreio / RJ

Figura - colagem de Hannah Höch, 1919

Site: http://artecomceliaferrer.blogspot.com/2010/06/o-que-significa-isso.html

ARGAN, Giulio. Arte Moderna. Trad. Frederico Carotti São Paulo, Companhia das Letras, 1998;  

JUNG, Carl Gustav. O Homem e seus Símbolos. Trad. Maria Lucia Pinho. Rio de Janeiro, 4ª ed. Nova Fronteira, 1964;

________________. O Livro Vermelho Liber Novus. Trad. Edgard Orth, Petrópolis, 2016;

JUNG, Carl Gustav, Whilhelm R. O Segredo da Flor de Ouro. Um livro de vida chinês. Trad. Dora Ferreira da Silva e Maria Luiza Appy. 2ª ed. Petrópolis, Vozes, 1984;

JUNG, Carl Gustav. Seminários sobre Análise dos Sonhos. Trad. Caio Liudvik. 10ª ed. Petrópolis, Vozes, 2014;

________________. Sincronicidade 8/2. Trad. Pe. Dom Mateus Ramalho Rocha, OSB. Petrópolis, Vozes, 1984.


Ana Paula Vianna Weyting Calabria - 16/06/2019