ARTETERAPIA - COMO USAR?

Arteterapia - Como Usar? Psicologia Junguiana Psicossomática Arteterapia

Uma das indagações mais frequentes dos que se interessam pela arteterapia é saber como usar cada material nas situações terapêuticas, ou mais especificamente, se haveria uma lista de atividades previamente estabelecidas para realizar com cada paciente. Para que isso fosse possível seria necessário termos estabelecido um conjunto de significados definidos a priori para os materiais disponibilizados no setting, e de preferência, uma espécie de ordem sequencial como eles deveriam ser utilizados em diferentes contextos e fases do processo.

Entretanto, creio que se tivéssemos que estabelecer tais regras, a mais básica de todas seria justamente evitar a criação de regras, e seguir uma premissa apenas, qual seja, a de enveredar pelos caminhos expressivos mais lúdicos para o paciente, e por que não dizer também para o terapeuta! Ou dito de modo mais teórico, um bom critério a seguir seria perceber o interesse do paciente em relação aos materiais e atividades que mais facilmente pudessem ser aceitos pela sua "função principal". E ao anunciar a possibilidade de recorrer a aspectos ligados à tipologia junguiana para se pensar como proceder a utilização dos materiais e atividades em diferentes contextos da arteterapia, não estou propondo uma prática regida pelos tipos como se fossem diagnósticos fixos a serem seguidos rigidamente. Estou simplesmente propondo que o terapeuta siga os movimentos mais "naturais" orientados pela função principal do paciente quando tiver que fazer essa escolha. Afinal, a pesquisa dos elementos materiais em seus aspectos concretos e simbólicos é tarefa fundamental no percurso de todo arteterapeuta, e jamais se esgota, pois considerando a infinidade de recursos que podem fazer parte de sua prática, essa busca nunca chega ao fim. Pesquisa que, evidentemente, para ser melhor elaborada, deve se desdobrar em seu próprio processo arteterapêutico.

Na tentativa de sistematizar o uso de materiais na arteterapia, alguns autores buscaram elencar indicadores para nortear a intervenção a partir do agrupamento de atividades em torno de uma caracteristica central, e que tivessem algo em comum, como por exemplo, a pintura e as diferentes formas de desenho. Entretanto, a ideia de que haveria uma série de indicações prévias como uma receita a ser seguida contraria qualquer princípio criativo e subjetivo da arteterapia, seja do paciente, seja do próprio terapeuta. Afinal, todo processo terapêutico tem sua idiossincrasia, sendo impossível seguir passos estabelecidos de modo universal. Portanto, ainda que muitos autores se preocupem em definir métodos e técnicas, o fato é que eles devem ser tomados no máximo como princípios norteadores de uma praxis que ainda se encontra em desenvolvimento, conforme discuti em artigo publicado recentemente.

Nessa busca por princípios norteadores, algumas vertentes de arteterapia tomarão como ponto fundamental uma espécie de regra oposicional para definir a atividade, especialmente quando o paciente se mostra resistente a lidar com determinado tipo de material. Por exemplo, se o paciente é muito racional precisaria ser estimulado sensorialmente para equilibrar esta unilateralidade predominante na consciência. Ou, ainda, se um paciente encontra-se deprimido, seria necessário "iluminar" os aspectos mórbidos e escuros da personalidade com o uso de cores quentes e vibrantes.

Os argumentos que embasam tais práticas mostram-se reféns de certo literalismo com normas simplistas que universalizariam uma prática para a qual, necessariamente, há que se ter uma visão mais complexa, tanto das teorias de personalidade, como das bases psicodinâmicas de um processo terapêutico. É possível perceber que tal "método" denuncia uma ideologia que norteia a noção de cura do terapeuta, neste caso, muito diretamente orientada por ideais da pedagogia, da medicina enfim, da cultura contemporânea, que busca extirpar o sintoma antes de entender suas ramificações inconscientes e seus significados para a personalidade como um todo. Pelo viés pedagógico, temos uma prática norteada pelo desejo de "corrigir" o que estaria indo mal ou que estaria "errado" na personalidade do paciente. Pelo viés medico, o material é usado como se fosse um "comprimido" vindo de fora para dentro, ministrado pelo terapeuta como possuidor de um suposto saber. Desnecessário dizer que tais terapeutas precisariam lidar melhor com a própria sombra, de preferência lendo "O abuso do poder na psicoterapia", de  A. G. Craig.

Afinal, fazer propostas expressivas que geram pressão exagerada sobre o ego do paciente, visando exclusivamente sua adaptação externa, e desrespeitando seu ritmo anímico, sabidamente, tem efeito terapêutico questionável, embora tais atividades possam desencadear forte catarse. Mas a liberação de afetos reprimidos, apenas, não desata os nós das construções psicopatológicas, pois, como já alertou Jung, isso só ocorre com o aprofundamento dos significados ocultos que não são aceitos pelo ego, unilateralmente identificado com ideias e ideais que restringem a visão de mundo, e, consequentemente, a vida do indivíduo.

O que métodos universais que visam direcionar o uso de recursos expressivos na clínica não abarcam é que além da consideração para com os materiais e atividades em si disponibilizados num setting arteterapêutico, há que se considerar que tais elementos concretos passam a fazer parte de um campo transferencial do qual participam junto com o paciente e o terapeuta. Esse campo, problematizado com base nas imagens simbólicas da alquimia por Jung, foi ampliado pelo analista e professor junguiano Álvaro Gouveia, no livro "A tridimensionalidade da relação analítica"; e, também, por mim ao argumentar a favor da inclusão da materialidade dos objetos na clínica junguiana não apenas como telas em branco que serviriam para receber a projeção de conteúdos inconscientes, e sim como parceiros ativos na produção de sentidos psicológicos ao longo do processo terapêutico.

Podemos dizer que qualquer elemento concreto que passa a fazer parte desse campo transferencial enreda-se numa teia de significados que ultrapassam qualquer sentido universal estabelecido previamente, pois passa a participar do setting como um terceiro elemento com vida própria, que ativa em níveis concretos e simbólicos a construção dos sentidos ao longo do processo arteterapêutico. Com isso, qualquer significado geral, inicialmente atribuído a determinado material, pode ser subvertido pelos parâmetros simbólicos particulares do indíviduo. Tais parâmetros se relacionam em níveis conscientes e inconscientes, simultaneamente, na criação de imagens e/ou objetos, conforme o diagrama proposto por Jung no livro "A psicologia da transferência", para o campo transferencial da psicoterapia.

E o que amplifica ainda mais a complexidade desse processo de ressignificação dos objetos no setting é que na arteterapia o campo dialético composto pela relação terapeuta-paciente sofre "atravessamentos" relacionados diretamente aos significados que a materialidade dos objetos carregam em si mesmos, ampliando a rede transferencial para além de dois parceiros, já que agora se trata de pelo menos três ou mais participantes ativos no setting: o paciente, o terapeuta, o elemento material, o objeto criado, as imagens para as quais esse objeto aponta, entre outros.

Outra premissa muito simples e talvez até mesmo óbvia é que todo arteterapeuta precisa desenvolver uma sensibilidade estética, e, também, ética. E se  enfatizo essa questão é porque no mundo contemporâneo curiosamente temos dificuldade em admitir a importância das coisas simples, por mais óbvias que pareçam! Um terapeuta esteticamente sensível torna-se ao mesmo tempo capaz de sensibilizar no paciente fantasias e imagens que poderão ser plasmadas pelos objetos. Ele não define nada a priori, e sua atitude ética presentifica no paciente uma abertura para sentir, intuir, enfim, deixar-se seduzir pelos materiais que estão ali no setting prontos a participarem de uma conexão com fantasias inconscientes, por meio das mãos, do corpo e da imaginação. Como disse, não se trata de estabelecer para com os objetos uma relação de análise de conteúdos projetivos, pois isso é muito pouco! E é isso o que a psicologia tem feito ao longo de décadas ao propor ao paciente um desenho, por exemplo. Ele aborda o desenho em geral interpelando o paciente a respeito de sua criação, e, principalmente, tecendo interpretações sobre o desenho, mas não convida o desenho a falar algo, também! Esse terapeuta toma o objeto no sentido mais utilitarista possível. E pouco estimula a si próprio ou ao paciente a se aventurar a "entrar no desenho", por exemplo, aqui reconhecido como alteridade que também tem algo a dizer de um "outro ponto de vista", a saber: de linhas, formas, cores, perspectiva, conjunto. Nesse caso, mais do que estabelecer para com o desenho uma relação puramente analítica, no sentido de separar sua totalidade em partes que serão dissecadas como numa aula de anatomia, o convite é para que se rebaixem as funções racionais do ego e que se inaugure uma relação mais imaginativa, cenográfica e fantasiosa com o desenho como uma totalidade, como se fosse "uma presença que tem algo a dizer".

Inicialmente, essa nova postura, que associo a uma dimensão ética na relação com os materiais e objetos no setting, pode ser considerada muito difícil ou subjetiva, e talvez o seja. Mas, afinal, desde o início não é disso que se trata esse texto? Problematizar o uso de materiais em arteterapia não como mera receita a ser seguida, mas como um campo que privilegia a criação de imagens, formas e significados metafóricos singulares no diálogo com a singularidade dos materiais? Trata-se de reconhecer que as "coisas" tem vida, um pedaço de argila não se comporta no encontro com o corpo, as mãos, a mente e a fantasia do mesmo modo que um pedaço de madeira ou tecido. Assim como as tintas não tocam a mente, o corpo, a alma, enfim, do mesmo modo que os lápis de cores, embora ambos compartilhem o universo das cores. O melhor modo de compreender teoricamente essas diferenças entre a materialidade dos objetos encontra-se na contribuição inestimável do filósofo Gaston Bachelard em seus ensaios sobre a poética dos elementos.

A arteterapia, quando proposta como caminho singular para estimular a individuação do paciente e do terapeuta pelo reconhecimento da alteridade dos objetos, permitiria um aprofundamento que ultrapassa os limites de uma visão terapêutica excessivamente pragmática, capturada pelos ideais de uma cultura normativa e normótica, que se preocupa apenas em estabelecer regras e enquadrar aqueles que as usam em parâmetros orientados por julgamentos de valores polarizados como certo versus errado. Desse modo, e mais uma vez, considero que aqueles que se interessam pela arteterapia precisam se envolver numa pesquisa e estudo profundos não apenas imbuídos de uma razão pragmática preocupada em como usar tintas, suportes e pincéis, mas especialmente sobre a complexidade material e simbólica desse campo terapêutico que requer interesse e disponibilidade para transitar por áreas distintas que estabelecem entre si fortes tensões e desafios, antes de se lançarem numa prática meramente reprodutora de oficinas e vivências regidas por instruções e significados universais ou generalizantes.

Por isso, a proposição do curso de arteterapia do IJEP/FACIS não visa exclusivamente a realização de oficinas, mas também, a fundamentação teórica do estudo da personalidade e da psicoterapia, conforme os princípios da psicologia analítica, para o manejo simbólico aprofundado dos materiais no setting arteterapêutico.

 

Santina Rodrigues de Oliveira - Professora do IJEP

Psicóloga clínica e arteterapeuta. Mestre pelo IPUSP, professora universitária e supervisora clínica. Membro do Grupo Himma e da IAJS (Intl. Association for Jungian Studies). Santina.rodrigues.oliveira@gmail.com

 


Santina Rodrigues de Oliveira - 19/03/2019