AS OBRAS ARTÍSTICAS DE C.G. JUNG

AS OBRAS ARTÍSTICAS DE C.G. JUNG Psicologia Junguiana, Arteterapia

Muito se conhece, se estuda e se difunde sobre as obras de C.G. Jung. Mas foi somente após a publicação do Livro Vermelho em 2009, que o público pôde descobrir e apreciar Jung de uma nova forma: como um artista. Nesse artigo me dedico a amplificar a relação dessas obras com as diferentes etapas de sua vida.

Segundo Ulrich Hoerni (2019), muitas das ilustrações de Jung permaneceram anônimas e desconhecidas para o público em geral, sendo publicadas sob a autoria de “um homem de meia-idade”, ou “um homem moderno” (HOERNI, 2019, pág. 12), pois o próprio Jung não queria ser reconhecido e somente com a publicação do livro Memórias, sonhos, reflexões (JUNG, 2016), é que se tornou pública sua dedicação à criação plástica. Até a data de sua morte em 1961, nenhum trabalho visual havia sido publicado em seu nome. Poucos trabalhos estavam assinados por ele, e localizar e inventariar as suas obras foi um trabalho difícil. Coube à Fundação de Obras de C.G. Jung assumir tal desafio, e sua compilação deu origem ao recém-publicado livro A Arte de C. G. Jung, publicado pela editora Vozes em 2019, o qual foi a inspiração para a elaboração deste artigo. Apreciar tal coletânea representou para mim uma imersão em um estado de contemplação, reflexão e admiração que compartilho com o leitor.

Diante das significativas obras visuais de Jung, pode-se questionar como ele adquiriu expertise em tantas técnicas diferentes. Um acontecimento inusitado ocorreu quando ainda nos anos escolares na Basiléia foi dispensado das aulas de desenho, supostamente pela sua “falta de habilidade”:

 

A isso se acrescentou a minha total inaptidão para o desenho, que determinou minha exclusão dessas aulas (...) O curioso é que eu tinha uma certa habilidade espontânea para o desenho, quando este dependia essencialmente do meu sentimento, circunstância que desconhecia nessa época. Sabia desenhar apenas o que ocupava a minha imaginação. (JUNG, 2016, p. 49)

 

Sem indícios de familiares artistas que pudessem tê-lo inspirado, sabemos que Jung se dedicava a uma extensa pesquisa visual e artística visitando museus em suas viagens pela Europa; além de ser um colecionador de artes e, também, conviver com diversos artistas, inclusive da Bauhaus, Paul Klee, etc. Vale lembrar que ele teve aulas de artes na Escola de Belas Artes de Paris no período em que lá esteve para fazer um estágio com o neurologista Pierre Janet.  

Além do lápis, pena e aquarela, percebe-se em sua produção uma preferência às técnicas mais lentas e elaboradas em suas criações, com tendências meditativas como por exemplo, construir grandes iluminuras a partir de pequenas células, “centenas e até milhares de células que necessitou de concentração, disciplina e constante adaptação à forma do campo ao redor” (HOERNI, 2019, p. 225).

A arte sempre foi companhia para Jung, sendo que seu interesse estava mais no aspecto simbólico e arquetípico do que no aspecto estilístico das obras. Ele acreditava que a obra de arte seria uma manifestação inconsciente de uma pessoa ou cultura que refletiria assim a psique coletiva. Em sua famosa biblioteca, encontravam-se diversos exemplares sobre a história da arte, e seu acervo pessoal incluía objetos, pinturas, artesanato, esculturas, que contribuíram para seus estudos artísticos.

Sua interpretação sobre a arte moderna acabou sendo assunto polêmico. Com anos de experiência empregando a arte de forma terapêutica com seus pacientes, Jung não considerava a arte moderna independente dos aspectos simbólicos e psicológicos, e afirmava que algumas obras da arte moderna como as de Picasso, por exemplo, lembravam quadros de pacientes que sugeriam tendências esquizofrênicas. Tais opiniões acabaram gerando críticas e polêmicas sobre seu ponto de vista.   

Como talvez você não saiba, é muito difícil para mim, como psicólogo e ser humano, encontrar alguma conexão com a nova arte. Na medida em que os sentimentos parecem ser um veículo especialmente inadequado para julgar essa arte, pode-se evocar a razão ou a intuição para encontrar algum tipo de acesso. [...I Essas estranhas mensagens se encaixam em nossos tempos, caracterizados pela cultura de massa e pela extinção do indivíduo. Nesse aspecto, nossa arte parece desempenhar um importante papel, qual seja, o de uma compensação para um déficit vital e antecipação da solidão da própria humanidade. A questão que me ocorre com insistência, quando observo quadros de arte moderna, é sempre a mesma: o que [o artista] não pode dizer? (JUNG apud HOERNI, 2019, p. 30)

 

Observando sua produção visual, podemos perceber uma íntima relação entre as peças produzidas e sua obra psicológica, assim como à sua vida profissional e privada, espelhando-se nas diferentes técnicas usadas e fases temáticas ao longo de sua vida.

Embora o acervo de sua autoria seja extenso, pretendo a partir de agora relacionar as diferentes fases de sua produção artística apresentada no livro A arte de C.G. Jung, com destaque para os temas mais relevantes, e sempre que possível, fazer um paralelo com os acontecimentos de sua vida, em termos aproximados.

Dos 10 aos 20 anos (1885 a 1895), Jung era estudante no ginásio da Basileia. Durante essa fase, observamos uma recorrência de desenhos de fantasias, feitos em lápis grafite ou pena, com destaque para castelos, cenas de batalhas, etc. Em seu livro, Memórias, sonhos e reflexões, Jung relembra o semestre em que não frequentou o colégio e de como passava o tempo desenhando: “Ora pintava cenas selvagens de guerra, ou velhos castelos que eram atacados e incendiados, ora enchia páginas inteiras de caricaturas” (JUNG, 2014, p. 50). E continua: “Dos oito aos onze anos, desenhava uma infinidade de quadros de batalhas, cercos, bombardeios, combates navais. Depois, enchia um caderno inteiro de borrões de tintas cujas interpretações fantásticas me divertiam.” (JUNG, 2014, p. 39). Tais desenhos de castelos e cidades medievais, datados de 1899, revelam um mundo imaginário fantasioso que Jung assim descreve no livro:

 

Foi num dia tempestuoso, o noroeste encapelava as ondas espumantes do Reno, e eu caminhava ao longo de sua margem, em direção à escola. Subitamente vi, como que vindo do norte, um barco com uma grande vela quadrada subindo o rio sob a tempestade, fato inédito para mim. Um barco a vela no Reno! Minha imaginação levantou voo. E se em lugar desse rio de corrente rápida, um lago cobrisse toda a Alsácia? Haveria então barcos à vela e grandes vapores. Basileia seria um porto digno de nota e moraríamos como que à beira-mar! Não haveria mais ginásio, nem esse longo caminho para a escola; eu seria adulto e organizaria minha vida. Haveria no meio do lago uma colina rochosa ligada à terra firme por uma estreita península, cortada por um canal; sobre este, uma ponte de madeira permitiria atingir o portal flanqueado pelas torres de uma cidadezinha medieval, construída nas encostas. No alto do rochedo ficaria um castelo, com seu torreão e mirante. Seria minha casa: não teria salões ou quaisquer pompas; seus quartos seriam de dimensões modestas, com lambris, e teria também uma biblioteca notável, onde haveria tudo que merecesse ser conhecido. Não faltaria uma coleção de armas e os baluartes seriam munidos de canhões imponentes. Enfim, uma guarnição de cinquenta homens aptos vigiaria o pequeno castelo. A cidadezinha teria algumas centenas de habitantes, seria governada por um prefeito e um conselho de anciãos. Eu seria o árbitro (embora aparecesse raramente nas reuniões), juge de paix e conselheiro. A cidadezinha teria um porto, onde flutuaria um navio de dois mastros munido de algumas pequenas peças de artilharia (JUNG, 2014, p. 94)

 

Dos 20 aos 30 anos (1895 a 1905): Nesse período, Jung inicia e termina seus estudos médicos (1895 a 1990) e mais tarde (1900), começa os estudos de psiquiatria na clínica psiquiátrica Burgholzli em Zurique. Passa o semestre de inverno de 1902/3 estudando/fazendo um estágio em Paris com Dr. Pierre Janet no Hospital Salpétrière, que na época funcionava como hospital psiquiátrico para mulheres.  Ao retornar da França, em 1903, ele se casa com Emma Jung e nesse mesmo ano inicia a pesquisa sobre associação de palavras. No final do mencionado período, em 1905, inicia a pesquisa sobre esquizofrenia.

As produções visuais desta fase retratam a natureza com expressividade de cores. Jung pintava imagens exteriores com aquarela, guache, pastel. Primeiramente, entre 1899 e 1900, encontramos paisagens com montanhas, cores quentes, luminosidades, céus amarelados, pôr-do-sol, campos plantados, pintados em guache e pastel, pinturas estas que coincidem com o final de seus estudos médicos. Ao observar tais imagens, relaciono-as aos elementos fogo e terra. Entretanto em 1900, percebo uma mudança nesta tendência artística: as obras executadas então em pastel nas cores quentes, retratam agora paisagens em outros tons, frios, cinzentos, sombreados ou escuros. A ambiência retratada na maioria das vezes representa o início da noite e percebo a presença do elemento água, seja na recorrência de nuvens, seja nos riachos.

Em sua temporada em Paris, Jung dedica-se à pintura em aquarela. A representação do céu, na maioria das vezes carregado, está presente em quase todas as expressões, e geralmente ocupa um espaço significativo nas obras.

Jung se casa com Emma em 14 de fevereiro de 1903. A viagem de lua de mel durou cerca de 30 dias, e incluiu vários destinos tais como Paris, Londres, Madeira, Gran Canaria, Gibraltar, Barcelona, Genova, entre outros. Tendo nascido e sido criado na Suíça, país sem acesso ao litoral, foi por ocasião desta viagem que pela primeira vez Jung viu o mar. Por esta ocasião, Jung produziu obras com temas marítimos, com a predominância do azul, tanto no céu quanto na água. Em uma delas, representa o mar revolto e o veleiro de dois mastros, mostrando uma futura paixão de Jung que provavelmente estava em vias de despertar: velejar, isso acontece quando ele ganha um veleiro de sua esposa. Após construir sua casa às margens do lago em Zurique, Jung tornou-se um marinheiro apaixonado, embora já navegasse em pequenas embarcações no Reno durante sua infância e adolescência. Nas citadas obras visuais dessa fase, percebemos a ausência de pessoas e de animais. 

Nos anos de 1907 e 1908, quando Jung estava com 32/33 anos, seus trabalhos visuais estão focados na construção de sua casa. Na época, Küsnacht era um pequeno povoado agrícola próximo à cidade de Zurique. As plantas da casa foram elaboradas por um parente arquiteto, Ernst Fiechte, mas todos os esboços desenhados por Jung indicam que tal elaboração foi feita com a sua participação direta. São desenhos das fachadas da casa feitos em lápis grafite, tinta ou lápis de cor. Jung elaborou o frontão da casa e incluiu os seguintes dizeres: “No ano de 1908, Carl Gustav Jung e Emma Rauschenbach, sua esposa, construíram esta casa em um feliz e tranquilo lugar” (HOERNI, 2019, pág. 98). Foi de sua autoria, também, o design do catavento posicionado no alto da torre das escadas.   

Tais expressões acabam por mostrar mais profundamente o interesse de Jung pela arquitetura, interesse este que podemos relacionar com os desenhos das cidades e castelos realizados desde a adolescência, e que teve seu apogeu na construção da Torre de Bollingen. 

Durante o período (1905 a 1915), nascem 3 dos 5 filhos de Jung e Emma. Nesse período, ele inicia a prática clínica privada em sua casa (1909), e seus intensos estudos de mitologia (1909). Realiza, também, viagens para conferências em vários países europeus e nos Estados Unidos (1909). É, então, nomeado presidente da associação internacional de psicanálise (1910-1914) por Sigmund Freud com quem rompe em 1913. Entre os anos de 1914 e 1919, durante a Primeira Guerra Mundial, ele serviu como oficial médico por períodos anuais em várias cidades na Suíça.  

Fora os desenhos mencionados dedicados à própria casa (1907 a 1908), no período de 1905 a 1915, não se tem registro de outras produções visuais de Jung. Acredita-se que a falta de tais expressões se devesse ao fato de que sua ocupação profissional como psiquiatra não lhe permitia tempo para continuar se dedicando à prática artística.  

Além disso, sabemos que após a ruptura com Freud (1913), Jung inicia um período de incertezas e desorientação emocional. Tem início seu autoexperimento descrito por ele no livro Sonhos, Memórias e Reflexões (1961)  como um “Confronto com o inconsciente”, que resultaria na produção do Liber Novus – O Livro Vermelho (2009). Lançado muitos anos depois de sua morte, esse livro possibilitou ao público descobrir e apreciar Jung como um artista. O ano de 1913 é apenas o marco do início de um processo que duraria anos:

Os anos durante os quais me detive nessas imagens interiores constituíram a época mais importante da minha vida e neles todas as coisas essenciais se decidiram. Foi então que tudo teve início e os detalhes posteriores foram apenas complementos e elucidações. Toda minha atividade ulterior consistiu em elaborar o que jorrava do inconsciente naqueles anos e que inicialmente me inundara: era a matéria-prima para a obra de uma vida inteira. (JUNG, 2014, p. 204)

 

Dos 38 aos 53 anos (1913 – 1928), Jung registra seu autoexperimento no Livro Vermelho, que foi elaborado entre 1913 e 1928. Hoerni, no prefácio do livro (2009, p. IX) afirma que um historiador de psicologia seria capaz de apresentá-lo como um documento histórico, e escreve no mesmo prefácio que Jung afirma ter tirado todo o material das obras que escreveu posteriormente a partir de seu confronto com o inconsciente. A obra foi escrita em meio a um cenário social em transformação, pós-revolução industrial, onde a Europa se encontrava dominada pela crença absoluta no progresso da ciência, mas Jung sentia que era necessário um movimento além da razão.

Se antes as produções costumavam retratar imagens externas de paisagens e da natureza, esse período se caracteriza pela produção de imagens interiores e subjetivas, amplamente retratadas no Livro Vermelho. Nele, encontramos a produção de muitas pinturas em pergaminho, mas, além das imagens do livro, Jung fez várias pinturas em papel, e, também, esculturas, que, de uma certa forma, o complementam.

Neste momento, Jung sentia que não estava vivenciando o seu mito pessoal e que de certa forma, havia “perdido sua alma”, pois “Depois da ruptura com Freud, começou para mim um período de incerteza interior e, mais que isso, de desorientação. Eu me sentia flutuando pois ainda não encontrara minha própria posição (JUNG, 2014, p. 177).  Através de seus sonhos, intuía que deveria trazer vida a algo que aparentemente estaria morto, e muitas vezes suspeitava estar sofrendo de perturbações psíquicas.

Os sonhos de então impressionavam-me muito, mas não me ajudavam a superar o sentimento de perplexidade que se apoderava de mim. Pelo contrário, eu vivia como que sob o domínio de uma pressão interna. Às vezes esta era tão forte que cheguei a supor que havia em mim alguma perturbação psíquica. (JUNG, 2014, p. 179)

 

O Livro Vermelho é uma obra psicológica de linguagem literária e poética, e, também, de cunho imaginal, que nos convoca à uma conexão com os símbolos. Através da imaginação ativa, Jung mergulhava na fantasia e dialogava com o que aparecia em sua fantasia. Tais imagens muitas vezes eram incapazes de expressar o conteúdo acessado e por isso ele as pintava, desenhava ou esculpia, complementando sua síntese e compreensão através da expressão artística.  O livro contém cinquenta e quatro imagens em tamanho grande, incluindo mandalas, que contam sua própria história e descrevem como Jung recuperou seu equilíbrio emocional. 

Jung trabalhou no livro por volta de dezesseis anos, quando em 1928, ao receber o texto do livro O Segredo da Flor de Ouro, um tratado alquímico traduzido por Richard Wilhelm, ele interrompe seu trabalho com o Livro Vermelho para dedicar seus estudos à alquimia. Mais tarde, em 1959, retorna a ele para finalizar um último quadro que havia ficado incompleto desde 1928. Uma imagem que, segundo ele, tinha a ver com a morte, onde vemos uma multidão em volta de uma flor, à semelhança de um mandala, que irradia feixes coloridos. Algumas destas pessoas olham diretamente para a mandala, enquanto outros fecham os olhos ou olham na direção contrária à luz. Na borda direita e superior, há crânios. Infelizmente, tal imagem (ver o Livro Vermelho, pág. 169) ficou sem ser finalizada até sua morte, em 1961.

Jung estava confuso e refletia criticamente consigo mesmo que o que vinha fazendo poderia não ser considerado científico. Dialogando, então, com uma voz feminina interior, acabou criando um conceito:

Redigindo as anotações a respeito de minhas fantasias, certo dia perguntei a mim mesmo: “Mas afinal o que estou fazendo? Certamente tudo isso nada tem a ver com ciência. Então do que se trata?” Uma voz disse em mim: “O que fazes é arte”. (JUNG, 2014, p. 179). 

 

Concluiu que a voz interior provinha de sua parte feminina inconsciente e a denominou usando o termo latino anima, ou alma. Sobre a expressão de sua anima, Jung confeccionou várias obras de forma visual artística: estatuetas esculpidas em madeira de figuras femininas (1920), desenho feito com grafite em papel da mulher com véu, que também foi retratada no Livro Vermelho (p. 155), e os dois aspectos da anima contidas em uma das mandalas no mesmo livro (p.105).

Deste período também são as ilustrações do Systema mundi totius e as várias representações do Monstro Demoníaco em diferentes versões, executadas em esculturas em madeira e em uma pequena escultura em formato de talismã, sendo que algumas destas representações foram incluídas no Livro Vermelho. Outro tema recorrente aparecia nas representações do Fanes, a divindade primogênita da Criação, nascida do ovo cósmico. Além desses motivos, ele trazia para suas obras visuais os motivos da serpente, da estrela e dos cabiros. As mandalas serão mencionadas em mais detalhes adiante. 

Em 1919, Jung contraiu a gripe espanhola. Na ocasião, sentindo que “perdia as rédeas da vida” (HOERNI, FISCHER, KAUFMANN, 2019, p. 139), ele pintou algumas imagens que retratavam uma série de sonhos ou visões com uma forma circular, que associou simbolicamente à completude e ao arquétipo Self. No primeiro sonho, Jung se encontrava em um pequeno barco em um mar revolto. No barco, ele encontrava uma esfera e deveria protegê-la. O barco chega a uma ilha vulcânica estéril, onde nada crescia. Jung retrata este sonho com a imagem do barco navegando em um mar escuro e turbulento, sua vela é representada em cores fortes e a esfera proporcionalmente grande no interior do barco.

Mais tarde, quando já se encontrava no processo de cura, teve outro sonho e retratou a esfera em um lindo céu noturno sobre uma ilha entre duas árvores: a esfera estava flutuando, indicando que a terra agora estava fértil. Ele retrata o sonho com as duas imagens citadas, com cores fortes e escuras. A quarta visão da esfera também é retratada em uma pintura: uma barraca armada em um porto e dentro dela, a imagem da esfera. Esta imagem do porto se “materializa” em sua chegada ao Porto de Sousse, na Tunísia, alguns poucos meses depois. O tema da esfera aparece em outras ilustrações de Jung, mas somente estas quatro imagens estariam ligadas às suas visões nas ocasiões aqui apresentadas.

Ainda neste período, Jung criou uma série de esculturas em madeira. Entre elas a estrela para o túmulo de seu cão, o Gnomo; e as representações do Atmavictu, uma criatura ctônica que crescia do chão. Variações dele aparecem também em pinturas do Livro Vermelho. Somente mais tarde, Jung se dá conta que esta representação estava associada à uma representação feita na infância, quando aos 10 anos de idade havia talhado um “homenzinho de cerca de seis centímetros de comprimento, de fraque, cartola e sapatos lustrosos” (JUNG, 2014, p. 42); lembra que o guardou em um “leito” em seu estojo, juntamente com um seixo do Reno. Por muito anos este era o seu segredo íntimo, guardado no sótão, como ele nos conta.

 

Em 1920, na Inglaterra, talhei duas figuras semelhantes num ramo delgado, sem me lembrar de modo algum do acontecimento da minha infância. Mandei reproduzir uma delas em pedra, num tamanho maior. Essa figura encontra-se em meu jardim de Küsnacht. Somente então o inconsciente me sugeriu um nome para ela: Atmavictu: breath of life (sopro de vida). É um desenvolvimento mais amplo daquele objeto quase sexual da minha infância, sublinhado porém como breath of life, como impulso criador. (JUNG, 2014, p. 44)

 

Entre 1923 e 1956 (48 aos 81 anos) temos os seguintes eventos: em 1922, Jung adquire um terreno à beira do Lago superior de Zurique, passando, então, a dedicar-se à construção e decoração de sua Torre: A Torre de Bollingen.

Trabalhando muito consegui, aos poucos, apoiar em terra firme minhas fantasias e os conteúdos do inconsciente. As palavras e os escritos não eram bastante reais para mim; era preciso outra coisa. Necessitava representar meus pensamentos mais íntimos e meu saber na pedra, nela inscrevendo, de algum modo, uma profissão de fé. Foi assim que comecei a construir a torre de Bollingen. (JUNG, 2014, p. 225)

 

Inicialmente, ele pensou em fazer uma cabana circular, inspirado nas moradias de antigos povos com a lareira central, que seria uma espécie de refúgio e abrigo físico e psíquico, mas sua torre era dinâmica e à medida que o tempo passava, seu projeto inicial era cada vez mais elaborado. O projeto inicial era uma torre circular, que ficou pronta em 1923. Mais tarde, a torre recebeu uma parte central e um anexo também em formato de torre, que ficou pronto em 1927. A esta estrutura, foi acrescentada uma outra torre e um pátio, sendo concluídos em 1935. E, finalmente, após a morte de Emma, o formato definitivo ficou pronto em 1955. Até o final de sua vida, com a torre pronta em todas as fases, Jung ainda desejava manter um lugar “modesto”, e teve a intenção de deixá-lo sem energia elétrica e sem água corrente.

Depois da morte de minha mulher, em 1955, senti a obrigação interior de tornar-me tal como sou. Na linguagem da casa de Bollingen: descobri de repente que a parte central da construção, até então muito baixa e presa entre as duas torres, me representava, ou mais precisamente, representava meu próprio eu. Elevei-a, então, acrescentando-lhe mais um andar. (...) Assim, um ano após a morte de minha mulher, o conjunto estava completo. A construção da primeira torre começara em 1923, dois meses após a morte de minha mãe. Essas datas são cheias de sentido porque - como veremos - a torre está ligada aos mortos. (JUNG, 2014, p. 226)

 

Em 1950, por ocasião de uma das expansões da torre, Jung encomendou ao fornecedor local umas pedras que, inicialmente, teriam a função de separar o jardim. As medidas das pedras foram tomadas com cuidado, mas, na entrega, chegou uma pedra completamente fora dos padrões encomendados: ao invés de uma pedra triangular, trouxeram uma pedra bem maior, em formato de cubo. Ao vê-la, Jung percebeu que aquela seria a pedra perfeita e não deixou que a levassem de volta: “É a minha pedra, eu preciso dela” (JUNG, 2014, p. 228). Nela, talhou dizeres em latim e grego sobre alquimia, além da figura de Telésforo (filho de Asclépio, que simboliza a melhora da doença). A primeira face a ser esculpida foi a norte e trazia os seguintes dizeres: “Eis a pedra, de humilde aparência, de preço tão baixo! Quanto mais desprezada pelos tolos, mais amada pelos sábios. Tais palavras se referem à pedra do alquimista, o lápis, que é desprezado e rejeitado.” (JUNG, 2014, p. 228)

Além da Torre de Bollingen, Jung se dedicou à construção e esculturas em pedra produzindo uma coleção significativa. Entre elas, destacamos o Castelinho feito em pedra natural, cimento e blocos de construção. Tal representação tinha uma conexão com o seu compromisso com o inconsciente, quando, a partir de 1913 relembrava de forma regular sua infância quando costumava brincar de construção. Já adulto, dedicava suas tardes ao “brinquedo” de construção, indo à beira do lago todas as tardes e lidando com as pedras à beira do lago.

Em 1956 faz dois memoriais em pedra: um em arenito, dedicado à Toni Wolf, sua assistente particular, por ocasião de sua morte, e o segundo, um memorial para Emma. O túmulo da família Jung foi idealizado por ele e mais tarde executado pelo seu filho, Franz Jung-Merker, que era arquiteto.  

Em seu trabalho visual, o motivo do mandala é um dos mais retratados, especialmente no Livro Vermelho. O significado da palavra Mandala seria círculo, mas o seu simbolismo, segundo Jung, vai muito além disto, já que segundo ele, representa a totalidade. Em “Simbolismo do Mandala”, Jung elabora: 

Seu tema básico é o pressentimento de um centro da personalidade, por assim dizer um lugar central no interior da alma, com o qual tudo se relaciona e que ordena todas as coisas, representando ao mesmo tempo uma fonte de energia. A energia do ponto central manifesta-se na compulsão e ímpeto irresistíveis de tornar-se o que se é (...). Este centro não é pensado como sendo o eu, mas se assim se pode dizer, como o si-mesmo. Embora o centro represente, por um lado, um ponto mais interior, a ele pertence também, por outro lado, uma periferia ou área circundante, que contém tudo quanto pertence ao si-mesmo, isto é, os pares de opostos que constituem o todo da personalidade. (JUNG, 2016, § 635)

 

As obras visuais de Jung são numerosas e encantadoras. Ter acesso a tal acervo, seja no Livro Vermelho, ou no livro A Arte de C.G. Jung, é, sem dúvida, uma grande oportunidade de conhecer melhor sobre a pessoa de Jung, sua vida e seus conceitos psicológicos, materializados também em obras de arte.

Espero com este artigo ter dado a oportunidade ao leitor de conhecer um pouco mais sobre o tema. Recorremos aqui à uma elaboração teórica por meio da função pensamento, embora somente através da função sensação e sentimento, visualizando tais obras, a mensagem poderá ser compreendida de modo mais sensível e completo, despertando, assim, a função intuição!

 

Erika Mendel – Membro Analista em Formação pelo IJEP

Analista Didata – Santina Rodrigues Oliveira

 

Referências:

HOERNI, U.; FISCHER, T.; KAUFMANN, B. A Arte de C.G. Jung. Tradução Caio Liudvik.  Petrópolis: Vozes, 2019.

JUNG, C.G. Memórias, sonhos, reflexões. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2016.

________. A Arte de C.G. Jung. Petrópolis, Vozes, 2019

________, O Livro Vermelho. Petrópolis, Vozes, 2010.

________ Os Arquétipos e o inconsciente coletivo. Volume IX/1, Petrópolis, Vozes, 2016


Erika Mendel - 20/10/2021