AS TORRES DE BOLLINGEN: REFLEXÕES SOBRE O RECOLHIMENTO

As Torres de Bollingen: reflexões sobre o recolhimento Psicologia Junguiana

“ Palavras, palavras, falas demais!

Cala-te e escuta:

Reconheceste tua loucura, e tu a admites?

Viste que abrigas a loucura?

Viste que todas as profundezas estão cheias de loucura?”

(JUNG, Livros Negros, Vol. 4, p. 211)

                                                                             

Em uma entrevista concedida a analista Suzanne Wagner, do Instituto C. G. Jung de Los Angeles em 1977 e publicada no Brasil no ano passado, Marie-Louise von Franz, em sua Torre em Bollingen, fala da insistência, bem como do apoio de Jung para que ela também construísse o seu lugar.

Não sem alguma resistência, pois queria fazer esse empreendimento apenas mais tarde, ela acabou acatando a orientação de Jung: “Não, faça-o agora!”.  Diz von Franz:

“Bem, ele salvou toda a situação, porque um ano mais tarde, depois que construí a Torre, as áreas de construção foram delimitadas e meu terreno não faz parte delas. Nesse caso, se tivesse esperado um ano, eu não poderia construí-la, e esta Torre nunca existiria. Foi a intuição de Jung, sua intuição parapsicológica. Ele não sabia racionalmente, mas deve ter sentido: Faça já!” (Von Franz, 2020, p. 29-30).

E continua:

“Depois que Jung me convenceu a comprar esta terra, ele me disse, durante o retorno no seu carro: Mas não construa uma casa de férias estúpida feita de cimento e vidros. A senhora tem que construir uma Torre também. Isso me deixou muito feliz. Eu jamais ousaria imitá-lo, fazendo também uma Torre. Desta forma, construí uma torre quadrada. A dele é redonda (Von Franz, 2020, p. 96).

Inspirada nas ideias do I Ching, onde o Céu, o masculino, é redondo, e a Terra é quadrada, Von Franz decide construir sua Torre quadrada:

“No I Ching, a forma redonda do Céu é o princípio dinâmico do Yang, o Criativo, e o princípio do Yin, o feminino, é que torna as coisas reais. De fato, você tem principalmente linhas retas e cantos. Então, é por isso que os chineses pensam que o quadrado é o símbolo da realidade e da Terra, porque o feminino ajuda o criativo a entrar na realidade, ou a encarnar na realidade” (Von Franz, 2020, p. 30).

Evidencia-se aqui a ideia de que a construção desta torre, tem uma forte carga simbólica, materializada e concretizada na realidade externa. Não se discute aqui arquitetura e estética de forma banal. Tanto para Jung como para Von Franz, construir e habitar esta construção tem um grande significado. Para isto foram despendidos esforços, dinheiro, tempo, planejamento e estudo. Tratava-se de uma “construção especial” com um propósito mais especial ainda.

A construção de uma torre nos remete quase que instantaneamente, a Torre de Babel, que em acadiano significa porta de Deus ou porta dos Céus que tem como objetivo restabelecer por artifício o eixo primordial rompido e por ele alcançar até a morada dos Deuses. Na China, a Torre das felizes Influências (construída por Wen-wang), servia para observar o céu e sobretudo para receber as suas influências. Na tradição cristã as torres são símbolos de vigilância e ascensão. Nas litanias da Virgem (na oração da Salve Rainha) encontramos Turris Davidica (Torre de Davi) e Turris Eburnea (Torre de Marfim). Na Idade Média, a relação é com degraus e os andares da torre, marcando cada etapa no processo de ascensão. Na mitologia, a Torre de Bronze onde se encontrava Dânae recebeu a chuva de ouro fecundante de Zeus. Na alquimia o atanor assume a forma de torre para significar que as transmutações procuradas nas operações acontecem no sentido de uma elevação: do chumbo ao ouro, e, no sentido simbólico do peso carnal à pura espiritualização ( CHEVALIER, 2015).

Não faltam simbolismos ligados ao motivo da torre e sua relação com o processo de desenvolvimento pessoal rumo a uma individuação. Sabedor destes e de outros significados, Jung se lança na construção da sua Torre e influencia sua colaboradora mais próxima a construir o seu lugar sagrado de contato com céus, de entrega ao inconsciente e de encontro com o SELF. Por extensão, parece fazer a mesma convocação a todos aqueles que se aventuram e se empenham em fazer um processo radical e profundo de conhecimento de si mesmo.

Construir para si uma torre, mais que uma construção material, pode ser entendida como uma “atitude na vida”. Para receber dos céus suas influências, para restabelecer o eixo Ego-Self, para passar por todos os processos alquímicos rumo à transmutação e elevação é necessário ter uma atitude de RECOLHIMENTO.  Uma atitude de construir, adentrar e recolher-se na Torre. Fazer silêncio externo para ouvir o inconsciente. Von Franz se refere assim ao estar em sua torre:

“É o único lugar em que posso ir para dentro de mim o suficiente, continuamente o suficiente, sem interrupção. O inconsciente se mostra muito mais” (p.30).

Na alma da palavra “recolhimento” expressam-se dois significados importantes: um mais comum que é “ação de retirar-se” e um outro que é “colheita”. Já está implícito que o recolhimento produz frutos. Que a ação de se recolher, tem como intenção maior, não o isolamento estéril do mundo, a fuga, férias ou entretenimento, mas o mergulho. Mas não é qualquer mergulho, é mergulhar no inconsciente, abandonar-se no vazio, experimentar os sabores, sensações diferentes, abrir-se para novos significados; mergulhar é poder conversar com os monstros, fazer amor com as musas, dançar com os demônios; mergulhar no silêncio, suportá-lo, escutá-lo e deste embate deixar resultar uma nova criação.

É no entrar na Torre e no mergulho, na atitude de recolhimento, de espera e de humilde entrega que será possível o encontro do masculino que fecunda - a criatividade - com o feminino que acolhe e gera e faz acontecer novas possibilidades, novos textos, novas expressões da alma.  Desta forma, o recolhimento produz a colheita.

Porém, mergulhar requer resistência, capacidade de prender a respiração, de se aventurar nas águas desconhecidas e se abrir para o vislumbre de um mundo diferente e surpreendente. Esta atitude desperta no ego suas defesas. Ameaçado, logo lança mão de seus mecanismos de controle. Neste sentido é necessário treinar para mergulhar. Cada dia mais um pouco, alargando a capacidade pulmonar, a capacidade de silenciar, de parar e de respirar... A capacidade de escrever no “caderno terapêutico” nossos sonhos, nossas alucinações e delírios, nossas Imaginações Ativas, nossas fantasias passivas...dar ao nosso mundo interno substância, concretude e vida. A “atitude-torre” exige de nós valorizar cada vez mais nosso mundo de dentro. Dar vazão às nossas loucuras.

Entrar na Torre em tempos tão extrovertidos é um ato de coragem. Abrir espaço na agenda para o silêncio, o estudo, a leitura e a escrita tem sido cada vez mais difíceis, num mundo tão barulhento, brilhante e ofuscante. Nas Torres de Jung e de Von Franz não havia luz elétrica, fogão a gás...com certeza também não havia internet, wi-fi, Netflix, whatsapp e tantas outras comodidades e também distrações.

A ideia central era confrontar-se, ouvir-se. Entregar-se ao inconsciente e ao SELF e sair de lá de alguma forma transformados e recarregados. No entanto, a Torre não é a casa. Lá se passava um tempo. Lá se faziam mergulhos profundos, mas a vida acontecia de fato fora de lá, nos consultórios, nas relações familiares e sociais. A vida acontece nas relações, no mundo. Isso faz lembrar a cena em que o Cristo, no alto do Monte Tabor,  se transfigura, mostrando toda a sua glória, juntamente com Moisés e Elias para três seus apóstolos ( Pedro, Tiago e João), entusiasmado Pedro quer erguer tendas e morar lá, não quer mais descer, fascinado pela manifestação divina, mas o Cristo o adverte e convida para descer o monte (Lc 9, 28-36), descer a Torre, pois é  nas cidades,  no pé da montanha, fora da Torre que tudo acontece. É lá na vida, no humano, nas experiências, que os processos se dão e os efeitos da individuação podem ser compartilhados.

                                    Adriano Luiz Pardo – Membro analista em Formação

Foto: Torre de Marie-Louise von Franz. Bollingen – Suíça.

Referências

CHEVALIER, Jean, Dicionário de Símbolos. 28ª edição, Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.

JUNG, Carl G. Os Livros Negros, 1913-1932: cadernos da transformação. Vol. 4, Petrópolis, RJ: Vozes, 2020.

VON FRANZ, Marie-Louise, Entrevistas de Marie-Louise Von Franz; organização de Flora Bojunga. São Paulo: Paulus, 2020. Coleção Amor e Psique.


Adriano Luiz Pardo - 15/05/2021