ASPECTOS E CONDIÇÕES DA MODERNIDADE E DA CONTEMPORANEIDADE

Aspectos e Condições da Modernidade e da Contemporaneidade Psicologia Junguiana Psicossomática Arteterapia

O homem, na visão iluminista, é absolutamente consciente e racional. Por conseguinte, ele rejeita a religião, a cultura dos mitos e as dimensões anímicas do homem.

Outro traço característico da modernidade é o cientificismo, pelo qual se espera que a ciência controle, explique e solucione as questões do mundo moderno.

A lógica cientificista invalida a relação da sociedade com a ordem secular das coisas divinas. Deus não pode mais determinar os princípios que orientam o mundo social e natural. A ciência assume irrestritamente essas atribuições, na modernidade.

Ainda, no capítulo dois, revela-se o desencanto da sociedade contemporânea com a cultura moderna. Verifica-se, nesse contexto, uma reação à hegemonia da Razão, que traz como consequência a tendência ao Irracionalismo contemporâneo.

A estetização também caracteriza a sociedade contemporânea. Ela surge da disposição coletiva para transformar a realidade em imagens. A estética se utiliza dos sentidos e das sensações, que se contrapõem ao racionalismo moderno.

Para abordar tais questões é importante ressaltar que a psicologia analítica busca compreender o ser humano pela sua totalidade, diante da diversidade dos processos psíquicos. O indivíduo deve ser concebido por sua integralidade, que abrange a universalidade dos fenômenos conscientes, inconscientes, racionais, irracionais, objetivos e subjetivos.

Dessa maneira, a psicologia pode suscitar que o papel hegemônico da racionalidade para o sujeito moderno o restringe à sua capacidade de pensar. O  postulado penso, logo existo, limita a existência do indivíduo ao pensamento e, desse modo, ignora as demais qualidades e capacidades do ser humano perceber e lidar como o mundo tangível e intangível.

A fração racional corresponde a restrita parcela da dimensão psíquica. O pensamento e o sentimento, considerados funções racionais, são apenas dois entre os quatros elementos das funções ectopsíquicas, que ainda contam com as funções irracionais –  intuição e o sentimento.

Além das funções ectopsíquicas, existem também as quatros funções endopsíquicas. Desse modo, a razão passa a contar como uma entre o total de oito funções, que permitem o homem relacionar-se com o meio social e os conteúdos do inconsciente.

Desta forma, presume-se que ocorra uma unilaterização psicológica dos indivíduos tipicamente racionalistas. Essa suposição verifica-se ainda pelo fato do sujeito na modernidade negar, categoricamente, a cultura dos mitos, a religião e as dimensões anímicas do homem, que ficam renegadas à sombra coletiva.

Segundo o psicólogo e especialista junguiano Waldemar Magaldi, uma das causas principais para os problemas e perigos enfrentados pela humanidade, fundamenta-se na hipertrofia dos aspectos materiais e racionais. O resultado é uma enorme instabilidade do homem, no momento em que ele subestima seus aspectos espirituais. Estes, são imprescindíveis, e sem os quais, o indivíduo afasta-se conscientemente do sagrado (Cf. MAGALDI, Waldemar,  2009, p. 59).

Segundo a pedagoga, filósofa e especialista junguiana Simone Magaldi, é evidente a dessacralização e destituição de valores numinosos no mundo moderno. A vivência do sagrado como experiência interior, dilui-se e desaparece, seja na relação com a natureza, como nas experiências em templos das religiões institucionalizadas, cujos ritos se tornam mecânicos e automáticos. (Cf. MAGALDI, Simone, 2010, p. 13, p.16, p. 21).

Na perspectiva de Simone Magaldi, vive-se excessivamente a polaridade lógica, enquanto o significado espiritual transcendente fica obscurecido e alienado da vida dos indivíduos (Cf. MAGALDI, Simone, 2010, p. 13, p.16, p. 21).

Enfim, reconhece-se que a emancipação da Razão, cindida das funções complementares da psique, não é capaz de conduzir o sujeito moderno à desejada condição de liberdade. Pelo ponto de vista psicológico, ocorre o efeito contrário, pois a desunião de opostos na consciência provoca, de certa forma, a escravidão do ego aos limites da razão.

A mesma perspectiva de análise estende-se para o entendimento do cientificismo na sociedade moderna. Como uma ciência tipicamente racionalista, consegue abranger as demandas múltiplas da psique? Como ela pode substituir a religião e as questões espirituais que, juntamente com a filosofia, segundo Magaldi, antes se ocupavam com o sentido de vida? (Cf. MAGALDI, Waldemar, 2009, p. 65).

O método científico experimental, de fato, não consegue corresponder à totalidade das demandas psíquicas e, presumidamente, também não oferece as respostas para a felicidade do homem moderno. Porquanto, o indivíduo não dispensa a harmonia entre as diversas possibilidades de experiência psíquica, em qualquer época do desenvolvimento humano.

A finitude do ego requer uma perspectiva de algo maior, que o transcenda e traga significado existencial. O homem precisa sobrepujar os limites da ciência racionalista. Contudo, na modernidade, os indivíduos eximem-se das relações com os contos,  mitos,  ritos e o sagrado, que ajudam a ampliar a perspectiva da consciência (Cf. MAGALDI, Simone, 2010, p. 16).

A respeito do irracionalismo e estetização na contemporaneidade, deduz-se que eles não solucionam a questão da unilateralização psicológica da racionalidade, ainda que eles tenham surgido dos movimentos que negam a instância superior da razão.

A razão, embora não possa corresponder à totalidade das aspirações psicológicas, é fundamental como parte reconhecida e diferenciada do inconsciente. Pela racionalidade, o homem encontra muitas respostas para suas questões, além de conseguir promover grandes desenvolvimentos sociais. Contudo, inibir seus atributos e criar uma unilateralidade irracional na consciência, mantém os indivíduos em desequilíbrio psíquico.

Da mesma maneira, também ocorre o fenômeno de dissociação psíquica quando a sociedade contemporânea excede-se na busca pelas percepções estéticas, por meio da função sensação. Para que a estética possa imperar e se sobrepor na consciência, é preciso reprimir a razão. Por conseguinte, o caráter conflituoso mantem-se mais uma vez.

A questão não está na qualidade das escolhas feitas pela sociedade moderna e contemporânea, que optam tão somente pela racionalidade e irracionalidade, respectivamente. O impasse ocorre quando a sociedade, em ambos períodos, não encontra uma síntese que satisfaça a questão dos opostos na psique.

Excluir, desvalorizar ou reprimir componentes psíquicos, através do ego, para que determinados aspectos ganhem exclusividade e supervalorização na consciência, são condições para o surgimento de neuroses.

Tal perspectiva também serve para as questões mitológicas, oníricas, religiosas, espirituais e anímicas, que foram excluídas da sociedade moderna. A psique tem a necessidade de reconhecer e investir na relação também com esses conteúdos e encontrar o equilíbrio harmônico nas relações desses elementos com a razão.

Sem a devida harmonia psicológica, os fatos psíquicos menosprezados na sociedade moderna, como na contemporânea, tornam-se materiais sombrios. A sombra, em seus aspectos positivos ou aversivos solicita seu espaço na dinâmica psíquica e manifesta-se por meio de projeções sociais.

As condições contemporâneas de angústia, irracionalismo, estetização e a falta de sentido de vida, podem ter sua origem na sombra do homem moderno, que se afasta de seus conteúdos sagrados, anímicos, mitológicos espirituais e religiosos.

Importante ressaltar, ainda, que um cenário hostil promove circunstâncias de relações sociais aversivas. Indivíduos, principalmente em fase de desenvolvimento infantil, quando expostos às relações aversivas dentro do seu contexto familiar ou social, tendem a construir complexos negativos.

Vale lembrar que o complexo constitui-se de ideias ou imagens com acentuada carga emocional, que se acumulam em torno de um arquétipo. Traumas, choques emocionais, como também experiências positivas e transcendentes, corroboram na formação de complexos, que passam a servir como fonte de emoções e comportamentos humanos.

Dessa maneira, a natureza da relação dos indivíduos com seus complexos, influencia a construção do caráter social de uma comunidade. Os conteúdos culturais de uma sociedade são atualizados, perpetuados ou reciclados a partir de comportamentos sociais estabelecidos pela própria sociedade.

O ambiente da atualidade apresenta certamente componentes que abalam estruturas familiares e sociais. Guerras, drogas, violência, como quaisquer outras condições socialmente extremadas, impactam negativamente a formação dos complexos das novas gerações, que de certa forma tendem a reproduzir a atmosfera cultural vigente.

 

Tiago Irineu Luz Teixeira Motta

Membro Analista em formação pelo IJEP

Brasília DF

 

 

Trecho da monografia: Contemporaneidade: Perspectiva da Psicologia Junguiana sobre Identidade Cultural, Consumo e Meios de Comunicação

 

 


Tiago Irineu Luz Teixeira Motta - 25/09/2019