AUTISMO E A MÃE DO AUTISTA: MUITO ALÉM DO COMPLEXO

Autismo e a mãe do autista: muito além do complexo autismo

Os transtornos do espectro autista (TEA) são complexos transtornos neurodesenvolvimentais da função cerebral acompanhados de déficits nos comportamentos intelectual e social. Os TEAs incluem transtorno autista, síndrome de Asperger e Transtorno invasivo do desenvolvimento inespecífico, que são incapacidades que variam de leve a grave. O TEA é tipicamente descoberto na fase da infância, principalmente dos 24 aos 48 meses de vida. Ocorre um caso para cada 166 crianças, é 4 vezes mais comum em homens do que em mulheres (embora as mulheres sejam mais gravemente afetadas), e não está relacionado aos níveis socioeconômicos, raça, ou estilo de criação. As crianças com TEA demonstram diversas características peculiares e, muitas vezes, aparentemente bizarras, principalmente nas interações socias. (WONG,2011)

Então ser autista é o fim da linha do ponto de vista da normose, da vida banal e ordinária? Não sei, só sei que isso propriamente dito não é, afinal a frase ¨Deus nos livre de uma vida morna¨ sempre me ocorre nestas situações. Na busca de quem somos e da nossa verdade, que a teoria junguiana nos propõe nos deparamos muitas vezes com todas as situações de nossas vidas e de outros em que tentamos nos encaixar no padrão, mas esse padrão serve a quem? Quem em mim precisa e deseja ser aceito, ser amado e para que? Essa deveria ser a pergunta a nos nortear e não: ¨como me encaixar?¨. Nesse contexto observamos um aumento significativo de indivíduos diferentes, em todos os aspectos, inclusive na forma de ver e enxergar o mundo, que talvez sem essa condição não conseguiriam fazer este movimento.

 Isso é algo ruim?

 A resposta certamente eu não tenho, mas convido todos a refletirmos juntos.

As mudanças sempre aconteceram e continuarão a acontecer a todo instante no mundo e em nossas vidas, ainda bem! E esta mudança no perfil e condição de nossas crianças se faz presente na atualidade, mas se as crianças e o próprio mundo estão mudando, e as mães? Será que finalmente estamos caminhando para a aceitação de todas as faces do complexo materno?

Este complexo tão importante nas nossas vidas, todos tivemos contato e muitas vezes é um dos complexos dominantes, principalmente quando ele aparece na sua configuração negativa. Retomando um passo atrás vamos entender como se dá isso.

Como Jung explica o complexo é a manifestação na vida individual de algo bem mais abrangente e poderoso, que denominou de arquétipo. Os arquétipos eram pra Jung ¨formas típicas de apreensão¨ (Os arquétipos e o inconsciente coletivo, p.167), ou seja, padrões de percepção e compreensão psíquicas comuns a todos os seres humanos como membros da raça humana.

 Nesse caso tratamos aqui do arquétipo da mãe. Ele e os pós junguianos passaram um tempo considerável examinando e explicando este arquétipo na psicologia do inconsciente, pois isto há uma vasta literatura sobre o assunto, este fascínio se deu e continua ocorrendo devido a importância da mãe, de sua imagem e a força deste complexo na psique do próprio Jung e de todos nós, por este motivo é denominado de matriz máter (de mãe) do inconsciente, além disso podemos perceber um movimento da cultura moderna para dotar este arquétipo com grande importância , isso ocorreu devido a enantiodromia, que é o termo utilizado para descrever o psíquico na direção oposta, com a mesma força e intensidade inicial, (Tipos Psicológicos §795), portanto o fascínio e corrida para atribuir importância a mãe , seria uma resposta ao forte patriarcado que nos atravessa a todos, numa sociedade dominada pelos ideais masculina sob qual a trindade masculina de pai, filho e espírito santo é o ideal cultuado há dois milênios, o interesse de Jung e dos junguianos é mais uma vez uma tentativa de ampliar e refletir salutarmente sobre a integralidade, num mundo de indivíduos ainda tão polarizados, partidos, portanto por definição incompletos.

Jung diz em Os arquétipos e o inconsciente coletivo, onde ele discorre sobre o arquétipo de mãe, no parágrafo 156 diz:

¨ Como todo arquétipo, o materno também possui uma variedade incalculável de aspectos¨

Mas como frequentemente você, eu e todos gostamos de pensar nessa figura, já refletiu sobre isso?

 

O arquétipo como ele bem definiu se trata de um molde, uma forma na qual as nossas vivências, afetos e experiências vão a preenchendo, mas sem perder a imagem primordial de como uma mãe deve ser, claro que esta contém em si todos os aspectos e variantes infinitas, embora gostemos de pensar e lembrar somente do aspecto bonito, feliz, bem-sucedido, principalmente para aparecer bem nas redes sociais. Mas uma das coisas mais bonitas, talvez a mais bonita, da teoria junguiana seja justamente conhecer, analisar e ressignificar o lado que não queremos ver, o sombrio em nós, pois só assim seremos cada vez mais nós mesmos.

Sendo assim, como se configura a psique da mãe de uma criança diferente, que foge aos padrões, que vê o mundo de forma diferente, uma criança deficiente?

A cada criança diferente que surge no mundo, também nasce uma mãe diferente, porque não é a criança que se adapta a casa e sim o contrário.

Reparem que chamarei este tipo de mãe de especial, e não a criança, justamente por falarmos da totalidade me parece leviano e uma tentativa de abrandar, justificar e de certa forma diminuir a dor e dificuldade destes indivíduos quando os intitulamos de ¨crianças especiais¨. me parece absolutamente inconsistente chamarmos de especial uma condição em que muitas coisas, a própria existência se faz tão difícil, principalmente, pelo preconceito imposto pelos ditos ¨normais¨. Eles sem dúvidas são extraordinários por nos fazerem aprender tanto, por lutarem tanto ou simplesmente por continuarem existindo numa sociedade tão reativa contra tudo que é contrário aos moldes, são verdadeiros heróis num sistema já há muito corrompido e escravos da persona.

Esta mãe é especial porque ela também vai aprender a lidar com as peculiaridades, mais para além disso ela recebe um convite a olhar o mundo, as pessoas, as situações e a si própria de forma diferente, é convidada também para olhar para o autista em si mesma. Diria que uma mãe especial também é a mãe de qualquer outra criança ou adulto com alguma síndrome ou transtorno cuja configuração saia do padrão do mundo.

E o convite aqui enviado pela vida, ou talvez pelo SELF talvez deva ser compreendido como um convite para se pensar: ¨Para que esta situação, este filho, veio a mim? ¨ e daí surja o acordar para as grandes questões, acordar para si, viver com profundidade e significado.

Quando os pais recebem o diagnóstico ou se percebem pais deste filho certamente vivenciam o terrível, o assustador e amedrontador, porque a vontade de ser ¨normal¨ é inerente a todos, faz parte do instinto de ser aceito e acolhido e de alguma forma aprendemos que para tal precisamos nos encaixar em algum tipo de padrão. Mesmo para aqueles que acreditam terem saído da ilusão do sucesso apregoada pelo capitalismo, onde o sucesso e felicidade do indivíduo são proporcionais a quantidade de dinheiro e poder que se tem e a capacidade de consumo deste indivíduo, toda mãe (e pai) sempre faz uma projeção do que o filho se tornará, como ele será e como ele fará para alcançar a tão desejada felicidade.

Toda mãe (e pai) faz uma projeção sobre o filho de que ele será feliz aonde eu não fui, fará todas as coisas que eu sempre quis fazer, tudo aquilo que eu não consegui realizar meu filho certamente o fará. Mas a vida acontece e cedo ou tarde todo pai e mãe tem que se dar conta que o filho projetado e o real são na maioria das vezes muito diferentes e esses pais precisarão passar pela morte simbólica deste filho, ou deveriam, porque infelizmente vemos muito, principalmente na nossa prática clínica pessoas que passam uma vida tentando viver a vida não vividas de seus pais. Acontece que para as mães especiais, esse processo que irá surgir com o tempo, trazido muitas vezes pela maturidade em si, se apresenta muito cedo e de forma abrupta, então esta mãe se depara com o lado sombrio, cruel e brutal da maternidade, do complexo materno. Ela se vê obrigada a abandonar os sonhos de uma projeção de coisas não vividas e passa a lutar para que seu filho consiga realizar as coisas básicas, como andar, interagir, e até falar. Ela por vezes fraqueja ao ter sentimentos ditos negativos e é natural que queira negar, mas os sentimentos estão aí para serem de alguma forma sentidos e interpretados e tudo aquilo que há em nós não deixam de existir somente pela vontade.

A mãe especial que tratamos aqui é aquela que para além de todas as normas e regras, para além das mães normais que sabem o preço, as dificuldades e lutas de ¨ser mãe¨ ela vai ter que ir além. Vai ter que aceitar que seu filho nunca vai deixar de ser deficiente, sempre vão existir as limitações e dificuldades, mas não aquelas já esperadas que todos passam, mas as que se referem a coisas simples, muitas vezes banais do ponto de vista das outras pessoas.

Esse luto do filho idealizado é inevitável, é tomar contato com vários aspectos sombrios nossos, muito difíceis de serem vivenciado. Diferente de outras situações em que esses pais negam e escodem a sombra materna e paterna, junto com todas as outras coisas que não queremos olhar, aqui o convite é irrecusável, o chamado da alma é mais alto, e talvez aí seja o ¨para que ¨que buscamos responder nesse caso, talvez essa seja a maior benesse em ser essa mãe (e pai).

 Certamente não é nada fácil, muitas vezes nada bonito e quase sempre extremamente cansativo, mas pode ser o chamado para o início de uma vida com significado.  Que seria o extremo oposto daqueles pais que tentam negar e esconder, de si mesmos e muitas vezes por este motivo não oferecem nem tratamento para estes filhos, estes indivíduos ficam escondidos em casa e a mãe e pai especiais que discorro aqui ficam escondidos no inconsciente desses progenitores, ofuscados pela mãe perfeita¨ representada pela persona que estes indivíduos vestem perante a sociedade. Como diz Jung em Memórias, Sonhos e Reflexões:

¨... não há despertar de consciência sem dor. As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo para evitar enfrentar a própria alma. Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar consciente a escuridão. ¨ (JUNG,2016)

Nos casos em que os pais se fixam no filho que gostariam de ter, ou que se recusam a olhar para o lado sombrio da maternidade\paternidade de um filho ¨diferente¨, elas negam a própria sombra e isso é negar a si mesmo, tem outro aspecto que se deve considerar ao negar a própria sombra, é que sempre ela vai se fazer presente, e quando negada ela o faz no momento mais inoportuno, da forma mais desagradável possível.

Para entender a sombra basta imaginarmos um objeto ao ser iluminado por uma lanterna, mas atrás dele sempre terá uma sombra projetada por esta mesma luz. ( Aion §13-19)

 A lanterna aqui nesta metáfora simboliza luz da consciência do eu iluminando a personalidade do indivíduo, neste caso 9do complexo materno) iluminando todas as partes desejadas e idealizadas do complexo, mas onde ficam as noites mal dormidas, as preocupações, as decepções, a rejeição por esta condição, a rejeição a própria maternidade em si?

Ainda são poucas as mães e pais dispostas a sair da personagem de mãe bem-sucedida, digo personagem porque a sombra faz parte de toda mãe\pai, assim como de todo complexo.

Todo complexo tem o paradoxo em si, são os pares de opostos que se complementam como bem trabalha a teoria analítica. Sem a tensão entre os opostos não há totalidade, não há vida, portanto todos aqueles que acreditam viverem a ¨perfeição¨, estão vivendo puramente uma vida falsa, estão vivendo na fantasia, num mundo imaginário.

Ao falar sobre aqueles aspectos desagradáveis e até imorais da maternidade e maternagem que gostamos de fingir que não existem ou que não tem efeito em nossas vidas formam um lado sombrio do complexo materno que é difícil e doloroso de assumir.

No caso da maternidade o lado sombrio se refere as noites insones, ao cansaço, as dificuldades da amamentação, ao abandono de si mesma, as birras, dificuldades de toda sorte, a vontade que nos assalta de vez em quando de retornar a vida anterior, onde o filho não existia e tantas outras coisas, que não admitimos nem para nós mesmas, talvez somente nas salas dos terapeutas, quase sempre acompanhadas de muita culpa somente por existirem em nós.

No caso da maternagem do autista, que é nosso principal foco aqui em nossa reflexão se acrescenta a isso a vergonha por um filho diferente, que mesmo sem motivo incomoda aos outros somente por existir, a incompreensão por características tão distintas, como se fora um criminoso, por ter comportamentos atípicos, a frustração por não se alcançar o que seria o básico, como se comunicar, toda essa sombra reverbera em nós como se fora uma cobrança por um débito anterior, um insucesso como mãe, como se essa mãe tivesse fracassado onde a maioria teve sucesso.

Esse lado sombrio, ou a difícil tarefa de admitir a sua existência em nós não diminui em nada o amor, não nos faz desistir de lutar por este filho, ou muito menos nos torna péssimas mães, é justamente o contrário disso, ao fazê-lo essa mãe justamente impossibilita ser tomada por essa sombra. Ao trazer para a consciência esse conteúdo ela se torna muito mais completa e já conhecendo quais são seus gatilhos e suas dificuldades pode tanto amar mais plenamente esse filho em suas qualidades ao enxergar o bom, o belo e verdadeiro que ali se faz presente, como pode evitar ser tomada de forma avassaladora pela sombra anteriormente negada. Não nos esqueçamos que quando aceitamos um conteúdo automaticamente a energia psíquica é redistribuída na psique, ao admitir as partes ¨ruins¨ eu tenho a possibilidade de escolher depositar mais energia, mais tempo mesmo nas partes ¨boas¨.

Outro aspecto que as mãe de filhos atípicos e a aceitação da sombra contida nessa condição podem ensinar a todas as outras mães e a todas as pessoas em geral é que a negação de suas próprias sombras podem atrapalhar, impedir ou no mínimo dificultar e muito o crescimento de seus filhos, quando eu por exemplo nego inclusive que meu filho não é típico eu não levo ele para o tratamento, quando eu desconheço suas dificuldades, eu não me junto a outras mães , as discussões destes assuntos, e em última instância eu não contribuo para a mudança na opinião pública e\ou no inconsciente coletivo, para que quem sabe um dia o ¨típico¨ não seja mais o normal, que a expectativa, o desejável para nós e nossos filhos é que possamos ser e não ter, que as diferenças sejam festejadas, entendidas e por fim compreendidas. Se compreender vem de compreender, ou seja, guardar um pouco daquilo dentro de nós, convido você neste momento a pensar em quantas características são únicas te fazem diferente e especial, e tantas destas características suas podem não ser compreendidas pelas outras pessoas, e se pudéssemos falar sobre elas e nesta troca aprender sobre nós mesmos?

Só uma mãe de um filho atípico sabe a dor de ter seu filho rejeitado numa escola , onde deveria ser festejado a educação e não escutado que seu filho vai atrapalhar aos outros, onde os educadores se negam a educar, se essas mães aceitarem essa dor, compartilharem, e nós de coração e mentes abertos possamos acolher a dor, a mãe, a educadora e o autista em nós, o quanto não poderíamos crescer, deixar de ser dominados por quaisquer aspecto que seja e viver mais plenamente?

Essa discussão trazida pela psicologia analítica de Carl Gustav Jung, por vezes nos parece utópica, pois pensamos no todo e em como é difícil e doloroso mudar o inconsciente coletivo, mas nos esquecemos que ao lidarmos com a nossa própria sombra podemos sem dúvida inspirar e ser o gatilho para a mudança da sombra do outro em todo o nosso entorno.

 

Nesse processo (de ser mãe especial) há que ser ter coragem, ou seja, agir com o coração, o que não quer dizer que ela sabe exatamente o que fazer, porque o coração também erra, mas como ela vai com a sua verdade, vai com a sabedoria do Self, vai com amor.

Devemos ter a única certeza possível, somos falíveis e tudo bem! Tudo bem ter raiva, culpa, tudo bem ter um espaço só seu. Na verdade ¨precisa¨ existir esse espaço só seu, ser mãe é sem dúvida muito importante, mas junto dela vem a filha, a mulher, a esposa e a criança também! Vale lembrar sempre que o movimento de cuidar vem de dentro, quem de verdade não cuida de si não é capaz de cuidar de ninguém, um filho jamais será feliz vendo sua mãe triste, destruída, sem alma! 

E digo mais, faço um convite, olhe para toda esta reflexão e procure dentro de si a mãe, o autista e as dificuldades aqui ampliadas, onde elas acontecem em sua vida? (mesmo que não passe exatamente por esta vivência), onde elas acontecem em sua personalidade, então tudo isso que falamos pode já ser o início de uma mudança aqui e agora.

 

Natalhe Costa, Analista em Formação IJEP_SP

E. Simone Magaldi, Membro Didáta IJEP

 

Imagem: Rafaela Garcia

 

Bibliografia

WONG. Fundamentos de Enfermagem Pediátrica. 8ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier,2011.

JUNG, C. G. Tipos Psicológicos. 7ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes,2013.

__________ A energia psíquica. 14ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes,2017.

__________ Os arquétipos e o inconsciente coletivo.  11ª ed. Petrópolis,  RJ: Vozes,2014.

__________ Aion. 10ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes,2013.

___________Memórias, Sonhos e Reflexões; R. J. Nova Fronteira, 2016

 

 

 


NATALHE COSTA - 25/10/2021