CAMINHOS DE RESILIêNCIA NA SOCIEDADE MEDIáTICA DA TELEVIGILâNCIA E DA PARANóIA.

Desde a instalação das redes de comunicação eletrônicas e do desenvolvimento de estratégias cada vez mais indiretas de análise de mercado consumidor, vivemos todos num estado designado por sociedade da televigilância.

                Para além da constatação óbvia de que a cada cem metros nos deparamos com câmeras de "segurança"ou com aparelhos celulares e tablets com o potencial de gravarem imagens e sons ao seu redor, o fenômeno que talvez mais diferencie o agir social contemporâneo nas grandes cidades seja a instalação do que Jean Baudrillard chamou de hiperrealidade, ou seja, uma espécie de consciência da  visibilidade absoluta. Mais do que as câmeras a nos filmar, o que age sobre alguns sistemas de comunicação e de trocas afetivas é um comportamento aprendido especialmente para e no ambiente de espetáculo criado pela sociedade mediática e por seus interesses econômicos.

                Introjetamos as câmeras e nos moldamos à visibilidade absoluta, não há espaço de intimidade que não esteja atravessado pelos olhares públicos ou ao menos pela percepção de que tudo existe para ser visto. Temos chamado esse fenômeno da destruição do ambiente da intimidade de extimidade, um estado no qual tudo é realizado para ser mostrado, e o sentido vivencial das coisas se transforma em produto de visibilidade. E assim somos transformados em matéria prima do mercado, nos convertemos voluntariamente em produtos, fontes de energia da Matrix, como bem sugere a metáfora utilizada no filme de mesmo nome.

                Impossível pensar que uma mudança social e afetiva deste porte não incida sobre as dinâmicas psíquicas. Certamente os impactos dessa dinâmica tem uma dimensão subjetiva e deve ser analisada a partir do histórico e das singularidades de cada pessoa, mas podemos considerar, a partir de uma reflexão teórica, algumas possibilidades.

                Podemos nos perguntar: para onde vai a intimidade, o segredo, o privado? Se tudo é explicitado, o que resta a segredar?

                Seria possível considerar que o único que se secreta é o que é da esfera da Sombra, o não assumido, o inaceitável, o que não se quer mostrar, nossas impopularidades, o que não sai bem na foto, o que nem nós mesmos ousamos saber sobre nós. Aquilo que não mostramos, na sociedade da extimidade, negamo-nos também a ver, e vai compor a Sombra. Se tudo que eu sou tem de ser mostrado, aquilo que não ouso mostrar, não ouso também saber. Sem o espaço da intimidade, do segredo, do silêncio, ou ainda, das conversas sussurradas com amigos íntimos, não temos mais o espaço de aproximação com as zonas cinzentas da própria vida. Sem sombras aparentes, só resta a luz plena de uma consciência luciférica ou o breu profundo das sombras absolutas, aumentando a dissociação entre consciência e inconsciente.

                Outra questão que tem me parecido brotar com muita força nesse cenário é um certo sentimento de perseguição. A televigilância silenciosa da sociedade mediática nos põe a todos desconfiados, tensos, com a sensação de que estamos sempre sendo vigiados, paradoxalmente, em meio à indiferença. Estamos isolados e nos sentindo expostos, ao mesmo tempo. E estamos desconfortáveis sem essa sensação de que podemos enfim baixar a guarda e relaxar, sem que nada nem ninguém nos observe. Levamos os telefones celulares para o banheiro, para a mesa de refeições, para as salas de parto. Não há mais o espaço do secreto, do não-exposto, e por isso adolescentes postam com grande naturalidade nas redes as fotos de seus corpos nus, de órgãos eretos, de intimidades escancaradas, gerando um efeito deserotizador próprio da pornografia, como apontou Baudrillard. E a isso se segue não um estado dionisíaco, mas um estado de apatia generalizada no qual adolescentes precisam de medicamentos estimulantes para fazerem sexo.

                Essa deserotização está também na raiz do empobrecimento simbólico que vemos; se considerarmos que a sociedade mediática gerou um enorme impacto nas competências simbólicas, como apontado por nós em outro momento (Mediosfera: 2017), e que à incompetência  simbólica se segue a tendência de literalizar as imagens, achatando seu impacto simbólico, temos um contexto social que claramente provoca  a irrupção de uma paranóia generalizada, se considerarmos o que propõe James Hillman quando reflete sobre a paranóia (2012).

                Gilbert Durand, que propôs uma Teoria do Imaginário em profundo diálogo com o pensamento de Jung, já alertava para o fato de que passamos por um grande processo histórico de esvaziamento do pensamento simbólico, originado há muito tempo, mas intensificado a partir do século XVII (1995).

                Esse quadro, no entanto, se intensifica numa sociedade totalmente atravessada pelas mediações eletrônicas, centradas na visão e na audição, dessensibilizadoras do sentido de presença corporal e que oferecem imagens técnicas ininterruptamente, convidando-nos a passear o olhar todo o tempo por diferentes imagens, sem que tenhamos tempo e espaço para ficar com essas imagens, para saboreá-las, para permitir seus desdobramentos simbólicos em nossa psique. A velocidade e a imediatez da comunicação eletrônica, somadas à exposição ininterrupta de imagens, geram um desequilíbrio ecológico das imagens, já apontado por Hans Belting e Dietmar Kamper.

                E isso gera imensos impactos na dinâmica psíquica de qualquer pessoa imersa nesse ambiente. Temos muitas vezes a tendência, como psicoterapeutas, de minimizar os efeitos dos ambientes socioculturais sobre nossa dinâmica psíquica, Hillman frisou muito esse ponto, propondo mesmo que precisávamos "por o divã na calçada" (1993) se quiséssemos compreender parte significativa dos processos que interferem na psique, tanto na nossa quanto na de nossos pacientes.

                Certamente o objetivo do processo de individuação é buscar essa singularidade própria de cada um de nós, tornando-nos quem de fato somos, por meio de uma crescente expansão da consciência e integração, mas subestimar os fatores ambientais e o próprio impacto do inconsciente social e coletivo sobre o processo de cada um me parece ingênuo e até mesmo um tanto arrogante. Sempre somos, em certa medida, frutos do espírito do nosso tempo.

                Proponho essa reflexão porque penso que isso nos ajude a compreender parte significativa dos comportamentos de alguns pacientes, sobretudo de adolescentes, de uma geração que nasce já mergulhada numa sociedade em que a maior parte das relações são eletronicamente mediadas.

                Essa dessensibilização do corpo que se apresenta está também relacionada a esse estado de relações que se pautam predominantemente pelas imagens mediáticas e não pelas relações diretas. Namora-se e casa-se pela internet, escolhemos comidas e restaurantes por fotos, cada vez mais pessoas fazem sexo pela internet (e de fato estão fazendo sexo com a internet...), até os próprios encontros psicoterapêuticos estão adotando a prática do teleatendimento. Esse quadro todo desconecta aos poucos as pessoas das vivências corporais, tão caras a Jung.

                Se considerarmos que o Complexo de Ego se constrói e reorganiza constantemente sobretudo  a partir das experiências vividas, como prescindir da presença corporal?  E como considerar que o audiovisual acolhe minimamente a complexidade sensorial e estética humana quando falamos de relacionamentos?

                Resumo da ópera: hiperconectados e solitários, pornográficos e apáticos, hiperexpostos e invisíveis, hiperestimulados e depressivos... o quadro pintado pela sociedade do espetáculo é estranho e triste, quando olhamos de perto, longe das luzes e dos efeitos especiais.

                Sim, cada um de nós tem suas questões, suas histórias, suas feridas e seus desafios, mas todos nós temos uma dimensão concreta, estamos en/carn/ados, e sem a carne que também somos nos tornamos fantasmas, fantasmagorias perdidas no espaço virtual, como almas penadas a vagarem às margens do rio Estige.

                Por isso acredito numa psicoterapia que resgate a presença, os afetos, os abraços, as trocas afetivas, os vínculos, que nos ponha pra dançar, cozinhar, pintar e bordar de várias maneiras, uma psicoterapia que convide Eros para fazer parte de nossa vida.

 

 

Dra. Malena Segura Contrera

Professora do IJEP

 

Referências:

 

BAUDRILLARD, J. Telemorfose. Rio de Janeiro, MAUAD: 2004.

A troca impossível. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2002.

CONTRERA, M. S. Mediosfera - meios, imaginário e desencantamento do mundo (www.midiaeimaginario.org)

DURAND, G. A imaginação simbólica. Lisboa, Ed. 70, 1995.

HILLMAN, J. Cidade e Alma. São Paulo, Studio Nobel: 1993.

                Paranóia. Petrópolis, Vozes: 2012.

JUNG, C. G. Civilização em transição. Petrópolis, Vozes: 2013.

KAMPER, D. Corpo (www.cisc.org.br/biblioteca)


Dra. Malena Segura Contrera - 17/07/2019