CARTA AO OBJETO DE AMOR PERDIDO*

Carta ao objeto de amor perdido* Psicologia Junguiana

Estimada e odiada perda,

Não sei te definir muito precisamente. Sei que tomo o lugar da falta daquilo que levaste. Esta ausência sentida, para ser mais (im)precisa talvez não se refira exatamente àquilo que se foi, mas a algo anterior, próprio àquele que se perdeu de você.

O fato é que agora, tomei todo o espaço do interesse. Amor é uma palavra estranha que vou erradicar daqui desta mente-corpo que tu deixaste e que agora habito.

Transmuto-me apenas num vazio abissal. Lento e pausado. Uma ideia fixa de algo passado vai tomando paulatinamente o presente. Densidade. Comer? Dormir? Repousar? Para que? Quem comigo andar saberá que estas distrações não terão espaço: restará o vazio; apenas o vazio.

Quem me levar no colo, sentirá o peso de se enxergar indigno. E saberá que estão condenados, aqueles que consigo tiverem de se relacionar. Se dará ao autodesnudamento franco, revelador das mais tenebrosas sombras. Sou fã incondicional do strip-tease psíquico. Sem glamour: vergonha, neste campo, passará longe de quem comigo conviver.

Antigamente, eu escondia-me entre os humores e temperamentos. Estes foram associados por Galeno aos humores, já abordados por Hipócrates (ver CAMPOS, 2010). Cada um deles, associado a um líquido orgânico: sanguíneo, ao sangue, colérico à bile amarela, melancólico à bile negra e linfático, à linfa. Eu me presentifico no corpo e no comportamento.

Gaston Bachelard, incialmente, me relacionou à terra, possivelmente, por sua psicologia da gravidade (BACHELARD, 2008). Curioso que, para falar dela, tenha de ter se remetido à leveza!. Mas não tardou a reconhecer que para certas almas, é nas águas que sou reconhecida. Disse ele: “Como todos os grandes complexos poetizantes, o complexo de Ofélia pode elevar-se até o nível cósmico. Simboliza então uma união da lua e das ondas. Parece que um imenso reflexo flutuante dá uma imagem de todo um mundo que se estiola e morre” (BACHELARD, 2002, p.91).

Quem não associou Ofélia ao frame icônico de Melancholia, de Lars von Trier (2011), protagonizada por Kirsten Dust? A anunciada colisão deste misterioso planeta com a Terra, dilatando a percepção de cada passagem do tempo de vida. A protagonista tangencia o arquétipo de Ofélia, símbolo de uma grande imaginação de infelicidade e morte. Ofélia e Narciso se encontram no devaneio bachelardiano de uma cena de amor entre o céu e a água, em uma melancólica noite estrelada (BACHELARD, 2001, p.91).

 

Mulher com vestido verde

Descrição gerada automaticamente

(imagem do filme Melancholia de Lars Von Trier, que figurou em um dos cartazes de divulgação.

Fonte: https://filmquarterly.org/2012/01/10/lars-von-triers-melancholia-a-discussion/ )

 

Uma imagem contendo ao ar livre, grama, água, em pé

Descrição gerada automaticamente

(Ophelia – pintura de Friedrich Wilhem Theodor Heyser, 1900. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Friedrich_Wilhelm_Theodor_Heyser_-_Ophelia.jpg )

Também encarnei na ficcional Mrs. Dalloway, personagem de Virgínia Woolf (1925), interpretada por Vanessa Redgrave e Natascha McElhone, no filme de Marleen Gorris (1998), imprimindo vestígios de um promissor longínquo passado, nos preparativos de uma entediante festa perfeita. Nostalgia de uma inocência e amores perdidos, tornada tédio num perfeccionismo que nunca se completa nem satisfaz.

Virgínia Woolf parece protagonizar muitas das cenas que querem me abordar. Michael Cunningham fez dela uma de suas personagens do romance As Horas (1998), tornado filme por Stephen Daldry, em 2002. A senhora Dalloway, de Woolf inspira outra das personagens de Cunningham, sendo as três protagonistas (interpretadas no cinema por Maryl Streep, Nicole Kidman e Juliane Moore) por mim visitadas. As escolhas da vida, a passagem das horas, a tentação de ceder à finitude diante do vazio.

Petra Costa também retratou-me fielmente, em Elena (2012), filme dirigido a sua irmã, que tirou a própria vida aos vinte anos. Ao abordar a trajetória da irmã, a diretora vai narrando como tomou para si alguns de seus passos, absorveu características, reconhecendo-a em si, até fazer do próprio documentário uma espécie de salvação de mim, ao afogar-se em Elena, em Ofélias, e assim transformar as próprias dores em água e memória, narrativa e película.

Desenho de pessoa com a mão

Descrição gerada automaticamente com confiança baixa

(Imagem do filme Elena, de Petra Costa. Fonte: divulgação)

Tu és, querida perda, para mim, uma oportunidade. Tenho esta habilidade de te escamotear de quem me porta. E assim fazendo, projeto as qualidades sombrias do objeto perdido no próprio perdedor, que passa a acusar-se dos mais escabrosos defeitos daquele que se foi, e até punir-se por isso.

Assim sendo, o sujeito volta-se para si próprio, pois se identifica, sem notar, com aquilo que amara. Insulta-se sem o menor constrangimento. Não tem sentimento de valor próprio, autoestima, nada. Apenas um oculto orgulho discretamente sádico de humilhar-se a si mesmo perante outrem, expressando o auto ódio e outros insultos, com eventuais tonalidades vingativas. Uma pitada de culpa, por ter secretamente desejado a morte ou perda daquilo que amava também pode se notar, vez ou outra. Alguns deles adoecem, para que sua sagaz hostilidade passe desapercebida. Outros, são tomados por uma certa rebeldia ou indignação. Mas esta não chega a mover uma palha, já que, em geral, não há uma réstia de esperança nos sujeitos conduzidos por mim. Alguns, no entanto, chegam a ser mais ousados, atentando contra si próprios, mas isso, minha cara perda, é tema para uma outra carta, pois em tais casos, o que se perde pode chegar a ser a própria vida. Por enquanto, restrinjo-me a essa habilidade em que me especializo, de espelhar veladamente, o belo e o feio, a luz e a sombra do objeto de amor e desejo naquele que o perdeu e ficou frustrantemente desamparado.

Aquele que tinha profundo amor por aquele tu levaste sentiu, com tua ação, uma decepção aguda. Esta é a deixa que me dás. Eu sempre desejo que ajas, estimada perda, para que eu possa entrar em cena. És a minha base e por isso, te desejo. Quando a morte ou outro ato de desprezo ou decepcionante levam um objeto de amor, posso me instaurar e ganhar bastante espaço, dependendo da permeabilidade daquele que me recebe.

O pai da psicanálise, ao investigar-me, notou o quanto o ego é subjugado pelo objeto de amor tanto nos casos de extremo enamoramento, quanto naqueles que conduzem ao suicídio. Quando estou atuando, disse ele, se tramam “em torno do objeto inúmeras batalhas isoladas, nas quais ódio e amor combatem entre si: um para desligar a libido do objeto, outro para defender contra o ataque essa posição da libido” (FREUD, 2013, p.45). E mais adiante, afirmou que “(...) cada uma das batalhas de ambivalência afrouxa a fixação da libido ao objeto, desvalorizando-o, rebaixando-o, como que também matando-o. É possível que o processo chegue ao fim (...), quer depois que a fúria se aplacou, quer depois que se desistiu do objeto por ser ele destituído de valor (idem, p. 46).

O autor não via, no entanto, qual destas duas possibilidades daria cabo de mim com maior frequência, nem como o tipo de arrebatamento que me infligissem influenciaria o andamento ulterior de cada “caso”. Supunha que talvez o ego pudesse “desfrutar da satisfação de poder se reconhecer como o melhor, como superior ao objeto” (ibidem).

E apesar de ter-se debruçado sobre mim, Freud não tinha à época [1915] elementos suficientes para caracterizar-me como um complexo. Considerava que ambivalência, sadismo do superego e identificação narcísica inconsciente ainda não eram suficientes para tal, como recentemente observou Maria Rita Kehl (in FREUD, 2013, p. 16). Apontava, no entanto, em consonância com Grissinger (ver CAMPOS, 2010), que a contrapartida da mania devesse ser incluída no complexo, para completar-me, pois entendia que logo sou substituída por ela, naquilo que a psiquiatria teria definido como “bipolaridade”.

Aqui, acho justo relembrar a diferenciação que Waldemar Magaldi (2010) fez entre mim e a depressão, ao compreender que caracterizo os sujeitos pela incapacidade de manterem o objeto do amor. Sem vínculos amorosos, o sujeito tomado por mim vive em constante luto narcisista, com medo e dificuldade de entregar-se. Magaldi identifica pessoas assim como “almas sem amor, Psiques sem seus respectivos Eros, Narcisos afogando-se nas águas das mágoas dos seus sentimentos”.  Por outro lado, ele afirma que os depressivos “são caracterizados pela incapacidade de aprofundamento em si mesmo, eles até conseguem estabelecer relações objetais amorosas e passionais, mas sem profundidade de Self – são amantes sem almas, Eros sem suas respectivas Psiques, Apolos ressecando-se no fogo solar de seus pensamentos aéreos e egóicos.” (MAGALDI, 2010, p.58)

Desta perspectiva, diferencio-me da chamada bipolaridade. E quanto à distinção que Freud fez entre o estado que instauro e o luto (processo psíquico natural em que o sujeito vai aos poucos se desprendendo do objeto de amor perdido, que em geral, se dá por separação ou morte), o fato de eu dar uma tonalidade misteriosa a ti, deixando incerto se a dor reside na separação do objeto amado ou de algo que o próprio amante reconhecia em si, ao ama-lo, ora, me soa muito mais interessante, não? Tu hás de convir que quando tu és evidente, a situação dramática é muito menos complexa e mais desinteressante. Assim sendo, querida perda, deverias agradecer-me a complexidade do papel que te delego, muito diferente da simplicidade tecida pelo mero enlutado.

Para finalizar, àqueles que não me suportam, ou apenas não podem mais comigo conviver faço referência à recomendação de Magaldi, que sugere que busquem pelo vínculo amoroso verdadeiro “para possibilitar que seus egos sejam mais estruturantes, pois todo eu depende de um tu que está num outro”. O remédio para os que queiram me abandonar estaria na vivência do amor maduro, na entrega da alma às relações objetais, “exteriorizando e extrovertendo sua libido ou energia psíquica e vital” (ibidem).

Neste caso, amada perda, nem tu nem eu teríamos espaço para permanecer em cena. Seguimos, no entanto, na busca incessante por almas que te recebam e me incorporem. Fecho minha carta para ti, fazendo referência ao espírito de Woolf, conforme pintado por Daldry (2002), “encarar a vida de frente, sempre encarar a vida de frente e conhecê-la pelo que ela é, finalmente conhecê-la, amá-la pelo que ela é e então, deixá-la de lado...”

Com nostalgia,

Melancolia.

Luciana Barone – Analista Junguiana em Formação

Analista Didata – Waldemar Magaldi

REFERÊNCIAS:

BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria. Trad. Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

____. A terra e os devaneios do repouso: ensaio sobre as imagens da intimidade. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

____. A terra e os devaneios da vontade: ensaio sobre a imaginação das forças. Trad. Maria E. de Almeida Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

CAMPOS, Rodolfo Nunes; CAMPOS, João Alberto de Oliveira e SANCHES, Marsal. “A evolução histórica dos conceitos de transtorno de humor e transtorno de personalidade: problemas no diagnóstico diferencial”.  Archives of Clinical Psychiatry (Publicação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) vol. 37, no.4, 2010. Disponível em https://doi.org/10.1590/S0101-60832010000400004. Acessado em outubro/2021.

COSTA, Petra (dir). Elena (documentário), 90’’. Brasil, 2012.

DALDRY, Stephen (dir). As Horas [The Hours] (filme), 114’’. Estados Unidos, Reino Unido, 2002.

FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. Trad. Marilene Carone. São Paulo: Cosac Naify, 2013 (versão digital).

GORRIS, Marleen (dir). Sra. Dalloway [Mrs. Dalloway] (filme), 97’’. Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha, 1997.

MAGALDI, Waldemar. Dinheiro, saúde e sagrado – interfaces culturais, econômicas e religiosas à luz da psicologia analítica. São Paulo: Eleva Cultural, 2010.

VON TRIER, Lars (dir). Melancolia [Melancholia]. (filme), 135’’, Alemanha, Suécia, França, Dinamarca, 2011.


Luciana Barone - 30/11/2021