CORPO E ALMA: MITOS, HISTÓRIA E FILOSOFIA

Corpo e Alma: mitos, história e filosofia Psicologia Junguiana Psicossomática Arteterapia

Ao longo do tempo como se dá o entendimento do processo de adoecimento do homem? Em que momento da história, os conceitos de Corpo e Alma se separam? E como o Corpo foi fragmentado na ilusão de entendê-lo, controlá-lo e tratá-lo? Sobre essas questões, Jung nos diz que:

A distinção entre mente e corpo é uma operação artificial, uma discriminação que se baseia menos na natureza das coisas do que na peculiaridade da razão que conhece. A intercomunicação das características corporais e psíquicas é tão íntima que podemos tirar conclusões não só a partir da constituição do corpo sobre a constituição da psique, mas também da particularidade psíquica sobre as correspondentes formas corporais dos fenômenos. (JUNG, 1991, §979)

 

Os mitos nos ajudam a perceber as relações humanas, as relações com os deuses e com o mundo e como caminhou o entendimento do adoecimento humano e seu tratamento!

Asclepius, o deus da medicina, tem o mais antigo registro de seu nome na obra Ilíada de Homero. Asclepius, segundo o mito, era filho da união da mais formosa donzela de toda a Tessália, Coronis, com o deus Apolo, divindade que preside as artes, inventor da música, da poesia e da retórica e que ensinou as artes médicas à Humanidade, arte que conflui o poder de adivinhar o mal oculto – diagnóstico – e de saber sobre o futuro desenrolar da enfermidade – prognóstico. Asclepius foi educado pelo centauro Quíron, que lhe ensinou tudo sobre a arte de remediar e aliviar dores e doenças. Quíron foi logo superado por seu aluno e Asclepius tornou-se conhecido como um benfeitor universal e sua arte chegou ao ponto de ressuscitar os mortos. Chamado de Esculápio pelos romanos, Asclepius teve uma numerosa família e que executava funções médicas e curativas. Sua mulher Epione, deusa da anestesia, acalmava a dor; seus filhos Podalírio e Macaón tratavam feridos de guerra, eram cirurgiões. Teve 2 filhas: Higéia, a divindade da prevenção de doenças, e Panacéia que representava o poder curativo presente nas ervas e numa multiplicidade de coisas, que simbolizava o tratamento. Seu outro filho Telésforo, que o acompanhava habitualmente, representava a convalescença.

Os templos da saúde de Asclepius, chamados asclepions, surgiram por volta do século VI a.C., e foram os precursores dos hospitais, uma mescla de santuários e balneários. Cada Asclepion abrigava um conglomerado de edifícios e instalações sendo a estrutura dominante o templo com uma estátua do deus e seus familiares. Geralmente no vestíbulo podiam ser observadas tabuletas que descreviam curas milagrosas e oferendas votivas que expressavam gratidão. Uma construção circular continha água para a purificação e, outras vezes, a água se encontrava em tanques sagrados. O espaço mais importante para o enfermo era o local da incubação, onde se produzia a cura durante o sono do paciente, quando o deus o visitava em sonhos. Também havia teatro, estádio e ginásio, onde as atividades de leitura, música, dieta, apresentações e atividades físicas eram realizadas e serviam para entreter e consolar o espírito das doentes. Os asclepions eram cuidados por iniciados que exerciam os papéis de curadores-médicos-sacerdotes e as curas se davam pelo uso das ervas, da música, dos sonhos e da palavra e integravam as necessidades do corpo e do espírito daqueles que os procuravam.

No século V a.C. na cidade de Cós, nasce Hipócrates, membro de uma família de médicos, com várias gerações de membros no círculo de Esculápio. Sabemos que historicamente ele existiu, porém, a obra recuperada na biblioteca de Alexandria denominada Corpus Hippocraticum incluiu escritos de muitos médicos de Cós e de outros centros de desenvolvimento da medicina. O método denominado hipocrático pode ser resumido nas seguintes etapas: observar tudo, estudar o paciente em vez da enfermidade, avaliar honestamente e ajudar a natureza – observação, análise, dedução e síntese. Este método deu início à medicina moderna, diminuindo o valor da palavra e dos sonhos e trazendo para o cenário terapêutico a objetividade.

Outro importante médico foi Galeno de Pérgamo, que durante o final do século II e início do III d.C. desenvolve vários estudos de anatomia, patologia, sintomatologia e terapêutica, organizando o conhecimento até então em cerca de 200 obras escritas e descreveu quase 500 drogas de origem vegetal, animal ou mineral e seus efeitos, passando a utilizá-las até cerca de 60-70 substâncias juntas. Sua influência na prescrição médica durou cerca de 1.500 anos até início do sec. XX.

A nova religião derivada do Judaísmo, o Cristianismo, teve a sua expansão facilitada pela organização e grande dimensão do império romano. No século III, no panorama interno, a corrupção administrativa e as crises econômicas do Império foram diminuindo a arrecadação de impostos e fragilizando a atuação do exército em área tão vasta. No panorama externo, as populações de origem germânicos e eslavos do Oriente forçavam as fronteiras do Império em seu movimento de expansão. No século IV, o Cristianismo se torna a religião oficial de Roma na perspectiva de diminuir os conflitos internos e propiciar o alistamento dos cristãos no exército. A estruturação da religião avocou para si o cuidado da alma através das confissões e penitências contribuindo para ampliar a separação do corpo e da alma, diluindo as práticas de adoração aos deuses do Olimpo e se mesclando às práticas dos povos ditos bárbaros, dando início a Alta Idade Média. Os mosteiros cultivavam suas próprias ervas e o conhecimentos foi transplantado dos asclepions para as abadias.

O homem foi ampliando seu conhecimento objetivo do mundo e da natureza e dividindo suas práticas em compartimentos, tais como, religião, filosofia, ciência entre outros. Até que no século XVII, o filósofo René Descartes, pareceu concretizar num modelo aquilo que vinha se transformando desde os tempos gregos. Embora Descartes diga que o corpo pode ser comparado a uma máquina, ele não duvida que a origem da matéria e do espírito está unida no plano divino, porém com o passar do tempo, seus métodos de trabalho foram interpretados como propostas de tornar a matéria e o espírito princípios irreconciliáveis. E assim o conhecimento, de uma forma geral, e o cuidado na medicina, em particular, vem separando a mente e corpo.

O corpo vem sendo cada vez mais repartido entre profissões, especializações e subespecializações. Ao entrarmos no século XX vivemos uma visão fragmentada de homem, com compartimentalização, objetividade, concretude e padronização. No século XXI, a complexidade continua sendo ampliada com o desenvolvimento de Watson, projeto da IBM para “um sistema de processamento avançado, recuperação de informação, representação de conhecimento, raciocínio automatizado e tecnologias de aprendizado das máquinas” gerando, por exemplo, a confecção de laudos em exames de imagem com mais rapidez e maior exatidão, envolvendo técnicos em TI, designers, engenheiros de várias áreas entre outros profissionais.

Já a mente, é área de conhecimento fracionada entre a medicina e a psicologia. Ela vem sendo abordada através de uma “epidemia de diagnósticos”, problemas da vida são enquadrados em critérios padronizados de comportamento e nomeados pelo DSM (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais) ou pela CID (Classificação Internacional de Doenças). E assim, as respostas individuais de cada ser humano como tristeza, luto, medo, incerteza são “medicalizados”; em diagnósticos como depressão, pânico, fobias e ansiedade. As neuroses são tratadas por drogas psicoativas que trazem lucros astronômicos para a indústria farmacêutica.

As terapias que envolvem o inconsciente, a palavra, a lida com os sentimentos e a transcendência do sofrimento, as expressões artísticas, o acolhimento, ainda não são consideradas fortemente como possibilidade para entendimento e atuação terapêutica nos processos de adoecimento do corpo e da alma. Embora não reconhecidos, esses fatos psíquicos existem e tem uma força capaz de gerar a loucura, já dizia Jung pelos idos da década de 30 do século passado:

Ainda estamos tão possuídos pelos conteúdos psíquicos autônomos, como se fossem deuses. Atualmente são chamados: fobias, compulsões, e assim por diante; numa palavra, sintomas neuróticos. Os deuses tornaram-se doenças. Zeus não governa mais o Olimpo, mas o plexo solar e produz espécimes curiosos que visitam o consultório médico; também perturba os miolos dos políticos e jornalistas, que desencadeiam pelo mundo verdadeiras epidemias psíquicas. (JUNG, 2017, §54) 

Qualquer semelhança como o que estamos vivendo atualmente na sociedade brasileira NÃO É MERA COINCIDÊNCIA!

Dra. Maura Selvaggi Soares, Médica, Especialista em Psicologia Junguiana e Analista em Formação do IJEP. mauraselva@gmail.com

Referências:

JUNG, Carl Gustav. Tipos Psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991.

______, Estudos Alquímicos. Petrópolis: Vozes, 2017.

LYONS, Albert S. e PETRUCELLI, R Joseph. História da Medicina. São Paulo, Manole, 1997, pp 165-217.

RAMOS, Denise Gimenez. A psique do corpo: uma compreensão simbólica da doença. São Paulo, Summus, 1994, pp 13-21.

SAYD, Jane Dutra. Mediar, medicar, remediar: aspectos da terapêutica na medicina ocidental. Rio de Janeiro, EdUERJ, 1998, pp 22-23.


Maura Selvaggi Soares - 16/06/2019