CRISE DA MEIA IDADE: MITO OU VERDADE?

Crise da Meia Idade: Mito ou Verdade? Metanoia, Crise da Maia Idade, Psicologia Junguiana

O foco do presente artigo é refletir/discutir os aspectos da crise da passagem do meio, referente à passagem da vida do adulto-jovem para o adulto-intermediário, da primeira metade da vida para a segunda metade da vida.

A crise da meia idade é uma verdade ou um mito? Essa crise realmente existe ou é uma desculpa dos jovens adultos que estariam resistindo ao envelhecimento? Jovens Adultos? Sim, a fase adulta também tem suas subdivisões: adulto-jovem, adulto-intermediário e adulto-idoso[i], sendo que a transição de cada uma delas desencadeia crises, assim como em outros momentos de transformação biológica e psicológica do indivíduo, como na adolescência, por exemplo.

Vamos começar falando do adulto jovem, ou melhor, da dificuldade que muitas vezes as pessoas nessa fase encontram para ter mais autonomia, alcançar a independência financeira dos pais, um trabalho estável, um companheiro/a, filhos, uma família e tudo o que é considerado próprio da vida adulta, conforme parâmetros sociais da cultura onde nos encontramos inseridos. Sendo a cultura a que pertencemos, a sociedade ocidental capitalista ou neoliberal com seus ideais socioeconômicos burgueses que constituem e norteiam um campo de ideais e comportamentos coletivos.

Jung (1934/2013 p. 363) fala da ansiedade do jovem pelo mundo e pela vida, do seu desejo de conquistar seus grandes objetivos, do impulso teleológico da vida que pode se transformar em medo da vida, e em suas consequentes neuroses, quando o indivíduo se prende ao passado ou se recusa a enfrentar os riscos associados às conquistas futuras. Conforme Jung explica, quando chegamos ao cume da vida, mesmo após algum atraso e talvez depois de ter tido poucas ou muitas dificuldades, é como se quiséssemos nos estabelecer por lá, sem perceber que o trabalho de lidar com a vida e o desenvolvimento da mesma não terminou, e que a curva parabólica da existência continua a fazer seu trajeto. No meio da vida percebemos, então, o que alcançamos, apesar de todas as nossas resistências. Olhamos para trás e lamentamos tais resistências ou recusas neuróticas e, às vezes, até nos ressentimos delas. Entretanto, Jung aponta que embora olhar para trás possa parecer triste, pode também ser menos apavorante do que olhar para frente e perceber o que nos espera. (Cf. JUNG, 1934/2013, p. 363)

Para Griffa e Moreno (2001), autores da linha da psicologia do desenvolvimento, a crise da meia idade transcorre entre os 35 e os 45 anos. Há de se refletir, entretanto, se essa crise da passagem do meio ocorre, de fato, para todas as pessoas e em qual faixa etária. A longevidade tem alimentado na consciência coletiva o ideal de juventude eterna e a cada dia vemos mais pessoas preocupadas com a sua aparência, utilizando inúmeras técnicas estéticas para continuarem parecendo jovens, e se mantendo apegadas aos ideais da primeira fase da vida adulta. Isso tem levado as pessoas a não se verem envelhecidas entre 35 e 45 anos, parecendo que há um atraso na chegada da crise do meio, a não ser que um evento externo atravesse o caminho do indivíduo e o force a viver uma crise existencial.

Para algumas pessoas, entretanto, mesmo os eventos que as convidam à metanóia são insuficientes para gerar uma mudança de consciência. Jung (1934/2013 p. 351 e 352) esclarece que, com muita frequência, as convicções e princípios, principalmente morais, que nortearam o indivíduo durante a primeira fase de sua vida adulta começam a enrijecer, podendo levá-lo a uma posição de fanatismo e intolerância. Quando estamos no meio da nossa existência, pode nos parecer que descobrimos como conduzir a vida de acordo com os ideais de comportamento promovidos pela cultura e por isso temos a tendência de considerá-los eternamente válidos e criamos o propósito de ficarmos presos a eles, nos esquecendo que dessa forma sacrificamos a totalidade da nossa personalidade.

Jung (1934/2013 p. 351) aborda que a crise do meio prepara a pessoa para uma mudança muito importante, que aparece, em um primeiro momento, modesta e despercebida, tendo seu início no inconsciente. Jung esclarece:

Muitas vezes é como que uma espécie de mudança lenta do caráter da pessoa; outras vezes são traços desaparecidos desde a infância que voltam à tona; às vezes também antigas inclinações e interesses habituais começam a diminuir e são substituídos por novos. (JUNG, 1934/2013 p. 352)

Jung (1934/2013, p. 353) explana que as pessoas na crise da meia idade ficam com medo dos pensamentos sombrios da velhice que antecipam tarefas desconhecidas e perigosas além de se sentirem ameaçadas pelos sacrifícios e perdas da juventude, de uma existência que pode parecer tão bela e preciosa que o indivíduo não quer abrir mão.

Griffa e Moreno (2001) seguem com uma abordagem similar a Jung e esclarecem que nesse período, em geral, a pessoa sente a necessidade de se conhecer melhor, o passado começa a pesar, há a percepção dos limites, as metas que não puderam ser alcançadas e algumas que nunca serão saltam aos olhos, a consciência da finitude começa a ficar mais clara e questiona-se o que ainda é possível ser feito, ser mudado, quanto tempo ainda se tem na vida. É uma fase de luto pela juventude perdida, de um corpo em transição que não tem mais a mesma energia, força, tônus e beleza dos anos anteriores, do que se almejou e não pôde ser conquistado. É um período de questionar as escolhas feitas e os resultados obtidos, de sentir a frustração do que foi planejado e aparentemente ou de fato não deu certo; de percepção dos limites impostos pelo tempo que nos resta e de reflexões para possíveis mudanças de rota; da percepção de finitude dos outros e da nossa própria morte. É um tempo que pode constelar muita angústia e sofrimento, devido ao luto iminente. Sentimentos como ansiedade, tristeza, raiva, entre outros, podem caracterizar essa etapa como um momento muito difícil da vida, que confronta os ideais pueris do indivíduo, forçando-o em direção à individuação.

Fomos criados pelas nossas figuras parentais, sejam elas mães, pais, avós, tios, irmãos mais velhos ou cuidadores - seja quem for que esteve envolvido em cuidar de nós e do nosso desenvolvimento enquanto crianças e adolescentes -; e fomos também envolvidos pelos valores da cultura a qual pertencemos. Muitas vezes a maneira como essas figuras nos orientaram e conduziram a nossa educação pode ter ido contra a nossa natureza, os nossos desejos mais íntimos, reconhecidos ou não, carregados por nosso daimon, o “gênio” que nos habita simbolicamente, e que inconscientemente guia nossa vida.

De forma geral, principalmente na primeira metade da vida, não percebemos nada disso e simplesmente vamos seguindo o nosso caminho, buscando fazer o melhor para estarmos alinhados com os valores que nos passaram e não criarmos problemas, nem contrariarmos as figuras de poder parentais que podem ser tão nutridoras quanto ameaçadoras e castradoras. Quando somos crianças, nos momentos em que nossos pais ou cuidadores brigam conosco, nos colocam de castigo, nos batem, retiram seu amor e, às vezes, até literalmente nos abandonam, na nossa inocência, nos sentimos inteiramente culpados e não conseguimos perceber que, por diversas vezes, o contexto é muito mais amplo e envolve questões sombrias desses adultos que estão passando por frustrações, raivas e angústias dessas; e que acabam por descontá-las nos próprios filhos. Na outra polaridade desse espectro afetivo, temos a pressão dos ideais narcísicos dos pais projetados sobre os filhos que também podem ter o efeito de afastar a criança de seus potenciais e de suas necessidades genuínas.

A maneira de a criança se comportar com a intenção inconsciente de agradar aos pais para evitar problemas, e os sentimentos decorrentes desses comportamentos geralmente permanecem introjetados no indivíduo adulto que vai conduzindo sua vida sem perceber como a sua “criança interior” o influencia. Hollis (1995, p.17) sintetiza isso dizendo: “A partir do sofrimento da infância, portanto, a personalidade adulta é mais uma reação reflexa às primeiras experiências e traumas da vida do que uma série de escolhas”.

Quando chegamos na meia-idade, parece que a forma como funcionamos até então pode começar a entrar em colapso e a perder o sentido, passando a ser questionada, incompreendida, e isso tudo, além de causar um enorme estranhamento, pode também apavorar o indivíduo que está vivenciando a crise. Hollis aponta que “O que o indivíduo assustado deseja acima de tudo é o restabelecimento da noção do eu que anteriormente deu certo.” (HOLLIS, 1995 p. 51).

Citando Jung, diz que essa fase: “É geralmente o momento em que um novo ajustamento psicológico, uma nova adaptação é exigida”. Esse ajustamento psicológico é reflexo de um processo energético da psique para alcançar maior  estabilidade quando se instaura uma dominância unilateral do ego que exclui outras necessidades da alma. Conforme Magaldi (2019), o Self promove impulsos que tem como meta fazer com que o ego se abra ao processo evolutivo da psique, e pode acabar provocando situações críticas que possibilitem uma mudança do estado de consciência egóica para haver uma adequação aos valores intrínsecos e até então desconhecidos do inconsciente. A partir dessa pressão do Self, do inconsciente, o ego entra em crise, pois resiste aos impulsos do Self, mas, ao mesmo tempo, é movido a buscar mudanças, e isso leva por sua vez à transformação da consciência, e a um possível retorno aos valores intrínsecos do Self ou da psique mais ampla.

A tarefa é assustadora, pois precisamos primeiro reconhecer que não existe salvação, nem pais que fazem tudo melhor e nenhuma maneira de voltar a uma época anterior... A estrutura do ego que nos esforçamos tanto para criar se revela agora insignificante, assustada e sem respostas. Na meia-idade, o Si-mesmo conduz o conjunto do ego a uma crise a fim de realizar uma correção no curso. (HOLLIS, 1995 p. 131)

Nem todos que chegam até a meia-idade percebem a vida dessa maneira. Pelo contrário, algumas pessoas parecem enrijecer, como que apegadas por demais na sua forma de ser, nos seus valores egóicos - como aqueles indivíduos que se agarram desesperadamente à sua condição momentânea de vida, seja nos aspectos financeiros, de posição, de relacionamento ou de dependência, por exemplo, com medo que seus castelos de areia desmoronem. E há, também, o medo do que se aproxima durante a segunda metade da vida, pois conforme as palavras de Jung: “(...) muitas pessoas se petrificam na idade madura, olham para trás e se agarram ao passado, com um medo secreto da morte no coração” (JUNG, 1934/2013, p. 363). Ainda segundo Jung (1934/2013, p. 364), a partir do meio da vida somente quem se dispõe a morrer continua vivo, pois essa fase da vida significa a descida, a redução, o encolhimento, tendo a morte como alvo final. A morte e a vida constituem uma antinomia, uma não existe sem a outra, ambas fazem parte de um único processo. Mas há outros que apesar do medo, apreensão, ansiedade e incompreensão advindas da confusão, frustração e perda de identidade permitem-se experimentar com mais facilidade o fluxo da vida, que podemos comparar com a destruição de Shiva, confiantes na reconstrução de Brahma.

Hollis (1995 p.25, 30 e 35) não fixa um período, uma faixa de idade para essa “passagem do meio”, como ele designa a transição da vida adulta-provisória para a segunda idade-adulta. Para ele, a passagem do meio é mais uma experiência psicológica do que cronológica associada, entre outros fatores, a questões de ordem existencial: “quando perguntamos: Quem sou eu, além da minha história e dos papéis que representei?”. Ou ainda: “quando o pensamento mágico da infância e o pensamento heróico da adolescência não mais coincidem com a vida que ela [a pessoa] vivenciou”. Nossas expectativas foram frustradas, nos sentimos traídos pelos outros e pela vida que não satisfizeram as necessidades do nosso eu narcísico, e assim experimentamos uma sensação de vazio e de perda de significado que provocam a crise da meia-idade.

Quando chegamos à idade do meio e olhamos para trás, podemos sentir na alma a dor de algumas das escolhas equivocadas que fizemos, nos sentimos envergonhados e humilhados pelos nossos erros regidos por pretensão, ingenuidade e projeções. Duas afirmações de Hollis ilustram de forma linda e dura esse momento da vida. A primeira é: “Qualquer pessoa na meia-idade terá testemunhado o colapso das projeções, esperanças e expectativas, e experimentado as limitações do talento, da inteligência e, frequentemente, da própria coragem” (HOLLIS, 1995 p. 30). Na segunda, Hollis reflete sobre a nossa frustração quando percebemos que o nosso contrato tácito e infantil com o universo, de que se fizermos a nossa parte e agirmos corretamente as coisas darão certo, porque afinal, o Universo fará a parte dele, não se sustenta na realidade objetiva da vida, e nos sentimos traídos: “Assim, salvo o choque, a confusão, e até mesmo o pânico, o resultado fundamental da passagem do meio é sermos humilhados; Sentamos com Jó sobre o monte de esterco, despojados de ilusão, e nos perguntamos onde foi que saiu tudo errado” (HOLLIS, 1995 p. 57).  

Na crise do meio, como em todas as outras, é preciso ter calma, compreensão, nos perdoarmos pela nossa inconsciência, e ao mesmo tempo, termos coragem e confiança de que encontraremos uma acomodação, mesmo que momentânea até a crise seguinte, para as nossas angústias e incertezas. Com a confusão, frustração e humilhação da meia-idade vamos apreendendo que somos humanos, como todos os outros, e não mais heróis como um dia podemos ter suposto que éramos. Aceitamos, enfim, que precisamos nos responsabilizar pela nossa própria vida, nossas escolhas e que nem nós e nem os outros, sejam pais, cônjuges, amantes, amigos, irmãos, filhos, serão capazes de plenamente nos satisfazer ou nos dar segurança, pois existem limites. Não conseguiremos realizar tudo o que a nossa alma deseja, percebemos com mais clareza a fragilidade do corpo e da vida, vislumbramos que há um limite maior ainda: a morte, a nossa finitude e a dos que amamos. (Cf. HOLLIS, 1995, p.27, 30 e 45).

Para Jung (1934/2013 p. 365-367), um dos maiores focos da segunda metade da vida é lidar com o alvo final da existência, ou seja, com “a morte como a realização plena de sentido da vida e sua verdadeira meta”. “O homem que envelhece – quer queira, quer não – prepara-se para a morte” (JUNG, 1934/2013, p. 367). Jung continua, trazendo um alento que faz muito sentido quando diz que é apenas uma tentativa teórica indicar onde se inicia e onde se termina um processo, uma vez que os acontecimentos e processos fazem parte de um contínuo indivisível. Em relação ao processo da morte ele explica:

Distinguimos os processos uns dos outros, com o fim de defini-los e conhecê-los melhor, mas, no fundo, sabemos que toda divisão é arbitrária e convencional. Este processo não interfere no contínuo do processo mundano porque “começo” e “fim” são, antes e acima de tudo, necessidades do processo de conhecimento consciente. Podemos certamente afirmar, com bastante certeza, que uma consciência individual chegou ao fim enquanto relacionada conosco. Mas não é de todo certo se isto interrompe a continuidade do processo psíquico, porque hoje em dia não se pode afirmar a ligação da psique com o cérebro, com tanta certeza quanto há cinquenta anos. Primeiro que tudo, a Psicologia precisa ainda de digerir certos fatos parapsicológicos, o que não fez até agora. (JUNG 1934/2013, p. 369)

O consensus gentium (consenso universal) tem teorias sobre a morte que podem ser observadas nas grandes religiões do mundo, que podem inclusive serem vistas como um sistema coletivo de preparação para a morte. As religiões são elaborações inconscientes, espalhadas universalmente, que influenciam a humanidade através da história, e isso só acontece pois os símbolos religiosos são verdades psicológicas naturais. (Cf JUNG 1934/2013, p. 365-366)

Com as duras percepções que nos chegam no meio da vida, algumas ampliações de consciência hão de vir junto, relacionadas à humildade, à autenticidade, à visão de naturalidade da morte e ao alinhamento com o coração a respeito do mistério da vida e de sua eventual continuidade após a morte. Na segunda metade da vida, se abandonarmos as antigas certezas do ego e nos dispusermos a nos reposicionar em relação ao mundo exterior – carreira, relacionamentos, fontes de fortalecimento e satisfação, e nos abrirmos para o declínio da vida que culminará na morte, podemos enxergar inúmeras possibilidades. A segunda fase da vida nos convida a descobrir novas formas de viver, de nos sentirmos melhores e mais adequados aos nossos próprios desejos, à nossa idade, ao nosso corpo, de nos autorresponsabilizar, exigindo menos dos outros e mais de nós mesmos. Dessa forma, essa nova maneira de sentir a vida permite que nossas relações externas e internas se tornem mais prazerosas, compreendendo a falta, a fragilidade e a finitude de tudo o que nos envolve, inclusive de nós mesmos.

Tarsila De Níchile– Membro analista em formação do IJEP

Santina Rodrigues de Oliveira - Membro didata do IJEP.

Referências:

GRIFFA, M. C. & MORENO, J.E. Chaves para a psicologia do desenvolvimento: Adolescência, Vida Adulta e Velhice. 8 ed. São Paulo: Paulinas, 2001.

HOLLIS, James. A Passagem do Meio: da miséria ao significado da meia-idade   São Paulo: Paulus, 1995.

JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. A dinâmica do Inconsciente. 10 ed. Petrópolis: Vozes, 1934/2013.

JUNG, Carl Gustav. Freud e a Psicanálise. In: HOLLIS, James. A Passagem do Meio: da miséria ao significado da meia-idade   São Paulo: Paulus, 1995.

MAGALDI, Waldemar. Carl Gustav Jung – Vida, Obra e Correlações – Apostila de aula IJEP (Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa), 2019.


[i] Para Griffa e Moreno (2001 p. 75) as fases da vida adulta subdividem-se em vida adulta jovem, dos 25 aos 30 anos; vida adulta média, dos 30 aos 50 anos; e vida adulta tardia, dos 50 aos 65 anos. Para os fins de nossa discussão, consideraremos os aspectos psicológicos em jogo nesse processo, de modo que a idade biológica aqui apontada não deve ser entendida rigidamente.


Tarsila De Níchile - 20/10/2021