CRISE E DEPRESSÃO NA ERA DO PLÁSTICO

CRISE E DEPRESSÃO NA ERA DO PLÁSTICO Psicologia Junguiana

A persona coletiva da nossa atual sociedade de consumo nos força ao automatismo alienante do si mesmo. Tendemos a ficar paralisados diante do chamado da individuação, numa atitude meramente adaptativa à normalidade patológica contemporânea, mantendo o Ego aprisionado na jornada do herói equivocada, do sujeito poderoso, destemido e conquistador de muitos tipos de posses, ao invés de estimulá-lo a se entregar para a alma e servir a coletividade, consciente da sua finitude e em busca do amor.

O Ego, identificado com esse aspecto da imagem arquetípica do herói, que é patológica apesar de ser muito estimulada, busca sentimentos de unificação totalitarista para afugentar a angústia e o mal-estar do vazio e da falta de sentido existencial. Assim, o Ego heroico, iludido nas certezas reducionistas, polarizadas e unilaterais, e na contínua busca de controle, posse e segurança, acaba fixado nas justificativas do certo, muitas vezes respaldado pela ciência, valorizando apenas o imediato e a realidade física, apesar da crescente onda de sintomas depressivos.

A medicina, também voltada para o consumo e o lucro, ficou baseada apenas nas evidências concretas da bioquímica e da genética, deixando de lado a alma e toda a subjetividade humana. Quando muito, ela alivia os sintomas dessa situação neurótica da alienação do si mesmo, mas não atua diretamente na causa da doença. A resultante dessa atitude heroica, tanto da ciência reducionista quando do capitalismo da exclusão, é a nossa atual sociedade polifóbica, com muita dificuldade para estabelecer relações de troca, que acabou desembocando na plastificação das coisas e dos homens, contribuindo para a depressão.

A depressão é a doença mais comumente diagnosticada no cotidiano da sociedade contemporânea. Muitas vezes ela é confundida com tristeza ou estado de luto por algum tipo de perda, que alteram o humor da pessoa. Tristeza é oposta da alegria e a depressão é oposta da felicidade, ou falta de sentido existencial. Para mim, a depressão é equivale à negação da vida por conta do medo das experiências de morte, que produzem mais vida. O deprimido teme seu mundo interior, representado pelo inconsciente, e é por isso mesmo que, como o próprio nome da doença expressa, acontece algum tipo de pressão para dentro, para ajudá-lo resgatar sua alma. O depressivo processa os afetos de modo distorcido, produzindo emoções que irão interferir na forma dele sentir e lidar com a sua vida. Como o organismo reage às emoções produzindo ou deixando de produzir determinadas substâncias bioquímicas, é natural que uma pessoa deprimida terá alteração tanto no seu sistema imunológico quanto na bioquímica que regula o humor e os mecanismos de gratificação e recompensa do cérebro.

Assim como os seres humanos estão deprimidos, nosso planeta está intoxicado, por conta do vício e dependência que temos com os derivados de carbono fóssil. Estamos desenterrando nossa ancestralidade com a extração excessiva e inconsequente de gases e petróleo derivados dos nossos fósseis, favorecendo o consumo excessivo do inútil, do descartável e do desnecessário. Com isso, estamos contaminando e envenenando tudo e todos. Destruindo a natureza e colocando em risco o futuro do planeta.

É uma ilusão e um tremendo autoengano acreditarmos que extraímos os derivados do carbono para produzir energia. Pois, a meu ver, nosso atual conhecimento científico e tecnológico já é capaz de encontrar e direcionar, em escala, e a nível global, energias advindas de fontes renováveis e não poluentes como a hidráulica, solar, eólica, dos biocombustíveis, entre outras. Porém, estamos totalmente dependentes dos derivados de petróleo, nosso maior vilão oculto, que pode assumir várias formas e apresentações, estando presente nos defensivos agrícolas, fertilizantes, rações animais, cosméticos, tecidos, construção civil, indústria automobilística, eletroeletrônica e praticamente todas as coisas do nosso dia a dia, incluindo as próteses, obturações, asfalto, vedantes dos refrigerantes, embalagens, objetos de decoração, brinquedos, tintas, plásticos, borrachas, óleos, combustíveis, solventes, e infinidades de aplicações que tornariam essa relação muito extensa.

O interessante é que os plásticos, que são polímeros sintéticos derivados do petróleo (poliéster, polipropileno, polietileno, poliamida, silicone, lycra, ABS, PET, PVC, acrílico, fórmica, viscose, nylon, etc.) podem assumir formas, texturas, cores, translucidez, opacidade, dureza, flexibilidade, resistência ou maleabilidade, como as personas que os humanos utilizam para se relacionar, mas todas as formas possuem uma característica comum que é a impermeabilidade e, consequente, não biodegradabilidade. Com isso, estamos sofrendo a crise do impermeável, deixando o planeta impermeável, tanto no solo quanto na atmosfera, produzindo erosões, enchentes e aquecimento global. Além de estarmos também ficando impermeáveis e incapacitados de trocar, negando todo o ciclo da dádiva que implica em dar, receber e retribuir numa espiral evolutiva ascendente.

Nossa sociedade impermeável vive sob a égide do descartável, onde tudo tem que ser novo e rapidamente substituído, incluindo as relações humanas e o sistema Gaia, que é a nossa morada planetária. Devido nossa dependência do plástico, apesar de podermos usar fontes de energia renováveis e autossustentáveis, não podemos deixar de extrair petróleo e parar de incomodar nossos fósseis ancestrais com o intuito de diminuir a impermeabilidade do planeta e da vida. Não existe interesse do mercado econômico, regido pelas grandes corporações, em mudar seus parques industriais, abandonando o uso do plástico na cadeia econômica da produção, que deve representar mais de 50% de tudo que é manufaturado.

A plastificação, de tudo e de todos, gerou esse atual simulacro global de impermeabilidade e, consequente incapacidade de troca, mantendo a maioria dos indivíduos formatados e condicionados na ilusão fantasiosa, mágica e regredida, de conquistarem autonomia, autodeterminação, independência, liberdade, sucesso, riqueza, poder e felicidade. Essa é a persona do “self-made man”, do super-homem poderoso e indestrutível, apesar de infeliz por não conseguir estabelecer relações amorosas verdadeiras. Como deus Apolo: perfeito, belo, indestrutível, solitário e infeliz por não saber trocar.

É interessante notarmos que o plástico, de um lado, devido sua não biodegradabilidade, nos dá a sensação de durabilidade, mas por outro lado, devido sua impermeabilidade, que lhe impede interagir e formar vínculo, nos remete a descartabilidade. Ou seja, nosso Ego identificado com a persona do herói, está cada vez mais plastificado, simultaneamente, e paradoxalmente, permanente e descartável, acumulando egoisticamente e incapaz de estabelecer vínculos. Essa plastificação humana, pode dar aparência de mais durabilidade, mas impede o preenchimento do vazio existencial advindo da angústia existencial.

Estamos destruindo o nosso planeta que está com quase 8 bilhões de habitantes. Em 1800 éramos 800 milhões de habitantes; 1 bilhão e 200 milhões em 1900; 6 bilhões e meio em 2000. A progressão dessa explosão demográfica é assustadora. Cada cidadão produz um quilo e meio de resíduo, inclusive o gás carbônico, o planeta não aguenta isso. A grande Gaia, que é esse feminino gerador e nutridor, está exaurida. Quando negligenciamos o matriarcado negamos o cuidado. Neste atual patriarcado dominante, a desfeminilização está acontecendo em todas as instâncias. Ainda lutamos por território e poder, com acúmulo, que é a base do capitalismo. Toda humanidade quer o aumento do PIB. Todos querem aumento do faturamento das indústrias. Nenhum empresário fala: “No ano que vem vou faturar menos. Estou muito feliz, porque estamos contribuindo para a saúde do planeta”. Nenhum povo aceitaria um presidente fazer um plano para diminuição do PIB. Estamos no meio de uma crise sem precedentes. Tudo virou objeto. As relações são de objeto e objeto é descartável. Só não descartamos aquilo que formamos vínculo e isso acontece entre sujeitos. Há indivíduos que já estão casados há alguns anos com boneca/os de plástico, as/os Love Dolls, e esse comportamento é chamado de amor sintético

Para Jung, o constante confronto entre a natureza e o espírito é que vai promover e contribuir para o crescimento, a auto regulação e o equilíbrio psíquico. Sendo que, quando um indivíduo fica paralisado diante de um problema, ele está dando existência literal para sua dificuldade, fixando sua mente na queixa e interditando as soluções criativas que podem surgir, ficando plastificado ou impermeável. Quando olhamos o problema de maneira permeável, podemos reconhecer que não existe nada absoluto e que uma determinada situação adversa só se converte em problema insolúvel quando não conseguimos integrá-la em nossa vida. Ao deixamos de ser impermeáveis poderemos deixar nossos problemas permeáveis, atravessando as crises e libertando os conteúdos simbólicos que estão secretos em suas secreções dolorosas ou tristes, possibilitando uma nova configuração energética, possivelmente mais prazerosa e alegre. Esse salto, que nos faz integrar a polaridade sombria negada, Jung chama de função transcendente e é o caminho natural para o processo de individuação.

 

“A individuação é ‘tornar-se um’ consigo mesmo, e ao mesmo tempo com a humanidade toda, em que também nós incluímos...Outra questão é saber se o homem contemporâneo já possui a necessária maturidade para essa escolha. Mas igualmente questionáveis são as soluções impostas aos homens com violência, e que se antecipam ao desenvolvimento natural. As realidades da natureza não se deixam violentar por muito tempo. Como a água, elas têm a propriedade de infiltrar-se e penetrar em todos os sistemas que não as respeitam, solapando-os e levando-os, mais cedo ou mais tarde, à derrocada” (JUNG, C. G. A Prática da Psicoterapia §227)

 

A Crise é a base de toda a evolução humana. Não existe a possibilidade de crescimento e de criatividade sem que uma situação de crise seja manifesta. Desta forma, a crise gera um sentimento de violência e de violação, mas também, a possibilidade de tomada de consciência e de evolução criativa. A crise, de maneira violenta, tira o indivíduo de sua rotina profana, onde a vida é vivida sem significado e sem sentido, podendo levá-lo, pela necessidade de superá-la, à uma dimensão sagrada. Com isso, o sagrado que estava imanente pode tornar-se transcendente.

Estimula-se a negação da essência humana, com toda sua tensão natural da assimetria, do diverso, da impermanência e do indeterminado, que é repleta de polaridades e, simultaneamente, complexa, criativa, bela, patética, prazerosa, dolorosa, triste, alegre, justa ou injusta. Para superarmos essa crise, geradora de depressão e destruição ambiental, precisamos superar a dinâmica patriarcal, rumo a revolução aquariana da era da alteridade. Só assim voltaremos a valorizar a busca de sentido e significado existencial, substituindo o “ter para ser” pelo “servir para ser”. Mas, se a energia psíquica não estiver fluida e distribuída de forma integral, em todas as direções e segmentos humanos, do mais físico e denso ao mais espiritual e sutil, para que o Ego abandone sua condição Egoísta para ficar engajado na teleologia do processo de individuação, que é altruísta, iremos apenas ampliar a impermeabilização e a crise.

 

Waldemar Magaldi Filho, Psicólogo, analista junguiano, mestre e doutor em ciências da religião, especialista em psicologia analítica, psicossomática, arteterapia e homeopatia, professor e coordenador dos cursos de pós-graduação lato-sensu, que titulam e formam especialistas em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Arteterapia do IJEP – Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa – em SP; RJ e BSB. Autor do livro: “Dinheiro, saúde e sagrado” – Ed. Eleva Cultural.    www.elevacultural.com

 


Waldemar Magaldi - 21/10/2019