CULTO DA PERFORMANCE E SENTIMENTO DE INSUFICIÊNCIA NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

Culto da performance e sentimento de insuficiência no mundo contemporâneo Psicologia Junguiana

Jung foi um pensador que iniciou sua produção acadêmica muito cedo. Ainda na Universidade da Basileia era membro do Clube Zofingia onde participava de reuniões com os colegas e estudantes de outras universidades sobre temas relevantes para o desenvolvimento de seu pensamento posterior. Ele começou a desenvolver o embrião de suas teorias e visão de homem ainda muito jovem. Com base nesta imagem de Jung fiquei surpresa ao ler no livro de Cartas, volume 1, este trecho de uma carta endereçada a alguém não identificado, em 08/01/1932:

“Tenho horríveis acessos de inferioridade. Tenho de digerir uma vida inteira de erros e bobagens. Por outro lado, os sentimentos de inferioridade são um equivalente do poder. Querer ser melhor ou mais inteligente do que se é, também é poder. É bastante difícil ser como se é, suportar-se a si mesmo e ao menos uma vez perdoar os próprios pecados no amor cristão ao próximo. Isto é tremendamente difícil.” (JUNG,C.G., Cartas, Volume 1, p. 103)

Nesta data Jung estava com 57 anos, já tinha publicado obras importantes que contribuíram muito para o desenvolvimento da psicologia. É curioso ler essa declaração sobre seus sentimentos de inferioridade nessa altura da vida e a forma como enxerga esse fenômeno. Talvez a imagem que formei de Jung, através do meu percurso de estudos da psicologia analítica, era de alguém que tivesse chegado na maturidade a um ponto de equilíbrio entre os vários aspectos da psique de forma que tais sentimentos não o perturbassem mais. Perceber, através desse trecho de sua carta que ele era “humano, demasiadamente humano” e tinha a humildade de admitir, não só para si mesmo como para outra pessoa, que havia aspectos em si que o perturbavam profundamente, me levou a refletir a respeito deste tema.

Mas, do que exatamente estamos falando?

Para a psicologia analítica a psique é multifacetada, formada por antinomias, pares de opostos, com diversos aspectos conscientes e inconscientes. Conforme Jung ...” para o inconsciente os conteúdos são paradoxais e antinômicos por si mesmos, inclusive a categoria do ser.” (JUNG, C.G., Arquétipos e o inconsciente coletivo, P. 419)

De acordo com essa visão, se alguém vive o sentimento de inferioridade na consciência, o sentimento de superioridade está na esfera inconsciente. Tal compreensão é o que sustenta a frase de Jung no trecho citado acima.

Temos observado na atualidade uma queixa constante de pessoas referindo sentimento de inferioridade, de insuficiência por não se sentirem à altura das exigências que o mundo e a cultura têm imposto. Há uma sensação constante de “estar devendo”, de não corresponder ao esperado pelo meio e por si próprio.

Como chegamos nisso? Façamos uma breve retrospectiva.

Segundo estudos arqueológicos há evidências de que no nosso passado distante havia sociedades pacíficas, cooperativas, agricultores, que viviam de maneira mais integrada à natureza. O senso coletivo era o que predominava. E, também, havia culturas de pastores nômades e guerreiros que acabaram se impondo sobre esses outros agricultores através da força e da exploração. E, domínio de homens sobre mulheres.

Essa cultura patriarcal surgiu há aproximadamente 5000 anos AC, entre os povos indo-europeus. As principais características da cultura patriarcal são a ideia de apropriação, poder e dominação do homem sobre si mesmo, sobre o outro, sobre a natureza. A partir daí houve uma separação entre homem e natureza.

Sob a cultura patriarcal destacam-se os seguintes fundamentos: hierarquia, dominação, competição, controle, superioridade, propriedade, guerra, luta, separação homem-natureza, pensamento linear – binário, individualismo, visão utilitarista de mundo, dentre outras. E, mais recentemente, passamos a ter uma visão mercadológica do mundo, que acabou colocando o ser humano como mercadoria também.

E como observamos a manifestação desses valores na cultura contemporânea?

Observamos estímulo e valorização cada vez maior ao empreendedorismo, produtividade, individualismo, busca de sucesso, alta performance, iniciativa, superação de desafios, busca para ser o melhor e destacar-se, crescimento constante, velocidade, competitividade, busca por símbolos de sucesso, alcance de altos recursos financeiros, padrão de aparência que corresponda ao que é preconizado pelo marketing, etc. Enfim, vários aspectos são valorizados em detrimento de outros que ficam esquecidos, ou mesmo, desvalorizados.

Hoje temos o indivíduo no centro de tudo, a vida gerida pela lógica do mercado, pela produtividade, performance, eficiência, publicidade etc. Estes valores têm nos levado a valorizar um modo de vida hedonista em que buscamos o prazer e conforto e a negar o sofrimento e dor.  Acabamos desenvolvendo um imperativo da felicidade com todos os seus desdobramentos em forma de consumo exagerado, culto à personalidade, visão de que o mundo é para ser explorado e serve para o homem “se servir” dele etc.

E essas crenças e valores vão se enraizando em nós ao longo da vida e hoje estamos imersos nisso, achamos tudo natural e, via de regra, nos esforçamos para nos adaptar a essa visão de mundo e continuamos a reproduzir esses valores com nossos filhos e assim por diante.

Com isso, vai-se forjando uma imagem do que cada um deve ser ou vir a ser e acaba se tornando um imperativo, um molde onde cada um deve se encaixar. Adota-se uma visão de que é necessário atender a esses valores para estar incluído, se sentir aceito, estar alinhado com o que é esperado. Há uma identificação da consciência com esses princípios.

Observando nossa sociedade, contemplamos o desenvolvimento da humanidade em termos de recursos disponíveis e melhora na qualidade de vida, controle de muitas doenças, expectativa de vida aumentando de forma geral. Contudo, nos deparamos com cada vez mais sofrimento, aumento do uso de medicações psiquiátricas, crescimento de suicídio. Tal situação é muito complexa e, com certeza, sua análise envolve muitos fatores. Não é intenção abarcar profundamente todos eles neste artigo, apenas fazer um recorte sobre como a visão junguiana pode tentar entender alguns desses fenômenos.

O que fazemos para nos adaptar a esses valores e crenças? O que vemos em grande parte são pessoas sobrecarregadas, trabalhando muito, se esforçando ao máximo para atingir esses ideais, para cumprir as metas, para atingir o tal sucesso. Um esforço para superar as dificuldades, desconsiderando as características e limitações individuais. Assim, aqueles aspectos do indivíduo que não “se encaixam” nesses ideais são desvalorizados e, muitas vezes, as pessoas os percebem como sendo “errados”.

Aqueles que se adaptam e se destacam dentro dessas premissas, são cultuados como “pessoas de sucesso” e exemplos a serem seguidos. Passam a “vender” fórmulas de como obter o sucesso tão esperado.

O surgimento e crescimento das redes sociais serve como instrumento para divulgação ampla desses ideais, que são disseminados com rapidez e abrangência. As pessoas buscam e consomem avidamente essas informações e procuram “se desenvolver” para atingir os níveis de performance e sucesso preconizados.

E, parece que esse contexto social tem gerado maior individualismo e um ambiente extremamente competitivo em que se o indivíduo não conseguir atingir tais objetivos, a culpa é dele. Ficamos todos reféns desses ideais.

O que vemos em termos de saúde mental? Altos índices de depressão, ansiedade, transtornos de pânico, suicídio. Será que há um entrelaçamento entre estas manifestações e o nosso mundo, a forma como estamos vivendo? Como pensar esses fenômenos?

Jung, já na sua época dizia: “.....Ninguém pode negar que a consciência moderna se fragmentou quase irremediavelmente, na busca desses fins unilaterais e exclusivos. A consequência disto, porém, é que os indivíduos são educados para privilegiar apenas uma qualidade, em detrimento das outras, e eles próprios se tornam meros instrumentos.”. (JUNG, C.G., A Natureza da Psique, p. 731)

Para a psicologia analítica a psique é multifacetada, com antinomias, com diversos aspectos conscientes e inconscientes. Assim, se os aspectos valorizados pela cultura são unicamente sucesso, alta performance, empreendedorismo, produtividade, atividade incessante, imperativo de felicidade, acúmulo de bens, inovação, velocidade; o que essa unilateralidade vai produzir? Provavelmente vai desencadear sofrimento em quem não consegue corresponder a esses padrões e gerar insucesso, infelicidade, muito cansaço, Burnout, dificuldade de concentração e produção, depressão, sentimento de insuficiência, sofrimento, tristeza, pobreza, exploração dos recursos naturais de maneira descontrolada etc. Quem está inserido no mundo corporativo talvez sinta essa pressão mais diretamente, embora estes princípios estejam permeando toda a sociedade.  

Estes aspectos que são produzidos pela identificação unilateral da consciência com estes valores podem estimular vários complexos no indivíduo. E, o sentimento de insuficiência é o que mais tem chamado a atenção nas queixas na clínica; pessoas que se sentem constantemente aquém do esperado, que não conseguem acompanhar o ritmo das exigências e prazos para cumpri-las, cansadas, com sentimentos de inferioridade, de desvalor, de incompetência, culpados por não atingir o que as empresas / instituições propõem, que se sentem à margem deste mundo de “sucessos”, mas que têm que continuar a “jogar o jogo”, mesmo às custas de sua saúde.

Pela ótica junguiana, o que gera sofrimento é o excesso de unilateralização do ego e o sintoma aponta para a possibilidade de auto-regulação, dependendo de como a consciência lida com a situação. Nesse sentido, quando a consciência está unilateralmente identificada com os valores coletivos discutidos acima, mesmo que inconscientemente, o sofrimento pode surgir caso o indivíduo não consiga corresponder a estes valores, pois ele acha que “tem que” corresponder e, se não o consegue, é porque ele é “errado”, gerando todos os sentimentos citados acima. A possibilidade de entrar em contato com esse sofrimento, perceber que há um complexo dominante atuando e fazer o trabalho de ampliar a consciência para diminuir a intensidade deste complexo, pode ser uma forma de lidar com a angústia. Dessa forma, não se trata de lutar pura e simplesmente contra os valores disseminados culturalmente e fazer oposição a eles, mas encontrar uma forma de lidar com eles de maneira que deixem de ser uma determinação a ser cumprida de maneira despótica. Ou seja, sair da dominação do complexo.

A partir disso, é possível ampliar a reflexão e realizar um questionamento se realmente este modo de vida e esses valores são saudáveis e se poderiam ser equilibrados por outros aspectos que nos compõem como, por exemplo, maior compaixão, respeito aos ritmos individuais, uma vivência um pouco mais comunitária, de ajuda mútua e respeito às diferenças, mais inclusiva, com maior cooperação, equanimidade, ética, valorização do indivíduo pelo que é, aceitar que cada um a seu modo tem o que contribuir para um todo mais completo, etc. Questionar se temos, necessariamente, que viver neste ritmo alucinado de produção e realizações; se necessariamente precisamos acumular mais capital, mais títulos, mais prêmios etc.; são apenas algumas reflexões que me atravessam enquanto escrevo. Posso estar sonhando com uma utopia..., mas será que não estamos vivendo uma distopia? Para onde esse estado de coisas está nos levando?

Coloco a seguir o trecho de um artigo que nos instiga a pensar a respeito: “Como todo o percurso civilizatório foi forjado a partir de um modo de viver patriarcal, dentro de um processo multissecular, tendemos a pensar que o patriarcado constitui um atributo existencial da condição humana e, o que é pior, o projetamos na natureza – daí a origem da nossa crise de percepção da realidade. Ao contrário, precisamos compreender que ele é circunstancial, como Maturana e muitos outros sustentam. Portanto, se foi possível imergir nesse modo de viver, é também razoável imaginar que podemos nos libertar dele.” (RIOS NETO, 2021)  

Teresa Vieira Gama - Membro Analista em formação pelo IJEP

Ajax Salvador – Didata responsável

 

Referências:

CHUL HAN, Byuyng. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2020

EISLER, Riane. O Cálice e a Espada – Nossa história, nosso futuro. São Paulo: Palas Athena, 2020

JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. Vol. VIII/2 – Petrópolis: Vozes, 1998

JUNG, Carl Gustav. Aspectos do Drama Contemporâneo. Vol. X/2 - Petrópolis: Vozes, 1990

JUNG, Carl Gustav. Cartas. Volume 1 – 1906-1945. Petrópolis: Vozes, 2018

JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Vol. VII/2 – Petrópolis: Vozes, 2000

JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Vol. IX/1 – Petrópolis: Vozes, 2002

JUNG, Carl Gustav. Presente e Futuro. Vol. 10/1 - Petrópolis: Vozes, 2020

RIOS NETO, A. S. (18 de 03 de 2021). A agonia de uma civilização forjada no patriarcado. Acesso em 30 de 06 de 2021, disponível em OUTRAS PALAVRAS: https://outraspalavras.net/terraeantropoceno/agonia-de-uma-civilizacao-forjada-no-patriarcado/


Teresa Vieira Gama - 30/06/2021