DA ARTE A ARTETERAPIA

Da Arte a Arteterapia arteterapia

Pressupondo que tenhamos uma ideia coletiva do que seja arte, podemos nos surpreender que não existe uma categorização objetiva e clara para o que isso seja, mas esse conceito foi explorado por muitos pensadores, artistas e filósofos ao longo do tempo. Esse artigo visa pensar a arte e o processo arteterapêutico a partir da visão de Leon Tolstói no livro “O que é arte?” passando pelo olhar de Carl Gustav Jung sobre a constituição e formação de processos criativos que abrem perspectivas psicológicas ao dialogar consciente e inconsciente.

Ao buscar o sentido do que é arte encontramos muitas explicações sobre a arte ser um produto de criação humana que transmite alguma coisa, mas a avaliação do que é considerada arte, que atinge multidão, e a que é produzida dentro de um setting terapêutico são distintas e para conseguir refletir e transmitir o que são precisamos pensar o que é arte em primeiro lugar.

A atividade da arte se baseia nessa capacidade que as pessoas têm de ser contagiadas pelos sentimentos de outras pessoas. Se um homem contagia outro, ou outros, diretamente por uma aparência ou pelos sons que produz no momento em que experimenta um sentimento, se faz alguém bocejar, ou rir e chorar quando ele mesmo ri ou chora por alguma coisa, ou sofrer quando sofre, isso ainda não é arte. A arte começa quando um homem, com o propósito de comunicar aos outros um sentimento que ele experimentou certa vez, o invoca novamente dentro de si e o expressa por certos sinais exteriores. (TOLSTÓI, 2016, pág.73)

E a arte busca o que? Segundo Leon Tolstói a arte se norteia pelo que seria o conceito de beleza, mas a beleza pura e simples não seria o suficiente para categorizar algo como arte, mas a busca por algo maior, quase um arquétipo que conduza o artista a falar através da sua criação com algo sublime, o bem. Umberto Eco, reforça isso em seu livro A História da Beleza: “Belo – junto com gracioso, bonito ou sublime, maravilhoso, soberbo e expressões similares – é um adjetivo que usamos frequentemente para indicar algo que nos agrada. Parece que, nesse sentido, aquilo que é belo é igual àquilo que é bom e, de fato, em diversas épocas históricas criou-se um laço estreito entre o Belo e o Bom.” (ECO, 2004, p.8)

Tolstói reafirma muitas vezes a questão da palavra para definir conceitos, a etimologia da palavra beleza, e como é muito intrínseco a questão da definição do que seja a arte em si. “O que é esse conceito de beleza, sobre o qual se baseia a doutrina reinante da arte? Em russo, com a palavra krasota [beleza] queremos dizer somente o que é agradável aos olhos.”  (TOLSTÓI, 2016, Pág.34) e continua: “Observando o significado que a palavra “beleza”, ou o “belo”, tem na língua russa e nas línguas dos povos entre os quais a teoria da estética se estabeleceu, vemos que a palavra “beleza” é dotada, por esses povos, de um significado especial, o significado do “bem”” (TOLSTÓI, 2016, pág.36)

O bem nesse caso vem de uma construção social daquilo que moralmente é considerado conveniente ou adequado ao que se exige socialmente e culturalmente em determinado tempo e lugar. Podemos ter abrangências maiores, mas a sutileza do afeto ao que é produzido se dá por um sentimento de como a obra conversa com o coletivo e com os indivíduos particularmente. E quando vai dissecando o tema Tolstói fala: “Em contradição a principal tese de Baumgarten, eles reconhecem como objetivo da arte não a beleza, mas o bem.” (TOLSTÓI, 2016, Pág.39). Baumgarten acredita que a arte é congênere a razão, necessita de consenso para definir o belo. Sócrates já pensa no belo sendo algo que é útil. E andando por esse caminho Leon Tolstói expõe sua posição.

Nada é mais comum do que ouvir dizer, de supostas obras de arte, que elas são muito boas, mas muito difíceis entender. Estamos acostumados com essa afirmação, e, no entanto, dizer que uma obra é boa, mas incompreensível é o mesmo que dizer que um tipo de alimento é muito bom, mas as pessoas não conseguem consumi-lo.” (TOLSTÓI, 2016, pág.134)

 

Podemos começar a conjecturar aqui que o aspecto psicológico entra para entendermos a produção do indivíduo em setting arteterapêutico, precisamos antes de tudo compreensão e fleuma para entender as criações que são feitas e passam tão distantes daquilo que consideramos arte. Olhamos as nossas expressões criativas com muito julgamento e sentenciando ao feio, ou ao inútil, mas a percepção de que aquilo me traz um conteúdo que está no inconsciente e emerge como ponte para o diálogo do ego com esse conteúdo sombrio, ou não trabalhado pela consciência. A arteterapia fala de sentido, não necessariamente belo, ou o bem, mas com certeza ela traz o útil.

Falamos tanto sobre o sentido e significação da obra de arte, que já não podemos ocultar a dúvida que nos assalta em princípio: será que a arte realmente “significa”? Talvez a arte nada “signifique” e não tenha nenhum “sentido”, pelo menos não como falamos aqui sobre sentido. Talvez ela seja como a natureza que simplesmente é e não “significa”. Será que “significação” é necessariamente mais do que simples interpretação, que “imagina mais do que nela existe” por causa da necessidade de um intelecto faminto de sentido? Poder-se ia dizer que arte é beleza e nisso ela se realiza e se basta a si mesma. Ela não precisa ter sentido. A pergunta sobre o sentido nada tem a ver com a arte. Se me colocar dentro da arte, tenho que submeter-me à verdade dessa afirmação. Quando, porém, falamos da relação da psicologia com a obra de arte, já estamos fora da arte e nada mais nos resta senão especular e interpretar para que as coisas adquiram sentido, caso contrário, nem podemos pensar sobre o assunto. Precisamos reduzir a vida e a história, que se realizam por si mesmas, em imagens, sentido e conceitos, sabendo que, com isso, estamos nos afastando do mistério da vida. Enquanto estivermos presos ao próprio criativo, não vemos nem entendemos, e nem devemos entender, pois nada é mais nocivo e perigoso para a vivência imediata do que o conhecimento. Para o conhecimento, porém, devemos deslocar-nos para fora do processo criativo e olhá-lo desse lado, pois só então ele se tornará imagem que exprime um sentido. Neste caso, não só podemos, mas até devemos falar de sentido. E assim, o que antes era mero fenômeno, transforma-se em algo que, juntamente com outros fenômenos, terá sentido, algo que representará determinado papel, servirá a certos propósitos e terá efeitos significativos. E quando vemos tudo isso, temos a sensação de ter conhecido e esclarecido algo. Desta forma, ficam garantidos os requisitos da ciência. (JUNG, 2012c, §121)

 

A imagem produzida pelo processo terapêutico diferente da arte em si é conduzida por um sentido particular, não precisa atingir ninguém a não ser o criante. Lembrando que mesmo na arte “[...]o artista não pode impedir que um pouco da psicologia de sua época penetre em sua obra.” (JUNG, 2012a, §445). O artista pode produzir arte de forma terapêutica, o criante produz imagem e sua arte como um meio de acessar outras perspectivas do seu eu. O compromisso não é com o cliente, o marketing, o ganho de capital; o compromisso da Arteterapia é com o Self. E, com isso, se põe de lado muito do que é consciente e se trabalha os aspectos não revelados pelo racional.

 

A obra traz em si a sua própria forma; tudo aquilo que ele gostaria de acrescentar, será recusado; e tudo aquilo que ele não gostaria de aceitar, será a ele imposto. Enquanto seu inconsciente está perplexo e vazio diante do fenômeno, ele é inundado por uma torrente de embasamentos e imagens que jamais pensou em criar e que sua própria vontade jamais quis trazer à tona. Mesmo contra sua vontade nisso tudo é sempre o seu “si-mesmo” que fala, que é a sua natureza mais íntima que se revela por si mesma anunciando abertamente aquilo que ele nunca teria coragem de falar. Ele apenas pode obedecer e seguir esse impulso estranho... sente que sua obra é maior do que ele e exerce um domínio tal que ele nada lhe pode impor.” (JUNG, 2012c§110)

 

Quando nos permitimos mergulhar nesse processo de auto entendimento e de conhecimento de tudo que abrange o “eu sou” abrimos portas e possibilidades para viver a vida com arte. Jung escreve: “Mas não devemos esquecer que só bem pouquíssimas pessoas são artistas da vida, e que a arte de viver é a mais sublime e a mais rara de todas as artes.” (JUNG, 2012b, §789) A frustração por não encontrar o belo nas produções arteterapêuticas devem ser percebidas e conversadas, mas apesar desse desapontamento vem algo muito mais importante do que uma estética agradável com os conteúdos trabalhados: o mais belo é a intelecção de se conhecer de forma profunda, esse desvelo é o caminho para completude e integridade.

 

Bárbara Pessanha

Membro Analista em Formação do IJEP- RIO

Dra E. Simone D. Magaldi, didata responsável

 

Referências:

TOLSTÓI, Leon. O QUE É ARTE?. São Paulo, Ed. Nova Fronteira, 2016.

ECO, Umberto. A HISTÓRIA DA BELEZA. São Paulo, Ed. RECORD, 2004.

JUNG, Carl G. SÍMBOLOS DA TRANSFORMAÇÃO. Vol.5. Editora Vozes, 2012a.

JUNG, Carl G. A NATUREZA DA PSIQUE. Vol.8/2. Editora Vozes, 2012b.

JUNG, Carl G. O ESPÍRITO NA ARTE E NA CIENCIA Vol.15. Editora Vozes, 2012c.

JUNG, Carl G. A VIDA SIMBÓLICA. Vol.18/1. Editora Vozes, 2012d.

JANSON, H.W. HISTÓRIA DA ARTE. Fundação Calouste Gulbenkian, 6ª Edição.

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Bárbara Pessanha - 23/06/2021