DE QUE TRATA A MITOLOGIA?

De que trata a mitologia? Psicologia Junguiana

Para começarmos a examinar esse tema seria interessante, talvez, colocarmo-nos, a nós próprios, como seres primevos, imaginando-nos como quem acaba de chegar ao mundo antes mesmo dos nomes das coisas. Como seria? Como seria ser atravessado por todas as coisas sem a proteção dos nomes? Sem o efeito deles, que conjura e despotencializa, que nos protege do efeito mágico da própria vida em estado bruto. Talvez o simples nascer do sol, por exemplo, exercesse em nós um fascínio esmagador, contra o qual estivéssemos altamente vulneráveis, a mercê até mesmo dos menores ruídos de um mundo extraordinariamente vivo, ainda não amortecido pela magia dos nomes e por um intrincado sistema analítico como o de hoje. As próprias coisas pareceriam então já sussurrar para nossos ouvidos os seus segredos de existência. Como modestas partes integrantes dessa realidade pulsante, certamente nosso devir seria o devir de todas as coisas desse mundo. Bastaria encontrar ali as direções, as motivações, os sentidos, ou mesmo essas direções já se encontrassem em nós antes que houvesse uma consciência capaz de dizer “eu”. Não estaria ali em algum lugar a mesma voz que chamava a semente e a convidava a se tornar árvore? Não estaria ali, em algum lugar, o chamado para a chuva? Ou para os cabelos da terra crescer em grandes matagais? Ou suas lágrimas jorrarem cascatas sobre a terra? Não estaria ali também em algum lugar um chamado para que o ser humano se realizasse a si mesmo ao modo de todas as outras coisas? Não apenas o chamado, mas também o caminho para a realização desse chamado... a ser seguido pelo rastro no chão, pelo cheiro nas plantas, nos bichos, pela réstia de luz entre as folhagens seguindo o trajeto do sol, pelas vozes dos sonhos e do coração....

Mas para que a consciência pudesse subsistir como palco de atuação e realização dessas potências, sem ser aniquilada por elas, precisaria proteger-se por meio da intermediação da imagem, pois essas potências provavelmente se apresentavam ao ser humano com a qualidade da “dureza inconcebível daquela coisa intangível” (KERÉNYI, 2015, p.239). E o invisível, justamente porque inconcebível, detinha o poder terrificante e solidamente devastador dos afetos brutos.  

“Mal o inconsciente nos toca e já o somos, na medida em que nos tornamos inconscientes de nós mesmo. Este é o perigo originário que o homem primitivo conhece instintivamente, por estar ainda tão próximo deste pleroma, e que é objeto de seu pavor. Sua consciência ainda é insegura e se sustenta sobre pés vacilantes. Ele é ainda infantil, recém-saído das águas primordiais. Uma onda do inconsciente pode facilmente arrebatá-lo e ele se esquecer de quem era, fazendo coisas nas quais não se reconhece. Por isso, os primitivos temem os afetos (emoções) descontrolados, pois neles a consciência submerge com facilidade, dando espaço à possessão.” (JUNG. 2016c, §47)

Viver sendo atravessado por um mundo vivo, não um mundo que sabemos vivo por via conceitual do pensamento, mas um mundo que se apresenta vivo às sensações imediatas, que atravessa a pele, que se mistura ao sujeito e ameaça diluí-lo a todo distante, é viver a “insuportabilidade do elemento circundante” (KERÉNYI, 2015, p.300), que age sobre ele em caráter coercitivo (JUNG. 2016d, §199), ao mesmo tempo que ele é este mesmo elemento por contigüidade inconsciente, ao modo de participação mística:

“A participation mystique aponta para o grande e indeterminado remanescente da indiferenciação entre sujeito e objeto, de tal monta entre os primitivos, que não pode deixar de espantar os homens de consciência européia. A identidade inconsciente impera quando não há distinção entre sujeito e objeto. O inconsciente, nesse caso, é projetado no objeto, e o objeto introjetado no sujeito, isto é, psicologizado. Animais e plantas comportam-se como seres humanos, os seres humanos também são animais; deuses e espectros animam todas as coisas.” (JUNG. 1983, p. 59/60)

No entanto, este ser humano em participação mística com o mundo, e ao modo de outros seres vivos, emitia sons, dos gritos ao canto. Seus movimentos ritmados expressavam os ritmos vividos. Eram os sons e ritmos de seu mundo. Em seu canto primordial, a criatura se representa, expressa sua essência, “a criatura cantante se representa em e para seu mundo. Na medida em que se representa, ela se torna ciente dele e feliz, evoca-o e o reivindica alegremente”. (KERÉNYI, 2015, p.16) Em sua música primordial o ser humano se representa e representa seu mundo já que ambos são um só e a mesma coisa, e assim se revela ele ao mundo e em sua expressão, o mundo lhe surge como revelação. Para Kerenyi, (idem, p.16) a mitologia poderia ser comparada ao canto primordial. “A mitologia é a auto-representação do homem (...) e ao mesmo tempo revelação do mundo.”

Aceitando a realidade do símbolo, chegou a humanidade a seus deuses (...). (JUNG. 2016d, §188)

E qual é o mundo que se revela se não o mundo das potências que nos tomam, nos conduzem, nos arrebatam no dia-a-dia? Esse mundo está fora ou dentro de nós? Se do lado de fora sentimos as coisas de dentro e do lado de dentro sentimos as coisas de fora, então esse é o mundo das “coisas que nos acontecem”, enquanto tentamos levar conscientemente nossas vidas (JUNG, 2016a, §640). Quando sentimos a alma seqüestrada para obscuros recessos interiores, ao modo, por exemplo, de Hades e Perséfone; ou, quando arrebatados pela belicosidade de uma potência ariana, nos sentimos impelidos para a guerra, não são essas potências interiores que nos são reveladas pelas personificações e cenas mitológicas? Mesmo o devir da vida torna-se algo existente em si mesmo quando ganha rosto na figura de Hermes, o estado de algo que viaja em suspenso, volátil, que se apodera de nós fazendo-nos sentir talvez meio fora do mundo consciente no sentido de não pertencentes, sempre em trânsito, por esse e outros mundos, internos, profundos, sem fincar raízes em nenhum. Assim podemos distinguir essa potência viajante daquela caminhante - diferença um tanto sutil que os mitos fazem aparecer - que caminha com os pés na terra, em caminhos pré-definidos, sob a proteção do “deus do horizonte vastíssimo e da mais sólida base: Zeus” (KERÉNYI, 2015, p.133). Hermes, como guia, como princípio intermediário entre mundos, “se move entre o não absoluto e o sim absoluto”, entre inimigos, entre a mulher e o homem (idem, p.174), uma potência que faz pontes entre as antinomias com que todos nós temos que lidar.

Entre as antinomias, talvez uma das mais fundamentais seja entre masculino e feminino. Frequentemente o que aparece nas “figuras femininas é um reino anímico enquanto fundamento de todas as realizações nos seres vivos” (KERÉNYI, 2015, p. 173). Um reino constante e abrangente de onde o masculino nasce, se diferencia e se projeta para o mundo como um “falo jorrador de almas” (idem, p.172). Nas numerosas personificações dos princípios masculino e feminino, os vários aspectos integram um ou outro numa imagem coerente com nossas vivências e identificações com essas potências. As relações entre elas não apenas encenam dramas bastante familiares vividos e revividos nos relacionamentos de hoje em dia, como aqueles vividos em nosso cenário psíquico. Masculino e feminino parecem ainda se tratar, se enfrentar e amar através de nós ao modo das antigas histórias míticas, encontrando assim meios de se atualizarem nos mesmos e já conhecidos dramas pessoas e psíquicos. Por isso podemos dizer que as cenas mitológicas ou mitologemas, ao modo de execuções fundamentais dos mitos (idem, p. 13), tornam aparentes as transparências, colorem e fazem saltar aos olhos as potências a que estamos submetidos e que nos constituem, bem como o modo como elas se relacionam e atuam.

No entanto, hoje em dia “os deuses terríveis mudaram apenas de nome, eles rimam agora com “ismo”.” (JUNG. 2016b, §326) Bem como se escondem sob o manto de doenças ou mesmo sentimentos que se supõe controlar, seja com medicações, estratégias de comportamento ou com a simples intenção, cuja falha ou fraqueza seria responsável pela sua atuação indesejável. Desse modo, vivemos vulneráveis às catástrofes naturais e provocadas no mundo externo e a essas mesmas catástrofes no mundo interno, com a diferença de que não mais reconhecemos sua autonomia e potência.

“[...] À medida que aumenta o conhecimento científico diminui o grau de humanização do nosso mundo. O homem sente-se isolado no cosmos porque, já não estando envolvido com a natureza, perdeu a sua ‘identificação emocional inconsciente’ com os fenômenos naturais. E os fenômenos naturais, por sua vez, perderam as suas implicações simbólicas. O trovão já não é a voz de um deus irado, nem o raio o seu projétil vingador. Nenhum rio abriga mais um espírito, nenhuma árvore é o princípio de vida do homem, serpente alguma encarna a sabedoria e nenhuma caverna é habitada por demônios. Pedras, plantas e animais já não têm vozes para falar ao homem e o homem não se dirige mais a eles na presunção de que possam entendê-lo. Acabou-se o seu contato com a natureza, e com ele foi-se também a profunda energia emocional que esta conexão simbólica alimentava.” (JUNG. 1964, p. 94/5)

No entanto, essas vozes se calaram ou ainda falam em nós? Será que gritam para buscar nossa atenção, através de sintomas físicos, nas chamadas “doenças psiquiátricas” e nas vozes “alucinatórias” ouvidas pelos doentes mentais dentro ou fora de suas cabeças?

Deixamos de nos haver com a “dureza inconcebível das coisas invisíveis” apenas porque nos esforçamos para torná-las novamente invisíveis?

Os modelos tradicionais da ciência que se esforçam na direção de uma única lei para explicar o maior número de fenômenos mentais e assim torná-los visíveis e manejáveis têm se mostrado inadequados. Além disso, deram margem ao surgimento de um reducionismo radical, que busca explicar toda doença psiquiátrica em termos de neurociência molecular (KENDLER. 2008). No entanto, o reducionismo radical da práxis científica de nossa época não conseguiu conter em suas pequenas caixas conceituais as potências outrora divinas. Elas não apenas transbordam os cercados à que são relegadas, opondo grande resistência ao controle analítico voluntário, bem como à sua extinção por via medicamentosa, como continuam a configurar nossos comportamentos ao modo dos antigos mitologemas.

Na verdade, nos tempos atuais, em que evocamos a ciência ao modo do seu raciocínio lógico formal como referência do que é realidade, os mitos não foram simplesmente mortos, tornados sem efeito, relegados ao terreno do irreal, mas parecem ter continuado a atuar mesmo através da própria ciência. Afinal, a “ciência” é evocada hoje como uma espécie de entidade autônoma, que paira sobre nossas cabeças a autorizar o que é ou não real em nossas vidas. Substituindo assim a percepção pessoal, e seus componentes sensoriais e intuitivos por uma autorização externa a quem cabe invalidar ou não até mesmo a experiência subjetiva da experiência de existir como um “eu”. Essa entidade, em sua potência divina, não vive restrita aos laboratórios de pesquisa e meios acadêmicos, mas é evocada pelos seres humanos em geral toda vez que querem dar validade à sua própria visão da realidade, à sua própria cosmovisão ou crenças que se impõem por potências desconhecidas, os antigos deuses, que hoje subjazem sob a poderosa afirmação: “foi a Ciência que disse!”

Os deuses foram mortos ou se tornaram subsumidos aos instrumentos que utilizamos para matá-los? A ciência, bem como a suposta razão crítica que se ergue contra os sentimentos e se arvora em reivindicar para si o poder de controlá-los através de diversas técnicas e estratégias, ou o julgamento moral imponente que pensa submeter o mundo a uma ordem correta e justa como um Zeus, são infinitos e numerosos os exemplos. E o que vemos, coincidentemente ou não, é uma proliferação de notícias sobre líderes religiosos envolvidos em pedofilia, abusos sexuais e um aumento exponencial da doença mental em nossa sociedade científica, além dos “ismos” de que fala Jung, das catástrofes resultantes do desmatamento. Demos as costas aos deuses e eles se voltaram contra nós? Como diz Zé Ramalho na música A Terceira Lâmina (1981), o homem, “afastado da terra, pensa na fera que o começa a devorar”.

Os próprios dramas pessoais e cotidianos nos transportam para os antigos mitologemas nos fazendo pensar naquelas potências atuando nos dias de hoje. Afinal, o que nos leva, por exemplo, a tentar manter uma relação fixa e normativa com nosso mundo interno, matando toda forma de relação alternativa e imprevisível assim como Hera se vingava destrutivamente das amantes de Zeus? Ou ainda nos sentir petrificados ao olhar de frente para aspectos de nossa própria alma, assustadores como uma medusa?  E tais experiências não geram comportamentos e condicionam relacionamentos no mundo circundante? Então os comportamentos descritos nos mitologemas gregos não eram observados apenas entre os gregos e na época em que os mitos foram gerados e cultuados?

Jung reconheceu o caráter coletivo e atemporal dessas potências e as denominou arquétipos, como formas de apreensão do instinto, que têm caráter mágico, inegável valor afetivo e nos impelem para a ação; atingem a consciência sob a forma de imagens primordiais, embora em sua forma básica permaneçam irrepresentáveis e, portanto, inconscientes. (JUNG. 2016a, §280, §417, §405)

Portanto, o não reconhecimento dessas potências em nós com toda a sua justa dimensão, o que inclui sua tentativa de redução a sistemas classificatórios manipuláveis, não as elimina. Não matamos os deuses! Esse desconhecimento talvez apenas aumente sua autonomia relegada à obscuridade, de onde emergem perturbando nossas melhores intenções das mais variadas formas, vividas como autoridade externa, coletiva, seja desviando silenciosamente o curso de nossas vidas ou ao modo de crises e surtos emocionais ou psicóticos. Seja como for, quanto mais autonomia têm menos energia temos. No entanto, eles não cessam de invadir nosso mundo ordenado através das telas do cinema, bem como das artes em geral, revitalizando as imagens primordiais em nós.  Até porque, essas imagens nunca deixaram nossos sonhos. Elas, como vimos, nos prestam um duplo serviço: tornam visíveis essas potências, mas também nos protegem do contato direto com elas, como verificou Jung por experiência própria:

“Na medida em que conseguia traduzir as emoções em imagens, isto é, ao encontrar as imagens que se ocultavam nas emoções, eu readquiria a paz interior. Se tivesse permanecido no plano da emoção, possivelmente eu teria sido dilacerado pelos conteúdos do inconsciente.” (JUNG, 1961, p. 205)

E é justamente reconhecendo e tornando conscientes essas imagens, referências indiretas das profundas e inconscientes potências coletivas que atuam em nós, é que podemos elevar a personalidade a níveis mais elevados de integração.

Voltando à pergunta inicial, do que trata a mitologia, afinal, senão da “(...) coisificação do atmosférico”?  (KERÉNYI, 2015, p. 192)

Os mitos, ao modo da expressão artística, dos sonhos, da experiência religiosa, dão manifestação a essas potências carregadas de afeto em nós para que não sejamos aniquilados por elas, mas para que o invisível, o atmosférico, o volátil, ganhe forma em vias de expressão criativa, e assim possamos, cada um de nós, nos conectar ou reconectar à humanidade e à terra tornando-nos sua expressão mais singular. Expressão singular de potências coletivas. Jung nomeou esse processo “individuação”.

 

Alexandre Xavier Gomes de Araujo – Membro analista em formação do IJEP.

Ajax Salvador - Membro didata do IJEP.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 4.ed. Petrópolis: Vozes, 2016ª.

______ Memórias, sonhos, reflexões. 13ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1961.

______ O eu e o inconsciente. 4ª ed. Petrópolis: Vozes, 2016b.

______ O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964.

______ Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 4ª ed. Petrópolis: Vozes, 2016c.

______ O segredo da flor de ouro. Petrópolis: Vozes, 1983.

______ Tipos Psicológicos. 4ª ed. Petrópolis: Vozes, 2016d.

KENDLER, Kenneth S. Explanatory Models for Psychiatric Illness. Am J Psychiatry, 165:695–702. 2008.

KERÉNYI, Karl. Arquétipos da religião grega. Petrópolis: Vozes, 2015.


Alexandre Xavier Gomes de Araujo - 10/12/2021