DIÁLOGO ENTRE COSMOVISÕES: COMO A PSICOLOGIA JUNGUIANA SE APROXIMA DE ALGUNS POVOS INDÍGENAS.

Diálogo entre cosmovisões: como a psicologia junguiana se aproxima de alguns povos indígenas. Psicologia Junguiana

Na educação indígena do povo Guarani e Kaiowá, um dos fundamentos de sua cosmovisão diz que devemos ser muito sábios para sabermos respeitar a/o outra/o. Respeito que deve se estender muito além dos seres humanos: árvores, plantas, bichos, terra, natureza... pois tudo é interligado e coexistente, nada pode ser excluído, nada pode existir sem que outras partes existam (XAMIRINHUPOTY, 2016).

Jung, por sua vez, ao observar a cosmovisão Cristã, sugere que quando Cristo diz: “cada um tome sobre si o peso de sua cruz”, quer dizer que só assim, não haverá espaço para “dilacerar os outros” (JUNG, 2011, § 176). E quem seria essa/e outra/o? Embora pareça se referir apenas ao humano, podemos ampliar o simbolismo da/o “outra/o”, tangenciando assim toda a criação, afinal, segundo os ensinamentos cristãos, tudo foi criado pelo mesmo e único deus: animais, plantas, humanos. 

Ailton Krenak, pesquisador indígena brasileiro, no documentário “Guerras do Brasil.doc” (2019), pontua que quando o colonizador europeu atracou em terras desconhecidas – por ele - supôs que seus habitantes eram primitivas/os. Por isso precisavam ser pacificadas/os e catequizadas/os, convertidas/os à fé cristã, a única que o homem branco achava válida. Aos nativas/os que se negassem à renunciar sua cultura em detrimento de serem batizados, eram destilados o ódio e o extermínio, justificados pela “falta de alma da criatura pagã”. Contudo, esses povos ditos primitivas/os pelo colonizador europeu, viviam em harmonia com a fauna e flora de suas terras. Essas pessoas indígenas possuíam uma cosmovisão onde o respeito é fundamental, uma vez que tudo têm o mesmo papel e importância para o funcionamento do mundo. Sendo assim, com a chegada das caravelas e todas aquelas pessoas mortas de fome, com piolhos e várias doenças por falta de higiene básica, foram acolhidas pelas/os “primitivas/os sem alma”. Que ensinaram o homem branco a viver, se alimentar e ter hábitos de higiene necessários para habitar um país tropical. E, se não fosse por isso, os europeus teriam sido facilmente dizimados ao pisarem nas areias das praias brasileiras. Ao “pacificar” as/os indígenas o colonizador estava convencido que os defeitos apontados na/no “outra/o” não existiam neles próprios, e por isso, a/o outra/o não era digno de respeito. Afinal, era portador de todo o mal, tornando-se tela de projeção de conteúdos reprimidos do imaginário do homem branco.

Dando um salto na nossa história para o período atual, vemos ainda uma grande projeção de conteúdos acontecendo de diversas formas: desde incitações de ódio e desrespeito na internet até confrontos que chegam a envolver agressões físicas - uma busca rápida no google trará muitas notícias para ilustrar. Muitos desses atos de desrespeito ao outra/o são justificados pelos seus feitores como liberdade de expressão de suas “opiniões”. Sobre esse comportamento, Jung afirma: 

“O “livre-arbítrio” constitui um sério problema, não somente do ponto de vista filosófico, como também do ponto de vista prático, pois raramente encontramos pessoas que não sejam ampla ou mesmo prevalentemente dominadas por suas inclinações, seus hábitos, impulsos, preconceitos, ressentimentos e toda espécie de complexos. (...) Verdadeiramente, não gozamos de qualquer liberdade sem dono, mas nos achamos continuamente ameaçados por certos fatores psíquicos capazes de nos dominar sob a forma de “fatos naturais”. A ampla retirada de certas projeções metafísicas nos entrega, quase desamparados, a esses fatos, uma vez que nos identificamos imediatamente com cada impulso (JUNG, 2013, §143)”.

Ou seja, a retirada das projeções sobre o outra/o nos coloca cara a cara com o conteúdo dos complexos configurados em nós. Tarefa que não é facilmente assumida pois requer coragem, força e sabedoria, uma vez que assumir conteúdos incômodos sem projetá-los externamente é uma etapa importante no caminho da individuação.

Novamente, dentro dos ensinamentos Guarani e Kaiowá, existe a premissa que deve-se viver a vida com sabedoria, força e coragem; nos atos, pensamentos e palavras, para se viver verdadeiramente (XAMIRINHUPOTY, 2016).  A psicologia analítica de Jung aponta para que reconheçamos os conteúdos inconscientes que “fazem exigências inegáveis ou irradiam influências com as quais a consciência terá de se defrontar, quer queira quer não (JUNG, 2014, §713)”. Aqui é exigido, a premissa anterior: sabedoria, força e coragem; só assim percebemos que a/o outra/o é parte de mim, e o que rejeito ou critico também faz parte daquele/a que aponta. Uma vez que, a tendência é supormos nossas crenças como verdades únicas ou a melhor dentre as outras formas de cosmovisão, sobrepondo-nos as/os outras/os. Tal como o colonizador que chegou impondo seus preceitos.

A cosmovisão que tomamos para nós é imprescindível, pois é a base que forma e também modifica a imagem que temos do mundo (JUNG, 2014, §696), atuando na adaptação ao que chamamos de realidade, que não ocorre só de forma consciente, mas principalmente inconsciente. “Ter uma cosmovisão significa formar uma imagem do mundo de si mesmo, saber o que é o mundo e quem sou eu (JUNG, 2014, §698)”. Implica reconhecer a/o outra/o, dentro de suas diferenças, e, como já disse os ensinamentos indígenas, apenas sendo sábio podemos respeitá-lo e ouvi-lo. E Jung diz o mesmo:

“A nossa cosmovisão não é para o mundo, mas para nós próprios. Se não formamos uma imagem global do mundo, também não podemos nos ver a nós próprios, que somos cópias fiéis deste mundo. Somente quando nos contemplamos no espelho da imagem que temos do mundo é que nos vemos de corpo inteiro. Só aparecemos na imagem que criamos. Só aparecemos em plena luz e nos vemos inteiros e complexos em nosso ato criativo. Nunca imprimiremos uma face no mundo que não seja a nossa própria; e devemos fazê-lo justamente para nos encontrarmos a nós próprios, porque o homem, criador de seus próprios instrumentos, é superior à ciência e à arte em si mesmas. Nunca estamos mais perto do segredo sublime de nossa origem do que quando nos conhecemos a nós próprios, que sempre pensamos já conhecer. Mas conhecemos melhor as profundezas do espaço do que as profundezas do nosso si-mesmo onde podemos escutar quase diretamente o palpitar da criação, embora sem entendê-la (JUNG, 2014, §737)”.

Outra ponte que podemos observar é que a sabedoria indígena diz que tudo que está fora, também está dentro de nós. Bem como a alquimia estudada por Jung afirmando que tudo que está em cima também se encontra embaixo. A psicologia analítica faz uma crítica à razão tão cobiçada pelo humano moderno, onde as imagens fantasiosas provindas do inconsciente são rejeitadas com pensamentos racionalistas. Jung (2014) sugere justamente o contrário: que enriquecemos nossa consciência com o conhecimento da psique primitiva.

Prendendo-se a ciência e ignorando a natureza, que há muito já existia em relação à humanidade, encontramo-nos limitado entre o nascimento e a morte e isso causa uma desconexão com o todo. Não há uma continuidade, não parece haver algo maior que apenas “essa vida”. O que faço é para mim e, no máximo, para minhas/meus herdeiras/os - extensões de mim -, não é para o mundo, nem para o todo ou a/o outra/o. Krenak (2019) bem nos lembra que não é possível vivermos isolados: “a ideia de nós, os humanos, nos descolarmos da terra, vivendo numa abstração civilizatória, é absurda. Ela suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos (p.12)”.

Encerro aqui com uma fala indigena e com o intuito de que o contato com novas cosmovisões, “da outra” e “do outro”, nos faça refletir sobre nossa passagem por esse mundo: 

“As mudanças de muitos invernos

marcam os ciclos da Roda.

As rugas de meu rosto antigo,

mostram tudo o que posso sentir.

A natureza da minha passagem é um mistério,

pois no íntimo sou dono do meu destino.

Quando no começo dos tempos eu era um menino,

me espantava as descobertas que fazia.

Agora que sou um ancião,

descubro mais uma vez

que o peso de todo inverno

traz descobertas como um amigo.

(SAMS, 1993. p.192)”

 

Aletheia Skowronki Vedovati – Analista em Formação pelo IJEP

Analista Didata – Ajax Perez Salvador

REFERÊNCIAS:

GUERRAS de conquista (temporada 1, ep. 1). Guerras do Brasil .doc. Direção: Luiz Bolognesi. Brasil: Curta!. 2019. (25 min).

JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. Petrópolis, Vozes, 2014.

JUNG, Carl Gustav. Mysterium coniunctionis: pesquisa sobre a separação e a composição dos opostos psíquicos na alquimia. Petrópolis. RJ: Vozes, 2011.

JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião. Petrópolis, Vozes, 2013.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. Companhia das letras. São Paulo, 2019.

SAMS, Jamie. As cartas do caminho sagrado: as descobertas do ser através dos ensinamentos dos índios norte-americanos. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

XAMIRINHUPOTY, Valdelice Verón. Nhande rekoha nhe`e ayvu arandu - Para o bem viver da humanidade na cosmovisão kaiowá. In: Conselho Regional de Psicologia de São Paulo. POVOS INDÍGENAS E PSICOLOGIA: A PROCURA DO BEM VIVER. Conselho Regional de Psicologia de São Paulo. – São Paulo: CRP SP, 2016.


Aletheia Skowronki Vedovati - 30/11/2021