DISCORRENDO SOBRE A ARTETERAPIA

DISCORRENDO SOBRE A ARTETERAPIA

A arteterapia está totalmente ligada ao poder existir. A arte é uma linguagem de livre acesso, sem distinção de etnia, de credo, de classe social, de gênero... Permite que você vá fundo e resgate, traga, mostre a sua essência que é única. Trata-se de uma linguagem pura e íntima. Trata-se de valores e sentimentos que encontram na cor, na linha, na forma um canal de escoamento. Mesmo porque, a chance de se sentir obrigado a trancar-se, a fechar-se dentro de você, seja por força de uma normatização social, pela dor da perda, pelo sofrimento que a vida te apresenta, por uma sociedade que exerce pressão unilateral, manipulando escancaradamente e tirando tua existência é alta. "Ai de você expressar fora do ‘politicamente correto ou de forma contrária a maioria, geralmente, polarizada!" A arte é um código complexo que só decifra quem usa, e quem usa sente e, se sentiu, decifrou e o melhor: todos podem usar esse código. Inclusive você.

 

A arteterapia não tem compromisso com o belo ou com qualquer outro assunto. Ela é Independente da escolha de quem quer que seja. Somos privilegiados em poder usufruir de sua totalidade dentro do que nos cabe reconhecer. Para isso, devemos ser gratos a grandes mentes como Carl Gustav Jung, que brilhantemente nos abriu os olhos para o potencial de cura sempre presente na arte.

 

A terapêutica dá expressão e existência ao ser integral em nós. Ela dá possibilidade de o seu mundo expandir e tocar o outro com respeito e com amor. A arte é a ferramenta e a arteterapia é o poder manifestar seu mundo interno, na mais pura expressão do Sagrado, assim como do profano e absolutamente primitivo que habita em nós, e receber de volta na forma de totalidade, tanto os aspectos divinos, quanto os mundanos, levando-nos ao numinoso. É redescobrir a vida com existência e com ação em prol do objetivo absoluto. É a possibilidade de religação ao seu curador interno de maneira profunda, proporcionando o autoconhecimento devido, único caminho para sua evolução.

 

Através da expressão artística realiza-se uma comunicação que está para além de fronteiras do código verbal. O verbal parece ter travas para transmitir todos os conteúdos internos com esplendor. De modo diferente, a linguagem das imagens possibilita tornar visível o que é invisível, valendo-se do simbólico numinoso.

 

De acordo com Jung, o símbolo, que é fundamento da arteterapia, possibilita dar sentido mais amplo e elevado a consciência, além da nossa capacidade de compreensão atual. A arte tem fundamental importância na trajetória humana como função estruturante da consciência. A produção artística, que se manifesta como simbólica, auxiliou e auxilia na lida dos medos paralisantes, dúvidas e perplexidades frente ao desconhecido, possibilitando a conscientização significativa. Muito antes de o homem escrever, ele desenhava símbolos. Jung, antes mesmo de entender o que eram as mandalas, sentia vontade e obedecia a esse desejo, de "rabiscar" círculos. Só mais tarde percebeu que todos aqueles rabiscos tinham um centro definido.

 

Quando a psicologia analítica fala de arte, refere-se à criação e à estrutura do produto artístico. O foco está no poder criar e todo o potencial dá ao indivíduo existência. Jung afirmava que é controvertida a relação entre psicologia e arte. Pintar um quadro ou produzir uma peça artesanal pode até ser terapêutico e carrega muitos valores de diferentes ordens como: psicomotricidade, sequencialidade, troca social, ocupação, entre outros, além de valor estético no sentido de beleza. Mas, a produção artística conduzida por um arteterapeuta competente, compreende todos os valores citados e eleva o indivíduo degraus acima. Pois, seu foco está na beleza no sentido de essência, tanto do fazer quanto do feito por apresentar-nos o mundo interno.

 

Apenas aquele aspecto da arte que existe no processo de criação pode ser objeto da psicologia, não aquele que constitui o próprio ser da arte. Jung (OC XV § 97)

 

 Jung mostra, ao longo de sua obra, que o inconsciente não só reage mais age, prediz, alerta, abre horizontes, elucida. Nossos pensamentos geram imagens e, sendo o meio de comunicação do inconsciente essencialmente o simbólico, a arte é um meio eficaz para captar e concretizar esses símbolos em imagens. O pensamento antes de ser codificado em verbo foi uma imagem. E é neste diálogo com imagens simbólicas que surge a possibilidade da integração destes conteúdos na consciência.

 

Minha experiência profissional como arteterapeuta, assim como todo material acadêmico já publicado, dão referência e valor para os conceitos e prática da psicologia analítica. De maneira profunda e clara, Jung mostra-nos que os arquétipos se manifestam através de imagens. As imagens que ganham um caráter simbólico fazem ponte entre os mundos interno e externo. É obvio que antes de a psicologia analítica de Jung existir a arte já existia como manifestação do mundo interno. Mas, com as contribuições de Jung, a arte já existente foi reconhecida em seu potencial de cura, pois, pode integrar os conteúdos do inconsciente à consciência. Pessoalmente sou grato, e homenageio Carl Jung por ter nos deixado esse conteúdo para apresentar uma nova arte com status de ciência da saúde.

 

Os professores de arte costumam instigar seus alunos a imprimir a própria identidade em seus trabalhos. Encontrar a identidade brasileira na arte foi um dos marcos registrados na semana de arte moderna de 1922. O desejo era reconhecer traços próprios de uma arte própria que falasse com propriedade do próprio artista e da arte própria. Mas, sob um olhar arteterapêutico analítico isso não é uma sentença.

 

Podemos sim, descriminar alguns traços do indivíduo em sua obra de arte e reconhecer na obra traços reveladores do indivíduo. Acontece que a ansiedade cartesiana do homem em ser assertivo e dominador, gera ansiedade em encontrar uma sequência lógica e medida, permitindo a ilusão da previsibilidade. Se isso fosse possível, perderíamos toda a magia da arte. Penso que o mistério que envolve o criar é o que o sustenta. O que se produz com a consciência, torna-se passível de explicações causais. Podemos observar e apontar as influências culturais e cotidianas com certa facilidade em um trabalho artístico. Com tudo, o material que submerge das profundezas do inconsciente permanecerá fechado ao conhecimento total para o homem. Cabe a nós, reconhecer o que é possível reconhecer.

 

A obra de arte é um processo vivo e criativo. Jung explica que a obra de arte não se baseia em suas condições prévias, não são produtos de prateleira nem tem condições causais. Estão mais próximas de uma reorganização criativa. Neste pensamento, a atitude do artista tem menor peso e tanto faz que ele se tenha colocado deliberadamente à frente do impulso criador ou que este o impulso tenha tomado ele por inteiro como instrumento. O artista é a "ferramenta" para realização criativa.

 

Jung escreveu sobre a capacidade de síntese do símbolo. O que permite, portanto, que consciência e inconsciência realizem a união dos opostos e formem uma totalidade. A arte dá o suporte e fornece o material adequado para que a energia psíquica se torne visível, e que o homem fazedor de arte, atue como instrumento facilitador de acesso do mundo interno.

 

Jung percebeu a relevância do uso de técnicas expressivas como meio de acesso ao inconsciente. Reconheceu que se trata de um método claro de manifestação espontânea da vida psíquica. Sustentado pela teoria, podemos chegar à ideia de que a arte pode ser uma facilitadora do processo de individuação.

 

Sob a ótica junguiana a psique tem como princípio a tendência inata à organização. E a abordagem terapêutica através da arte pode dinamizar este processo. Por facilitar a expressão das emoções, a arte é uma excelente forma de confrontação de tais emoções.

 

A arte auxilia por meio das imagens simbólicas, o reconhecimento da própria sombra, a dissolução de complexo, a liquidação de projeções a assimilação de aspectos parciais do psiquismo a descida ao fundo do abismo, em suma o confronto entre o consciente e o inconsciente. Nise Jung - Vida e obra (pag. 88)

 

Desde épocas arcaicas, a arte funciona como meio de apreensão e reconhecimento das coisas significativas do homem, tanto nas suas experiências externas quanto internas. Escrevendo uma poesia, tocando uma música, pintando, dançando ou desenhando, somos capazes de trabalhar com forças interiores que, se permanecessem inconscientes, poderiam "esmagar-nos". Na arte, não fugimos nem evitamos que está nos perturbando, "apenas" nos defrontamos.

 

Somos dotados e, muitas vezes, invadidos por instintos e impulsos. A fome, o sono, a sexualidade, por exemplo, são expressões características do instinto. Creio não ser necessário dizer o quanto os instintos e os impulsos são de extrema importância para a preservação e conservação da espécie, estejamos falando de homens ou quatis. Mas, dentre os animais, o homem é único dotado da capacidade de reflexão.

 

Vindo do latim, a palavra reflexio significa curvar-se, inclinar-se para todas as direções. Esse movimento pode trazer benesse ou dano ao indivíduo. Como exemplo do resultado da reflexão contemporânea, que acredito ter sido positivo, o hábito de fumar, sobretudo, em ambientes fechados, e a proibição da exploração do corpo, principalmente o feminino, ligando-o as bebidas alcoólicas em propagandas publicitárias produziram transformações dos hábitos e costumes sociais. O que antes de a reflexão era comum passou a não ser, gerando o voltar a traz da opinião original. Por outro lado, infelizmente, ainda hoje o instinto da fome e da sexualidade, ainda geram comportamentos distorcidos e sofrimento psíquico. A reflexão contemporânea aponta ambos para uma distorção do que são por excelência: Um estado físico que provoca reações corpóreas.

 

A posterior sexualidade tabu e a atual libertina, a ressignificação da fome, para algo que nega o natural, são formas de percebermos os danos ao indivíduo e a sociedade por consequência. O que seria realizado por natureza de entrega íntima, ganha modos de exposição e atos coletivos com intenção deslocada para o mundo externo. Afasta do sagrado; o que seria um impulso de conservação torna-se concupiscência, desejo insaciável e incontrolável em muitos casos e, também afasta do sagrado. É a deusa Afrodite manifestando-se como sombra. Nos dois exemplos o objetivo é saciar o desejo corpóreo, egóico. Porém, como o homem não é fruto passivo do meio, ele obteve ganhos, mesmo que relativos e egóicos em ambas as situações. Do contrário nada se estabeleceria, a reflexão aconteceria e o homem cederia sua posição.

 

Reforço que me refiro exclusivamente á integração de corpo com a alma. A forma para que isso possa acontecer, cada indivíduo deverá encontrar, de acordo com sua beleza e diversidade.

 

Devido á interferência da reflexio, os processos psíquicos exercem uma atração sobre o impulso a agir, produzido pelo estímulo; por isso, o impulso é desviado para uma atividade endopsíquica antes de descarregar-se no mundo exterior. O reflexio é um voltar-se para dentro, tendo como resultado que, em vez de uma reação instintiva surja uma sucessão de conteúdos ou estados, que podemos chamar reflexão ou consideração. Assim, a compulsividade é substituída por uma certa liberdade, e a previsibilidade por relativa imprevisibilidade. Jung (OC VIII/2 § 241)

 

Reflexão é característica instintiva da psique humana. Ela nos leva para imagens impulsionadoras que podem manifestar-se inclusive no mundo externo de diferentes formas. Uma destas formas é a obra de arte. Um ponto a ser observado aqui é de que o instinto, por definição, é autônomo. Desta forma, segue automaticamente sem interferência. Em consequência desta definição de instinto, a criatividade não pode ser originária de dele. Para Jung, a força criativa e? considerada semelhante a um instinto, pois, se comporta como um - "Na realidade, há uma íntima e profunda relação com os outros instintos, mas não é idêntico a nenhum deles." Mas, em sua semelhança, lança imagens que podem ser transformadoras.

 

Se, temos a função criadora autônoma, temos um criar autônomo. Ao se debruçar sobre um trabalho de arte o deus criador impera sobre nós, como o peso que lhe é pertinente. O imperativo criador traz a conscientização, reorganização, ressignificação em prol do restabelecimento da saúde. Para a ciência, a saúde é definida por estatística, o que deixa de lado a individualidade. Na arteterapia, sobre o olhar junguiano, a doença é manifestação do indivíduo e passa ser útil, ainda que para outros pareça só doença.

 

Uma desregulação no estado clínico não é prazerosa, assim como sentimentos ruins ou uma obra de arte ruim também não são. Aos olhos da consciência o desconforto observável pode ser medido, diagnosticado e previsto. Esse controle é típico do ego que deseja manter seu suposto reinado. Mas, o encontro com a dona cura advém do encontro com senhora alma, que se dá com a possibilidade da realização do inconsciente em nossa existência.

 

WILLIAN JOSÉ DA SILVA

Analista Junguiano em formação do IJEP. Professor no curso de Arteterapia e Expressões Criativas do IJEP. Arteterapeuta, Arte Educador e Artista Plástico.

arteterapia@aterp.com.br


Willian José da Silva - 17/07/2019