EROS NO PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

EROS NO PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO Psicologia Junguiana Psicossomática Arteterapia

"Ainda que eu falasse a língua dos homens

E falasse a língua dos anjos

Sem amor, eu nada seria".

(Renato Russo)

Segundo Coríntios, 13:1-4:

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.

E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.

E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.

O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.

 

Tão importante no processo de individuação é Eros e tão pouco ou quase nada se fala sobre ele.

Eros, na mitologia grega, não está associado ao desejo sexual ou atração física. Ele é pleno, é o amor entre os apaixonados e não distingue gênero, classe social, raça, religião. Para Eros não existe classificação ou normatização do amor. Não há o amor heteroafetivo ou homoafetivo, mas sim o amor em sua totalidade e grandiosidade. Na mitologia romana, esse deus representa o amor verdadeiro, sendo chamado de Cupido, pois traz consigo flechas mágicas que unem as pessoas. Dentre as diversas versões do mito de Eros, sobre seu nascimento, a mais conhecida é que Eros é filho de Afrodite, deusa da beleza, amor e sexualidade e, de Ares, deus da guerra. Eros e Afrodite estão sempre acompanhados um do outro, pois onde há amor há o belo.

Platão, em seu livro O Banquete, rendendo glórias ao amor, entre Fedro, Pausânias, Erixímaco, Aristófones, Agatão, Sócrates e Alcibíades, promove uma discussão sobre a natureza de Eros:

Fedro defende que o amor não tem genitores, deve guiar a vida dos homens em favor do belo. Um homem jamais deve ser pego em situação de desonra ao ser amado, pois afortunados são os que amam e são correspondidos, pois que amar é ainda mais divino do que ser amado. O amor é uno, é sagrado. Reafirma Eros dizendo "eu afirmo que o Amor é dos deuses o mais antigo, o mais honrado e o mais poderoso para a aquisição da virtude e da felicidade entre os homens, tanto em sua vida como após sua morte".

Pausânias, por sua vez, diz que Eros não vive sem Afrodite e, sendo Afrodite manifesta de duas formas (Urânia - a celestial - não tem mãe e é filha de Urano e, Pandêmia - a popular - filha de Dione e Zeus), não poderia ser o amor apenas um, mas mais que um. Defende assim a subdivisão do amor, sendo experienciando de várias condições e aspectos, podendo ser vivido em Afrodite sob forma de amor eterno, celestial e imortal transitório e mortal, sendo necessários ambos os amores.

Erixímaco, contribuindo com o pensamento de Pausânias, contextualiza a possibilidade de o amor ser visto em todas as coisas, na natureza, estações do ano, pestes, animais etc e, segue, trazendo à reflexão, o sentido do amor experienciado como pathós (paixão, sofrimento, dor alma), em que o desequilíbrio poderia levar à patologia.

Aristófanes, após a fala de Erixímaco, diferente do que até então fora apresentado, explora o amor como a possibilidade de cura para muitos dos males que acometem a humanidade. Observa o poder do amor ao longo da história dos homens e, apoiado no mito dos andróginos, mostra a beleza na busca das almas gêmeas. Conta que no início havia três espécies humanas: homens, mulheres e andróginos, sendo que essa terceira era bastante forte e poderosa. Zeus temendo essa espécie ordena que ela seja enfraquecida, sendo dividida em duas metades, dessa forma, cada um com uma parte passa a vida buscando a outra metade, podendo se encaixar em formas femininas ou masculinas, de acordo com seu corte. E, assim, legitima a homossexualidade como possibilidade de amor, além da heterossexualidade. O amor é essa busca incansável por sua outra metade, por sua completude, por sua alma. É o eterno desejo de unir-se em um só.

Agatão, em sua fala, não foca em quem desfruta do sentimento amor, mas no amor em si, revelando Eros como o mais belo, jovem, sábio, feliz e corajoso dos deuses.

Sócrates, por sua vez, inicia seu discurso elogiando Agatão ter discorrido sobre as obras realizadas por Eros, deus do amor e, em seguida, buscando ampliar o assunto, faz vários questionamentos como: "É de tal natureza o Amor que é amor de algo ou de nada? " Agatão lhe responde que o Amor é amor de algo. Seguindo "Será que o Amor, aquilo de que é amor, ele o deseja ou não? " Agatão diz que sim, que o deseja. Prossegue: "E é quando tem isso mesmo que deseja e ama que ele então deseja e ama, ou quando não tem? ". Agatão responde que deseja (o Amor) o que lhe falta e, conclui-se por Sócrates e pelos demais, então, que deseja (o Amor) aquilo que ele não tem, aquilo de que é carente, logo, do que se é carente é do que se deseja e se ama, pois que não se pode desejar aquilo que se tem, mas o que lhe faz falta. Mas isto não quer dizer que o amor, por ser carente, não seja belo, ou seja necessariamente por isso feio, mas que ele pode ser visto e vivido de várias formas, além de ser sempre buscado e desejado por todos. Assim, antes de tudo, o amor é procura, carência e busca por aquilo que nos falta, que não temos. Para Sócrates o amor não é um deus, mas intermediário entre os homens e os deuses.

E, por último, Alcibíades fala para elogiar e contemplar as palavras de Sócrates: "Eu pelo menos, senhores, se não fosse de todo parecer que estou embriagado, eu vos contaria, sob juramento, o que é que eu sofri sob o efeito dos discursos deste homem, e sofro ainda agora. Quando com efeito os escuto, muito mais do que aos coribantes em seus transportes bate-me o coração, e lágrimas me escorrem sob o efeito dos seus discursos, enquanto que outros muitíssimos eu vejo que experimentam o mesmo sentimento; ao ouvir Péricles, porém, e outros bons oradores, eu achava que falavam bem sem dúvida, mas nada de semelhante eu sentia".

Ao fim dos discursos, temos seis interessantes e distintas versões sobre as propriedades e características do amor em suas diversas formas e possibilidades e, em todas elas, não podemos deixar de notar que somos, pelo amor, enobrecidos, humanizados, compassivos, mais leves e criativos e, sobretudo, o amor nos torna semelhantes. O amor é fundamental no nosso processo de individuação, o qual, segundo Jung, se torna significativo na medida em que o indivíduo se torna consciente e comprometido com ele. A tomada de consciência vem acompanhada de imensa dor, uma vez que não é fácil ter consciência, porque isto implica em fazer escolhas, tomar decisões e assumir a responsabilidade pelas escolhas feitas. Escolher implica em abrir mão de alguma coisa em prol de outra, implica em dor e sofrimento. Se somos capazes de amar e reconhecer o amor no outro, este processo se tornará mais leve e proveitoso.

Jung, em sua frase "Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro", nos mostra que amor e poder são contrários e não podem estar, portanto, lado a lado. O amor não é posse, poder sobre o outro, aprisionamento, mas, muito diferente disso, jamais o amor, em suas diferentes formas, deveria ser subestimado e tentado ser encarcerado ou destruído. Como nos diz Jung:

O amor tem mais do que um ponto em comum com a convicção religiosa: exige uma aceitação incondicional e uma entrega total. Assim como o fiel que se entrega a seu Deus participa da manifestação da graça divina, também o amor só revela seus mais altos segredos e maravilhas àquele que é capaz de entrega total e de fidelidade ao sentimento. Pelo fato de isto ser muito difícil, poucos mortais podem orgulhar-se de tê-lo conseguido. Mas, por ser o amor devotado e fiel o mais belo, nunca se deveria procurar o que pode torná-lo fácil. Alguém que se apavora e recua diante da dificuldade do amor é péssimo cavaleiro de sua amada. O amor é como Deus: ambos só se revelam aos seus mais bravos cavaleiros. Da mesma forma critico o casamento experimental. O simples fato de assumir um casamento experimental significa que existe de antemão uma reserva: a pessoa quer certificar-se, não quer queimar a mão, não quer arriscar nada. Mas com isto se impede a realização de uma verdadeira experiência. Não é possível sentir os terrores do gelo polar na simples leitura de um livro, nem se escala o Himalaia assistindo a um filme. O amor custa caro e nunca deveríamos tentar torná-lo barato. Nossas más qualidades, nosso egoísmo, nossa covardia, nossa esperteza mundana, nossa ambição, tudo isso quer persuadir-nos a não levar a sério o amor. Mas o amor só nos recompensará se o levarmos a sério. Considero um desacerto falarmos nos dias de hoje da problemática sexual sem vinculá-la ao amor. As duas questões nunca deveriam ser separadas, pois se existe algo como problemática sexual esta só pode ser resolvida pelo amor. Qualquer outra solução seria um substituto prejudicial. A sexualidade simplesmente experimentada como sexualidade é animalesca. Mas como expressão do amor é santificada. Por isso não perguntamos o que alguém faz, mas como o faz. Se o faz por amor e no espírito do amor, então serve a um Deus; e o que quer que faça não cabe a nós julgá-lo pois está enobrecido. (JUNG, 2013, § 232, 233, 234, p. 122 e 123).

 

O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.

Carl G. Jung

Andreia Araujo -Analista Junguiana em Formação,

Contatos: 11 99730-8737 / deh.faraujo@gmail.com - Vila Mariana / SP.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BÍBLIA ONLINE. Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/acf/1co/13>. Acesso em: 16 de julho de 2019.

JUNG, Carl Gustav. Aion. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

_______________. A Natureza da Psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

_______________. Civilização em Transição. 6. ed. Vozes, Petrópolis, 2013.

_______________. O Desenvolvimento da Personalidade. 14. ed. Vozes, Petrópolis, 2013.

________________. Estudos Alquímicos. 4 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

_______________. A Natureza da Psique. 10. ed. Vozes, Petrópolis, 2013.

_______________. A Prática da Psicoterapia. 16 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

_______________. Psicologia do Inconsciente. 24. ed. Vozes, Petrópolis, 2014.

PLATÃO. O Banquete. Petrópolis: Vozes, 2017.


Andreia Araujo - 26/07/2019