FALÁCIA PARENTAL, A CULPA DO DESTINO DOS FILHOS É EXCLUSIVAMENTE DOS PAIS?

Falácia Parental, a culpa do destino dos filhos é exclusivamente dos pais? Psicologia Junguiana

Cheguei por volta da metade da minha vida e nesse espaço temporal a senhora Metanoia foi se insinuando e chegando junto. Confesso que não a recebi de braços abertos. Segundo o dicionário online de português (2020), a palavra metanoia significa mudança, transformação de caráter ou na maneira de pensar e, por extensão, modo novo de conceber ideias, de se comportar, de enxergar a vida e a realidade. Sua etimologia é grega e está associada à mudança de sentimentos. Então, temos de convir que mudanças dessa natureza, profundas como a maneira de pensar, de ver a vida e, consequentemente, de se comportar, normalmente não chegam de maneira fácil e muitas vezes são consequências de crises profundas que podem suscitar frustrações e reflexões a respeito do que já foi vivido e constituído na primeira metade da vida. Reflexões como essas perpassam pelo quanto do que somos e do que temos hoje foi planejado e plantado na nossa infância e juventude de forma consciente por nós mesmos e pelas pessoas que cuidaram de nós, o quanto somos capazes de perceber que também somos frutos de algo mais amplo do que nós mesmos, que nos atravessa e que não se importa com nossos desejos e planejamentos egóicos, e o quanto estamos satisfeitos ou frustrados com o nosso eu atual, independentemente ou não de termos alcançado os objetivos traçados anteriormente.

Nessa reflexão pessoal me deparei pensando se os caminhos que escolhi e que tracei até agora seriam decorrentes das minhas escolhas pessoais, da minha criação familiar ou simplesmente me atravessaram e foram escolhidos por algo que eu não posso identificar. Acredito que percorri as estradas da minha vida que me trouxeram a quem eu sou hoje em parte pelas opções da minha consciência e em parte pelos desígnios inconscientes. Mas quanto das minhas escolhas conscientes ou parcialmente conscientes foram decorrentes da forma como fui criada pela minha mãe e pelo meu pai, quanto foram influenciadas pela sociedade e cultura em que eu estava inserida e quanto nasceram do meu daimon, da minha alma, de quem eu sou na essência?  

Na sociedade ocidental a qual pertencemos existe uma forte crença fundamentada em parte por estudos da psicologia do desenvolvimento e da psicanálise de que as mães e pais são responsáveis por quem aquela criança é, pela forma como ela se comporta e, no futuro, por quem aquele indivíduo se torna. A família tem um papel fundamental na sociedade como responsável pela sobrevivência física, psíquica e social das crianças, como transmissora dos valores que constituem a cultura, como a linguagem, por exemplo, a fim de criar as condições para a posterior participação do indivíduo na sociedade. A família é algo tão importante que, na ausência da família de origem, o Estado e a sociedade buscam providenciar uma família substituta ou uma instituição que cumpra as funções materna e paterna. Temos, por exemplo, a teoria do apego de John Bowlby, que pesquisou sobre crianças e chegou à conclusão de que os tipos de apego que os bebês desenvolvem por seus cuidadores principais podem influenciar ao longo de toda a vida do indivíduo, pois a criança constrói um modelo representacional interno de si mesma, dependendo de como foi cuidada. Assim, quando o sentimento é de segurança em relação ao cuidador, o indivíduo provavelmente acreditará em si próprio e nas outras pessoas. Porém, quando há insegurança em relação ao cuidador, o bebê poderá evitar apegar-se, duvidar de seu próprio valor e buscar altos níveis de aprovação, intimidade e receptividade. (Cf. BOCK, 2018). Um outro exemplo da influência parental pode ser vista no modo como Bock descreve os pais como modelos para seus filhos:

As crianças encontram nos pais os modelos de como os adultos comportam-se - como atendem ao telefone e às visitas; como se portam à mesa, resolvem conflitos e lidam com a dor; o que pensam sobre os acontecimentos do mundo, etc. Os pais são os primeiros modelos de como é ser homem e ser mulher: padrões de conduta que, em nossa cultura, são marcadamente diferentes. (BOCK, 2018, p.246)

Jung (2013 p. 148) também fala sobre o modelo que a família oferece ao desenvolvimento do indivíduo: “O pequeno mundo da criança, o ambiente familiar, é um modelo do grande mundo.”

Conforme Papalia (2013, p.354), outra forma de influência que os pais exercem sobre seus filhos é a prática da parentalidade no que diz respeito à disciplina. De forma geral, podemos refletir nas práticas como:

  1. o raciocínio indutivo, que encoraja ou desencoraja o comportamento de uma criança por meio da argumentação, estabelecendo limites, demonstrando consequências lógicas de uma ação, explicando, discutindo e negociando;
  2. a afirmação de poder que aplica o controle parental por imposição física ou verbal através de exigências, ameaças, retirada de privilégios e castigos;
  3. e, ainda, a retirada do amor que pode incluir ignorar, isolar ou mostrar desagrado por uma criança.

A prática da parentalidade influi na autoestima e na socialização das crianças, em seus “comportamentos internalizantes, como ansiedade, medo e depressão e externalizantes, como agressividade, brigas, desobediência e hostilidade” (PAPALIA, 2013 p. 354).

Jung (2013 p.145), refere-se ao “complexo da imagem dos pais, isto, é toda a gama de ideias referentes aos pais”, explicando que um complexo funciona como “um sistema de ideias preenchido com libido e ativado por ela”. Jung reflete sobre casos em que as crianças têm uma identificação interior com os pais, ou seja, uma atitude mental tão semelhante que pode produzir efeitos na vida real muito parecidos com a vivência dos pais. Jung (2013 p.147) vai além e diz: “Sabemos que as primeiras impressões da infância acompanham inexoravelmente o homem durante sua vida toda e que certas influências educacionais podem confinar o homem, enquanto viver, a certos limites igualmente inexoráveis”.

Assim, podemos perceber que sofremos muito a influência dos nossos pais na nossa criação e influenciamos muito os nossos filhos e quem eles se tornarão, mas o quanto será que essa influência parental é exclusiva e decisiva para o destino do indivíduo?

O autor James Hillman, no livro O Código do Ser, contribui nessa discussão ao questionar a responsabilidade exclusiva dos pais na criação dos filhos, no capítulo Falácia Parental: “A alma individual continua sendo imaginada como um rebento biológico da árvore da família. Psicologicamente, saímos da mente de nossos pais assim como, biologicamente, nossa carne sai de seus corpos.” (HILLMAN, 1997, p.75). Ele cita uma passagem do livro Mother-Infant Bonding (Laços de Mãe e Filho, livre tradução), da escritora Diane Eyer: “Eu gostaria de pedir o impossível — que deixemos completamente de lado a palavra [laços]... [o que] nos obrigaria a perceber que uma criança não é uma massa que se possa modelar à vontade. A criança nasce com uma personalidade e uma capacidade muitíssimo diferentes.” (EYER, 1997, p.88)

Nesse mesmo capítulo, Hillman propõe um mito diferente para esse tema, em que traz a narrativa do “fruto de carvalho”, associada por ele ao mito do daimon, para explicar que na verdade seria o indivíduo quem “escolheria” seus pais para que estes lhe proporcionassem um ambiente que melhor se adequasse àquilo que ele deveria vir a se tornar, ou seja, para ser quem ele nasceu para ser no mundo. Dessa forma, a maneira como cada um seria criado pelos pais apenas contribuiria para que aquela pessoa pudesse se desenvolver da melhor forma possível, para fazer no mundo o que ela veio predestinada a se tornar.

Hillman propõe essa teorização sobre o tema argumentando que, na verdade, o mundo também é nosso pai e nossa mãe, que nos ensina, nos alimenta, nos restringe e, assim, também é responsável por quem nós somos e por quem nos tornamos. Quando ele fala que o mundo também compõe o cenário que nos educa e que nos ajuda a nos desenvolver, podemos compreender o mundo personificado nas figuras significativamente afetivas de toda a rede de nossos relacionamentos, que vão desde membros da família estendida, como avós, tios, irmãos; até aquelas que compõem propriamente outros espaços do mundo social, como professores, amigos e vizinhos. Poderíamos incluir, também, aquilo que consumimos - sejam alimentos físicos, psicológicos e espirituais -; a Natureza que nos cerca, que observamos, com a qual convivemos e da qual usufruímos; além da sociedade em que estamos inseridos com seus aspectos macrossociais, como filosofia, política, economia, cultura, que compõem uma determinada visão de mundo. Segundo Hillman, há muitas influências e personagens, além do pai e da mãe, que estimulam e ofertam conhecimentos à criança, e cada uma reagirá de uma forma ou não reagirá. Em suas palavras:  

“O fato de algumas [crianças] terem reações inesperadas, ou simplesmente se recusarem a reagir, não pode ser atribuído de forma lógica a inseguranças e perturbações em seu vínculo com os pais. Para qualquer um de nós, criança ou adulto, a pergunta mais importante de todas é: Como a coisa que vem ao mundo com você encontra um lugar no mundo? Como a minha significação se encaixa nas significações que os outros querem que eu adote?... A falácia parental não ajuda ninguém a baixar [no mundo, a ser quem se é]. Ela nos tira do fruto do carvalho e nos devolve à mamãe e ao papai, que podem já ter falecido, e nós continuarmos atolados em seus efeitos. Sou então um mero efeito, uma consequência deles... Essa psicologia (baseada na mãe) afirma que somos fundamentalmente o resultado da maneira como nossos pais nos criam e, como tal, fundamentalmente vítimas do que aconteceu no passado e deixou marcas indeléveis... somos mais vítimas da ideologia parental do que propriamente da ação parental.” (HILLMAN, 1997 p. 89)

Além disso, Hillman reflete de forma ainda mais abrangente lembrando que nossos pais individuais são, na verdade, reflexos dos nossos pais arquetípicos, das imagens originais de mãe e pai que temos inscritas em nós, como efeito da ação do inconsciente coletivo. Conforme explicou Jung, os arquétipos são imagens primordiais de natureza coletiva, são formas sem conteúdo, herdadas inconscientemente, às quais vamos dando sentido e significados subjetivos à medida que vamos experienciando em nossas vivências e relacionamentos pessoais aqueles temas universais da condição humana. Assim, os pais arquetípicos corresponderiam, metaforicamente, à imagem do par divino, do Deus e da Deusa, que acessamos psicologicamente por meio de imagens e afetos, e que podem ser tão nutridores quanto castradores, conforme nos relacionamos com tais imagos em nossa experiência concreta.

Desse modo, conforme vamos vivenciando nossos pais reais, vamos percebendo que eles são humanos, diferentes dos pais arquetípicos idealizados, mas ainda assim esses arquétipos continuam interferindo em nossa psique, pois sua numinosidade busca realizar-se no humano. Por exemplo, como se em algum grau inconsciente ainda desejássemos que nossos pais fossem tão poderosos para o bem e para o mal quanto as divindades. Na cultura patriarcal em que estamos inseridos, que desvaloriza a mitologia, as fábulas, a Natureza, a ancestralidade - que não se limita a nosso avós e bisavós, mas pode abranger tudo e qualquer coisa que veio antes de nós ou que de alguma forma nos liga à espiritualidade - somos levados a encaixar ou projetar conceitos, vivências, imagens, expectativas, ou seja, aspectos de uma vivência psicológica muito mais ampla em apenas duas figuras humanas: a mãe e o pai, como se a criação de uma criança que predomina nos primeiros anos de vida até a adolescência, pelo menos, pudesse suprimir ou prevalecer sobre as influências mais amplas e profundas que compõem o inconsciente coletivo.

É com base nesse raciocínio que Hillman apresenta o conceito de falácia parental. O termo falácia deriva do verbo latino fallere, que significa enganar e quer dizer basicamente um raciocínio errado com aparência de verdadeiro. A falácia parental refletiria, então, sobre o pensamento incorreto, mas supostamente considerado verdadeiro, de que a influência do casal parental em nossa sociedade seria tão exclusiva, a ponto de os pais serem considerados totalmente responsáveis por quem seus filhos são e serão, ignorando as demais influências poderosas de seu entorno que abarca a sociedade, o inconsciente coletivo e, tão significativo quanto os fatores anteriores, o próprio daimon, ou gênio, que no mundo antigo, sobretudo entre os gregos, acompanha toda e qualquer criança desde que ela vem ao mundo até sua morte, agindo para que ela se desenvolva em todos os sentidos, dos mais concretos aos anímicos.

A teorização desse autor pós-junguiano pode contribuir para os pais refletirem sobre a possível culpa que sentem decorrente do peso da responsabilidade exclusiva que carregam diante de dificuldades apresentadas pelos filhos, como para ajudá-los a relativizar um eventual orgulho insolente diante das conquistas de seus filhos ou de quem eles se tornaram como indivíduos. Com um olhar mais abrangente como esse, me parece também que fica mais fácil relativizarmos a culpa que imputamos aos nossos pais pelas nossas escolhas, assim como para reavaliarmos a nossa própria culpa quando nossos filhos nos apontam o dedo criticando a forma como os criamos, ou ainda quando eles não são da forma que, como pais, os idealizamos. Claro, como pais somos corresponsáveis junto ao mundo e à própria criança pelas suas escolhas e pelo indivíduo que se tornam, mas essa responsabilidade é parcial e talvez não devesse ser socialmente tão valorizada ou vendida como se fosse uma influência tão exclusiva no desenvolvimento e no destino dos filhos, de maneira que imputasse menos culpa aos pais.

 

TARSILA DE NÍCHILE – Analista em formação pelo IJEP

Analista Didata: Santina Rodrigues

 

 

Referências:

BOCK, A.M. B. Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Ed.Saraiva, 2018. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788553131327/ Acesso em: 01 Jun 2021

EYER, Diane. Mother Infant Bonding: a scientific fiction. In: HILLMAN, James. O Código do Ser. 3ª. Ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997.

HILLMAN, James. O Código do Ser. 3ª. Ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997.

JUNG, Carl Gustav. Freud e a Psicanálise. 7ª. Ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

METANOIA. In: DICIO, Dicionário Online de Português. Porto: 7Graus, 2020. Disponível em: https://www.dicio.com.br/metanoia/, acessado em 17/01/21

PAPALIA, Diane E. Desenvolvimento Humano. Porto Alegre: Grupo A, 2013. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788580552171/. Acesso em: 01 Jun 2021


TARSILA DE NÍCHILE - 23/06/2021