IBEJI: A VIVÊNCIA DO IRMÃO E O ARQUÉTIPO FRATERNO

IBEJI: A VIVÊNCIA DO IRMÃO E O ARQUÉTIPO FRATERNO Psicologia Junguiana

Ibeji são as divindades gêmeas do Candomblé, os orixás crianças, que regem o nascimento de gêmeos, a alegria, a prosperidade e a sorte (JAGUN, 2015, l. 4399). É o orixá duplo, de características infantis e o seu culto expressa a fé no futuro. No Brasil, foram sincretizados com os santos gêmeos católicos São Cosme e Damião que foram trazidos pelos colonizadores portugueses e que rapidamente tiveram seu culto difundido por serem os santos que asseguravam a alimentação, afastavam os perigos do contágio epidêmico e facilitavam o nascimento de gêmeos. (BASTIDE, 1961, p. 256)

É muito rica a mitologia do orixá Ibeji e, muito longe de querer esgotar a análise de toda a iconografia destes mitos, este artigo tem o propósito de enfatizar apenas a imagem arquetípica do irmão, o arquétipo fraterno.

Nos mitos organizados por Reginaldo Prandi, os gêmeos ora são filhos de Oyá, ora de Oxum, ora de Iemanjá. Seu pai é Xangô.

No mito: Os Ibejis são transformados em estatueta, os irmão gêmeos passavam o dia a brincar e brincar, até que um dia, em uma cachoeira um dos irmãos morreu afogado. O outro irmão começou a definhar de tristeza e solidão. Pediu a Orunmilá (o Deus supremo) que trouxesse o irmão de volta. Este, entretanto, os transformou em estátua de madeira e ordenou que ficassem juntos para sempre. Não cresceriam mais e não se separariam. Brincariam para sempre. (PRANDI, 2001, p. 369)

 Vemos aqui o forte vínculo existente entre os irmãos, vencendo inclusive a dualidade vida/morte.

A mesma temática vemos no mito Os Ibejis enganam a morte, que resumo aqui: A vida dos Ibejis era brincar e tocar uns pequenos tambores mágicos. Nesta mesma época a Morte (Icu) colocou armadilhas em todos os caminhos e começou a comer todos os homens. Os irmãos começaram a se revezar no toque dos tambores sem parar. Icu se pôs a dançar inebriadamente e não percebeu que na verdade eles se revezavam. Icu ficou muito cansada, mas não conseguia parar de dançar. Até que fizeram um acordo, onde os gêmeos parariam de tocar e a Morte retiraria as armadilhas. Assim os homens foram salvos e os Ibejis ganharam a fama de muito poderosos. (PRANDI, 2001, p. 375)

O relacionamento entre irmãos é a base sobre a qual se assentam todos os relacionamentos não hierárquicos que possam surgir no decorrer da vida. É a vivência que possibilita o desenvolvimento da alteridade. É entre irmãos que se pode experienciar vivências humanas que montam o repertório para uma vida adulta: o companheirismo, a solidariedade, a colaboração, e também a inveja, as brigas, o autoritarismo. É no irmão que se bate, e é do irmão que se apanha. É no irmão que se manda, e é dele que se recebe ordens.  O irmão é cúmplice para se permanecer nos limites ou para transgredi-los. É na experiência arquetípica do irmão que se vivenciam as polaridades.

Barcellos (2017) coloca que o irmão é uma imagem primordial da alma, e que a experiência arquetípica do irmão e da função fraternal fazem parte da atividade mitologizante da psique. Assim, mesmo a criança que não tem um irmão de sangue, um filho único, busca fora do contexto familiar alguém que ocupe este espaço, um primo, um amigo, com quem possa exercer essa relação horizontal.

Segundo este autor, fraternidade não é unificar diferenças e sim diferenciar semelhanças e o irmão “é a primeira e fundadora experiência da diversidade, da semelhança na diferença [...] permite nossa livre circulação entre singularidades éticas válidas, singularidades que fundam a própria idéia junguiana de individuação – a saber, diferenciação.” (BARCELLOS, 2017, p. 14)

O arquétipo da fraternidade – Fratria – com suas ambivalências como todo arquétipo, tem um grande impacto na individuação e com o que advém deste processo: uma maior disponibilidade para o convívio colaborativo entre as pessoas, um maior ativismo político no sentido de diminuição das desigualdades sociais, um pensamento mais ecológico que minimize a desconexão do ser humano com a natureza e que possibilite a compreensão da imanência desta.

Observemos que no mito em que enganam a morte, toda a molecagem de Ibeji em se revezarem no tambor para cansar a morte se dá em função do bem estar e manutenção da vida dos homens. Com um propósito altruísta os gêmeos conseguem seu intento brincando, com leveza e alegria. Até para a morte que, ainda que cansada, se divertiu muito.

No mito em que os irmão são transformados em estátuas de madeira como forma de levar para a eternidade este vínculo, notamos a busca da alma por esta relação que proporciona a segurança necessária para “brincar” por toda a eternidade, ou trazer para a vida cotidiana a leveza da ausência de hierarquia. Talvez por isso a ferramenta ritual utilizada nos cultos de Ibeji seja justamente uma estatueta de madeira onde estão representadas duas crianças.

Para caracterizar ainda mais este aspecto fraterno, Ibeji são mais que irmãos. São irmãos gêmeos. Gêmeos simbolizam a dualidade de todo ser e o dualismo das tendências materiais e espirituais. São o retrato das polaridades internas do homem e mostram o combate que homens e mulheres devem travar para  superá-las. Por isso gêmeos são temidos em muitas culturas: pois retratam o medo da tomada de consciência individualizadora, o medo da ruptura da indiferenciação coletiva. (CHEVALIER e GHEERBRANT, 2021).

Os gêmeos bívitelinicos são os gêmeos diferentes, gerados a partir de dois óvulos e dois espermatozoides, que desde o início formam dois embriões, com duas placentas diferentes. Não apresentam cargas genéticas idênticas e suas aparências podem ser muito diferentes. Dividem apenas o mesmo espaço, num mesmo tempo, para sua geração. Porém, os gêmeos podem ser univitelínicos, gerados a partir de um único óvulo e um único espermatozóide. São os gêmeos idênticos, necessariamente do mesmo sexo, e com a mesma carga genética. Segundo Chevalier e Gheerbrandt (2021) gêmeos idênticos simbolizam a unidade de uma dualidade equilibrada, a harmonia interior após a superação dos dualismos, quando então, a dualidade é somente aparência ou jogo de espelhos.

Todo este conteúdo é expresso no culto a estas divindades gêmeas do Candomblé, que tem o seu ponto culminante no dia 27 de setembro dia de São Cosme e Damião na igreja católica. Embora no catolicismo esse dia tenha sido mudado para 26 de setembro, prevaleceu a tradição e a festa continua sendo realizada no dia 27. Nesta festa distribui-se comida (caruru é a comida tradicional) e também doces e balas para as crianças. Cada região do Brasil possui suas peculiaridades deste culto, e Roger Bastide em seu livro Candomblé da Bahia maravilhosamente descreve este ritual que já começa nos dias que o precedem.

          Em última análise trata-se numa louvação a tudo o que está por vir, tudo o que nasce e floresce. Uma louvação os novos tempos onde a fraternidade esteja mais presente, num mundo mais justo, solidário e conectado com a natureza.

 

 

Selma de Fátima Silva Canôas – analista em formação pelo Ijep

Maria Cristina Mariante Guarnieri – analista didata responsável

 

 

 

BIBLIOGRAFIA:

CHEVALIER, J; GHEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos. 35. ed. Rio de Janeiro: José Olympio: 2021.

          BARCELLOS, Gustavo. O irmão: psicologia do arquétipo fraterno. Petrópolis: Vozes, 2017, e-book kindle.

          BASTIDE, Roger. Candomblé da Bahia: rito Nagô. São Paulo: Companhia Editorial Nacional, 1961.

          JAGUN, Márcio. Orí: a cabeça como divindade. 1. ed. Rio de Janeiro: Litteris, 2015, e-book kindle.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.


Selma de Fátima Silva Canôas - 10/12/2021