JOSEPH CLIMBER, EXEMPLO DE RESILIÊNCIA OU TEIMOSIA?

Joseph Climber, exemplo de resiliência ou teimosia? Psicologia Junguiana

Em 2006, num programa do Jô Soares, a Cia. de Comédia Os Melhores do Mundo nos apresentou o esquete da tragicomédia de Joseph Climber, interpretado pelo ator Welder Rodrigues que tornou famoso o bordão “a vida é uma caixinha de surpresas”.

“Existem pessoas que não se abatem por nada. Até mesmo os mais terríveis obstáculos são encarados como novos e maravilhosos desafios. Hoje conheceremos a história de Joseph Climber.” - Cia. de Comédia Os Melhores do Mundo

Na época esse esquete foi compartilhado milhares de vezes como sendo um vídeo motivacional, “um exemplo de perseverança… de que jamais devemos desistir” e seus bordões repetidos inúmeras vezes em todos os lugares. Nesta curiosa história que alterna entre comédia, tragédia, melodrama, a personagem se depara com situações extremas e inusitadas que “deixariam qualquer um [...] desmotivado, abatido e desanimado”, mas quem não ficaria?

Por alguns momentos, tomaremos a vida de Joseph Climber sob o ponto de vista da Psicologia Analítica e o processo de individuação. Jung acreditava que cada vida é a história de um inconsciente que se realiza e que todos estamos em maior ou menor medida submetidos a esse processo.

Joseph Climber, 17 anos de idade, campeão mundial de luta livre, no auge de sua carreira e de sua forma física. Mas a vida é uma caixinha de surpresas. E numa bela manhã de sol, Joseph Climber estava de namoricos com sua pequena Emmy. Pela qual ele era absolutamente apaixonado. Acontece que de estômago cheio, Joseph Climber foi se envolvendo com as carícias de sua pequena. E sem conseguir se controlar foi acometido por uma terrível congestão. Isso o deixou paralisado de todo lado esquerdo do corpo. Qualquer um de nós ficaria chateado, desmotivado, mas não este homem, não Joseph Climber. Que abandonou a carreira de lutador e arranjou emprego como telefonista.

Por motivos óbvios, ele só podia atender um telefone de cada vez sem anotar os recados. Isso fez com que seu cérebro fosse substituindo seus músculos de lutador. E em pouco tempo ele inventou um multi-atendador automático de telefone. Um Exemplo de perseverança, um exemplo de que não devemos desistir tão fácil. Mas a vida, a vida é uma caixinha de surpresas. E, numa bela manhã de sol, um terrível acidente aéreo faz com que Joseph Climber perdesse completamente sua voz.  - Cia. de Comédia Os Melhores do Mundo

Não temos qualquer arbítrio sobre a incidência dos eventos da vida, no entanto, podemos escolher como lidar com eles.  Apesar de trágico, o rapaz supera o infortúnio e segue sua vida com o que tem. Longe de ser exclusividade da personagem, a vida nos apresenta surpresas e adversidades que na maioria das vezes são situações importantes e delicadas impossíveis de serem negadas, mas o fato é que somente essa constatação não resolve a questão. No entanto existe um lado psicológico muito importante a ser levado em consideração.

Apesar de aleatórios, estes eventos surgem na variedade de problemas individuais que aparecem na juventude, sugere Jung, que indica resistências às forças internas e às situações do dia a dia que a pessoa está a todo momento confrontando.

A regra psicológica diz que quando uma situação interna não se torna consciente, ela acontece do lado de fora, como destino. Quer dizer, quando o indivíduo permanece íntegro e não se torna consciente de seu oposto interior, o mundo deve forçosamente representar o conflito e ser dividido em metades opostas. (O.C. 9/2 par. 126)

No caso de Joseph Climber os acontecimentos parecem chamá-lo à reflexão sobre as escolhas, valores vividos, mas parece ainda não ter prontidão.

Juntamente com a voz, ele perde seu emprego como telefonista. Qualquer um de nós ficaria chateado, abatido. Mas lembre-se que estamos falando de Joseph Climber! Que passou a se comunicar através de gestos feitos com a sua mão direita. E vejam o que é a perseverança, veja o que é à força de vontade: graças à fantástica habilidade adquirida, ele se tornou maestro da orquestra de sua cidade.

Mas nem tudo são flores na vida de Joseph. Numa bela manhã de sol, Joseph descansava à sombra de uma árvore, quando uma bombinha de São João estoura ao seu lado, deixando-o completamente surdo. Qualquer um de nós ficaria chateado, abatido, quem sabe até desmotivado, mas, por Deus, este é Joseph Climber.  - Cia. de Comédia Os Melhores do Mundo

Aqui podemos refletir sobre um jovem que acidentalmente ficou paralítico de um lado do corpo, logo depois ter perdido a voz, em seguida perdido a audição, não se sentiria tão motivado e animado para continuar uma vida normal, exceto em condições de alienação, neste caso, causado pelo trauma. Um trauma pode desencadear uma alienação ou dissociação do si-mesmo como uma forma de autoproteção e afastamento da imagem do trauma.

E, nesse período da vida resolveu abandonar a cidade, mudou-se para o campo para ter contato com a natureza, mas não ficou parado não. Lá, numa fazenda, arranjou emprego como operador de uma máquina de moer cana. Um exemplo de perseverança! Um exemplo de que não devemos desistir tão fácil.

Mas a vida é uma caixinha de surpresas e, numa bela manhã de sol, o trabalho ia de vento em popa, quando a máquina tritura seu braço direito. O mais impressionante é que, mesmo sem poder falar, Joseph Climber solta um urro desesperado de dor. Qualquer um de nós ficaria chateado, desmotivado, mas este é Joseph Climber, o maior exemplo vivo de perseverança já visto sobre o planeta Terra!

Esse conjunto de eventos parecem estar relacionados ao “complexo traumático” que o levou “à dissociação da psique.” Pois “o complexo não se submete ao controle da vontade, mas possui autonomia psíquica.” (O.C. 16/2 par. 266–7)

Joseph Climber voltou para a cidade. E, em uma noite especial, fechado em seu apartamento, envolto em uma aura de magia e um estranho vento que soprava do leste, Joseph Climber incorpora o espírito de Van Gogh e passa a pintar belíssimos quadros com sua perna direita. Logo é convidado a expor em todas as grandes galerias do mundo, EUA, Europa, Ásia. Mas a vida… A vida, esta sim, é uma caixinha de surpresas...

A autonomia do complexo, Jung explica que “se manifesta independentemente da vontade, podendo inclusive mostrar-se diretamente antagônico às tendências conscientes.” (O.C. 16/2 par. 266–7) Assim mesmo sem poder usar as mãos, esse complexo o toma de forma tal que se expressou usando os pés para pintar.

Fica evidenciado que a personagem não tem qualquer controle dos eventos, não consegue intervir e nem os assimila, possivelmente não tem consciência dos mesmos e reage sem reflexão. Pois o “complexo impõe-se à consciência com uma força tirânica. A explosão de fundo afetivo é comparável a uma investida global contra a personalidade: o indivíduo é como que atacado por um inimigo ou um animal selvagem.” (O.C., 16/2 par 266–7)

Pois numa bela manhã de sol, ao tentar invocar o espírito de Van Gogh, Joseph Climber acidentalmente incorpora o espírito de Hagar, o Terrível, e, numa horrenda luta mediúnica, amputa as próprias pernas.

Para Jung essas “alienações do si-mesmo”, são modos de se despojar da realidade, “em benefício de um papel exterior ou de um significado imaginário. Em ambos os casos, verifica-se  uma preponderância do coletivo. A renúncia do si-mesmo em favor do coletivo corresponde a um ideal social; passa até mesmo por dever social e virtude, embora possa significar às vezes um abuso egoísta.” (O.C. 7/2 par. 267)

Até o momento vários incidentes inerentes à vontade foram vivenciados a nível traumático, mas aqui nos deparamos com um cenário diferente, a automutilação causada pela possessão de um complexo sombrio. Certamente esse é um complexo despertado pelos traumas anteriores ou pela contínua negação do si-mesmo e, de acordo com a intensidade mostrada, indica uma forte supressão do ego ao ponto da mutilação.  Jung compara ao primitivo que se “expressaria este fato muito apropriadamente, declarando convencidamente que algum espírito estranho está envolvido no caso. Muitos complexos autônomos surgem dessa maneira.” (O.C. 8/2 par. 594 Natureza)

Jung reconhece que “certos complexos surgem depois de experiências dolorosas ou desagradáveis na vida do indivíduo. São experiências pessoais de natureza emocional, que deixam feridas psíquicas duradouras atrás de si.  Uma experiência desagradável é capaz de sufocar, por exemplo, qualidades preciosas de uma pessoa.  Isto dá origem a complexos inconscientes de natureza pessoal. Uma parte dos complexos autônomos se originam destas experiências pessoais. A outra parte, porém, deriva de uma fonte totalmente diferente do inconsciente coletivo.  (O.C. 8/2 par. 594)

“No fundo, trata-se de conteúdos irracionais, de que o indivíduo jamais teve consciência anteriormente. Ao que sei, estas experiências interiores acontecem, ou quando algum fato exterior produz um abalo tão forte no indivíduo que sua concepção anterior da vida desmorona” (O.C. 8/2 par. 594)

Ou seja, com a supressão do ego, torna-se extremamente difícil a assimilação da experiência nuclear e transformadora. A predominância do inconsciente não parece ser saudável, indicando que a estrutura adequada da psique estaria na manutenção do ego como agente estruturante ao invés de uma entrega ou unilaterização pelo inconsciente.

Qualquer um de nós ficaria desmotivado, sem vontade de cantar uma bela canção, mas, por Deus, este é Joseph Climber! Que, em pouquíssimo tempo, se tornou o mais importante funcionário da agência dos Correios, selando milhões de cartas por dia. Um exemplo de que não devemos desistir tão fácil. Não devemos desistir nunca!

Novamente, nenhuma assimilação é percebida e ele se move para nova adaptação num novo trabalho. Ele parece determinado a persistir se movendo sempre, se adaptando em uma nova ocupação, no entanto, algo inconsciente parece se opor toda vez que alcança uma certa tranquilidade a essa dinâmica predominante da consciência.

Na psicologia analítica essa tranquilidade alcançada a cada adaptação pode ser um estado chamado de abaissement du niveau mental, que se caracteriza por um estado relaxado onde a atenção e concentração são aliviadas permitindo que certas inibições sejam superadas e conteúdos do inconsciente surjam.

Se este for o caso, o quadro clínico de neurose pode se aplicar a Joseph Climber, pois “um abaissement pode ser produzido por várias causas: por fadiga, sono normal, intoxicação, febre, anemia, afetos intensos, choques, doenças orgânicas do sistema nervoso central; da mesma forma, pode ser induzido por psicologia de massa ou uma mentalidade primitiva, ou por fanatismo religioso e político, etc. Também pode ser causado por fatores constitucionais e hereditários” (O.C. 3 par. 513)

E nesse caso, há indicação de ser o efeito de uma “disposição psicológica mais ou menos latente que sempre existiu antes do abandono, de modo que este último não é mais do que uma causa condicional” (O.C. 3 par. 515)

Mas a vida… (Joseph diz: — Vai tomar no c*%&$!!!)”

Essa reação instintiva parece indicar que Joseph está no limite.

A vida, esta sim, é uma caixinha de surpresas. Pois acreditem: numa bela manhã de sol, devido a uma onda de sorteios por correspondência, o trabalho de Joseph quintuplica e devido ao estresse, ele morde e engole a própria língua.

Sem emprego, sem dinheiro para pagar o aluguel, Joseph Climber só vê uma saída. Joseph Climber vendeu as suas córneas para um banco de olhos. Qualquer um de nós ficaria chateado, abatido, desmotivado, quem sabe até um pouco “jururu”, mas este é Joseph Climber! Este incrível ser humano que aqui está, hoje ganha a vida como feliz e bem-sucedido peso para papel!"

Seria Joseph Climber uma versão de Cândido, o otimista? Ou seria como o resiliente e sofrido Jó bíblico? Ou ainda uma mistura de ambos?

Se procurarmos extrair os fatores comuns e essenciais da variedade quase inexaurível dos problemas individuais que encontramos no período da juventude, deparamo-nos com uma característica peculiar a todos os problemas desta fase da vida: um apego mais ou menos claro no nível de consciência infantil, uma resistência às forças fatais existentes dentro e fora de nós e que procuram nos envolver no mundo. (O.C. 8/2 par. 764)

Outra possibilidade é ver Joseph Climber como um herói cujas circunstâncias o colocaram na rota de sua história pessoal. Um herói vem “do mundo cotidiano e se aventura numa região de prodígios sobrenaturais; ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva" (CAMPBELL, 1998), e devido aos êxitos obtidos em cada etapa, podemos também ver certo paralelo com o mito do herói “que retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios aos seus semelhantes” (CAMPBELL, 1998). O poder de Joseph Climber parece por um lado uma inquebrantável persistência em prosseguir sua jornada independente dos percalços, e por outro lado como uma enorme teimosia, devido sua desconexão com o espírito das profundezas.

Estes atributos indicam as qualidades essenciais do símbolo redentor, de que falamos acima. O critério da ação “divina” é a força irresistível do impulso inconsciente.  O herói é sempre aquela figura dotada de força mágica que torna possível o impossível. O símbolo é o caminho intermédio em que se unem os opostos em vista de um movimento novo, uma corrente de água que, após longa seca, faz brotar fertilidade. A tensão que precede a solução é comparada a uma gravidez. (O.C. 6 par. 492)

Até que ponto devemos ir antes de desistir? Será que realmente nunca devemos desistir? Talvez o infortúnio que inviabilize o caminho escolhido não seria o sinal de mudança? Ou seria este um desafio nos chamando à nossa própria história pessoal? Além disso, devemos salientar que o verdadeiro herói é aquele que se sacrifica para um bem maior, a serviço do todo e não exclusivamente para a satisfação do ego.

No início da doença sentia que minha atitude anterior tinha sido um erro e que eu próprio era de qualquer forma responsável pelo acidente.  Mas quando seguimos o caminho da individuação, quando vivemos nossa vida, é preciso também aceitar o erro, sem o qual a vida não será completa: nada nos garante — em nenhum instante — que não possamos cair em erro ou em perigo mortal.  (Memórias, Sonhos, Reflexões - C. G. Jung p. 308 versões eletrônica)

Parece que ao vivermos nossa história trazemos os limites da vida para mais perto. Até quando resistir até desistir?

A resistência se dirige contra a ampliação do horizonte da vida, que é a característica essencial desta fase.  Esta ampliação ou “diástole” – para empregarmos uma expressão de Goethe – começa bem muito antes disto.  Começa com o nascimento, quando a criança sai dos estreitos limites do corpo da mãe, e aumenta incessantemente, até atingir o clímax no estado problemático, quando o indivíduo começa a lutar contra ela.

(O.C. 8/2 par. 765)

Na perspectiva da Psicologia Analítica estes acontecimentos já implicariam numa mudança de atitude na consciência.

Joseph Climber demonstra estar alheio aos acontecimentos reagindo com um ar de otimismo inocente e logo se adapta seguindo sua vida, parece não ter se conscientizado do ocorrido. Porém o processo de individuação ocorre em colaboração com o ego, isto é, “só é real se o indivíduo estiver consciente” do processo e mantém uma ligação viva com ele. (V. FRANZ, O Homem e Seus Símbolos, 2016) De fato a adaptação é um fator requerido no processo, mas nesse caso não houve aprofundamento na experiência e, portanto, não houve assimilação. Parece que a energia psíquica está continuamente voltada para frente e para fora, evitando, desesperadamente que ela flua para dentro e para baixo, numa contínua negação da sombra e do si-mesmo, e esse é o erro de Climber. Apesar da incansável perseverança de Joseph Climber, seu otimismo se demonstrou inocente impossibilitando sua assimilação do real e do simbólico assim, portanto, inviabilizando seu processo de individuação.

Alexandre Nascimento - Membro Analista em formação pelo IJEP

Analista didata: Waldemar Magaldi

REFERÊNCIAS

CAMPBELL, Joseph. ISTO ÉS TU Redimensionando a metáfora religiosa. São Paulo/LANDY, 2002

CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1998.

SOARES, Maura Selvaggi, O significado do envelhecimento e as etapas da vida: IJEP, 2019 https://www.ijep.com.br/artigos/show/o-significado-do-envelhecimento-e-as-etapas-da-vida

JUNG, Carl Gustav. Obras Completas: Vozes, 1984.

VON FRANZ, Marie. O Processo de Individuação, O Homem e Seus Símbolos: Harper Colins, 2016


Alexandre Nascimento - 12/08/2021