MALÉVOLA - A SOMBRA DA SOMBRA É A LUZ

MALÉVOLA - A SOMBRA DA SOMBRA É A LUZ

Ao pensarmos em sombra na maioria das vezes nos remetemos ao "mal", "ruim" ou "o que não gostamos". Esse escrito não tem a intenção de concluir algo, menos ainda de apontar caminhos, mas o fato é que, dentro da teoria Junguiana, é sabido que se na consciência temos certa atitude, na inconsciência acontece o seu oposto.

Isso fica evidente no filme Malévola (Disney, 2014), a produção é uma nova versão do clássico conto Bela adormecida, porém, conta onde começou o "ódio da bruxa má" pela princesa Aurora. Os contos de fada são usados de tempos indeterminados até os dias atuais, todos trazem alguma mensagem ou moral à cerca do tema que abordam e essas mensagens são transmitidas de geração a geração. Porém, com o tempo, a transcrição verbal e a cultura que está inserido tais contos acabam sofrendo modificações. Estas modificações muitas vezes acompanham o zeitgeist (Estés 2005). A evolução do papel feminino é bastante visível ao compararmos o conto de Grimm, que possui uma mãe passiva e fora da perspectiva central da história (Grimm, Jacob 1785 - 1863) e o filme onde a mãe biológica da Bela Adormecida ainda é ausente, porém o papel e a função de maternagem é executado por Malévola, que ao mesmo tempo é a bruxa má que a amaldiçoa. Na psicologia analítica o arquétipo de mãe ganha um grande destaque na teoria, mesmo estando inclusa numa sociedade patriarcal (Hopcke 2012), o arquétipo e a evolução da mãe/mulher são importantes desde os primórdios, sendo expresso em diferentes culturas e em diferentes épocas a todo o tempo (Neumann 2006).

Um breve resumo do filme para que possamos nos situar: Malévola era uma fada com asas enormes e morava em um reino encantado, cheio de criaturas mágicas onde não havia governantes, apenas respeito mútuo entre os seres. Ela era apenas uma menina quando conheceu Stefam, um menino que foi até o reino roubar joias. A partir desse momento eles desenvolvem uma amizade e com o passar dos anos esse sentimento evolui para amor. No décimo sexto aniversário de Malévola, Stefam lhe dá de presente um beijo, dizendo ser de amor verdadeiro. Mas, como Stefam era humano e cresceu dentro de um reino cercado de ambição, não tardou para que esse sentimento lhe tomasse também. Os reinos onde Malévola e Stefam moravam apesar de vizinhos eram rivais. Então, no leito de morte, o rei diz que quem matasse Malévola seria o próximo rei e também teria a mão de sua filha. Stefam deseja o trono mais que tudo, trama e executa seu plano. Mas não consegue matar Malévola, apenas rouba-lhe as asas para poder enganar o rei dizendo que a matou. A partir deste fato Malévola começa fazer jus ao nome. Com isso Stefam ganha o trono e se casa com a princesa, anos depois nasce a filha do casal, chamada Aurora. E a seguir se desenrola a trama clássica da maldição: espetar o dedo na roca na adolescência e cair em sono profundo de onde só se sairia com um beijo de amor verdadeiro. Acontece que até que Aurora cresça, no filme, Malévola cuida de longe da menina, salvando-a de vários riscos. E mesmo cuidando de longe desenvolve afeto por ela. Até que um dia elas ficam cara a cara, passam a conversar e o sentimento cresce cada vez mais entre elas. A partir daí a trama do filme se desenrola de uma forma não convencional ao conto original.

Fazendo um recorte, Malévola era considerada bruxa, feiticeira e perigosa pelos humanos. E de fato, dentro de toda sua tristeza, magoa e raiva obscureceu seu reino. Deixando-o sem cores, alegria e com barreiras espinhosas intransponíveis. Para completar amaldiçoou uma criança recém-nascida. O reino a reflete: uma alma ferida. Desde o nome até o traje, aparência e cores, Malévola se mostra sombria, todos a temem e ela parece gostar do fato. Mas, mesmo diante disso, ela ainda assim protege o reino, as criaturas e principalmente a princesa Aurora, o alvo de sua maldição. O faz fingindo ser apenas por obrigação, por vingança, para que a profecia se cumpra e por motivos externos a ela, sempre negando o sentimento de amor e cuidado.

Da mesma forma, podemos observar esse aspecto luz na pessoa sombria em outros clássicos do cinema como "O poderoso chefão", a animação "Meu malvado favorito", "Sete vidas", "Antes de partir" e até mesmo na série "Dexter", por exemplo, a lista é longa. Ou seja, na consciência se expressa uma maldade que amedronta a todos, mas no inconsciente a atitude é oposta.

Com isso, fica o questionamento: se fisicamente é comprovado que quanto maior a luz, maior a sombra, quanto de sombra tem na sua luz?

 

 

Referencias:

GRIMM Jacob, 1785 - 1863. Contos dos Irmãos Grimm / organizado, selecionado e prefaciado pela Dra. Clarissa Pinkola Estés; ilutrado por Arthur Rackham; tradução de Lia Wyler. - Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

HOPCKE, Robert H. Guia para obra completa de C.G. Jung/ Robert H Hopcke ; tradução de Edgar Orth e Reinaldo Orth. 3. Ed. - Petropólis, RJ : Vozes, 2012.

JUNG, C. G. Os Arquétipos e o inconsciente Coletivo / Petrópolis RJ Vozes 2000.

MALÉVOLA. Direção: Robert Stromberg Produção: Joe Roth. Roteiro: Linda Woolverton. Walt Disney Pictures, 2014.

NEUMANN, Erich. A grande mãe: um estudo fenomenológico da constituição feminina do inconsciente / Erich Neumann; tradução Fernando Pedroza de Mattos, Maria Silvia Mourão Netto.  -5. Ed. - São Paulo: Cultrix, 2006.

 

Alethéia Skowronski Vedovati - Membro Analista em formação pelo IJEP.

Telefone: (44) 99958 4439 / Maringá  Email: aletheiavedovati@hotmail.com


Alethéia Skowronski Vedovati - 17/07/2019