MARIONETES DO SELF, DANDO MOVIMENTO E VOZ AS IMAGENS ARQUETÍPICAS

Marionetes do Self, dando Movimento e Voz as  Imagens Arquetípicas marionetes do Self

O teatro de bonecos tem sua origem no Antigo Oriente, em países como a China, Índia, Java e Indonésia. Chega a Europa na Idade Média, através dos mercadores, porém durante a Renascença o teatro de bonecos fica abafado. Na América eles surgem por volta do século XVI, por ser uma época de grandes descobrimentos isso facilitou a divulgação dessa arte no mundo inteiro.

Encontramos diversos tipos de teatro de bonecos ao redor do mundo: Petruchka na Rússia, Vidouchaka na Índia, Karagós na Turquia, Punch na Inglaterra, Guignol na França, Fantoccini na Itália, Mamulengo no Brasil e Bunraku no Japão. Eles são uma síntese do contexto histórico, cultural, social, político, econômico, religioso e educativo de um povo. Toda a expressão se encontra no movimento, nas características, no som que fazem a imaginação voar e transcender o mundo material.

Na sua origem o termo Marionete se origina do termo francês marionette que por sua vez tem sua origem no termo marion um diminutivo de Maria e consiste em bonecos representando animais, pessoas ou objetos animados que são manipulados por pessoas através de cordéis. Os manipuladores dos bonecos são conhecidos por marionetistas ou titereiros e normalmente ficam escondidos atrás de uma tela, só podemos ver os bonecos no palco.

Podemos ver todo o encanto das marionetes numa cena de um filme do diretor francês François Truffaut de 1959, Os Incompreendidos*, onde uma plateia de crianças é surpreendida com uma apresentação de fantoches sobre a fábula de Chapeuzinho Vermelho onde é possível perceber a emoção das crianças através dos gritos, das feições de angústia, de alegria, do susto e do riso sem que seja necessário que seres humanos ocupem o palco.

James Hillman em seu livro Ficções que curam: Psicoterapia e Imaginação poética em Freud, Jung e Adler traz a seguinte questão a qual ele mesmo responde o que a alma quer? – Ela quer histórias que curem. Ele diz que o ato de imaginar tem um aspecto curativo e que para curar sintomas, a pessoa precisa transformar a história em que se imagina estar. Ele revisita o conceito ancestral de Anima Mundi e diz que a “alma do mundo” se apresentaria para quem imaginativamente tivesse capacidade para escutá-la. Os pequenos personagens são poderosos aliados para trazer à tona, de forma lúdica mensagens dessa alma que quer se expressar.

Perseu só conseguiu derrotar a Medusa porque Atena lhe presenteou com um escudo e, através dele, ele pôde ver sua cabeça terrível refletida. Boechat diz que o objeto, seja qual for, construído pelas mãos em liberdade funciona como o espelho de Atena, possibilitando que aspectos do inconsciente sejam confrontados e elaborados de uma melhor forma. Fazer uso das marionetes como objeto para essa comunicação pode facilitar esse caminho.

Na realização plástica tridimensional, as imagens interiores que emergem revelam o poder curativo e criativo da dimensão inconsciente da psique. Há uma conexão com energias transformadoras e os significados mais profundos dos símbolos do inconsciente coletivo. As técnicas expressivas desempenham um papel fundamental na prática terapêutica e podem evocar símbolos capazes de transformar uma situação, desde que compreendidos e integrados na consciência.

A diversidade de marionetes é imensa, isso porque vários tipos de bonecos são chamados de marionetes. Eles são divididos em algumas variações:

Marionetes que são bonecos pendurados por fios quase invisíveis onde o manipulador dá vida aos personagens movimentando uma cruz onde estão amarrados os fios, onde cada fio é responsável pelo movimento de um dos membros do boneco.

Fantoches que são bonecos em que o manipulador veste os bonecos com os dedos ou a mão, geralmente confeccionados com feltro e enfeitados com vários tipos de material, toda a gesticulação do personagem é feita com os dedos ou a mão.

Boneco sombra que são figuras chapadas que podem ser feitas de papelão e presas por varetas atrás de cada boneco, visível com projeção de luz onde a atuação acontece atrás de um pano.

Boneco de Vara que são confeccionados com tecido e manipulado por vara ou varetas.

Boneco marote que é feito de luva, mas o manipulador veste com a sua mão a boca do boneco para articulá-lo.

Mãos animadas que é uma técnica criativa onde utilizamos as mãos para representar figuras pintando-as e enfeitando-as com diversos tipos de materiais.

Podemos utilizar muitas dessas opções ou o que mais sua imaginação puder criar.

A dramatização pode ser feita utilizando-se os bonecos prontos ou mesmo a confecção deles, até mesmo a construção de um cenário, partindo de sonhos que o paciente traga, de mitos ou contos de fadas que tenham a ver com a demanda dele.

De acordo com o Professor Magaldi (2019) boa parte de nossa atuação quotidiana é feita de forma automática e repetitiva, porque conteúdos inconscientes são expressos pelo Self que é o verdadeiro marionetista ou titereiro e domina os vários fantoches ou marionetes que são representações de imagens arquetípicas unilaterais.  Sendo assim o nome Marionetes do Self nesse contexto possibilita a conscientização da existência do inconsciente ampliando as possibilidades de uso de vários materiais para execução dos bonecos ou fazendo uso de vários tipos de bonecos prontos.

A aplicação da técnica ajudaria no diálogo entre o eixo ego/si-mesmo diminuindo assim as tentativas de racionalização, facilitando a percepção de projeções de si mesmo e de suas relações. Primeiro acontece a projeção para que em seguida se dê o diálogo entre ego/si-mesmo. As marionetes adquirem o valor de objeto transicional mudando a relação do indivíduo com ele mesmo em seu entorno. Este processo facilitaria o autoconhecimento e o processo de individuação.

Essa vivência expressiva possibilita, a partir do processo de confecção ou escolha do tema central e dos personagens, que também podem ser feitos de barro ou papel machê, levar o cliente, desde o procedimento de elaboração ou identificação deles, reconhecer e entrar em contato com alguns temas psicoafetivos dele, usualmente projetados em personagens reais ou imaginários, que estão presentes e recorrentes no seu cotidiano, em função dos complexos que atuam de forma unilateral e monotemática. Por isso, ao eleger os marionetes e encontrar suas “mono falas” (monólogos monotemáticos, unilaterais e literais), para depois estimularmos o diálogo do cliente com cada um deles, irá possibilitar o reconhecimento consciente dos complexos e até a diminuição dá autonomia de alguns aspectos da sua persona, que são resultantes e “manipulados” por eles, os verdadeiros marionetistas, influenciando continuamente nossas escolhas, atitudes e percepção , assim como aquilo que imaginamos ser nossa vontade livre e criatividade. (MAGALDI, 2019)

Os pequenos personagens são poderosos aliados para trazer à tona mensagens significativas de forma lúdica, amena e despretensiosa por parecerem a princípio apenas inofensivos brinquedos. O trabalho com as marionetes em arteterapia ativa o processo imaginativo de forma muito potente e transformadora. Conseguimos observar que o paciente ao dar voz e vida para o personagem deixa escapar seu controle racional, permitindo a expressão do pensamento simbólico.

Os contos de fadas são utilizados como técnica expressiva por diversas linhas terapêuticas, mas povos antigos já faziam uso dessa prática de forma inconsciente com a finalidade de curar a alma. Ao lidarmos com uma história estamos lidando com a energia arquetípica e os arquétipos nos modificam, as histórias são uma arte medicinal. Ao ouvir uma história não só os ouvidos estão atentos, mas o inconsciente fica alerta para a possibilidade de reconhecimento com o arquétipo oculto em algum personagem.

Para Jung, são nos contos de fada que encontramos o melhor lugar para estudar a anatomia comparada da psique. São nesses contos, mitos ou lendas onde obtemos as estruturas básicas da psique humana, que é representada por fadas, bruxas, príncipes, lobos etc., e estes se dividem transitando entre o bem e o mal. (MEDEIROS E BRANCO, 2012)

Podemos ler um conto de fadas e logo após disponibilizar para o paciente várias possibilidades de fantoches ou marionetes, ou ainda, propor que ele mesmo confeccione seu próprio personagem, o personagem que mais lhe chamou a atenção. É uma proposta para que ele dê tridimensionalidade ao aspecto que mais lhe sensibilizou na tentativa de emergir algum aspecto do inconsciente para ser trabalhado. O objetivo é, dentro do contexto arteterapêutico contar uma história que dê voz e movimento aos conflitos do paciente, dando tridimensionalidade aos contos de fadas podendo expressar dessa maneira a unilateralidade do ego, para promover uma dialética consciente-inconsciente para um desenvolvimento que resultará no processo de individuação.

Durante o conto já é possível perceber que reações o indivíduo terá diante dos conflitos ali apresentados. Quando passamos para a confecção das marionetes há toda uma gama de novas possibilidades de expressão. Muitas vezes, o que mobilizará o indivíduo é mais o sentimento despertado pelo conto do que realmente o personagem escolhido, fazendo com que ele se relacione de uma outra maneira com o personagem.

Devemos sempre lembrar que para a Arteterapia o que conta na produção das dramatizações é o valor simbólico do que é produzido no setting terapêutico, levamos em conta o processo e não o fim, a produção simbólica e não à estética.

Unir o uso da técnica de contação de história para contar um conto de fada, que seja pertinente ao caso em questão, e o uso de marionetes para dar tridimensionalidade ao conto só torna nosso campo de atuação ainda mais rico, uma vez que os contos já são curativos por si só e as plásticas tridimensionais fazem emergir esse poder curativo e criativo da dimensão inconsciente da psique. Há uma conexão com significados mais profundos do inconsciente coletivo auxiliando assim no caminho de individuação.

Através dá utilização ou confecção dos personagens para serem utilizados, como marionetes do Self, podemos observar que o processo se dá livremente e simbolicamente sem as barreiras impostas pelo ego. Um paciente pode passar bastante tempo com o boneco e a história a fim de elaborar algum conflito que tenha emergido, portanto, devemos deixar livre a utilização de quanto tempo o paciente quiser se debruçar sobre o tema, podendo levar até várias sessões.

Através da observação que fazemos durante a dramatização do personagem pelo paciente podemos perceber como este se relaciona com a marionete, que neste contexto nos traz algum aspecto do inconsciente. A utilização da voz, que pode ser diferente da sua ou não; a dificuldade de escolha do personagem a representar, ou ainda, a dificuldade de confecção no caso de essa ter sido a escolha do paciente. Como ele lida com os materiais, que reações ele terá diante da ¨vida¨ desses materiais que nem sempre obedecem ao seu comando e tantas outras possibilidades. Quais são as emoções consteladas ali.

A utilização deste recurso nos possibilita evocar símbolos diminuindo assim a racionalização. Através da confecção e da dramatização podemos perceber como o paciente lida com as emoções que emergem a partir de seu contato com o personagem em questão. Podemos analisar porque ele escolheu um personagem em detrimento de outros, porque escolheu usar um boneco pronto ou confeccionar seu próprio boneco. Como ele se relaciona com os materiais e que sentimentos emergem, se ele solicita a nossa participação, se fica em silêncio trabalhando ou se verbaliza, trazendo ainda mais material para a análise. Que símbolos ele evoca, trazendo-os para a consciência possibilitando a integração de um conteúdo capaz de transformar uma situação.

Essa forma de trabalho proposta pelo professor Magaldi, como modo de empregar o uso das marionetes, se mostra uma técnica riquíssima justamente pela liberdade de atuação, já que a confecção ou utilização dos bonecos não segue nenhuma premissa rígida, nos trazendo uma infinidade de possibilidades de atuação e nos auxiliando a dar ao paciente a possibilidade de dar voz e movimento aos seus conflitos mais íntimos, dar voz e movimento as dores de sua alma. Deixar emergir o verdadeiro marionetista que habita em nós.

 

Keller Villela membro analista em formação pelo IJEP

Didata responsável E. Simone D. Magaldi

 

Referências

HILLMAN, James. Ficções que curam: Psicoterapia e imaginação em Freud, Jung e Adler. São Paulo. Verus editora, 2010.

MACIEL, Carla e CARNEIRO, Celeste. Diálogos criativos entre a Arteterapia e a Psicologia Junguiana, 1ª edição. Editora Wak. Rio de Janeiro,2012.

MEDEIROS, Adriana e BRANCO, Sonia. Contos de Fada Vivências e Técnicas em Arteterapia, 2ª Edição. Editora Wak: Rio de Janeiro, 2012.

PAIN, Sara e JARREAU, Gladys. Teoria e Técnica da Arteterapia – a compreensão do sujeito, Editora Artes Médicas: Porto Alegre, 1996.

PHILIPPINI, Angela. Imaginário em Arteterapia: a Vez e a Voz dos Personagens, Editora Wak: Rio de Janeiro, 2018.

URRUTIGARAY, Maria Cristina. Arteterapia: a transformação pessoal pelas imagens. Editora Wak. RJ. 2011.

VON FRANZ, Marie Louise. A Interpretação dos Contos de Fada. São Paulo. Paulus, 7ª edição, 2008.

______________________ A Individuação nos Contos de Fada. São Paulo. Paulus, 5ª edição, 2008.

www.ijep.com.br/artigos/show/marionetes-do-self-tecnica-junguiana-expressiva-e-projetiva

www.infoescola.com/teatro/marionete/

 

* Link para a cena do filme Os Incompreendidos do diretor francês François Truffaut

https://www.youtube.com/watch?v=hTi4wuW-vXA&t=31s

 

Imagem obtida da internet. URL: https://unsplash.com/s/photos/puppets


keller Villela - 23/06/2021