MATERNIDADE EXALTADA

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Inadvertidamente, outro dia, ouvi a declaração de uma mãe, acerca do quanto ela estava com raiva do genro. A mulher, que conversava com uma amiga, num ambiente público, maldizia a vítima da eterna figura da "sogra".

Ela explicava à outra como se sentia devido ao rapaz ter "roubado sua filha e seusnetos". O afortunado (pois agora distante) tinha cometido o crime hediondo (na visão dela) de ir trabalhar na Espanha, para onde "carregou", como se em ato ilegítimo, a família toda. Ao tempo que falava, espumava nos cantos da boca.

O que ela falou, ficou pulando de um lado para outro em meio às minhas ideias. Era desconcertante a lógica usada por aquela mulher para justificar a raiva que sentia, sendo que, em nenhum momento, parava para refletir acerca da conjuntura real que possa ter levado a família de sua filha a optar pelo desterro, em busca, provavelmente, de uma conjuntura econômica mais satisfatória.

A princípio, verti minha reflexão para a configuração tragicômica da questão sogra, mas, logo a seguir, me detive ao detalhe de toda sogra trazer a ideia da mãe que a subjaz.

Lembrei-me de um poema de Khalil Gibran, em O Profeta (2008), que ao falar dos filhos, diz que eles não são "nossos" filhos, mas sim, filhos do desejo da vida por si mesma e que a vida não permanece no dia de ontem."

A maternidade une mães e filhos de maneira irremediável por seus aspectos biológicos e instintivos, para o bem e para o mal, diferente em essência da maternagem, que se refere aos aspectos arquetípicos de cuidado e afetividade, próprios da mãe, porém que podem ser efetivados por outrem. Apesar da aura romântica que envolve estes dois termos, ambos estão sujeitos as características sombrias que trazem em seu espectro abuso e desmedida sob a alcunha de amorosidade.

O arquétipo materno, assim como todos os arquétipos, contém em si um lado sadio e um patológico e a Psicologia Analítica tem se dedicado a pesquisar e esclarecer a influência deles nas relações familiares e sociais.

Querer conservar próximo de si, o que gerou, é próprio do materno. Esta característica porém, pode se manifestar positivamente, como mãe protetora cuja sabedoria se traduz em acolhimento. A experiência nutridora é essencial para a integridade física e psíquica dos indivíduos e, consequentemente dos grupos, para que individualmente possam adquirir a segurança de atravessar oceanos e desbravar outros continentes; coletivamente, é o que permite a estruturação de uma sociedade igualitária, tão ausente do mundo atual.

Por outro lado, quando se manifesta negativamente, em posse ou dominação, buscando conservar o que considera como próprio e direito, incorpora o aspecto terrível e devorador do arquétipo materno, tão bem representado na figura da medusa, cujo olhar petrifica. "A Grande Mãe" não é apenas provedora da vida, mas também é aquela que promove a morte (mesmo quando figurada na incapacidade do filho de se desligar dela). "Ela pode dar amor, como também suprimi-lo, para demonstrar seu poder" (Neumann, 2006, pág. 67).

O excesso não permite escolhas e transformações; um amor exaltado e substituído pela inflação do poder é a base das dificuldades enfrentadas pelo mundo moderno. A posse do objeto de amor, não só é vampiresca, como aniquila qualquer possibilidade de uma sociedade mais justa.

Elisa Rejane de Lima Morandini, Psicoterapeuta junguiana, analista em formação pelo IJEP

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Elisa Rejane de Lima Morandini - 15/06/2019