METAFÍSICA HEIDEGGERIANA E A ANGÚSTIA

METAFÍSICA HEIDEGGERIANA E A ANGÚSTIA Psicologia Junguiana Psicossomática Arteterapia

METAFÍSICA -  M. Heidegger

“O NADA E SEU VALOR METAFÍSICO”

 Dra Ercilia Simone Dalvio Magaldi

         “O Nada e Seu Valor Metafísico”, na visão de M. Heidegger em sua obra “QUE É METAFÍSICA”

 

         Heidegger nesse livro ao buscar, na ciência, a compreensão do ente, depara-se com o nada: “A ciência nada quer saber do nada. Mas não é menos certo também que, justamente ali, onde ela procura expressar sua própria essência ela recorre ao nada. Aquilo que ela rejeita, ela leva em consideração” (pág.25).

         Heidegger passa então a questionar: “Que é o nada?”. Vemos aí que já existe a idéia do nada como ente, algo que é. É contraditório, ambíguo, pensar no nada como algo que “é” o que quer que seja ou não.

         Seguindo-se o entendimento “o nada é a negação da totalidade do ente, o absolutamente não ente” (pág.26). A negação é ato de entendimento dentro da lógica, portanto o nada é mais originário que o não e a negação.

         Sendo, nessa direção do pensamento, o nada a negação da totalidade do ente, precisamos primeiramente entender o que é essa totalidade do ente, se é que isso seja possível.

         Heidegger então diz que nos momentos de tédio ou na alegria da existência de um ente querido, sentimos o ente em sua totalidade, ou seja, o revelar do ser-aí.

         Diante desse ente em sua totalidade temos justamente o ocultamento do nada.

         E o contrário? Quando nos deparamos com o nada? Heidegger diz que esse instante, raro, acontece por ocasião da angústia....

         No entanto, não podemos confundir angústia com temor. O temor nós o sentimos em relação a algo exterior que nos torna medrosos, inseguros, confusos.

          A angústia não tem essa relação real disto ou daquilo. Ela nos coloca diante de um vazio.  “A angústia diante de ... é sempre angústia por... mas não por isto ou aquilo”(pág. 31).

         Ou seja, a angústia traz em si a própria manifestação do nada.

         “Somente continua presente o puro ser-aí no estremecimento deste estar suspenso onde nada há em que apoiar-se” (pág.32).

         Nesse instante faz-se necessário uma reflexão sobre o filósofo: essas constatações acerca do nada e da angústia não me surpreenderiam se vindas de uma leitura de Jung, psicólogo familiarizado na sutil percepção do ente frente a esse nada que é a angústia. No entanto, quem nós vemos é um Heidegger sensível ao entendimento desse fato, comum, embora extremamente complexo, que a cada dia, em maior grau, surpreende-nos quando, em meio ao caos da modernidade, sentimo-nos sem chão, suspensos, sem identificação com o vazio circundante.

         Seguindo-se a resposta da questão percebemos que o nada que se revela na angústia, não nos é revelado como ente ou como objeto. Ele é apenas manifesto através da angústia: “Na angústia deparamos com o nada juntamente com o ente em sua totalidade” (pág.33). Vemos que o nada se revela com o e no ente, porém como algo que foge em sua totalidade.

         O nada se caracteriza pela rejeição, é a nadificação do ente em sua totalidade, não é, no entanto, a sua destruição ou a sua negação. É simplesmente a “estranheza com o absolutamente outro em face do nada” (pág. 34).

         É a alteridade do ente frente ao nada, que se conduz primeiro do ser-aí diante do ente.

         “Ser-aí quer dizer: estar suspenso dentro do nada” (pág. 35).

         O ser-aí suspenso dentro do nada possibilita a relação com o ente, conosco mesmos, livres, em nossa totalidade. É a nossa transcendência em nosso ente.

         “O nada é a possibilitação da revelação do ente enquanto tal para o ser-aí humano” (pág. 35).

         Há um dito popular que diz que: “é preciso descer ao fundo do poço para ascender à luz”. É somente através desse estado de angústia, desse vazio circundante, que nos deparamos com nossa essência, caso contrário viveremos na superfície do ser-aí.

         A angústia está sempre presente, nos a velamos através do ser-aí, raras vezes nos entregamos a este nadificar.

         “O estar suspenso do ser-aí dentro do nada originado pela angústia escondida é o ultrapassar do ente em sua totalidade: a transcendência” (pág. 39).

         Heidegger faz esses questionamentos acerca do nada para apresentar-nos a própria metafísica: “ta meta physika” =  “além”  do ente enquanto tal.

         “Metafísica é o perguntar além do ente para recuperá-lo, enquanto tal e em sua totalidade, para a compreensão” (pág. 39).

         Na metafísica temos de um lado as questões metafísicas e de outro o ser-aí que a interroga. Estão inter-relacionados, numa interdependência constante.

         “Em que medida perpassa e compreende a questão do nada a totalidade da metafísica?” (pág. 40).

         No decorrer da história essas questões acerca do ente e do nada se equiparam, para questionar um obrigatoriamente nos deparamos com o outro, são equivalentes no questionamento metafísico.

         Ou se nega o questionamento acerca do nada “do nada nada vem” (pág. 40), ou se coloca o nada em total oposição ao ente, como sua negação.

         A questão do ser é intrínseca a metafísica, e a questão do nada compreende a totalidade da metafísica, isso enquanto nos força a enfrentar o problema da origem da negação; “nos coloca fundamentalmente diante da decisão sobre a legitimidade com que a lógica impera na metafísica” (pág.42).

         A ciência não pode mais ignorar o nada, uma vez que somente no instante de confronto do ser-aí com o nada é que se transcende e se percebe enquanto ente em sua totalidade. Ou seja, para se chegar a um (ente), é imprescindível não ignorar o outro (nada), já que este possibilita a compreensão daquele.

         O nada, portanto, é uma questão que permeia a totalidade da metafísica.

         “A metafísica é o acontecimento essencial no âmbito do ser-aí. Ela é o próprio ser-aí” (pág.43).

         No parágrafo da pág. 44 uma comparação me parece exemplificar essa questão da transcendência do ente: os yogues, os iniciados, nos ensinam que através da meditação atingimos nosso Eu Superior, para tanto se faz necessário um silenciar dos sentidos, do pensamento, do eu inferior, seguindo-se um mergulho no vazio, ou seja, no nada, só então nosso Eu Superior se nos revela em sua plenitude.

         Concluindo; na suspensão do ser-aí na vivência nadificante do nada é que o ente em sua totalidade nos faz plenos.

         Enfim, todo processo terapêutico positivo passa por um estágio de reconhecimento, seguindo-se um estágio de angústia que, se bem elaborado, não permitindo a fuga, mas o confrontamento com o nada, o paciente torna-se consciente de si; compreende-se como um ente em sua totalidade. Vemos ser a angústia um fator positivo e totalmente contrário à depressão, ansiedade, neurose e outros tantos sintomas que no linguajar comum se confundem.

         Se, através destes questionamentos, Heidegger trouxe grande benefício à filosofia e consequentemente a metafísica, demonstrando o grande valor do nada dentro desta ciência, muito, também, trouxe a psicologia junguiana demonstrando que esse “monstro assustador” que é a angústia, e que cedo ou tarde se nos avizinha, é fator necessário de crescimento, de evolução enfim.

Ercilia Simone Dalvio Magaldi

Pedagoga – Filósofa – Especialista em Psicologia Junguiana –terapeuta - mestre em CRE – PUCSP e doutora em CRE - UMESP

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Ercilia Simone Dalvio Magaldi - 19/03/2019