MINDFULNESS E O INCONSCIENTE – ATIVAÇÃO DA FUNÇÃO TRANSCENDENTE

Mindfulness e o Inconsciente – ativação da função transcendente Psicologia Junguiana

No transcorrer desse texto o leitor será convidado a ampliar seu conhecimento acerca da prática de meditação mindfulness (ou Atenção Plena), à luz da teoria junguiana, entendendo- a como processo capaz de estabelecer uma “dialética” entre a consciência e o inconsciente, resultando em um estado de harmonização psíquica, através da ativação da função transcendente.

Quando a meditação se ocupa dos processos objetivos do inconsciente, que espontaneamente se vão tornando conscientes, então ela une os conteúdos conscientes com “os inconscientes”, isto é, com tais conteúdos que não provêm de uma cadeia causal consciente, mas que parecem surgir de um processo inconsciente (JUNG, 2012b, p.314).

 

Mindfulness é uma prática meditativa milenar, com origens na yoga indiana e no budismo, em rápida expansão no ocidente desde sua sistematização e introdução, do ponto de vista clínico e científico, no final da década de 70, por Jon Kabat-Zinn. Despida de contexto religioso e na direção da promoção da saúde, mindfulness teve sua tradução para o português como Atenção Plena (ou Consciência Plena) e pode ser descrita como prática de atenção no momento presente, em estado de observação com foco em objeto ou através de monitoramento aberto, por exemplo nas percepções do corpo, na respiração, nas emoções, na mente ou na própria consciência, de forma não crítica, paciente, gentil, curiosa, receptiva e desapegada (Cf. KABAT-ZINN, 2017). Os mecanismos de ação subjacentes, psicológicos e neurológicos, não estão claros ainda (Cf. TANG, 2015). O processo confere aumento da capacidade atencional, melhora da regulação emocional e autopercepção, sem implicação de controle, levando a diferenciação entre observador e objeto observado, trazendo maior liberdade de escolha, menor reatividade, com redução do automatismo, aumentando a flexibilidade cognitiva (Cf. TANG, 2015). É um estilo de meditação que permite ao indivíduo um olhar interior, muitas vezes pela primeira vez na vida, e que, com a devida ampliação de seus processos e suas repercussões psicológicas, pode ir para além de nados rasos no mar “calmo” dos conteúdos conscientes e proporcionar uma oportunidade para um mergulho no inconsciente, na “barriga da baleia”, numa relação com a própria alma.

Para mim, enfrentar a catástrofe total significa encontrar e aprender a conviver com o que há de mais profundo e melhor e, em última análise, mais humano dentro de nós mesmos. (...) Catástrofe, aqui, não significa desastre, mas a pungente enormidade de nossa experiência de vida (KABAT-ZINN, 2017, p. 45-46).

 

Descrever estes processos, sob o ponto de vista da psicologia junguiana, e estabelecer aproximações entre os temas, torna-se imperioso, uma vez que pode servir de amparo para o viajante que envereda desavisado nesta jornada e que pode ter sua psique potencialmente revirada de forma muito intensa e dolorosa. Não são simples, mas complexos – faço aqui alusão aos complexos que nos habitam - os processos da experiência com o inconsciente (trazida pela prática de mindfulness) com os quais o ego terá que lidar.

A prática da meditação leva o ego a renunciar a sua unilateralidade, viabilizando seu próprio desenvolvimento através ativação da função transcendente, galgando passos na progressão de sua individuação - pelo enriquecimento e diferenciação da consciência – caminhando no sentido de um novo centro psíquico (Cf. JUNG, 2013a e 2013c).

É por isso que esse centro não pode ser subordinado, mas na valoração tem que ser colocado acima do eu. Além disso, já não se pode designá-lo como eu, razão por que o denominei o “Si Mesmo” (selbst). Experimentar e vivenciar esse si mesmo é a meta mais nobre da ioga indiana. Por este motivo, será bom para a psicologia do si mesmo que nos familiarizemos com os tesouros do saber indiano. Tanto aqui como na Índia, a experiência do si mesmo nada tem a ver com intelectualismo, mas é uma experiência vital e profundamente transformadora. O processo que conduz a ela foi por mim denominado processo de individuação (JUNG, 2013b, p. 117).

 

Consciência e inconsciente dificilmente concordam em termos de tendências e conte­údo, mas apresentam-se como complementares na natureza psíquica. Se por um lado o ego quer controlar todas as variáveis de sua existência e definir sua própria natureza, sendo incapaz de ceder lugar na consciência ou de se tornar permeável aos conteúdos psíquicos que reprime, por outro lado, o inconsciente lança mão de mecanismos compensatórios e regulatórios na tentativa de conciliação. A expressão de complexos oriundos do inconsciente através de sensações corporais, emoções e pensamentos (discursivos e imaginais), são veículos de comunicação reguladora para esta compensação, usados pelo inconsciente de forma simbólica, não literal e não racional, na sua “dialética” integrativa com o eu consciente, na tentativa de promover movimento para totalidade psíquica (Cf. JUNG, 2013a e 2013c).

O ego tenta controlar quem é, ao invés de descobrir o que é. Interessante notar que este mecanismo de negação é o mesmo que o levará de volta a si mesmo, pois a crise se tornará inevitável. Há momentos na vida em que a tensão consciente-inconsciente pode ser tão energética que tenderá a se expressar como crise na vida do indivíduo, o que provavelmente acontecerá justo quando seria muito importante para o ego manter sua visão unilateralizada da vida (Cf. JUNG, 2013a). Mindfulness trata da experiência atenta da consciência a esses processos “dialéticos” do consciente-inconsciente, percorrendo um caminho de autoconhecimento, que leva a ativação da função transcendente que “concilia” os opostos em conflito (Cf. JUNG, 2013a).

O indivíduo que pratica mindfulness pode ser chamado de observador. O observador pode ser considerado a estrutura central da mente consciente na prática meditativa. Um paralelo interessante com a teoria junguiana seria considerar o ego como observador e a consciência como o espaço mental consciente.

A mente é crítica por natureza, faz julgamentos diversos e exercita a intenção de controlar as variáveis da vida, no entanto o convite durante a prática meditativa segue tendência exatamente oposta. Exercícios são conduzidos para que o observador estabeleça uma atitude menos crítica, mais paciente, gentil, curiosa, receptiva e desapegada para com os conteúdos observados. Seria como dizer que é possível observar de forma acrítica a própria crítica, de forma paciente a própria impaciência, de forma gentil a própria agressividade e assim por diante (Cf. WILLIAMS, 2015).

Os iniciantes da prática de mindfulness tendem a estabelecer como passo inicial o treinamento da ancoragem para não serem levados pelos eventos internos e se manterem conscientes do processo. A ancoragem – que é o foco de atenção em um objeto específico, como por exemplo a respiração – é utilizada para desacelerar a mente consciente e manter atenção plena no tempo presente. Em práticas mais avançadas de mindfulness, tais como o monitoramento aberto, a ancoragem permite estabelecer as raízes que estabilizam o observador, não mais para que se mantenha a atenção em um único ponto, mas para que se possa abrir a percepção consciente (ancorada) para um campo em que muitas experiências acontecem. De todas as formas de monitoramento aberto, a observação do próprio campo mental consciente é um dos mais desafiadores e recompensadores. Observar os fenômenos, discursivos ou imaginais, faz o praticante perceber um universo que existe dentro de si, mas do qual não se dá conta até parar para observá-lo.  É quando uma profunda transformação acontece e o praticante tem a oportunidade de perceber muito do seu próprio mundo interno, entendendo os atravessamentos psíquicos como algo que acontece com ele, mas que são provenientes de algum outro lugar sobre o qual não tem domínio ou consciência. Abrem-se as portas para o relacionamento com um outro aspecto de si mesmo, com seu próprio material inconsciente.

Neste momento o praticante não rejeita mais estes conteúdos diversos que se apresentam na psique a fim de voltar a um único ponto de atenção, pelo contrário, ele é capaz de deixá-los fluir por suas próprias vias, de forma receptiva, vivenciando-os de forma consciente, sem, no entanto, se deixar levar por eles por estar ancorado (Cf. KABAT-ZINN, 2017).

Assim, o ego se flexibiliza, deslocando-se temporariamente da posição central da consciência para uma posição mais periférica, abrindo espaço para manifestação do seu próprio inconsciente e para o diálogo com este. Com a prática da meditação o ego trabalha no abandono de sua rigidez e controle, em favor de flexibilização e permeabilidade que lhe permitam desenvolvimento.

Quando o praticante é capaz de observar as experiências que ocorrem em seu corpo, em suas emoções e em seus pensamentos, conclui-se que qualquer coisa que possa efetivamente ser observada é necessariamente diferente daquele que as observa. Assim, pela primeira vez, em função deste distanciamento, é possível se estabelecer um relacionamento com estes conteúdos. Este processo pode ser chamado de desidentificação (WILLIAMS, 2015).

Não é um processo fácil. Abrir mão do controle que se pensava ter sobre aspectos que se entendia definirem o próprio observador, e, portanto, estavam sob o seu poder, pode ser bastante difícil para o praticante. No entanto, é tão difícil quanto libertador. Quanto mais se é capaz de observar sem se deixar ser levado pelo material que é observado, mais o observador de despe de conteúdos que entendia como de sua propriedade. O ego se vê menos no controle, menor, desinflado, mas mais capaz de se relacionar. Quando há a desidentificação com a própria mente, tudo que habita este espaço passa a ser passível de se estabelecer um relacionamento. Os pensamentos que brotam de lugares inesperados, as emoções que invadem nosso corpo, as imagens que nos são oferecidas, tudo passa a ser visto como uma forma de autoconhecimento, de aprofundamento nesta parte da psique que nem se sabia existir. Quando a porta se abre, o convite é que se aceite o mergulho consciente no inconsciente, aceitar a relação com o que se desvela.

Importante frisar que, neste relacionamento entre o observador e os fenômenos observados, aquele que observa tem um papel sempre ativo e consciente, no entanto os fenômenos não obedecem a lógica necessariamente, e por isso mesmo devem ser experimentados e não racionalizados durante a prática. Trata-se mais de estar receptivo e pronto para experiência do fenômeno do que tentar entendê-lo, a final de contas, a maior parte dos conteúdos podem não fazer nenhum sentido racional para mente consciente, no entanto, lá estão de qualquer forma fluindo para o espaço mental do praticante, originados de lugares de sua psique que desconhece e que quer descobrir (Cf. KABAT-ZINN, 2017).

Usualmente com a manutenção da prática estados ampliados de consciência são atingidos, permitindo ao praticante estar mais na posição de autor de sua própria vida do que de passageiro, uma vez que ao reconhecer aspectos até então sombrios de si mesmo, passa a ter a oportunidade pela primeira vez na vida de tomar decisões e fazer escolhas próprias, não comandadas de forma inconsciente por estes mesmos conteúdos que sequer sabia comandarem sua vontade.

A verdade é que o inconsciente está a todo momento presente em uma dinâmica compensatória da consciência e reguladora da homeostase psíquica, porém é necessário que o ego mude de uma atitude inflexível e unilateral, para uma nova forma de ser que aceite o diálogo proposto pelo inconsciente, para que a harmonização psíquica ocorra. O ego deve ter prontidão para olhar para as profundezas de si e ser capaz de se relacionar com aquilo que olha de volta. O processo se inicia pela disposição do ego em participar do diálogo, segue dirigida pelo inconsciente que propõe a substância e a métrica dos conteúdos apresentados, para depois ser conduzida em parceria pelo próprio ego e pelo inconsciente (Cf. JUNG, 2013a).

O campo mental consciente passa ser um campo de experimentos (não de racionalização). Quando se passa a observação de si-mesmo, a regra são as visitas inesperadas e simbólicas, não racionais. Durante a experiência, o ego deve ficar no momento presente, literalmente vivenciá-la e deixar que as transformações da energia psíquica ocorram livremente. É isso que a prática de mindfulness preconiza. A compreensão da experiência será uma tendência natural e terá espaço depois, e somente depois, fora do momento da prática meditativa formal (Cf. JUNG, 2012a).

As transformações do estado de consciência experenciadas pela prática da meditação são resultantes da ativação da função transcendente, através de processos simbólicos e não racionais, resultado da interação e integração entre os conteúdos da consciência e os conteúdos provenientes dos complexos do inconsciente. O diálogo entre a consciência e o inconsciente cria um campo para a realização, um campo de cura. E a alma sabe como fazer para se curar, para recuperar a homeostase. O praticante prepara o terreno e o inconsciente se manifesta do exato jeito que deve ser, de acordo com a prontidão que o ego possuir.

A ativação da função transcendente, descrita por Jung, é exatamente isto. O equacionamento de um novo estado psíquico, alcançado de forma não racional e simbólica, através da “dialética” da consciência com o inconsciente, sendo a prática de mindfulness um campo mais que apropriado para que este diálogo ocorra.

Por “função transcendente” não se deve entender algo de misterioso e por assim dizer suprassensível ou metafísico, mas uma função que, por sua natureza, pode-se comparar com uma função matemática de igual denominação, e é uma função de
números reais e imaginários. A função psicológica e transcendente” resulta da união dos conteúdos conscientes e inconscientes (JUNG, 2013a, p.13)

 

Resultado “matemático” - no sentido em que trata da resultante de dois elementos - da união dos conteúdos da consciência e do inconsciente, onde o ego abre mão de sua unilateralidade e, sem perda dos conteúdos do inconsciente, existe integração (reconhecimento) destes na esfera psíquica consciente, assim atingindo um estado de consciência diferente do anterior, através de um diálogo simbólico, característico da linguagem usada pelo inconsciente para se expressar (Cf. JUNG, 2013a).

A prática de mindfulness permite o equacionamento de uma resultante psíquica não existente a priori, de padrão mais “elevado”, onde existe harmonização e integração de conteúdos da consciência e do inconsciente, (re)colocando o sujeito praticante em seu próprio rumo de individuação, ampliando o conhecimento sobre si mesmo e suas potencialidades, o que vai para muito além das limitações do próprio ego.

 

Paulo André Fernandes – Analista em Formação pelo IJEP

Didata responsável: Waldemar Magaldi Filho

 

REFERÊNCIAS

 

JUNG, C.G.  A vida simbólica Vol.2. Escritos diversos. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2012a.

______ Mysterium Coniunctionis. Pesquisas sobre a separação e a composição dos opostos psíquicos na alquimia. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2012b.

______ A natureza da psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.

______ A prática da psicoterapia. Contribuições ao problema da psicoterapia e à psicologia da transferência. 16. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.

______ A vida simbólica Vol.1. Escritos diversos. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.

KABAT-ZINN, J. Viver a catástrofe total. Como utilizar a sabedoria do corpo e da mente para enfrentar o estresse, a dor e a doença. Ed. rev. e atual. São Paulo: Palas Athenas, 2017.

TANG, Y.; HOLZEL, B. K.; POSNER, M. I. The neuroscience of mindfulness meditation. Nat Rev Neurosci. 2015 Apr;16(4):213-25.

WILLIAMS, M.; PENMAN, D. Atenção Plena. Rio de Janeiro: Sextante, 2015.


Paulo André Fernandes - 30/06/2021