MITOS DA CRIAÇÃO

MITOS DA CRIAÇÃO Psicologia Junguiana Psicossomática Arteterapia

Mitos contam histórias ocorridas num tempo primevo, histórias do mundo, de sua existência e criação. Narram fatos, perdidos na memória, de civilizações e divindades, realidade que passou a existir na totalidade ou em fragmentos, representando manifestações arquetípicas.

Imagens que, sacralizadas, foram deixadas por nossos antepassados, desde a pré-história, em artefatos e manifestações artísticas, testemunhas dos eventos mais antigos da humanidade e que se reproduzem nos mitos que chegaram até nós, bem como nos sonhos dos indivíduos contemporâneos.

O impulso inicial de produção da vida sempre fascinou e confundiu os seres humanos e a busca de solução para este mistério se estabelece nos diversos mitos da criação e origem do mundo, do universo e dos seres, de praticamente todos os povos.

Conhecer os mitos era participar da realidade e estabelecer relação com a divindade. Vivenciar o útero da Mãe Terra no cotidiano primitivo de habitar cavernas, compreender o caráter cíclico da vida em suas manifestações físicas e biológicas, bem como reconhecer a linearidade do tempo são aspectos que contribuíram para a estruturação e evolução da consciência coletiva e individual.

Para o mitólogo romeno Mircea Eliade (1972), o mito é uma história sagrada, verdadeira, que se refere a realidades tornadas modelo para todas as atividades humanas significativas (CF. pág. 12).

Os mitos auxiliam na compreensão dos processos psíquicos e a linguagem simbólica, presente nos mitos, atualiza-se no contexto histórico, ambiental e coletivo. Os mitologemas são imagens arquetípicas enriquecidas e atualizadas com elementos próprios da cultura, por exemplo, as histórias de crianças abandonadas que sobreviveram para produzir grandes transformações em seu mundo na idade adulta (Moisés, Páris, Rômulo).

A estruturação e surgimento da consciência pode ser representado pelos mitos de Osíris, Apolo, Mitra, Lúcifer e Cristo. A Grande Deusa Mãe se faz reconhecer nos mitos de Deméter e Gaia, a anima e o animus são explicitados nos mitos de Eros e Psique, personificando aspectos arquetípicos presentes em ambos os sexos.

Um mito independe de tempo e espaço, assim como um mesmo símbolo pode ter significados e consequências diferenciadas, dependendo da forma como se constela como complexo, em indivíduos e grupos de diferentes gerações. Conforme Moura (2017), Zeus justificava matanças para os gregos; a cristandade matava em nome de Deus e, atualmente, muitos morrem em nome de Alá. A mesma fúria está presente, modificada apenas em métodos e tecnologia.

Jung ampliou o conhecimento do inconsciente postulando o inconsciente coletivo e este sistema inclui os arquétipos que se manifestam em imagens arquetípicas presentes nos mitos. A psicologia analítica trabalha estes símbolos procurando amplificá-los e integrá-los à consciência daqueles que busca auxiliar. Em suas memórias, ele explica que, ideias mitológicas e religiosas estimulam atividades espirituais nos indivíduos, desenvolvendo um sentido vital, essencial ao desaparecimento da neurose. (C.F. Jung, 1963, p.127).

O homem arcaico inserido física e psiquicamente em seu mundo, se contrapõe ao homem atual dissociado dele; a objetividade o faz negar a realidade das projeções inconscientes, não permitindo que se dê conta de que os mitos ainda relacionam consciência e inconsciente, interferindo em suas relações.

O entendimento de que a psique tem caráter essencialmente criativo (explicitado por Jung no livro O Espírito no Homem, na Arte e na Ciência, volume XV das Obras Completas), diferencia a Psicologia Analítica de outras abordagens quanto a utilização terapêutica de suas manifestações. O inconsciente comunica-se com a consciência por meio dos mitos, sonhos, linguagem poética, fantasias e inspirações, conteúdos que interferem em nossas ações, porém são excelentes ferramentas para o trabalho de autoconhecimento.

Os arquétipos são inacessíveis à consciência de forma direta; tornam-se perceptíveis nos fragmentos que emergem até as camadas superiores como imagens arquetípicas "cujos rastros podem ser seguidos até a história antiga e mesmo até a pré-história" (JUNG, 2013, O.C., Vol.16/1, § 254). O Self como expressão da totalidade psíquica coincide com a imagem divina em nós.

Marie Louise Von Franz, no livro Mitos da Criação (2003), explica que este tipo de mito:

Representa uma classe diferente dentre os outros (Grande Mãe, criança, herói) pois estabelecem uma espécie de iniciação, que inaugura e estrutura a tradição de um povo. O grande mistério que representa a existência do cosmos, a origem da natureza e a própria existência necessita modelos em projeções de imagens arquetípicas (C.F. pág. 9).

A serpente urobórica morde a própria cauda desde a Idade Média, para representar o cosmos e suas constelações, aplacando, desde então e simbolicamente, a inquietação de atingir os limites do conhecimento. Hoje, a confecção de instrumentos tecnológicos avançados, auxilia no desvelamento de incógnitas científicas, cujas projeções se estabelecem na forma de teorias contraditórias, que surgem e se sobrepõem, alternando explicações quando os modelos divergem das projeções anteriores. Esta dinâmica psíquica é base de todo o processo cognitivo para estabelecer conteúdos da consciência (idem, pág. 10-14).

Da mesma forma, o entendimento acerca da vida após a morte ou da origem e significado da vida tem enorme importância para um psiquismo saudável e quando ausentes, denotam desvitalização e neurose; a inexistência de um mito pessoal relevante para si mesmo ou ideia consistente a respeito do sentido da vida como caminho de bem estar, demonstra que a pessoa encontra-se "prisioneira da crença em, tão somente, meias verdades ideológicas" (CF Jung apud Von Franz, 2003, pág. 19-20).

Diversos mitos relatam o princípio de tudo como Caos (que representa a inconsciência inicial no humano) em um tempo não determinado (demonstrando a atemporalidade do inconsciente) e no momento em que uma figura divinizada (Self) organiza o Caos inicial (origem da consciência) metaforizando o universo psíquico cuja realidade é passível de simbolização em mitos de muitas culturas, muitas vezes similares em estrutura e representações.

A importância da presença de mitos de criação em sonhos ou o interesse metafísico de um indivíduo, deve-se a necessidade de entender que, o inconsciente, nestes casos, está preparando um importante avanço da consciência. A dificuldade de entendimento deste processo psíquico pelos indivíduos se deve à abstração dos motivos que parecem estranhos à consciência. Quando o alargamento da consciência ocorre de forma súbita, é mais fácil a interpretação ou assimilação pelo indivíduo, pois isto se dá na forma de uma revelação ou iluminação. "Sempre que o processo da consciência dá um grande salto adiante, há sonhos preparatórios, geralmente contendo motivos de mitos da criação" (VON FRANZ, 2003, pág.24).

O papel do terapeuta é estimular as atividades expressiva e imaginativas, com postura definida por seus pressupostos teóricos, buscando estabelecer a relação com a individualidade do sujeito, acompanhando e direcionando os aspectos técnicos, pontuando o que percebe manifestar-se na díade produtor/produto, amplificando conteúdos, buscando estabelecer o diálogo interno com as imagens e a reflexão acerca dos símbolos que se apresentam.

Elisa Rejane de Lima Morandini, Psicoterapeuta junguiana, analista em formação pelo IJEP.

Telefones (35) 98844 0556 e 3715 9237 - Poços de Caldas

Referências:

ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. SP: Perspectiva, 1972;

JUNG, C.G. Memórias, Sonhos e Reflexões. RJ: Nova Fronteira, 1963;

________ A Prática da Psicoterapia. O.C., Vol.16/1. Petrópolis: Vozes, 2013;

_______ O Espírito na Arte e na Ciência. O.C., Vol, XV. Petrópolis: Vozes, 2013;

MOURA, Maria Elizabeth R. Rolim de. A Importância do Estudo dos Mitos para a Compreensão dos Arquétipos. Acessado em setembro de 2017; In http://www.symbolon.com.br/artigos/aimportancia.htm ;

VON FRANZ, Marie Louise. Mitos da Criação. SP: Paulus (Amor e Psique), 2003.


Elisa Rejane de Lima Morandini - 15/06/2019