NARRATIVAS DOMINANTES UMA ABORDAGEM JUNGUIANA

NARRATIVAS DOMINANTES Uma Abordagem Junguiana Psicologia Junguiana

 

 

“A interpretação dos fatos, o modo de vê-los e reagir a eles, podem nos parecer definitivos e bem elaborados, dramas ou tramas em repetição, como num looping. “Acontece isso, faço isso. Acontece aquilo, faço aquilo”, ou numa marcação cênica mecânica e sem surpresas, mas a vida não obedece a marcas, e ela, um dia, vai improvisar.”

 

            Os dramas de nossas vidas são como narrativas, estando algumas mais próximas da comédia, outras beirando à tragédia, no entanto, para muito além dos fatos, existe a linguagem, que tenta desesperadamente comunicar e a psique, que tenta, não com menos esforço e desespero, elaborar e integrar. O modo escolhido ou determinado de elaboração das narrativas de nossas vidas nos indica em que terreno estaremos, se no drama, na comédia, na tragédia, na comédia bufa, no folhetim novelesco ou no picadeiro de um circo. A organização, a ordem em que colocamos os fatos, o valor afetivo que conferimos a cada um deles, o modo como reagimos a partir do modo como os interpretamos, caracterizam nossos dramas pessoais, que poderiam também ser chamados de nossas narrativas pessoais. Para cada drama ou narrativa, um complexo diferente entra em ação e assume o controle, e claro que temos de ceder àquela(e) dominante, do contrário, como lidar com tantas personas/personagens nesse drama interno/externo da vida?

            Falando assim, pode até dar a impressão que escolhemos nossas narrativas dominantes, no entanto, com frequência, nem sequer temos consciência de como vivemos, vemos ou reagimos aos acontecimentos da vida. Parece mais que somos “escolhidos” para vivê-los de um determinado modo, respondendo a uma “pequena peça” que os complexos nos pregam para nos lembrar de que, nem sempre, ou quase nunca, estamos ou estivemos no controle, e que eles estarão sempre ali, prontos para assumirem a função de protagonistas, mesmo que, algumas vezes, ocupem papéis coadjuvantes.

            A interpretação dos fatos, o modo de vê-los e reagir a eles, podem nos parecer definitivos e bem elaborados, dramas ou tramas em repetição, como num looping. “Acontece isso, faço isso. Acontece aquilo, faço aquilo”, ou numa marcação cênica mecânica e sem surpresas, mas a vida não obedece a marcas, e ela, um dia, vai improvisar. Quando isso acontece, quando ela pega outra direção, voluntariamente ou não, somos obrigados a ver os fatos, a vida, fora da perspectiva conhecida. É quando a máscara cai ou quando somos obrigados a retirá-la, a olhar para o novo caminho e elaborar novas ações e reações. A persona/personagem fica perdida nesse momento da trama e, por um bom tempo, não saberá como agir, mas novas narrativas se formam e, mais cedo ou mais tarde, uma delas assumirá o controle e voltaremos ao padrão anterior, mas jamais seremos os mesmos. E a vida segue não obedecendo às marcas, sempre que se cansa de se submeter às vontades alheias, se é que um dia, ela se submeteu.

            Narrativas dominantes ou complexos - dentre os muitos que temos, falo daqueles principais - são como imãs ou centrífugas que atraem os eventos de nossas vidas e os afetos envolvidos para suas marcas, seus caminhos e trilhas, seus leitos de rio, alargando sempre suas margens e engolindo todos os outros possíveis caminhos, narrativas e vidas. Sempre que a vida resolve improvisar e não obedecer às marcas, temos os sintomas. Se tivermos disponibilidade e abertura, analisaremos as histórias e narrativas de vida geradoras dos sintomas com base na ideia de que o improviso e a desobediência manifestados através deles podem ser esforços da psique em sinalizar o desequilíbrio causado pelas narrativas dominantes e pouco flexíveis.

            O psicoterapeuta pode desenvolver diferentes olhares para o sintoma, mas se o interpretarmos como “desobediência da vida”, isto é, uma reação às narrativas dominantes, este poderá ser visto como criação/produção simbólica daquela psique individual que resolveu assumir uma postura ativa no processo, a de agente e criador e não apenas de intérprete. Reconhecer os modos e processos assumidos pelo sintoma e a capacidade e habilidade do indivíduo em lidar com seus efeitos e, muitas vezes, em enfrentar seus ciclos de desespero e impotência, é um modo de afirmar a autoria e autonomia desse indivíduo sobre a trama da própria vida.

            Ter consciência das múltiplas narrativas é ser capaz de perceber os diversos “EUs” que nos habitam, as muitas pequenas pessoas que também precisam viver e serem expressas, compreendidas e integradas na trama. Os complexos assumem, individualmente, a função de pescadores de afetos, reunindo em torno de si fatos, ideias, emoções e sentimentos, traçando uma narrativa dominante que, se não estivermos atentos, muito rapidamente atrairá todas as outras possibilidades para dentro de seu núcleo, afirmando-se, a cada experiência, como a única versão para o drama. É exatamente o que caracteriza a tragédia, a ausência total de alternativas, pois o “destino” assim determinou, no entanto, somente aquilo que desconhecemos de nós mesmos se transforma em destino, já dizia Jung.

            A psicoterapia, a partir da leitura simbólica e narrativa dos sintomas, quando presente e ativa, assumirá a função de agente no sentido de desconstruir e subverter as práticas tidas como certas e seguras, as ações e reações que obedecem a padrões repetitivos, às chamadas “verdades absolutas” que teimam em se sobrepor às condições e aos contextos de suas produções, às práticas familiares ao indivíduo, tudo aquilo que pretende subjugar a vida e suas desobediências.

            Muitos desses métodos de desconstrução conferem um aspecto de estranheza às realidades e práticas familiares, afinal, sair da marca é como se jogar na escuridão infinita da improvisação e todos os seus perigos e possibilidades de fracasso, e ninguém quer levar uma vaia do público, claro. No entanto, sair da esfera do “doméstico” e do “domesticado” e colocar em xeque o que é familiar e indiscutível facilita o processo de descoberta de si mesmo e de conteúdos e narrativas de vida até então desconhecidos.

            Também podemos assistir à desconstrução da posição do especialista quando o terapeuta considera-se apenas coautor das narrativas e saberes apresentados ao longo do processo, assim como das práticas alternativas. Através de um esforço conjuntamente planejado, é possível estabelecer um contexto no qual as pessoas que procuram terapia sejam privilegiadas como as principais autoras dos conhecimentos adquiridos em suas vidas. Isso cria para as pessoas um sentido de “agenciamento”, dando ao analisando a possibilidade de se libertar da ideia de ser apenas um “passageiro” em sua vida.

            Essas práticas de desconstrução e de acolhimento da improvisação e das desobediências da vida, incluindo o acolhimento do sintoma, ajudam as pessoas a se afastarem do estilo de vida e narrativa que elas julgam estarem “empobrecendo” suas possibilidades dramáticas, como se estivessem vivendo eternamente um personagem trágico caricato, limitando também as possibilidades de seus companheiros de cena ou de vida. Provocar no analista e no analisando uma curiosidade em relação às versões alternativas de quem ambos poderiam ser, porque a transformação acontece nas duas direções, é o objetivo principal da desconstrução das verdades absolutas.

            Devemos “exorcizar” o doméstico através da objetivação do mundo que nos é familiar e indiscutível. No entanto, esbarramos com as questões de resistência e com os diversos mecanismos de defesa ao longo do processo, dois fortes ventos contrários que nos fazem voltar dois passos depois de termos avançado um. É realmente uma longa jornada vida adentro, parafraseando Eugene O’Neill, e sendo este um fervoroso leitor de Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche, com a licença de ambos, me permito citar um trecho dessa célebre obra, que representou um lema de vida para O’Neill:

 

“Eu vos digo: é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante. Eu vos digo: tendes ainda um caos dentro de vós outros.”

 

 

REFERÊNCIAS:

GONÇALVES, OSCAR F. - Psicoterapia Cognitiva Narrativa - Manual de Terapia Breve - Ed. Psy, 1998.

WHITE, MICHAEL - Mapas da Prática Narrativa - Ed. Pacartes, 2012.

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Isa Carvalho

Membro Analista em Formação pelo IJEP, Rio de Janeiro

Email: isafvc2@gmail.com

 


Isa Carvalho - 26/09/2019