NOVAS REFLEXÕES JUNGUIANAS: HERÓIS E HEROÍNAS CONTEMPORÂNEOS

NOVAS REFLEXÕES JUNGUIANAS:  HERÓIS E HEROÍNAS CONTEMPORÂNEOS Psicologia Junguiana Psicossomática Arteterapia

Em artigo anterior publicado no último mês de abril discorri sobre a tragédia ocorrida em Brumadinho, pequena cidade localizada em Minas Gerais, onde uma barragem de rejeitos de minério, que pertence à companhia Vale do Rio Doce, rompeu em 25 de janeiro deste ano. Não foi apenas esta tragédia que assolou nosso país no início de 2019, pois, infelizmente, de janeiro para cá tivemos também um dilúvio no Rio de Janeiro, que matou 6 pessoas, um incêndio também no Rio de Janeiro, que ceifou a vida de 10 adolescentes, além da morte de um famoso jornalista, Ricardo Boechat, em um acidente de helicóptero, desta vez em São Paulo. Tânatos, o Deus da morte, marcou sua presença de forma pungente, nos lembrando de forma contundente a nossa condição humana de mortais.

Ainda voltando ao meu artigo anterior, discorri sobre o mito de Eros e Tânatos, deuses do Amor e da Morte respectivamente, cujas flechas foram misturadas por um descuido de Eros, trazendo para as pessoas que por eles fossem flechadas tanto o amor quanto a morte. A partir deste mito minha reflexão, naquele artigo, foi sobre a morte.

O objetivo deste artigo, entretanto, é refletir sobre a outra polaridade que emerge nestes momentos dolorosos, onde surge Eros, a divindade que personifica um amor que não tem um objeto definido, um amor pela vida, em qualquer forma em que ela se apresente. Em Brumadinho, tivemos vários exemplos desta expressão de amor, que podia ser visto nos voluntários que lavavam as roupas utilizadas pelos bombeiros, impregnadas pela lama, para que os trabalhos de resgate pudessem continuar, ou naqueles que buscaram pelos animais presos na lama, trataram de suas feridas, deram banho, comida, agua, remédios e muito carinho. Estas pessoas saíram de suas rotinas para se colocar a serviço do próximo, sendo considerados por muitos como heróis.

Observando o cenário coletivo, nesta década temos sido invadidos por uma onda de filmes de super-heróis da Marvel, a cada dia um novo filme e novos superpoderes. Este não é um fenômeno recente, já que durante a Segunda Guerra, na luta contra o nazismo, alguns heróis clássicos foram criados, como o Superman, também conhecido como o Homem de Aço, que vinha de outro planeta, tinha superpoderes e os colocava a serviço para ajudar os habitantes ameaçados do nosso planeta. Capitão América e Mulher Maravilha se vestiam com as cores da bandeira americana, em um reforço simbólico ao patriotismo e a posição americana frente ao conflito. Os super-heróis das histórias em quadrinho foram utilizados como uma verdadeira arma na referida guerra, tendo tido um importante papel na formação do imaginário e na cultura mundial. Mas neste início de ano, em meio a tantas tragédias, marcaram presença outra categoria de heróis, os reais, de carne e osso.

Uma destas heroínas é Karla Lessa, piloto de helicóptero, bombeira. Em 25 de janeiro fez uma manobra considerada extraordinária por sua destreza, que permitiu resgatar com vida uma vítima da lama que arrasou o Córrego do Feijão, distrito de Brumadinho, após o rompimento da barragem da Cia Vale do Rio Doce. Karla não tinha o laço da verdade, nem pilotava um avião invisível, mas fez uma façanha digna da Mulher Maravilha por sua coragem, perícia e destreza. Um outro caso que foi amplamente comentado na mídia em fevereiro deste ano foi a de Leiliane da Silva, que ajudou o motorista João Adroaldo a sair de seu caminhão, destruído após ter sido atingido por um helicóptero, no acidente que vitimou o jornalista Ricardo Boechat. A cena do resgate virou uma charge e viralizou nas redes sociais, mostrando Leiliane como a Mulher Maravilha, arrancando a porta do caminhão em meios aos escombros, enquanto diversos homens filmavam a cena. Citei aqui apenas dois exemplos, mas são inúmeros heróis, anônimos, que poderiam ser incluídos neste artigo, apenas considerando a tragédia de Brumadinho.

Mas o que caracteriza um herói? Para a psicologia analítica, o herói é uma figura arquetípica. Os arquétipos são imagens primordiais, formas mais antigas e universais da imaginação humana, simultaneamente sentimento e pensamento, que existem desde os tempos mais remotos, conforme Jung (2013, p.212).

Hopcke, amparado nas ideias de Jung, explica os arquétipos como padrões de percepção e compreensão psíquicas comuns a todos os seres humanos, como membros da espécie humana (HOPCKE, 2011, pg.23). Os arquétipos repousam na camada mais profunda da psique, o inconsciente coletivo. Para Hopcke "ficar ciente das figuras e dos movimentos do inconsciente coletivo levou as pessoas ao contato direto com as experiências e percepções essencialmente humanas". (idem, pg. 25). O arquétipo do herói, neste contexto, nos fala não de ações sobrenaturais, mas de situações onde nossa condição de seres humanos é colocada à prova.

Campbell diz que "Quando deixamos de pensar prioritariamente em nós mesmos e em nossa autopreservação, passamos por uma transformação de consciência verdadeiramente heroica" (CAMPBELL, 1990, pg.140). Diz ainda que "esta transformação é provocada pelas próprias provações ou por revelações iluminadas". (idem, pg. 140).  O ato de se colocar a serviço traz transformações à nossa consciência. Segundo Brandão, o herói seria o "guardião, o defensor, o que nasceu para servir"(BRANDÃO, 1987, pag. 15).

São homens e mulher que venceram seus medos, suas limitações e realizaram façanhas consideradas como extraordinárias. Extraordinárias, não por serem fantásticas, mágicas, mas por serem essencialmente humanas. O ato considerado heroico, neste sentido, está focado na entrega para atender a necessidade de outro ser humano. Portanto, o herói não pensa imediatamente em si, no risco que pode estar correndo, mas no outro ser humano que precisa de ajuda para sobreviver.

Mas como este movimento, o de se colocar a serviço, afeta ao outro ser humano?

Sobre esta questão, o filósofo Leloup diz que "o menor gesto de amor, do verdadeiro amor, é tão grande quanto a maior das catedrais porque Deus está, realmente, presente nele" (LELOUP, 2011, pg.119). Ele conta uma experiência que ocorreu após ter tido seus poemas roubados por um mendigo. Lembra-se que, naquele momento, foi tomado pelo desespero e pelo desgosto acerca do ser humano, pois era muito pobre e foi roubado por outro pobre. Sentou-se, então, em um café à beira do cais do porto de Marselha. Um garçom trouxe-lhe dois croissants uma xícara de chocolate quente. Leloup perguntou-lhe quem havia enviado aquilo e o garçom respondeu que havia sido uma mulher. Leloup nunca a encontrou, mas conta que essa experiência o fez perceber, pela primeira vez, "a presença real de algo maior que o absurdo" (idem, pg. 118).

Em Brumadinho, Talita Oliveira, a adolescente resgatada de helicóptero pela major Karla Lessa, desistiu de seu sonho de ser policial e pretende fazer medicina para poder retribuir para a sociedade o que tem sido feito por ela.

Sentir-se amado e percebido por outro ser humano, em momento de profundo desalento, nos devolve a esperança, a fé na humanidade. Este é um feito verdadeiramente heroico.

 

Leila Cristina Montanha

Analista Junguiana em formação pelo IJEP.

 

Refências:

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega vol. 3. Ed. Vozes, 1987

CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito, ed. Palas Athena, 1990

CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces, ed. Pensamento, 10º ed., 1997

HOPCKE, Robert H. Guia para a Obra Completa de C. G. Jung, ed. Vozes, 2011

JUNG, Carl Gustav. Símbolos da Transformação. 9ª ed. Vozes, 2013

LELOUP, Jean Yves.  Além da Luz e da Sombra, ed. Vozes, 2011

https://kittyprado.wordpress.com/2009/07/28/a-segunda-guerra-e-os-quadrinhos/

https://www.1news.com.br/noticia/534359/noticias/quem-e-a-piloto-que-fez-resgate-inacreditavel-em-brumadinho-25012019

https://institutominere.com.br/blog/bombeiros-em-brumadinho-sao-os-herois-da-vida-real

https://www.meionorte.com/noticias/boechat-super-heroina-viraliza-apos-resgate-de-motorista-355057

https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2019/02/04/conheca-historias-de-voluntarios-de-todo-o-pais-e-do-exterior-que-ajudam-vitimas-da-tragedia-em-brumadinho.ghtml

https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2019/05/30/sobrevivente-da-tragedia-da-vale-se-reencontra-com-equipe-de-resgate-do-corpo-de-bombeiros.ghtml


Leila Cristina Montanha - 17/07/2019