O CASAMENTO COMO CAMINHO POSSÍVEL NO PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

O CASAMENTO COMO CAMINHO POSSÍVEL NO PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO Psicologia Analítica

De acordo com os dados publicados nas Estatísticas do Registro Civil de 2016, realizado pelo IBGE, o brasileiro está se casando menos e se divorciando mais. Um balanço feito com dados do Instituto entre 1984 e 2016 aponta que os casamentos subiram 17% e os divórcios aumentaram 269% (IBGE, 2016). Apesar do cenário nada favorável para o casamento, muitas pessoas continuam se casando ou desejam se casar. Essa situação aparentemente contraditória, despertou a minha curiosidade e me levou às seguintes perguntas: Por que as pessoas se casam? Quais são as motivações conscientes e inconscientes presentes na decisão de se casar? Qual é a visão que a Psicologia Analítica possui a respeito do casamento?

Ao longo da história, a finalidade do casamento mudou significativamente. Em suas primeiras formas, o matrimônio tinha como objetivo firmar alianças políticas e econômicas. No século XI, a Igreja Católica eleva o casamento à condição de sacramento. A partir de então, a união deve durar até a morte e ter como propósito a procriação e o controle da concupiscência. Com o advento do movimento cortês e da tradição trovadoresca, o amor é deslocado da esfera do sagrado para o domínio do profano. A experiência do amor carnal deve estar disponível a homens e mulheres, ricos e pobres. O amor romântico, como união entre sexo e amor só vai aparecer com a ascensão da burguesia. Assim, o casamento deve ter como premissas a monogamia, a heterossexualidade, a amizade e o companheirismo. A procriação é desejada, mas não é imprescindível. O sentido do laço matrimonial muda mais uma vez com a revolução sexual e a emancipação feminina que ocorrem em meados do século XX: todo relacionamento tem como objetivo a busca pela satisfação pessoal.

Na visão de C. G. Jung, o verdadeiro matrimônio é aquele no qual há amor. Para ele, o amor não é romântico nem passional – se situa entre o instinto e o espírito. Também não cabe ao amor, a busca pela felicidade eterna, pelo contrário: exige dedicação, doação completa, entrega, coragem e sacríficio. O verdadeiro amor não desiste diante das dificuldades, pois sabe que o amor só floresce depois de um longo e árduo esforço. Logo, qualquer vínculo, numa ligação como essa, só pode ser duradouro (JUNG, 2005).

 

“Só se poderia pensar em amor livre se todas as pessoas realizassem elevados feitos morais. Mas a ideia de amor livre não foi inventada com esse objetivo, e sim para deixar algo difícil parecer fácil. Ao amor pertencem a profundidade e a fidelidade do sentimento, sem os quais o amor não é amor, mas somente humor. O amor verdadeiro sempre visa ligações duradouras, responsáveis. Ele só precisa da liberdade para a escolha, não para sua implementação. Todo amor verdadeiro profundo é um sacrifício. Sacrificamos nossas possibilidades, ou melhor, a ilusão de nossas possibilidades. Quando não há esse sacrifício, nossas ilusões impedirão o surgimento do sentimento profundo e responsável, mas com isso também somos privados da experiência do amor verdadeiro” (JUNG, 2005, p.23-24).

 

Assim, para C. G. Jung, o amor é a capacidade de nos envolvermos com algo que está fora de nós. Para se relacionar com um outro é necessário, primeiramente, que exista um eu. E para que exista um eu é preciso que exista diferenciação entre o eu e o outro. Nesse sentido, C. G. Jung defende que só há relacionamento quando existem duas pessoas conscientes de si mesmas. Não existe relação entre pessoas inconscientes pois, na esfera do inconsciente coletivo, não há distinção entre o eu e o outro (JUNG, 2013).

Como a maioria das pessoas vive num estado de inconsciência, a grande parte dos casamentos é realizada de maneira involuntária, apesar da crença geral de que as pessoas se casam segundo suas próprias convicções. De acordo com C. G. Jung, os motivos inconscientes que levam ao casamento podem ser de dois tipos: um pessoal, proveniente da influência dos pais, e outro de caráter geral, que se dá no domínio do instinto, visando a conservação da espécie. Em ambos os casos não há relacionamento, pois não há personalidades individualmente diferenciadas na âmbito do inconsciente (JUNG, 2013, p.167).

O comportamento emocional do indivíduo e o padrão de expectativas que atuam na escolha do parceiro são formados durante a infância. Os pais oferecem o primeiro e fundamental contato com os arquétipos do feminino e do masculino. Portanto, ao contrário do que se imagina, a escolha do parceiro e a opção pelo casamento não são decididas conscientemente, pois sofrem interferências que emanam do inconsciente.

Nesse sentido, a maior parte das opções feitas durante a primeira metade da vida são influenciadas por motivos inconscientes. Somente no meio da vida é que começamos a nos perguntar sobre os verdadeiros motivos que nos levaram a seguir este ou aquele rumo. Para C. G. Jung, esse questionamento faz parte de um processo natural de desenvolvimento humano que ele chamou de processo de individuação. Trata-se de um momento de profunda insatisfação que impele o indivíduo a sair do seu estado de identificação com o inconsciente à procura de si mesmo.

O processo de individuação vivido dentro de um casamento incita os seguintes questionamentos: Por que eu me casei? Será que essa foi a melhor decisão? Por que escolhi este companheiro para mim e não outro? Em nossa ânsia de encontrar a causa de tamanha angústia, logo encontramos um culpado: nosso cônjuge. Isso acontece porque projetamos no outro aquilo que, na verdade, pertence somente a nós.

Assim, o outro funciona como um espelho que me reflete, sem que eu tenha consciência disso. A projeção faz parte de um movimento natural da psique, um meio encontrado pelo inconsciente para se fazer notar pela consciência. A importância da projeção na ampliação da consciência reside no questionamento que o indivíduo começa a fazer a si mesmo quando se encontra em um momento de crise. Ao frear o impulso de acusar o outro, o indivíduo vai pouco a pouco reconhecendo e assumindo os seus conteúdos psíquicos que recaiam anteriormente sobre o outro.

À vista disso, o casamento, tanto em seus momentos felizes e agradáveis quanto em seus momentos de embate, tristeza e enfrentamento, pode se constituir numa grande oportunidade para que os cônjuges possam conhecer a si mesmos. Cabe ressaltar que a projeção e a sua retirada não podem ser controladas. “Nossa única oportunidade consiste em desenvolver uma consciência de quando eles acontecem e das características projetadas envolvidas” (WHITMONT, 1969, p. 174) .

 

Agora sentimos, por exemplo, que o casamento como relacionamento permanente não pode ser apenas definido em termos de deveres, mas deve ser moldado numa relação pessoal não apenas por amor e atração, mas tarnbem por enfado e aversões mútuas; temos de lidar com o parceiro individualmente com base na aceitação de uma pessoa inteira por uma pessoa inteira, e não em conformidade com padrões e códigos coletivos (WHITMONT, 1969, p.158-159).

 

Esse primeiro contato com os nossos próprios conteúdos marca o início do processo de individuação: o encontro com a própria sombra. Trata-se de um encontro difícil, pois o indivíduo precisa assumir aqueles aspectos desagradáveis que ele julgava pertencer somente ao outro.  O confronto com a sombra consiste num processo doloroso de aceitação, reconhecimento e acolhimento de nossas fragilidades e aspectos não desenvolvidos. A integração dos conteúdos sombrios confere a esses elementos novo significado, o que nos permite viver novas possibilidades. É importante ressaltar que a sombra não se compõe somente por atributos indesejáveis, mas também por elementos positivos.

A segunda etapa no caminho da individuação envolve o confronto com a contraparte sexual psíquica interna: a anima, no caso dos homens e o animus no caso das mulheres. A integração da anima no homem e do animus na mulher repercute no relacionamento conjugal – tudo o que acontece no mundo interior se manifesta em seguida no mundo exterior. Um casamento harmônico só acontece quando é realizado o casamento interno, do homem com sua anima e da mulher com seu animus. Assim, o casal não deve complementar um ao outro, mas proporcionar o desenvolvimento individual de cada um.

 

O casamento é o espaço adequado para que as duas pessoas se confrontem com os seus opostos, com suas diferenças, com as áreas obscuras e sombrias de sua personalidade. Nesse encontro é vivo o paradigma simbólico do Opus Alquímico, do processo de transformação psíquica, que leva a novas atitudes em consequência da união dos opostos, a conjunctio alquímica. O casamento é, portanto, o símbolo adequado do processo de individuação, descrito por Jung, e o ponto central de sua psicologia. É a reunião das polaridades numa totalidade psíquica, que seria simbolizada pela figura do hermafrodita. (CAVALCANTI, 1987, p.145)

 

Assim, acredito que o casamento pode ser um caminho possível em direção ao Self. Mas para que isso aconteça, o amor deve estar presente no relacionamento. Sem ele, torna-se muito difícil suportar os embates e as crises – elementos necessários no processo de percepção dos nossos conteúdos sombrios e não desenvolvidos.

Saber que aquilo que eu vejo no outro, na verdade, pertence a mim é um enorme passo dado na longa jornada rumo à totalidade. No entanto, desejo e vontade de realização do Self não são suficientes, pois o processo de individuação não é algo que pode ser controlado ou dirigido pela razão. Não é a consciência que decide que vai superar os seus complexos, integrar a sombra ou desenvolver a anima ou o animus. Trata-se, na verdade, de uma mudança de atitude, na qual o ego passa a ouvir os padrões universais e compreende que a consciência não é o centro da vida, mas sim o Self.

 

Referências

 

CAVALCANTI, R. O casamento do sol com a lua. São Paulo. Editora Cultrix, 1987.

 

C. G. JUNG. Sobre o amor. Aparecida: Ideias & Letras, 2005.

_________.  O desenvolvimento do personalidade. Vol. XVII. Petrópolis: Vozes, 2013.

 

IBGE. Estatísticas do Registro Civil - 2016, 2016. Disponível em https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/7008b7eee18577ef910339f1cc678bc2.pdf. Acesso em: 04 set de 2018.

 

WHITMONT, E. C. A busca do símbolo: conceitos básicos de psicologia analítica.

São Paulo: Cultrix, 1969.

 

 

Fabrícia Bernardes Cunha

Membro analista em formação pelo IJEP

Email: fabriciabc@gmail.com; Brasília/DF

 


Fabrícia Bernardes Cunha - 07/11/2019