O MITO DE CASSANDRA E A MULHER MODERNA: A OFICIALIZAÇÃO DO DESCRÉDITO E A MORTE DA VOZ FEMININA

O MITO DE CASSANDRA E A MULHER MODERNA: A OFICIALIZAÇÃO DO DESCRÉDITO E A MORTE DA VOZ FEMININA

Este ano de 2019 começou apresentando sua face mais sombria diante do feminino, foram mais de duzentos feminicídios, somente no primeiro trimestre e esses números não vêm diminuindo. Mas, para além da morte física, o que vem sendo vivenciado é o descaso com o feminino agredido e o descrédito no Ser feminino. Ser mulher, com tudo que isso implica, está cada vez mais perigoso.

Considerando aqui que os mitos, na perspectiva junguiana, se referem sempre a realidades arquetípicas, isto é, a situações a que todo ser humano se depara ao longo de sua vida, decorrentes de sua condição humana, é possível estabelecer uma comparação com o mito de Cassandra e a atual situação da mulher na sociedade contemporânea.

Cassandra, jovem mortal que encanta o deus Apollo, já conhecido por suas conquistas do sexo feminino, entre deusas e mortais, resiste ao deus que para convencê-la lhe dá de presente o dom da premonição. Contudo, Cassandra não sucumbe, despertando a fúria desse deus, que ciente de que não poderia reaver o dom ofertado, já que a um deus não é permitido ter de volta o dom uma vez dado, ele decide se vingar de Cassandra e a amaldiçoa: ela permanecerá com o dom da premonição, mas ninguém acreditará nela, determinando assim o descrédito no feminino. Apollo é a representação do vínculo à ordem, à razão, à verdade e à clareza, claro tudo isso dentro da lógica patriarcal.

As características principais de Apollo são extremamente valorizadas no mundo atual, enquanto características ligadas ao feminino como intuição e sentimento estão em total desalinho com o mundo moderno, sendo assim são características totalmente desacreditadas e inferiorizadas pela lógica patriarcal. E, sendo desacreditadas, podem e até mesmo devem ser silenciadas.

De acordo com Hillman (2016, p.134) até mesmo Jung sofreu os efeitos desse mundo apolíneo patriarcal quando do reconhecimento do sentimento "manifestado em sua forma bem livre e aberta de fazer terapia sem a carga da rigidez técnica concebida pelo intelecto. Por conseguinte, sua psicologia cedo agradou a mulheres e artistas; com a mesma rapidez, foi rejeitada - com notáveis exceções - nos ambientes em que se desvaloriza o sentimento: a medicina e a psicologia científicas contemporâneas e o meio acadêmico." Portanto, tudo aquilo que vai contra a ordem apolínea patriarcal deve ser descartado e desacreditado e nem mesmo Jung conseguiu fugir dessa lógica de silenciamento.

Assim como Apollo ferido em seu Ego de conquistador, decidiu desacreditar Cassandra, a sociedade patriarcal apolínea decidiu encarar como ameaça o feminino que se apresenta ativo e questionador da valorização unilateral de uma sociedade que cultua apenas a forma, a razão, a ordem em detrimento de outras características intrinsecamente humanas. A partir disso, a lógica patriarcal passou a justificar o silenciamento dessas mulheres, que ao negarem Apollo, precisam ser desacreditadas e caso necessário mortas.

A morte é a literalização desse descrédito e silenciamento, já que não é vislumbrado um discurso que vá contra a agressão e mordaça impostas ao feminino, pelo patriarcado apolíneo. Pelo contrário, o que vemos é um incentivo cada vez maior, da sociedade, ao silenciamento. Até mesmo entre algumas mulheres existe o louvar as características apolíneas, em detrimento à natureza feminina.

De fato, não há de ser negada a importância das características apolíneas e da necessidade de valorizá-las, contudo o problema está no esquecimento do lado abusivo e tirânico de Apollo, especialmente em relação ao feminino. De acordo com Shapira (2018, p.16) "A cultura ocidental está toda impregnada de consciência apolínea. Da maneira como estamos identificados com os valores positivos dessa consciência - torna-se difícil identificar Apollo sob uma luz negativa. No entanto, ele pode projetar uma sombra muito escura."

A Cassandra moderna tem o seu complexo constelado e passa cada vez mais a assumir as características apolíneas, negando assim a si mesma. Mas, isso não é suficiente para uma sociedade que louva Apollo e o patriarcado, é preciso silenciar e desacreditar as vozes dissonantes.

Para além das mortes físicas, é possível trazer aqui dois exemplos simples de silenciamento do feminino, o primeiro o afastamento da presidente eleita Dilma Rousseff que antes de ser afastada sofreu a maior campanha de descrédito já imposta a um político no Brasil. Para além de posições políticas, o que houve foi um descrédito na competência do feminino para governar e isso foi explícito em divulgação de adesivos misóginos e de vídeos que ridicularizavam a ex-presidente em relação a seu gênero, especialmente ao manifestar emoções. Outro exemplo está vinculado ao enorme movimento feminino do #elenão que, ao invés de prejudicar a candidatura a qual se opunha, acabou por favorecer o candidato e aumentar seu eleitorado, inclusive entre as mulheres, segundo IBOPE (1º de out 2018). O movimento foi vinculado à feministas e estas vinculadas ao descrédito de mulheres "mal amadas" e insatisfeitas, vinculadas a negação do patriarcado e consequentemente à negação de Apollo.

Muitas vezes em atendimento terapêutico nos deparamos com mulheres que estão vivenciando ou já vivenciaram relacionamentos abusivos, mas não se dão conta dos motivos que as levaram a não perceber, a não identificar abuso como abuso. Se veem em relacionamentos ajustados a forma apolínea determinada pela lógica patriarcal da família e dos "bons costumes", trabalham excessivamente, são bem-sucedidas profissionalmente e assumem a lógica, a razão, a forma... como características principais e positivas, mas algo dentro delas não se cala e a "premonição" de que algo dará errado não as abandona e, geralmente quando essa voz se levanta, o patriarcado decide silenciá-las, seja pelo descrédito, seja pela morte.

E é exatamente este momento de polarização, de não reconhecimento da sombra apolínea que tem levado a nossa sociedade, especialmente o momento atual de Brasil, a desconsiderar os números e encarar os duzentos feminicídios com banalidade, com descrédito, afinal Apollo ferido em seu ego tem o direito de punir Cassandra que ousa desafiar a vontade do deus do patriarcado. E, por mais que seja surpreendente, muitas mulheres envolvidas e seduzidas por Apollo e a valorização social de suas características, reproduzem em suas vidas apenas os valores apolíneos, demorando para reconhecer os abusos impostos por essa escolha.

Andrea Alencar, membro analista em formação pelo IJEP - Rio de Janeiro

 

SHAPIRA, Laurie Layton. O Complexo de Cassandra. 2 ed. Cultrix, São Paulo, 2018

VON FRANZ, Marie Louise. A Tipologia de Jung: ensaios sobre pasicologia analítica. 2 ed. Cultrix, São Paulo, 2016


Andrea Alencar - 26/07/2019