O PODER E O AMOR

O Poder e o Amor Psicologia Junguiana Psicossomática Arteterapia

A arte de viver é a mais sublime e a mais rara de todas as artes.

Jung

Hoje, 23 de abril de 2017, no jornal O Globo, ao ler a resenha A vaidade do corruptor, que fala sobre a vontade de poder, a jornalista Dorrit Harazim me remeteu a alguns pensadores que se preocuparam com o tema, Adler, Hillman e Jung.

Jung (1987) trabalha as ideias de um dos principais discípulo de Freud, Alfred Adler, que estabeleceu que o sentimento de inferioridade faz nascer um desejo compensatório de superioridade, de dominação, de poder, que pode conduzir a alguma forma de sucesso pessoal ou à busca de desejos irrealistas. Para Adler é a vontade de poder que é a força motora de toda ação humana. Foi o que muito bem percebeu e descreveu Dorrit:

Se em 1975 o jovem Hildeberto Mascarenhas tinha ou não vaidades próprias à idade quando ingressou na Construtora Odebrecht como estagiário, elas não devem ter ofendido ninguém. Formado em Administração pela Universidade Federal da Bahia, Mascarenhas passou os 30 anos seguintes fazendo carreira na holding sem sobressaltos. Em 2006 foi pinçado por Marcelo Odebrecht para profissionalizar o Departamento de Operações Estruturadas - o tentacular braço contraventor do grupo. Ao longo dos últimos dias ele pode ser visto em vídeo na cadeira de colaborador, detalhando para os representantes do Ministério Público as entranhas do mecanismo montado. (...) No decorrer de seu depoimento de pouco mais de duas horas (acessível na rede), assiste-se a uma transformação: de contido narrador de fatos, Mascarenhas pouco a pouco vai se soltando e passa a saborear a descrição do poder exercido na chefia das Operações Estruturadas. (HARAZIM, Jornal O Globo, de 24/04/2017, p. 18)

 

O que une este ser ao longo desses 30 anos? Para Hillman (2001) a ideia de caráter é como uma permanência que ligaria toda a nossa vida.

Eu mudei tanto e estou tão diferente, no entanto, apesar de todas as mudanças, alguma coisa continua a me assegurar que sou o mesmo. Poderia perder minha identidade social, minha configuração física e minha história pessoal, no entanto alguma coisa permanecerá a mesma, ultrapassando essas vicissitudes radicais. [...] o carácter é este cerne que não se altera. (HILLMAN, 2001, p. 35)

 

O arquétipo do senex-puer estudado por Hillmam (2008) pode colaborar para o entendimento desta atitude e ele defende que esse arquétipo está presente em todas as etapas da vida. Ligado ao Self desde o início da formação do ego na infância, o senex está ligado a temporalidade, ao trabalho, a continuidade, ao ir e vir, a persistência, a maturidade. Seu vetor é horizontal, o contínuo tempo/espaço, chamado de ‘realidade. Relacionado com a imagem de Cronos-Saturno, apresenta-se como um deus grego com seus aspectos duais muito intensos. Apresenta, como todos os arquétipos, uma polaridade positiva, ligada ao Velho Sábio, e uma polaridade negativa relacionada ao Velho Rei. Já o puer aeternus está relacionado a eternidade, e tende a unificar os arquétipos da Criança Divina, do Herói, às figuras de Eros, o Filho do Rei, entre outros. O puer gosta de falta de direção, não gosta de ligações, é temperamental, vagueia, incendeia-se, sem objetivo, não tem paciência, nem gosta de esperar. Seu vetor é vertical. Tem uma conexão direta com o espírito, com a inspiração, é auto-suficiente e contém todas as possibilidades, é perfeito e seu principal problema não é a falta de realidade física, mas a falta de realidade psíquica. Move-se depressa, deseja demais, muda de direção.

O ciclo do senex-puer além de ocorrer ao longo da vida também ocorre dentro de cada arquétipo. Cada vez que um aspecto que estava no inconsciente chega a consciência, é trabalhado e integrado, ele fica velho e um novo ciclo deverá se reiniciar, de forma saudável, a partir da força do puer. E isso não acontece apenas na crise da meia-idade ou na crise da velhice, mas durante o desenvolvimento da pessoa, durante o enfrentamento dos desafios da vida. O autor chama nossa atenção dizendo que ele não está falando de duas metades da vida mas de um único arquétipo lidando com continuidade e alternância, sem unilateralidade e mantendo a unidade - este seria o arquétipo do processo da vida.

Ambos os aspectos, senex ou puer, estão ligadas à própria natureza do desenvolvimento; mas em suas polaridades negativas eles não gostam de se desenvolver, estacionam unilateralmente. No entanto, a pior possibilidade para este arquétipo é a ruptura da ligação entre o puer e o senex. Assim o ‘sucesso e poder podem nos aprisionar.

O idealismo e o eros do começo sucumbem ao sucesso e ao poder (através de uma adaptação bem-sucedida), para serem reencontrados [...] apenas no final, quando sucesso e poder falham, quando Saturno está exilado do mundo - então eros como lealdade e amizade, e idealismo como insight profético e contemplação da verdade, retornam." (HILLMAN, 2008, p. 43)

 

Na visão desenvolvimentista, estamos num continuo devir, a obra da vida vai do nascimento à morte, e nossa capacidade de adaptação e desenvolvimento está sempre sendo desafiada a dar novas respostas. Sem a polaridade puer-senex, sem esta tensão entre os opostos, não há a precondição para a mudança. E assim ao longo deste desenvolvimento o caráter do ser vai se formando, transformando e se expressando. Jung (1987) esclarece sobre a produção e a direção da energia no caminho da vida e nos diz que "nenhuma energia é produzida onde não houver tensão entre contrários; por isso, é preciso encontrar o oposto da atitude consciente"

Essa reflexão me fez ter esperança, tanto para o Mascarenhas, como para a sociedade como um todo. Se ações desta natureza de ‘vontade de poder estão na consciência, há de haver no Inconsciente o contrário dela.

É interessante verificar como essa compensação dos opostos também teve sua função na história da teoria da neurose: a teoria de Freud representa Eros; a de Adler, o poder. Pela lógica, o contrário do amor é o ódio; o contrário de Eros, Phobos (o medo). Mas, psicologicamente, é a vontade de poder. Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro. (JUNG, 1987, p 45)

 

Dorrit relata no final do artigo, que na história econômico social, representantes do capitalismo selvagem compensaram a sociedade com universidades, coleções de arte, museus, bibliotecas, espaços públicos, atitudes de filantropia. Espero que ainda nesta geração possamos aprofundar temas que realmente sejam relevantes para a sobrevivência de todos: o respeito pela a Natureza - e nossa pertença a ela; a tolerância com o diferente - dentro e fora de nós; a aceitação da intuição e do inconsciente - no processo de pesquisa e inovação; integrando o novo e o velho, o poder do si mesmo e o amor do ego.

 

*Dra. Maura Selvaggi Soares, Médica, Especialista em Psicologia Junguiana e Analista em Formação do IJEP. mauraselva@gmail.com

 

REFERÊNCIAS

JUNG, Carl Gustav. Psicologia do Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1987.

HARAZIM, Dorrit. A vaidade do corruptor. O Globo, Rio de Janeiro, 23 abr. 2017. Disponível em: http://oglobo.globo.com/opiniao/a-vaidade-do-corruptor-21238770#ixzz4f5E7Bcwm. Acesso em: 23 abri. 2017.

HILLMAN, James. A Força do Caráter: e a poética de uma vida longa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

_____ O Livro do Puer: ensaios sobre o arquétipo do Puer aeternus. 2. ed.  São Paulo: Paulus, 2008.


Maura Selvaggi Soares, - 15/06/2019