O RESGATE DA EXPERIÊNCIA SIMBÓLICA: CONSIDERAÇÕES A PARTIR DA PSICOLOGIA ANALÍTICA E DO PARADIGMA QUÂNTICO

O resgate da experiência simbólica: considerações a partir da psicologia analítica e do paradigma quântico Mecânica quântica

O início do século XX foi marcado por uma grande revolução no campo da física, quando Max Planck, por volta de 1900, inaugura a mecânica quântica, a partir de uma necessidade experimental, cunhando o termo quantum para o menor valor possível em que uma grandeza física se apresenta. Antes disso, alguns precursores, como Einstein, já previam que a matéria nem sempre se comportava segundo regras bem estabelecidas, seguindo a visão determinista, o que foi enunciado sobretudo em sua Teoria da Relatividade. A partir de Planck, seguiram-se novas e fecundas descobertas nesse campo, com o progressivo aumento da compreensão da realidade microfísica, e a constatação cada vez mais intensa de que o que se apresenta para nós como realidade física depende em larga medida de nossa observação, e não de supostas propriedades que são intrínsecas à matéria. Isso produz uma quebra importante em nossa cosmovisão dominante, que separa sujeito e objeto e coloca o mundo físico como altamente previsível segundo algumas leis, dificultando o encontro de um significado para a experiência, produzindo a sensação do vazio.

            Jung sempre foi um grande interlocutor com diversas áreas do conhecimento, e nos movimentos de interlocução que o acompanharam ao longo de toda a sua vida e obra, teve uma troca fértil com os físicos do final do século XIX e início do século XX em diante, seus contemporâneos, entre os quais os grandes responsáveis pelo desenvolvimento da mecânica quântica, campo que o influenciou de forma a embasar conceitos de sua autoria como a sincronicidade e o arquétipo psicóides, e que o levou a perceber uma confluência entre suas conclusões sobre a psique e sua dinâmica e as da ciência física, como se ali se fizesse o mistério do encontro, aquele ponto para o qual tudo conflui. E, como não poderia deixar de ser, esse ponto é a própria psique, que é para Jung o único caminho possível para a experiência humana e toda a sua criação, que só é possível através das imagens: não temos acesso a nada em si, toda a nossa experiência é psíquica. É de se esperar que seja nela e a partir dela, então, que se cria a noção de que há um entrelaçamento entre nossa experiência do mundo dito "concreto" e nossas disposições internas, separadas pela consciência, mas unidas na realidade que a antecede e a cria, nossa matriz inconsciente.

            A psicologia analítica certamente desafiou os limites da ciência de sua época, governada sobretudo pelo materialismo, e a crítica junguiana aos rígidos limites impostos ao saber científico continua valendo até hoje, visto que a ciência atual se pauta basicamente nos mesmos princípios e métodos para a definição da verdade científica. Foi uma psicologia revolucionária ao penetrar nos mais diversos campos da experiência humana, como a filosofia, a religião, a mitologia, o misticismo, a alquimia e tradições antigas de sabedoria, etc., buscando sempre extrair dali as grandes verdades da alma, e traduzi-las para uma linguagem psicológica.

            A física do século XX, ponto de apoio para grande interlocução de Jung, foi uma das exímias contribuidoras para que o autor estendesse os limites de seu conceito de psique para muito além da interioridade e da personalidade individual, indo de uma ponta a outra, tocando desde o átomo com suas subpartículas, até o universo em expansão, permitindo encontrarmos a psique na matéria, na realidade "concreta", na experiência cotidiana. Ofertou assim um sentido psicológico a experiências de interconexão mundo psíquico - mundo físico, antes relegadas principalmente à metafísica, sendo a sincronicidade um de seus grandes exemplos.

            Jung desde muito cedo já percebia em suas observações clínicas e cotidianas que o princípio dominante na ciência para a compreensão dos fenômenos estudados, a saber, o da causalidade, não era em si incorreto, mas insuficiente como explicação absoluta, e inviável como modelo para pensar alguns casos particulares de experiências. A sincronicidade é definida formalmente como "a simultaneidade de um estado psíquico com um ou vários acontecimentos que aparecem como paralelos significativos de um estado subjetivo momentâneo e, em certas circunstâncias, também vice-versa". (JUNG, 2014a, § 850). É, portanto, um paralelismo entre um estado subjetivo e um evento físico, ligado ao primeiro de forma significativa, porém, não causal, e essa ligação é percebida por uma consciência em particular, como tendo um significado especial. Importante destacar que sincronicidade, regida pelo arquétipo, tem um caráter numinoso, pois esta é uma característica primordial do arquétipo, sendo a ele atribuído historicamente aspecto espiritual ou mágico; devido à sua intensa carga energética, tem uma espécie de aura mística (Idem, 1991), ou seja, de natureza sagrada, com potencial para capturar a atenção e provocar fascínio, dando ao observador a ideia de um significado transcendente e intrínseco ao fenômeno. Esse aspecto transcendente, e que define ainda um padrão de manifestação que se assemelha nos aspectos físico e psíquico da experiência é o que levou Jung a supor que o fenômeno da sincronicidade era regido pelo arquétipo. E é importante ainda considerar que a simultaneidade entre os eventos depende de um modo de olhar da consciência, visto que esses eventos não precisam necessariamente estar unidos no espaço ou no tempo, embora possa ser esse o caso às vezes. O significado é que estabelece a ligação.

            O modelo dinâmico da psicologia analítica inclui, na ideia de inconsciente, o que seria uma camada chamada por Jung de inconsciente pessoal, que seria mais superficial e formada através de conteúdos da experiência pessoal do indivíduo, composta basicamente pelos complexos, que são agrupamentos de conteúdos associados, unidos por uma tonalidade afetiva específica; e, para além dele, um estrato universal, chamado por ele de inconsciente coletivo, inato, sobre o qual repousam os conteúdos pessoais, e que não é fruto de elaboração consciente (JUNG, 2014b). Esta camada seria povoada pelos arquétipos, disposições ou fatores que estruturam a experiência humana, nossa herança ancestral. Seriam como possibilidades herdadas, potenciais semelhantes para todos os indivíduos para produzirem percepções, fantasias, ideias, associações, etc., que são semelhantes em sua forma básica. E sua natureza, embora irrepresentável, é, para Jung, o que ele chamou de "psicóide", semelhante ao psíquico, mas anterior a ele, sendo antes o ponto em que no plano psíquico se mesclam os aspectos materiais e imateriais da experiência, sendo esta a abertura necessária para a passagem à matéria (Idem, 1991), a compreensão de que tanto a psique quanto a matéria são possivelmente estruturadas pelo mesmo princípio arquetípico.

            Jung faz um resgate da alquimia como sendo um antecedente histórico da psicologia profunda. É uma arte antiga que consistia basicamente na busca da transmutação de metais inferiores em ouro através de uma série de operações materiais, o que era chamado de obra ou opus alquímica. Essa transmutação seria possível através da obtenção de uma lendária substância conhecida como a pedra filosofal, responsável também pelo elixir da longa vida. Jung compreendeu os tratados alquímicos como expressões simbólicas do próprio processo de desenvolvimento psicológico em que, através de uma série de transformações, ali projetadas nas operações materiais, buscaríamos encontrar a nossa essência mais elevada, expressa em sua noção de totalidade psíquica, de completude e de unificação interior. Na alquimia, há uma "verdade" (veritas) que está oculta na matéria, um aspecto divino, e que deve ser encontrado e trazido à tona. O encontro da substância incorruptível se aproxima do objetivo do desenvolvimento psicológico, a criação e ampliação de consciência. Os alquimistas já tinham incluída em sua filosofia a hipótese de um mundo potencial, unitário, que deve ser dividido em suas partes para alcançar o status de realidade (ou seja, tornar-se consciente), para que posteriormente os elementos possam ser  reunidos novamente: esse mundo unitário é o chamado unus mundus (JUNG, 2012). A experiência subjetiva da unidade acontece a partir da chamada atitude simbólica. O símbolo é considerado na psicologia analítica a instância que comunica a consciência ao inconsciente, através de sucessivas transformações da energia psíquica, apresentando à consciência todas as novas tendências de desenvolvimento a serem por ela assimiladas, expressando as maiores necessidades anímicas de certo momento.

            Jung (1991b, § 908-9, vol. 6, p. 446, apud. FREITAS, 2009, p. 19), diz o seguinte: 

Depende da atitude da consciência que observa se alguma coisa é símbolo ou não [...]. É bem possível, pois, que alguém estabeleça um fato que não pareça simbólico à sua consideração, mas o é para outra consciência [...]. Esta atitude que concebe o fenômeno dado como simbólico podemos denominá-la atitude simbólica. Só em parte é justificada pelo comportamento das coisas, de outra parte é resultado de certa cosmovisão que atribui um sentido a todo evento, por maior ou menor que seja [...].

               Whitmont (1969) coloca a visão simbólica como o caráter essencialmente novo da psicologia de Jung, que valoriza, enfatiza e confia nas capacidades intuitivas e emocionais da psique, ou seja, seus fatores irracionais ... Não nos sentimos conectados à nossa vivência cotidiana, que foi reduzida a fatos objetivos aos quais nos submetemos sem participação ativa. O campo externo perdeu parte de sua capacidade de ser gerador de sentido ou de nos comunicar também novas possibilidades de desenvolvimento. Por mais que hoje nossa consciência seja mais diferenciada, perdemos, ao mesmo tempo em que progredimos, o sagrado da experiência imediata.

            Retornando à mecânica quântica, vale ressaltar o quanto a mudança de paradigmas na ciência física foi convergindo com as conclusões a que foi chegando à psicologia analítica quanto à experiência da interconexão. A mudança de paradigmas é um processo natural e necessário no campo das ciências, conforme aponta Kuhn (1962). Segundo o autor (Ibid., p. 67), os paradigmas são "ilustrações recorrentes e quase padronizadas de diferentes teorias nas suas aplicações conceituais, instrumentais e da observação", ou seja, padrões recorrentes em torno dos quais se organiza a definição de um saber científico. A partir de determinado momento, ocorre uma crise, que é o momento em que se evidenciam problemas que determinado paradigma não é capaz de resolver, e se faz imprescindível mudar o paradigma, ocorre uma revolução científica. Um destes momentos para a Física ocorreu quando os princípios da mecânica clássica passaram a se mostrar insuficientes para a compreensão de novos resultados experimentais, que desafiaram a cosmovisão dominante, transformando profundamente conceitos como espaço, tempo, causa e efeito, matéria, etc. (CAPRA, 2013). A nova física, surgiu de uma necessidade experimental. O legado newtoniano foi um modelo amplamente aceito na física desde o século XVII, devido à sua forte adequação para a compreensão e previsibilidade das leis do movimento, o que começou a esbarrar em uma série de obstáculos ao se olhar para a realidade microfísica, com a mecânica do átomo e das partículas subatômicas, que não correspondiam aos princípios clássicos. Assim, os dois principais alicerces da nova ciência passaram a ser a mecânica quântica associada à sua precursora, a Teoria da Relatividade de Einstein.

            Algumas observações no terreno da física clássica já foram fundamentais para o advento da mecânica quântica. O primeiro marco foram os experimentos com a luz, entendida em primeiro por Newton como sendo de natureza corpuscular, partículas que se movem no espaço segundo suas leis de movimento. Mas a natureza ondulatória da luz seria definitivamente verificada por volta de 1800, quando Thomas Young (1773-1829), médico interessado na física, realizou o que ficou conhecido como experimento da dupla fenda: posicionou um anteparo na frente de uma fonte de luz, com duas fendas paralelas, e na projeção da luz demonstrou o padrão de interferência, que consiste em uma superposição de ondas, que se anulam em alguns pontos e se somam em outros. A natureza ao mesmo tempo ondulatória e corpuscular foi um paradoxo que gerou um conceito fundamental quanto à natureza dual da matéria e o efeito do observador. O estudo do eletromagnetismo, que evidenciou que os efeitos materiais nem sempre são frutos da interação entre dois corpos, mas de campos, foi um segundo marco importante, seguido do conceito de energia, não como substância, mas como abstração, como uma capacidade para realizar trabalho.

            A Teoria da Relatividade, que trouxe a velocidade da luz como uma constante universal, trouxe ao nosso conhecimento a relatividade das categorias de tempo e espaço, que passaram a não seguir sempre as aproximações newtonianas, e a ser entendidas não como independentes, mas interligadas num continuum. Uma das suas consequências mais importantes é a matéria entendida como uma forma de energia, ou seja, como um padrão dinâmico mais do que como um objeto composto por blocos sólidos. Este fato foi expresso em sua famosa fórmula: E = mc².

            Max Planck (1858-1947), físico alemão considerado o inaugurador da mecânica quântica em si, foi o responsável por entender que uma grandeza física qualquer, como energia da radiação térmica (que foi seu campo de estudo), tem uma expressão descontínua, e à menor quantidade possível de uma emissão deu o nome de quantum. Einstein (1879-1955) foi o grande responsável por estender a ideia do quantum à natureza da luz que, segundo pensou, também deveria ser um fluxo de pequenas quantidades, que mais tarde vieram a receber o nome de fótons. Descobriu o efeito fotoelétrico, quando uma luz incidindo sobre uma placa de metal era capaz de arrancar elétrons, o que seria impossível se a luz fosse apenas onda. Assim, estava estabelecido um grande paradoxo: "Ao escolher demonstrar a interferência, [...] você pode provar que a luz é uma onda espalhada. No entanto, ao escolher uma demonstração fotoelétrica, você pode demonstrar o oposto: que a luz [...] é [...] um fluxo de minúsculos objetos compactos". (ROSENBLUM E KUTTNER, 2017) Chegamos aqui ao mistério do efeito do observador. Ou seja, posso demonstrar uma coisa de cada vez sobre a natureza de uma grandeza física, e ambas as demonstrações serão possíveis, embora não ao mesmo tempo.

            Após o surgimento do modelo atômico planetário de Ernest Rutherford (1871-1937), que postulava que os elétrons deveriam orbitar em torno de um núcleo, ficou a cargo de Niels Bohr (1885-1962) a comprovação de como o átomo planetário poderia ser estável, o que fez de forma bem-sucedida, assumindo que a rotação só era possível em unidades quânticas (Ibid.), ou seja, somente certas órbitas, e, portanto, certas frequências emitidas por átomos de cada elemento, eram possíveis, embora não se soubesse a razão para tal. O que ficou aqui conhecido como salto quântico era o fato de que o elétron, em determinado momento não conhecido previamente, desaparecia em uma das órbitas ao redor do átomo, aparecendo em seguida em outra órbita, sem que fosse possível rastrear sua trajetória.

            Louis de Broglie (1892-1987), físico francês, se questionou sobre a natureza da matéria que, assim como a da luz, poderia também ser dual, sendo ao mesmo tempo onda e partícula. O seu ponto de partida foi certa "inteligência" dos elétrons, que pareciam saber em que órbita deveriam estar no caso de cada elemento. Para que isso fosse possível, deveriam vibrar com certo comprimento de onda. Os autores (Ibid.) dizem que essa demonstração da natureza dual da matéria é o encontro da física com a consciência, porque o observador pode comprovar a realidade física de um objeto dependendo de como escolhe olhá-lo. Niels Bohr foi o responsável por enunciar seu princípio da complementaridade, que diz que uma explicação completa sobre um objeto inclui os seus dois aspectos como complementares e não como excludentes, embora ambos não se verifiquem simultaneamente.

                        Erwin Schrödinger (1887-1961) buscou uma interpretação à mecânica quântica que não precisasse incluir os saltos quânticos de Bohr, a partir de órbitas permitidas, pois lhe parecia difícil aceitar que eles pudessem ocorrer sem razão aparente. Dessa maneira, trouxe a hipótese de que os elétrons seriam como ondas, que simplesmente podem mudar de um estado vibracional a outro. Para objetos macroscópicos, sua equação de onda se tornava a equação newtoniana do movimento. Werner Heinsenberg (1901-1976), tentou apresentar outra versão da mecânica quântica, que se constatou por Schrödinger ser muito semelhante à sua própria, em que fez uma interessante observação: já que as "ondas de matéria" não seguem com exatidão os princípios aplicados a outras ondas conhecidas, algo de outra natureza é que deve estar ondulando. Chegou-se à conclusão então de que determinada equação de onda tem a ver com uma característica intrinsecamente probabilística: esta equação nos mostra apenas em que regiões do espaço há maior probabilidade de encontrar um objeto como um átomo por exemplo, e essas regiões são as de maior ondulatoriedade.

            A física quântica é, por isso, a física das probabilidades. Oferece-nos as probabilidades de que, ao observarmos, encontremos um objeto num local específico, sendo que, simultaneamente, essa mesma probabilidade em todas as outras regiões cai a zero. A esse efeito provocado pela observação convencionou-se chamar de colapso da função de onda, que diz que o objeto observado não tem existência concreta até que a observação ocorra, fazendo com que a ondulatoriedade entre em colapso em processo descontínuo. Pensar, assim, que a observação "cria" a realidade manifesta dá margem a diversas interpretações sobre o que significa a observação e a criação da realidade. Mas o que postula a mecânica quântica de maneira universal é que o colapso não é algo que ocorre intrinsecamente como uma propriedade da matéria, dependendo sempre de um observador para ocorrer. Enquanto a observação não ocorre, o objeto quântico se apresenta como uma superposição de estados possíveis, a soma de todas as suas funções de onda.

            Heisenberg foi um contestador de uma interpretação ortodoxa da mecânica quântica, que entendia haver uma realidade independente de observação, considerando qualquer objeto, macro ou micro, como quântico, com a realidade macrofísica passando a ser um caso especial da realidade quântica, e enunciou o seu princípio da incerteza, que foi uma demonstração experimental de que a observação de uma propriedade qualquer "torna incerta uma grandeza 'complementar' ". (Rosenblum e Kuttner, 2017). Nesse caso, quanto maior a precisão na medida da posição do objeto, mais incerta será a medida de sua velocidade e vice-versa. Atualmente, a mecânica quântica tem sido aplicada a objetos cada vez maiores, desafiando o realismo científico, conforme pontuam os autores (Ibid.). E continuam, dizendo que a princípio tudo funciona pela mecânica quântica, a diferença é que para coisas grandes não notamos sua estranheza. Existe uma incerteza fundamental e intrínseca à realidade física.

            As observações da mecânica quântica foram apontando para a ideia de uma realidade interconectada, tornando plausível o conceito de não localidade. Conexões não locais significam interações que ocorrem sem aparente troca de informações, ao menos pelos sinais físicos, que viajam no limite da velocidade da luz, as interações são instantâneas. Nesse contexto, as partículas que interagiram em algum momento, passam a estar conectadas não-localmente, uma afetando instantaneamente o comportamento da outra, o que é chamado de emaranhamento. No entanto, pela própria limitação da consciência humana, nunca temos acesso pleno à unidade, que é intuída pelas suas manifestações.

            Ao chegarmos à compreensão de que a realidade observada é fruto de uma longa cadeia de processos interdependentes, cujo ponto final é o encontro com a consciência, faz-se o grande enigma do encontro. Rosenblum e Kuttner (2017) postulam o enigma quântico como sendo a possibilidade de demonstrar experimentalmente tanto um aspecto do objeto observado, a saber, seu caráter ondulatório, quanto o outro, seu aspecto de partícula, mas ambos nunca podem ser demonstrados simultaneamente, no mesmo experimento, sendo que a situação contraditória se coloca pela "nossa percepção consciente do livre-arbítrio" (p. 115), ou seja, sabemos que poderíamos ter escolhido demonstrar o outro aspecto. É como se a observação criasse o seu histórico. Goswami (1998), eminente físico quântico, realiza importante discussão acerca desse ponto, chegando a dar à consciência o status de base de toda a existência, externa ao espaço-tempo, não local e permeando tudo, posição contrária ao materialismo científico, que a vê como mero epifenômeno. O autor pensa através da filosofia do idealismo monista, que preconiza mente e matéria como faces de uma mesma realidade que não se baseia na matéria. Afirma assim: "[...] essa filosofia postula que tudo (incluindo a matéria) existe na consciência e é por ela manipulado." (p. 30). Considera, assim, que a consciência é unitiva, fundamento da existência, onde não há separatividade. É o domínio transcendente da realidade onde tudo existe em potencial. E continua em suas considerações: "[...] Lembrem-se também que na teoria quântica o sujeito que escolhe é um sujeito único, universal, e não nosso ego pessoal, 'eu' [...], essa consciência optante é também não-local." (p. 143). O que para o ego parece um colapso aleatório de uma entre várias possibilidades, a consciência quântica entende como escolha. Aqui se contrapõem a atitude do ego como condicionada e contínua, e a atitude da consciência unitiva, global, não local, criativa. A diferença básica está nos termos utilizados: no paradigma quântico, consciência se refere menos a um campo restrito da identidade subjetiva, e mais a uma qualidade de integração, inteligência, o aspecto teleológico da realidade unitária.

            Seja como for, qualquer cosmovisão define uma leitura do mundo, e pode levar à experiência do sentido ou de sua falta. A concepção cartesiana da realidade separa mente e matéria com certeza matemática e seu ideal de objetividade, decompondo artificialmente fenômenos em partes, o método não duvida de si mesmo, coloca a supremacia do sujeito pensante, privilegia a mente racional. A concepção mecanicista se estendeu à compreensão de nós mesmos e nos cindiu, levando ao reducionismo e ao rígido determinismo causal: a previsibilidade. Tudo passou a ser explicado pelo movimento de partes fragmentadas, e não se enxerga mais vida, espiritualidade, propósito ou sentido na matéria, há um enorme vazio que nos permeia. Conforme Whitmont (1969), a racionalidade excessiva da cultura contemporânea dificulta o encontro do significado para a experiência, assim como o encontro do sentido e a orientação do homem pelo seu mundo interno, colocando as experiências irracionais como pouco significativas, bem como despovoando a realidade física de sentido simbólico, pela cisão sujeito-objeto. Os pilares que sustentam o paradigma clássico são basicamente, conforme elenca Goswami (1998), aqueles relacionados ao realismo materialista: a objetividade, o determinismo causal, a localidade, o monismo físico ou materialista (tudo é matéria) e o epifenomenalismo (a consciência é um epifenômeno). 

            Cada um desses princípios, mesmo que possam ser válidos dentro de um olhar específico a certas experiências, um a um foram sendo relativizados e contraditos pelo novo olhar, trazido pela mecânica quântica. A cosmovisão quântica então se baseia nos princípios seguintes, segundo Aufranc (2006): a incerteza - que se opõe ao determinismo causal; a não-localidade; o efeito do observador - que se opõe à objetividade; as apresentações dos objetos quânticos de onda e partícula como aspectos complementares - em oposição ao monismo físico; e a superposição de estados possíveis em que um objeto pode se encontrar antes da observação ocorrer, cada um com uma probabilidade - que se opõe ao epifenomenalismo, pois traz o papel preponderante da consciência, não mais vista como epifenômeno de processos materiais.

            Capra (2013) amplia essa discussão. Em primeiro lugar em suas considerações, encontramos o universo como uma unidade, uma realidade basicamente interconectada, visto que tudo o que encontramos a nível atômico e subatômico não são os blocos de construção pensados por Newton, mas sim padrões de probabilidades (caráter de incerteza), que se modificam a partir da observação, ou seja, não são independentes dos processos que os constituem e os levam a se manifestar de determinada maneira. Por isso existe uma unidade subjacente, o fato de determinado objeto se apresentar em determinado estado depende de suas interações com outros objetos e com o observador, tudo se liga numa grande cadeia de elementos e processos complexos. Não há separatividade, nos sentimos integrados em harmonia à nossa realidade.

            Sempre há mistério envolvido na compreensão da matéria e da psique, o que nos possibilita a ampliação do olhar ao campo potencial, de onde emergem novos sentidos. Conforme diz Simone Magaldi (2010), o átomo é quase cem por cento composto de espaço vazio, sendo o restante partículas subatômicas se movendo à velocidade da luz, compondo o caos potencial, que precisa se unir ao logos da ordem para que toda a informação ali contida possa se instalar e ser veiculada, canalizada, criando a realidade. A matéria passa a ser entendida apenas como uma tendência (Ibid.), um símbolo para algo só parcialmente conhecido, assim como o material constelado na consciência em dado momento.

            No entender do paradigma quântico, holístico e sistêmico, a interconexão é um dos fundamentos da existência, as conexões a nível microfísico (subjacente ao macro) são instantâneas, ocorrem à distância, e as interações entre partículas, provocando o emaranhamento, modificam o sistema de forma essencial. Diz Rocha Filho (2004, pp. 79-80): "Hoje parece estabelecido [...] que cada partícula carrega eternamente o produto das interações em que esteve envolvida, [...] de modo que todo [pequeno elemento] existente deve conter informações sobre a totalidade do universo [...]." Na psicologia analítica, falar em interconexão implica na ideia do inconsciente coletivo (Ibid.). O conhecimento de nosso fundamento arquetípico "[...] traz a evidência da existência de uma ordem geral cósmica que inclui a psique e a matéria e que nos permite a vivência numinosa." (AUFRANC, 2006).

            O sentido é experiência de totalidade. Se falta a tensão entre os pólos o homem tem a sensação de ser uma criatura sem sentido, que não pode desfrutar da vida em sua plenitude (JAFFÉ, 1983), pois a perda de uma das polaridades o deixa necessariamente incompleto. Card (1991, p. 54) enfatiza que: "Enquanto os físicos tiveram que incorporar o fator subjetivo do observador às considerações teóricas objetivas, a psicologia em sua exploração da natureza subjetiva da psique foi conduzida à realidade objetiva dos arquétipos".  Portanto, assimilar psique e matéria num terceiro caminho, que as englobe e una numa realidade transcendente onde se encontram, é o que tem potencial de restabelecer conexões e permitir ao homem contemporâneo resgatar seu sentido existencial, viver a "criação" de sua realidade como processo simbólico de interconexão com o mundo.

 

Luiz Felipe Nascimento

Membro Analista em Formação do IJEP. SP

 

REFERÊNCIAS:

 

AUFRANC, Ana Lia. Psique e universo. Junguiana - revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, São Paulo, n° 24, pp. 7-14, 2006. 

 

CARD, Charles R. The archetypal view of C. G. Jung and Wolfgang Pauli. Psychological Perspectives, Los Angeles, nº 25, pp. 52-69.

CAPRA, Fritjof . O tao da física: uma análise dos paralelos entre física moderna e misticismo oriental - 2ª ed. São Paulo, Cultrix, 2013.

GOSWAMI, Amit. O universo autoconsciente: como a consciência cria o mundo material - 2ª ed. Rio de Janeiro, Ed. Rosa dos Tempos, 1998.

 

JAFFÉ, Aniela. O mito do significado na obra de C. G. Jung. São Paulo, Cultrix, 1983.

 

JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. OC, vol. VIII/2 - 3ª ed. Petrópolis, Ed. Vozes, 1991.

 

JUNG, Carl Gustav. Mysterium Coniunctionis. OC, vol. XIV/2 - 3ª ed. Petrópolis, Ed. Vozes, 2012.

 

JUNG, Carl Gustav. Civilização em Transição. OC, vol. X/3 - 6ª ed. Petrópolis, Ed. Vozes, 2013.

 

JUNG, Carl Gustav. Sincronicidade. OC, vol. VIII/3 - 21ª ed. Petrópolis, Ed. Vozes, 2014a.

 

JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. OC, vol. IX/1 - 11ª ed. Petrópolis, Ed. Vozes, 2014b.

 

KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo, Perspectiva, 1962.

 

MAGALDI, Ercilia Simone Dalvio. Ordem e Caos: uma visão transdisciplinar. São Paulo, editora Eleva Cultural, 2010. 

 

ROCHA FILHO, João Bernardes da. Física e Psicologia: As fronteiras do conhecimento
científico aproximando a Física e a Psicologia Junguiana - 3ª ed. Porto Alegre, EDIPUCRS,
2004.

 

 ROSENBLUM, Bruce e KUTTNER, Fred. O enigma quântico: O encontro da física com a consciência. Rio de Janeiro, Zahar, 2017.

 

WITMONT, Edward. A busca do símbolo. São Paulo, Cultrix, 1969.

 

 


Luiz Felipe Nascimento - 17/05/2021