O SENTIDO DA ANÁLISE NA PSICOTERAPIA JUNGUIANA

O SENTIDO DA ANÁLISE NA PSICOTERAPIA JUNGUIANA Psicologia Junguiana

Entregar-se para um processo analítico não é para qualquer pessoa, porque essa experiência irá produzir desconforto e incomodo. No início, após a criação do vínculo com o analista, num ambiente seguro e sigiloso, é inevitável o confronto com as referências parentais, familiares e com seus aspectos trasngeracionais, mesmo quando os pais são adotivos, e a história biográfica para que aconteça a conscientização de padrões recorrentes.  Também irá acontecer o reconhecimento do universo sombrio, que representa o lado obscuro da personalidade, responsável pelas reações espontâneas de atração ou repulsão do analisando com seu entorno relacional, somado a tudo que o incomoda muito no outro e o que ele nega, foge ou não aceita nele mesmo.

O caminho do autoconhecimento vai sendo construído, possibilitando a percepção da condição neurótica, geralmente pautada por sentimentos egoístas, apesar da existência da persona, que é a máscara relacional e profissional, poder estar bem estruturada e funcional, como acontece na maioria das pessoas consideradas socialmente bem-sucedidas. Porque, infelizmente, a adaptação nesta atual condição sociocultural mantém as pessoas aprisionadas no consumo, na competição e no desejo de acúmulo patrimonialista, para dar a elas a fantasia do controle, na forma de instrumentos que possibilitam a ilusão da segurança diante do medo do fracasso e da morte.

Essa condição neurótica é a causa de tanto consumo de substâncias psicoativas como antidepressivos, estabilizantes de humor, ansiolíticos, indutores do sono, álcool e todas as demais drogas ilícitas, acrescidas do estímulo aos comportamentos abusivos e compulsivos presentes na maioria das práticas laborais e sociais. Por isso, entregar-se para um processo analítico não é tão agradável. Porém, se o processo vai além da “papoterapia”, “reclamoterapia”, “relatoterapia” ou “queixoterapia”, esse enfrentamento irá possibilitar a diferenciação e o reconhecimento de que o analisando está contaminado pelo estado de miserabilidade neurótica, mesmo quando tem práticas alimentares saudáveis, faz uso da meditação corretamente e frequenta alguma religião, porque, na maioria das vezes, tudo isso é apenas aprendizado e condicionamento da persona, de fora para dentro – sem alma, funcionando apenas como códigos de conduta moralistas, mas sem ética.

O resultado da superação desta primeira fase da análise permitirá a percepção da infelicidade comum, que assola a massa neurótica dos cidadãos, consumindo, endividando-se e trabalhando, como escravos financeiros, retroalimentando essa circularidade. A partir daí, pode emergir o despertar de uma ação mais consciente e crítica, que possibilita transformação do analisando, tirando-o da sua atitude egoísta para agir como agente transformador desta condição alienada e neurótica, presente na maioria solitária, que vive atolada de insatisfações, desejos, medos e ambições numa contínua fuga de si mesmo, muitas vezes camuflada na conquista incansável de experiências prazerosas, apesar do vazio interior. Isso é o que Carl Jung nomeou como processo de individuação, onde a pessoa passou a encontrar sentido e significado para sua vida, servindo a humanidade de forma amorosa e altruísta.

A análise passa por várias fases, começando pelo período confessional onde o analisando, de forma catártica, relata sua história de vida, ab-reagindo emocionalmente, possibilitando a expressão dos complexos. Depois disso, por meio da relação com o analista, que deve tentar atuar como um espelho, o menos deformado possível para que o analisando consiga ver suas qualidades e deformações, vai acontecendo a elucidação dos relatos, possibilitando melhor compreensão, dessensibilização da carga emocional produzida pelos afetos e até a ressignificação de algumas crenças. Neste momento, já é possível a compreensão de que todas as experiências, mesmo as mais dolorosas, são dotadas de propósitos sincronísticos e teleológicos apontando para o caminho evolutivo. Assim começam acontecer as transformações. Porém, não podemos esquecer de que toda mudança, mesmo que seja para melhor, gera medo, desperta mecanismos de defesa no âmbito celular, neurológico, bioquímico, psicológico e relacional. Ou seja, a empreitada não é fácil e exige muito foco, dedicação, coragem e persistência.

São analisadas, além da história de vida, todas as emoções vivenciadas entre uma e outra sessão psicoterapêutica, com o intuito de reconhecimento dos afetos desencadeadores. Neste momento torna-se possível o reconhecimento da presença dos complexos, que interferem, autônoma e compulsoriamente, na vida das pessoas, ocupando o espaço da consciência do ego. Os complexos, quando constelados, adulteram todo o esquema corporal, a expressão verbal e a estrutura da consciência, alterando as funções de pensar, sentir, perceber e intuir, transformando as caraterísticas da personalidade. A isso associamos as produções oníricas, com toda sua complexidade arquetípica, simbólica e, na maioria das vezes, surreal, porque os sonhos possibilitam a abordagem mais direta ao inconsciente, assim como as coincidências significativas, sem justificativas e correlações com o tempo e o espaço, que chamamos de sincronicidade.

Também são trabalhados todos os sintomas de adoecimento que podem estar manifestados no corpo físico, nos comportamentos e atitudes, nos âmbitos familiar, social, laboral, espiritual, amoroso e físico, interferindo em todas as relações interpessoais do analisando. Alías, continuamente estimulamos a dimensão símbólica, imaginativa, reflexiva e opositiva para que a adaptação e progressão da energia psíquica siga seu fluxo natural, superando as adversidades, sempre integrando o espirito das profundezas com o da época, integrando nossas fantasias, manifestações oníricas, sincronicidades, sintomas de adoecimento e expressões criativas, objetivando continuamente o autoconhecimento para que o processo de individuação seja vivenciado pelo ego. 

Quando sou questionado a respeito da minha profissão de psicoterapeuta sempre sou tomado por muitas emoções, dificultando a elaboração de uma resposta lógica e didática. Essa reação deixa evidente que a pergunta constela, em mim, complexos, despertando muitas temáticas arquetípicas que vão desde o filantrópico curador ferido até o misantrópico embusteiro e egoísta, ou ególatra, que só quer tirar vantagem das queixas alheias. Ou seja, ativa a presença de Hermes, deus grego apaixonado pela beleza sedutora de Afrodite, que para os romanos assumiram os nomes de Mercúrio e Vênus respectivamente.  Acredito que esta dinâmica está presente, consciente ou inconscientemente, em todos meus colegas.

Sei que posso estar escrevendo genericamente, e talvez defensivamente, sobre a profissão de um modo geral, assim como não podemos esquecer de que Hermes é o mensageiro e o transportador das almas, trabalho bem parecido com o dos psicoterapeutas de orientação junguiana, apesar de que ele também tinha outras atuações um tanto questionáveis, o que lhe conferiu a condição de deus protetor dos comerciantes, ladrões e prostitutas. Por isso, devemos sempre estar conscientes de nossa sombra, para não sermos tomados de assalto por ela. Daí que surge a necessidade constante da análise do analista, que é muito mais importante do que o seu conhecimento teórico.

Nesta perspectiva, nosso ofício é o de possibilitar, pelo método dialógico da hermenêutica, com que o cliente ferido entre em contato com seus materiais inconscientes, em busca da mensagem do seu curador interior. Ou seja, em busca do significado simbólico e incomum à consciência, conscientizando-o de seu daimon, que é sua vocação ou chamado e fonte inesgotável de felicidade, gerador de movimentos criativos e transformadores para a realização existencial do ser, apesar das dificuldades e sofrimentos inerentes à vida. Pois sabemos que sonhar ou desejar uma vida paradisíaca é uma fantasia regressiva, mágica e infantil.

O processo acontece em um lugar sagrado, metaforicamente chamado de vaso hermético, ou temenos, através do qual as transformações ocorrem, por caminhos simbólicos, onde ego e Self começam a se relacionar inconsciente e conscientemente. O analista apenas acolhe, oferece local seguro e estímulo para que o próprio Self do ferido contribua para sua evolução e superação das queixas. A meta de um processo de análise saudável objetiva que o analisando se esqueça da existência do analista, porque ele conquistou autonomia e liberdade para ir adiante nas suas escolhas e compromissos de dependência e servidão.

Desta forma, se o analista busca reconhecimento, gratidão ou fama está na profissão errada. Porque, o objetivo deste trabalho é fazer com que a presença do curador seja desapercebida, pois o verdadeiro terapeuta é o curador ferido do próprio cliente. A função do analista é apenas a de um mediador e estimulador desta relação. O analista não precisa ser forte, poderoso nem altamente técnico, mas sensível, empático e conhecedor da capacidade auto reguladora e curativa do Self. Mesmo assim, muitos analistas são raptados pela sombra, correndo o risco de ficarem deprimidos ou, reativamente, praticarem abuso de poder, em todas as suas variações.

O analista jamais pode revelar qualquer conteúdo da análise fora de um contexto de supervisão, assim como literalizar ou tomar as dores de seus clientes. A consequência disso é substituir a empatia pela simpatia, o que acarreta, inevitável e catastroficamente, na projeção sombria da antipatia para um outro qualquer, formando aliança complementar e neurótica com seu cliente, ao estabelecer parceria com ele contra os seus desafetos, aqueles que estão afetando-o desagradavelmente e frustrando-o, muito provavelmente indo na direção oposta da sua fantasia nostálgica e regredida de ser compreendido, nutrido, amado, cuidado e atendido imediatamente e incondicionalmente !

Tudo que os clientes comentam dos outros, devemos saber que é sobre eles mesmos, e são eles que tem que compreender por que tudo que os outros fazem ou deixam de fazer, atendendo ou não suas expectativas, agradando ou decepcionando, iludindo ou desiludindo, agredindo ou acolhendo, criticando ou ignorando, são suas representações intrapsíquicas, seus complexos. Neste sentido, qualquer queixa é um mérito, resultante da configuração de sua energia psíquica, como consequência e possibilidade evolutiva ou destrutiva que coube e ainda cabe a ele! Ao invés de literalizarmos precisamos perguntar quais suas fantasias diante das queixas, levando-o a refletir e compreender o porquê, o para que, de onde e para onde as representações simbólicas e metafóricas da Psique estão apontando, para que ele tome ou não tome atitudes, mas sempre na perspectiva de responsável, autor e ator, da sua vida!

A meta da psicologia analítica está voltada para o processo de individuação, levando à imago Dei, que é a representação divina que habita o íntimo de todos nós, que despertará a dimensão sagrada, dando beleza, espanto e poesia para a vida. Mas, como ninguém tem a capacidade de modificar ninguém, assim como ninguém consegue se modificar sozinho, raramente, na solidão e no isolamento, é possível estabelecer a relação do Ego com o Self. Ou seja, é na relação que acontecem as modificações e isso remete a essa bela frase de Herman Hesse: “Nada posso lhe oferecer que não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo além daquele que há em sua própria alma. Nada posso lhe dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo e isso é tudo.”

Devido à profundidade desse trabalho, muitas vezes C. G. Jung foi criticado por ter criado um método psicoterapêutico voltado para pessoas mais maduras e com boas condições sociocultural. De fato, quando falamos em autoconhecimento e processo de individuação é natural que essas demandas estejam mais afloradas nas pessoas que estão na temática da metanóia, época por volta dos 45 anos de idade, em que naturalmente buscamos um novo sentido e significado para a segunda metade da vida. Obviamente, essas demandas ficam mais evidentes para aqueles que já superaram as necessidades mais grosseiras e instintivas do sobreviver, crescer e perpetuar, por isso parece que o método é destinado para as elites que ultrapassaram a meia idade. No entanto, a prática da análise também é muito eficiente e útil tanto para as crianças quanto para jovens, casais e famílias, obviamente dando mais ênfase as demandas adaptativas do ego, e suas respectivas personas, para que a realização do si mesmo aconteça na direção do processo de individuação.

A metanóia, conhecida como crise de transição da meia idade, infelizmente, deixou de ser vivenciada coletivamente na forma de ritos de passagens, demarcando esse momento de grande importância na vida de todas as pessoas. Meus clientes que estão vivenciando a crise da meia idade, na maioria das vezes, acabam trazendo questões que vão muito além das queixas de relacionamentos ou das dificuldades profissionais, econômicas ou de saúde física. É interessante percebermos que, mesmo quando essas queixas estão presentes, os questionamentos a respeito do sentido e significado existencial acabam ocupando muito espaço no contexto analítico. Essas questões, inevitavelmente, remetem aos aspectos da transcendência e do sagrado.

Acredito que minha profissão é semelhante ao sacerdócio, missionário e evangélico, por apontar para as boas novas da vida, em direção ao autoconhecimento e ao si mesmo ou Self, que é o nosso centro integrador e unificador capaz de interligar a alma com o espírito, a mente e o corpo. Ou seja, por meio do nous, que é a consciência, podemos produzir mudanças no corpo, ou soma. Este, por sua vez, poderá modificar a alma, ou psique, para que o pneuma, o grande espírito ou unidade divina, também seja modificado.

A metanóia exige uma espécie de transgressão, por provocar muitas transformações tanto nos comportamentos quanto no pensamento e no caráter das pessoas, produzindo rompimentos de valores, relacionamentos e até de visão de mundo. Muitas vezes surge na forma de crise e queixas, fazendo com que os indivíduos repensem seu existir. Sendo que, na base dessa crise está a experiência simbólica da morte e do renascimento, em direção ao servir. Ou seja, a superação da metanóia, para mim, acontece quando a pessoa encontra o entusiasmo em servir ao si mesmo e, consequentemente, ao outro. Por isso a individuação é uma meta coletiva.

Resumindo:

AUTOCONHECIMENTO; AUTOESTIMA; AUTONOMIA é o tripé de objetivos da análise junguiana. Esse processo deve ser trabalhado mais ou menos nesta sequência. Com o autoconhecimento o cliente poderá compreender suas peculiaridades, se diferenciar da imago parental e dos condicionamentos adquiridos, reconhecer seus aspectos sombrios e os complexos, para ficar mais íntegro e consciente das suas potencialidades, capacidades, fraquezas e defeitos, consciente de quem ele é, como ele é e o que ele é. A autoestima, que equivale ao amor-próprio, tem a ver com aprender a respeitar-se, para poder dar e exigir respeito, já que agora já sabe o que é e como é, assim como o que não é, o que lhe pertence, o que deseja e não deseja, por que, para que, para si-mesmo e para os demais. Por fim, a autonomia, que irá dar a liberdade para as escolhas conscientes de dependência e servidão, livre dos códigos de conduta ou regras morais, porque já encontrou a dimensão ética do seu existir. Tudo isso para poder servir a Alma e ser feliz vivendo com propósito, sentido e significado, no caminho para aquilo que a Psicologia Junguiana chama de Processo de INDIVIDUAÇÃO!

Finalizo reiterando que o caminho do autoconhecimento, proposto pela psicologia junguiana, depende do confronto analítico consigo mesmo, valendo-se do analista como mero espelho gerador de questionamentos, dúvidas, desconfortos, desatenções, atenções, conflitos, amplificações, ampliações, reduções, calcinações, sublimações, putrefações, mortificações, dissoluções, entre outras operações e etapas. Porém, quando o vínculo é frágil ou o cliente, ao invés de simbolizar, literaliza as devolutivas do analista, ou transforma-as em monólogos, por não estar comprometido com o enfrentamento dos conteúdos sombrios, os complexos e os desconfortos opositivos, o vaso se rompe e o processo deixará de acontecer.

Waldemar Magaldi Filho, Psicólogo, analista junguiano, mestre e doutor em ciências da religião, especialista em psicologia analítica, psicossomática, arteterapia e homeopatia, professor e coordenador dos cursos de pós-graduação lato-sensu, que titulam e formam especialistas em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Arteterapia do IJEP – Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa – em SP; RJ e BSB. Autor do livro: “Dinheiro, saúde e sagrado” – Ed. Eleva Cultural.    www.elevacultural.com


Waldemar Magaldi Filho - 19/03/2019