OS CÍRCULOS DE MULHERES E O DESENVOLVIMENTO DA INTUIÇÃO

Os Círculos de Mulheres e o Desenvolvimento da Intuição Psicologia Junguiana

Acredita-se que no alvorecer da religião, “Deus era mulher”.  Por meio das descobertas arqueológicas e dos estudos antropológicos, sociológicos e históricos, pode-se concluir que em muitas das civilizações antigas existiam cultos à uma Grande Deusa, que se acreditava ser a criadora de tudo e de todos.

Esses tempos se foram há muito, sendo substituídos pelos tempos do patriarcado. Hoje em dia, essa herança ancestral é rememorada por um movimento conhecido como espiritualidade feminina. Mulheres de todas as idades e diferentes religiões buscam reviver tais memórias em rituais exclusivos à mulheres – os chamados círculos femininos.

Algo de caráter mítico acontece durante esses encontros, em que ocorre um acesso a um conteúdo profundo e transformador que nos aproxima da função intuitiva, onde a fronteira com o inconsciente torna-se ainda mais permeável. Tais acontecimentos são facilitados pelos rituais, tessituras, danças e meditações, facilitando, assim, o acesso a conteúdos arquetípicos, o que acaba por ajudar as participantes a acessar um melhor entendimento da sua própria história pessoa e de seus conflitos emocionais.

A palavra intuição tem sua origem no latim intuere: “in” (dentro) + “tuere” (olhar para) = Olhar para dentro. É uma função psicológica de percepção irracional, que se baseia em processos inconscientes, através de uma apreensão que não passa pelos órgãos dos sentidos, tampouco por um sentimento ou conclusão intelectual. Ela funciona como uma bússola interior. Uma das mais importantes tarefas da psicoterapia contemporânea é desenvolver a função intuitiva, a habilidade de “olhar para dentro”, pois a atividade imaginativa da intuição nos abre novos horizontes e possibilidades que são indispensáveis ao nosso tempo.

Jung (1998, Vol XVIII/1: § 24) descreve a intuição, ainda, em termos metafóricos, como se fosse "uma espécie de faculdade mágica, coisa próxima da adivinhação, espécie de faculdade miraculosa" que é registrada à nível inconsciente, não sendo possível explicar nem a sua origem e nem como ela se processa.

A intuição decorre de um processo inconsciente, dado que o seu resultado é uma ideia súbita, a irrupção de um conteúdo inconsciente na consciência. A intuição é, portanto, um processo de percepção, mas, ao contrário da atividade consciente dos sentidos e da introspecção, é uma percepção inconsciente. Por isso é que, na linguagem comum, nos referimos à intuição como sendo um ato “instintivo” de apreensão, porque a intuição é um processo análogo ao instinto, apenas com a diferença de que, enquanto o instinto é um impulso predeterminado que leva a uma atividade extremamente complicada, a intuição é a apreensão teleológica de uma situação. (JUNG, 2014, Vol. VIII/2: § 269)

 

Como a intuição se baseia em processos inconscientes e subliminares, ela acaba por ser a função mais próxima dos arquétipos, que são, segundo Jung (2014, Vol. VIII/2: § 280)  "formas de apreensão" - isto é, padrões de percepção e compreensão psíquicas comuns a todos os seres humanos, como membros da raça humana.

 A intuição é um fenômeno humano que requer introspeção.  Nossas ancestrais viviam muito próximas dessa possibilidade.  Na vivência do seu ciclo menstrual, as mulheres se conectavam com os ciclos da vida-morte-vida, tanto no nível simbólico quanto no âmbito da realidade concreta, seja no processo do parto, seja no cuidado com os velhos e doentes.

Acredita-se que elas praticavam um recolhimento voluntário durante a sua “lua vermelha”, ou seja, durante o ciclo menstrual, juntamente com outras mulheres que acabavam por partilhar o mesmo período de ciclo e nesse período de recolhimento faziam práticas meditativas, oraculares, partilhas e cultos à uma Deusa matricial.

Desta forma, as mulheres acabaram por gerar uma energia que é mais introspectiva, doce e passiva e, em consequência, a oportunidade de desenvolver uma habilidade mais intuitiva. Devido a esse tipo de sensibilidade e percepção expandida, elas eram tidas pelo grupo ao qual participavam como mediadoras entre os seres humanos e os espíritos da natureza, e assim capazes de se conectar mais diretamente com os aspectos intuitivos.

Outro aspecto consequente dessa espécie de observação foi o desenvolvimento do dom da cura, e assim se tornaram grandes curandeiras, parteiras, sacerdotisas e profetisas. Eram elas as responsáveis pelo culto aos mortos, pelos ritos de passagem, pelo plantio, colheita, etc. Nessa tradição, mulheres eram respeitadas e honradas pela conexão divina e sagrada com o arquétipo da Deusa. Atribui-se às mulheres muitas descobertas e inventos arcaicos, como afirma Faur, escritora e respeitada líder espiritual no movimento conhecido como o “Ressurgimento do Sagrado Feminino”. Em seu livro Círculos sagrados para mulheres contemporâneas: práticas, rituais e cerimônias  para o resgate da sabedoria ancestral e a espiritualidade feminina, ela cita:

Por meio do contato que as mulheres tinham com os seres sobrenaturais e a Deusa, elas também recebiam intuitivamente instruções para transformar as matérias brutas da Natureza em produtos úteis e mais elaborados. Foi assim que as mulheres “descobriram” como preparar o pão a partir de sementes e grãos silvestres amassados com pedras e como tecer e fiar o linho e a lã dos animais para fazer vestimentas e artigos domésticos. Foram elas que utilizaram o barro, a água e o fogo para modelar potes e vasos, trançaram galhos e cipós, cobertos com argila e cozidos em fornos primitivos, para assim criar a arte da cerâmica, cada vez mais aperfeiçoada. (FAUR, 2011, p. 28)

 

Clarissa Pinkola Estés (1945), analista junguiana e contadora de histórias, nos traz em seu livro Mulheres que Correm com Lobos, o conceito da mulher selvagem:

Quando as mulheres reafirmam seu relacionamento com a natureza selvagem, elas recebem o dom de dispor de uma observadora interna permanente, uma sábia, uma visionária, um oráculo, uma inspiradora, uma intuitiva, uma criadora, uma inventora e uma ouvinte que guia, sugere e estimula uma vida vibrante nos mundos interior e exterior. Quando as mulheres estão com a Mulher Selvagem, a realidade desse relacionamento transparece nelas. Não importa o que aconteça, essa instrutora, mãe e mentora selvagem dá sustentação às suas vidas interior e exterior. (ESTÉS, 1994, p. 21)

 

Portanto, o termo selvagem neste contexto não é usado em um sentido pejorativo como algo fora de controle, mas em um sentido original, associado à um modo natural de viver a vida, vivenciando as potencialidades com maior integridade. Através da exposição de diversos contos e de suas análises à luz da psicologia junguiana, a autora dá o enfoque à necessidade de a mulher regressar a esse contato com a natureza instintiva e intuitiva para o seu desenvolvimento psíquico.

Sendo assim, a prática dos círculos de mulheres no mundo contemporâneo estaria intimamente relacionada ao desenvolvimento desse arquétipo feminino, o da “mulher selvagem”. 

 

Círculos Femininos como Função Transcendente.

Na psicologia junguiana, os conteúdos e tendências do sistema consciente e inconsciente se encontram dinamicamente interligados, mas frequentemente entram em uma espécie de desacordo. Isso se dá pois o ego, que coordena as necessidades biológicas e psíquicas do indivíduo em prol de sua adaptação e sobrevivência, tem a tendência de buscar uma satisfação mais imediata. Por outro lado, o Self, que é inconsciente, busca uma realização da totalidade psíquica, que contém também os aspectos sombrios, mas, ao contrário da tendência imediatista do ego, o Self tem o seu próprio tempo para realizar os processos anímicos.

Jung explica que a oposição entre consciente e inconsciente se deve ao caráter complementar e/ou compensatório entre essas duas dimensões do sistema psíquico. Esse conflito é fruto de uma tensão gerada pela incompatibilidade dos desejos e inquietações do ego. Sendo assim, mesmo diante de tal oposição, inconsciente e consciente tendem a se unir e a buscar complementaridade ou tentativas de compensação, principalmente na segunda metade da vida, que marca o início de uma crise de significados existenciais, a qual chamamos de Metanoia. A este movimento de aproximação, Jung denominou como função transcendente, que tem como objetivo a integração dos conteúdos inconscientes na consciência.

Tal unidade de opostos, consciente e inconsciente, ocorre frequentemente durante as práticas dos círculos de mulheres, pois estes acabam por propiciar um diálogo entre as duas dimensões psíquicas. Os rituais, seus mitos, sua simbologia, geram um fluxo de energia psíquica entre o consciente e do inconsciente, funcionando, assim, como função transcendente. Pois, por seu intermédio, ocorre uma transcendência ou superação destas oposições e conflitos pela transformação dos seus conteúdos e da energia psíquica que estava retida neles.

Através dos encontros e rituais praticados nos círculos, conteúdos inconscientes acabam se expressando através da intuição e sendo integrados ao sistema consciente da personalidade. Quando as mulheres estão disponíveis psicologicamente para esse mergulho interior que ocorre nos círculos femininos, os processos de integração ocorrem com facilidade e fluidez.

Através de rituais, e, mais especificamente, por meio da invocação simbólica da divindade no ritual (no caso dos círculos femininos, invocação de divindades femininas), acessamos A Grande Deusa. Nós a invocamos dentro de nós mesmas, e, assim, nos fundimos com a imagem arquetípica das diferentes deidades femininas invocadas. Através da vivência do rito, portanto, revivemos o mito, e acessamos um arquétipo que está a navegar no extenso mar do inconsciente coletivo. Com esse mergulho interior, nos fundimos com a Deidade. Nessa experiência psicológica de caráter místico, onde não existe nem tempo nem espaço, nos tornamos Deusas, metaforicamente, e expandimos nossas percepções e pressentimos através da intuição, da capacidade de visão interior. Trazemos, então, à superfície, a imensidão com a qual nos deparamos nesse universo de símbolos encarnados num encontro ritual.

Como a intuição se baseia em processos inconscientes e subliminares, é a função que mais nos aproxima dos arquétipos. Sendo assim, as práticas dos círculos nos dão a possibilidade de adentrar, de olhar profundamente espaços da alma coletiva, acessando dessa forma, energias femininas arquetípicas em sua simbologia mais original.

Vimos, então, que os círculos femininos e seus rituais facilitam a conexão entre as realidades exteriores e interiores, entre as esferas superiores e inferiores, possibilitando experimentar conteúdos da alma coletiva. Além disso, o ato criador, através da tessitura (técnicas expressivas), da dança e da vivência corporal teatralizada, se torna um momento inspirador, possibilitando acesso à insights, capacidade inventiva e intuitiva.  

Através de uma metodologia vivencial e ritualística, os encontros dos círculos de mulheres se tornam instrumentos para acessar os conteúdos do inconsciente, funcionando como Função Transcendente. Ao final dos encontros, quando as mulheres têm a possibilidade de partilhar seus insights pós-vivências, muitos conteúdos pessoais inconscientes se tornam claros, muitas vezes por meio da fala alheia, ou mesmo por meio da própria fala. Podem surgir diversos insights e, assim, ocorre uma verdadeira harmonização de aspectos do ser feminino, o que pode, até mesmo, levar à curas emocionais aparentemente “milagrosas”.

Concluímos, dessa forma, que os Círculos de Mulheres vêm a ser uma prática terapêutica de grande profundidade e bastante alinhada aos conceitos da psicologia junguiana.

 

Erika MendelAnalista em Formação pelo IJEP/RJ

REFERÊNCIAS

ESTÉS, Clarissa. Mulheres que correm com os Lobos, R. Janeiro, Rocco, 1994.

FAUR, Mirella. Círculos Sagrados para Mulheres, S. Paulo, Pensamento, 2001.

JUNG, C.G. A Natureza da Psique, Vol VIII/2, Petrópolis, Vozes, 2014.

JUNG, C.G. Tipos Psicológicos, Petrópolis, Vol. VI, Vozes, 2015.

JUNG, C.G. Fundamentos da Psicologia Analítica, Vol XVIII/1, Petrópolis, Vozes, 1998.


Erika Mendel - 13/05/2021