OS COMPLEXOS NOSSOS DE CADA DIA

OS COMPLEXOS NOSSOS DE CADA DIA Psicologia Junguiana

Todo mundo sabe que nós temos complexos. O que

poucos sabem, é que os complexos podem nos ter…”

(Carl Gustav Jung).

 

 

         Você certamente já viveu situações onde perdeu o controle de suas emoções ou de seu comportamento.  Aquela explosão exagerada quando alguém te dá uma fechada no trânsito, ou quando alguém faz algum comentário, aparentemente inofensivo, que você vira uma "fera" e depois não reconhece seu comportamento e fica até desconfortável com a forma que agiu.  Se arrepende, desejando ter uma outra atitude na próxima oportunidade, e muitas vezes reage exatamente da mesma forma. Pois é, isso é um complexo tomando conta de você!  Ele nos leva a uma sensação de impotência, acreditando que não vamos  conseguir agir de modo diferente em uma próxima vez.             

        Assim, eles se  apresentam no nosso dia a dia...

        Para Jung, os complexos são agrupamentos de conteúdos psíquicos carregados de afeto, possuem uma energia própria, causando graus diferentes de alteração de humor. Sempre que alguma emoção nos domina, é sinal de que algum complexo foi ativado.  Sua origem mais frequente está nos traumas e conflitos emocionais. São lembranças reprimidas. Os complexos se manifestam na consciência através de memórias, imagens, fantasias e pensamentos dolorosos e perturbadores que estão vinculados a um arquétipo, que é o núcleo do complexo.

          A teoria dos complexos surgiu a partir do experimento de Jung sobre Associação de Palavras publicados em seu livro Estudos Experimentais (Jung, 2016a, parte 1), baseados em respostas cronometradas para a lista de palavras por ele determinadas. Até hoje, a teoria dos complexos é de grande importância dentro da psicologia junguiana e no dia a dia do trabalho clínico.

          Jung  ressalta que todas as pessoas têm complexos, e tem que lidar com eles. São  uma  manifestação normal da vida, ou seja, são temas centrais, que atuam na nossa vida e querem se realizar. Ele observa que os complexos são uma reprodução estrutural e emocional da infância e da  vida posterior, por uma exigência de adaptação ao meio que vivemos.  São experiências generalizadas de relação, imaginadas de forma sensorial com todos os canais da percepção e da emoção ligada a ela.

 

              O que é, portanto, cientificamente falando, um “complexo afetivo”? É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, comporta- se, na esfera do consciente, como um corpus alienum (corpo estranho), animado de vida própria. Com algum esforço de vontade, pode-se, em geral, reprimir o complexo, mas é impossível negar sua existência, e na primeira ocasião favorável ele volta à tona com toda a sua força original. (JUNG, 2016b, p 43)   

           

                    Temos uma tendência a dizer e  fazer coisas que estejam relacionadas com os nossos complexos mais fortes.  O complexo vai se tornando mais forte, por conta de diversos acúmulos, que em um determinado momento, reúne força suficiente para chegar ao campo da consciência. São capazes de irromper subitamente na consciência e se apossar das funções do ego.   Alguns complexos são bastante comuns como o complexo de inferioridade, de superioridade, materno, paterno, de poder...

          Quando por exemplo um complexo de inferioridade torna-se dominante, a pessoa se sente governada pelo mesmo, e a maior parte das situações vivenciadas por ela fazem com que se sinta inferior a tudo e todos, prejudicando a qualidade de vida.

          Já um complexo de superioridade, o movimento é oposto. A pessoa precisa se sentir superior aos outros, normalmente age com arrogância, desprezando os demais.  Se acha mais inteligente, mais capaz, mais forte, do que todo mundo.

          Os complexos são uma espécie de possessão, que transforma a nossa personalidade, e não conseguimos  nos reconhecer, mas é percebido facilmente pelos que convivem conosco. Todos nós já passamos por essa experiência de descontrole emocional e temos noção de como reagimos. Mas no momento em que somos afetados ou "tomados" por um complexo é como se estivéssemos saído do controle e agimos de forma inexplicada e irracional. Como se o nosso ser fosse movido por esse sentimento. Eles fazem as pessoas enlouquecerem por motivos pouco aparentes, levando a um estado de aprisionamento, e rompem com a suposição ingênua da supremacia da vontade.  Os pensamentos se tornam obsessivos, as ações compulsivas e até mesmo agressivas, porque eles têm muita energia.

         

              O complexo, por ser dotado de tensão ou energia própria, tem a tendência de formar, também por conta própria, uma pequena personalidade. Apresenta uma espécie de corpo e uma determinada quantidade de fisiologia própria, podendo perturbar o coração, o estômago, a pele. Comporta-se, enfim, como uma personalidade parcial. Quando se quer dizer ou fazer alguma coisa e, desgraçadamente, um complexo intervém na intenção inicial, acaba-se dizendo ou fazendo a coisa totalmente oposta ao que se queria de início. Há subitamente uma interrupção, e a melhor das intenções acaba sendo perturbada, como se tivéssemos sofrido a interferência de um ser humano ou de uma circunstância exterior. Sob essas condições somos mesmo forçados a falar da tendência dos complexos a agirem como se fossem movidos por uma parcela de vontade própria.  (JUNG, 2016c, p 88)              

 

           As áreas da psique carregadas de complexos são como  "teclas", que quando acionadas disparam os complexos, obtendo uma resposta emocional. Dizemos então que um complexo foi constelado. Quando convivemos  com uma pessoa por algum tempo, passamos a conhecer algumas dessas áreas que são vulneráveis, e muitas vezes podemos evitá-las, impedindo  o descontrole.

          Como diz Stein,  " os complexos são entidades psíquicas fora da consciência, as quais existem como objetos que, semelhantes a satélites, gravitam em torno da consciência do ego mas são capazes de causar perturbações no ego de uma forma surpreendente e, por vezes, irresistível". (STEIN, 2017, p44)

          Sempre que partimos do pressuposto ingênuo de que somos  senhores de nossa própria casa, num dado momento, o complexo vem e nos toma (Cf. JUNG, 2016d, p 96). Como lidar com os complexos no nosso dia a dia? 

          Um ego saudável, por questões de adaptação e sobrevivência, é capaz de neutralizar um complexo. Se não fosse capaz de fazer isso, se tornaria disfuncional, no momento de maior perigo, no qual a pessoa teria que agir com serenidade.  Podemos perceber isso, por exemplo, quando na vida profissional, muitas vezes temos que deixar de lado nossos complexos pessoais, para que possamos ter um bom desempenho no trabalho. 

          Stein chama a atenção para essa questão no ofício dos terapeutas, onde temos que ser capazes de deixar de lado os nossos conflitos pessoais quando estamos atendendo nossos clientes,  para termos uma presença eficaz diante do mesmo, cuja vida está em total desordem. (Cf. STEIN, 2017, p 49)

          Trabalhar os complexos significa que  além da possibilidade da pessoa reagir com emoções mais satisfatórias nas relações, podem integrar alguns de seus aspectos, que por muito tempo ficaram inativos, tornando a sua vida  mais plena. Conhecer nossos complexos nos auxilia neste processo, pois através deles também conhecemos nossas habilidades e  potencialidades.

          Quando, por exemplo, nos vemos cuidando de um animalzinho de estimação, ou vemos uma criança brincando de boneca, é o complexo materno se fazendo presente. 

          Na clínica junguiana, um dos objetivos é tornar os complexos pessoais mais conscientes, liberando desta forma a energia que está contida nele, ficando mais disponível para o desenvolvimento psicológico.

          Não  é possível anular por completo o efeito dos complexos e por isso é necessário estar ciente deles. Através do autoconhecimento temos a possibilidade de  lidar com nossos complexos, com aquilo que nos afeta profundamente e causa emoções fortes e descontroladas.

          Os complexos nos constituem e quando a energia psíquica se encontra em equilíbrio, somos capazes de administrar nossas emoções, isto é, estamos saudáveis psiquicamente.   O desequilíbrio é que leva ao desconforto, e pode ser bastante prejudicial e até mesmo destrutivo.

          O fortalecimento do ego no processo terapêutico ajuda o indivíduo a alcançar o seu ponto de equilíbrio emocional, atingindo assim um nível de consciência mais elevado,  o que torna possível uma boa administração dos complexos, afinal todos nós o temos, ou como nos diz Jung, somos tomados por eles,  e ninguém está livre

disso.

 

 

 

Cristiana Tupinambá - Analista em formação pelo IJEP

Maria Cristina Mariante Guarnieri - Analista didata

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

JUNG, Carl Gustav. Estudos experimentais. Rio de Janeiro: Vozes, 2016a

________. A Natureza da psique. Rio de Janeiro: Vozes, 2016b

________. A Vida simbólica. Rio de Janeiro: Vozes, 2016c

________. O Eu e o inconsciente. Rio de Janeiro: Vozes, 2016d

STEIN, Murray. O mapa da alma. São Paulo: Cultrix, 2017

________. Psicanálise junguiana.  Rio de Janeiro: Vozes, 2019

 


Cristiana Tupinamba - 10/12/2021