OS GRANDES SONHOS: UMA MAGNUM OPUS

Os Grandes Sonhos: Uma Magnum Opus Psicologia Junguiana

Os sonhos desde sempre são mistérios que insistem em ser revelados. Em muitas culturas, passadas e atuais, eles nos captam e nos convidam, permanecendo frente ao homem como um caminho, uma revelação. Jung deu grande importância à análise dos sonhos no processo analítico, considerando-os como uma ferramenta essencial no processo terapêutico e por isso dedicou-se incisivamente a este tema em suas obras assim como se dedicou aos próprios sonhos desde a infância.

Particularmente, os sonhos me atraem. Durante toda a minha vida, fui abençoada com uma atividade onírica atuante e atraente, com sonhos sempre vívidos, plásticos (às vezes os chamo de “filminhos” por isso). Nas fases mais recentes de meu desenvolvimento psíquico, me sinto convidada a cada vez mais fundo no mundo dos sonhos. Certamente, esse foi um dos motivos mais relevantes para a minha escolha profissional após uma transição de carreira: ser analista!   

Poder “visitar mundos” tão significativos, meus, dos pacientes e da humanidade é uma das possibilidades mais lindas da existência segundo a minha cosmovisão.   Por esse motivo, dedico esse artigo ao tema dos Grandes Sonhos.

Em várias de suas obras Jung menciona uma espécie de sonho que ele denominou de “Grandes Sonhos”.  Eles seriam carregados de significações profundas, seja de caráter individual ou coletivo, que perturbam ou que emocionam, e que apresentam um caráter numinoso, sendo experimentados como uma experiência de iluminação. Devido à sua importância, podem permanecer na lembrança para sempre.

Se os examinarmos mais de perto, os “pequenos sonhos” nos aparecem como fragmentos da fantasia noturna corrente, que derivam da esfera subjetiva e pessoal, e sua significação se esgota no âmbito dos fatos ordinários de cada dia. Por isto os esquecemos facilmente, porque sua validade não ultrapassa as variações do equilíbrio psíquico. Os sonhos importantes, pelo contrário, ficam gravados muitas vezes na memória por toda a vida e constituem, não raramente, a joia mais preciosa do tesouro das experiências psíquicas vividas. (JUNG, 2014, vol. VIII/2: § 554)

 

Esses sonhos vêm da camada mais profunda da psique em momento cruciais da vida.  Segundo Jung (2014, Vol. VIII/2, § 555) “tais sonhos ocorrem, como, por exemplo, na primeira infância, na puberdade e no meio da vida (dos 36 aos 40 anos) e in conspectu mortis [na iminência da morte] (grifo do autor). É comum no início da análise o paciente ter um grande sonho, que marca o começo do seu processo. 

Os Grandes Sonhos são carregados de imagens arquetípicas e podem mudar o direcionamento da atitude corriqueira. São expressões de padrões inconscientes mais profundos, de significado instintivo. Sendo assim, tais imagens oníricas ajudam a nos conectar com as energias primordiais da psique, ajudando o sonhador em seu processo de desenvolvimento.

Os Grandes Sonhos indicam um processo de desenvolvimento psíquico a partir do inconsciente arquetípico e trazem consigo motivos mitológicos ou arquetípicos e por isso, o material associativo em torno de suas imagens é escasso por parte do paciente, sendo necessário acessar durante o trabalho analítico com o paciente, conteúdos mitológicos, folclóricos, da psicologia dos primitivos e da história comparada das religiões.

Examinei grande quantidade destes sonhos e encontrei em muitos deles uma particularidade que os distinguia dos outros sonhos. Eles apresentam, com efeito, uma conformação simbólica que encontro também na história do espírito humano ... Esta particularidade está presente também nos sonhos do processo de individuação. Estes sonhos contêm os chamados motivos mitológicos ou mitologemas, que chamei de arquétipos, (JUNG, 2014, vol. VIII/2: § 554)

 

Tais formações arquetípicas se afastam das experiências pessoais, se aproximando assim de um sentido mais intrínseco. Neles podemos verificar que a alma é singular e coletiva; ao mesmo tempo, é subjetiva e objetiva. Tais sonhos não somente contam sobre nós, mas também contam sobre a humanidade e, para tal, se servem de representações coletivas, pois têm como finalidade exprimir um problema eterno que se repete indefinidamente, e não somente um desequilíbrio pessoal.  Sendo assim, acabam por caracterizar a vida do herói, entre outros mitologemas,  esse personagem maior do que o comum dos mortais e de natureza semidivina (JUNG, 2014, Vol. VIII/2: § 558)  

 

Trata-se de aventuras perigosas, de provas como as que encontramos nas iniciações. Há dragões, animais benfazejos e demônios. Encontramos o velho sábio, o homem-animal, o tesouro oculto, a árvore mágica, a fonte, a caverna, o jardim protegido por alta muralha, os processos de transformação e as substâncias da alquimia etc., tudo isto coisas que não apresentam nenhum ponto de contato com as banalidades da vida quotidiana. A razão para estas fantasias é que se trata de realizar uma parte da personalidade que ainda não existe e está somente em vias de realização. (JUNG, 2014, Vol. VIII/2: § 558)   

 

Um Grande Sonho poderia ser comparado à uma obra de arte! Quem sabe uma Magnum opus! Além da impressão subjetiva que eles causam em nós, sua importância se revela já na própria conformação plástica, muitas vezes rica de força poética e de beleza com imagens extremamente vívidas e de teor intenso.  A obra de arte, para a psicologia analítica, é imbuída de uma dimensão desconhecida, de potencialidades e sentidos latentes, assim como nos grandes sonhos.  Ferreira Gullar, em entrevista coletiva no lançamento de seu livro “Em alguma parte alguma” na FIP (Feira Literária Internacional de Paraty) de 2010, brindou o público com a seguinte frase: A arte existe porque a vida não basta”.  Sobre a obra de arte, Jung propôs a seguinte questão (2013, Vol. XV: § 124): “a que imagem primordial do inconsciente coletivo pode ser reduzida a imagem desenvolvida na obra de arte?” Estendo essa pergunta aos grandes sonhos também!

 

Jung (2015, Vol. XVIII/1: § 250) diz que sonhos arquetípicos ou mitológicos possuem um caráter especial, que forçam a pessoa instintivamente a contá-los e que esse impulso instintivo seria perfeitamente explicável, já que tais alegorias não pertencem exclusivamente à pessoa, mas também ao coletivo.

Sendo assim, quero partilhar com você um sonho que considerei um Grande Sonho que aconteceu durante a pandemia do Coronavírus, em outubro de 2020 quando a “segunda onda” estava se iniciando no Brasil, “segunda onda” esta que levou a vida de meu pai 73 dias após.

Leia o sonho. Talvez esse sonho seja seu também, afinal um grande sonho pode tocar em temas arquetípicos, universais que dizem respeito a todos nós!

Éramos jovens. Alguns casais. Acabávamos de sair da faculdade. Éramos Unidos. Havia 2 bebês. Brincávamos na praia quando alguém percebeu algo de errado. Um barulho estranho. Lá no fundo, uma onda gigante. Começamos a correr, muito, muito. Sentia a dificuldade de lutar pela vida em meus pés. Subimos a colina enquanto a onda gigante se aproximava atrás de nós. Alguns ficaram para trás. Uma mãe ficou com o seu bebê. A onda nos alcançou, já com menos força, mas o suficiente para tirar a vida de alguns de nós. Sempre lamentamos perder aquele bebê. Depois da passagem da grande onda, subimos a colina e tivemos a noção de todo o estrago que ela havia deixado. Olhávamos o curso da água que se juntava ao mar e víamos o rastro de sangue. Um rio caudaloso vermelho-sangue que se dirigia ao mar límpido. E ambas as águas se cruzavam sem cerimônias.

 

A partir daquele dia nenhum de nós tinha coragem de subir a colina novamente. Não nos arriscávamos a encarar de frente aquele mar assassino. Assim vivemos por anos: juntos, mais unidos que antes da grande onda. Vivíamos juntos, partilhávamos um amor sincero e puro, quando chegou o chamado para nós. Esse chamado nos tiraria do nosso conforto de paz e união e teríamos que ter a coragem suficiente de subir a colina, novamente, para do outro lado partir.

 

Reunimos nossas coisas e lá fomos. O destino seria encontrar uma pessoa que nos doaria a nossa casa, a mesma em que vínhamos morando todos esses anos e que finalmente teríamos posse. A partir daí, ela se tornaria um núcleo onde deixaríamos o nosso legado que finalmente estaria a salvo para sempre, independente da nossa existência. Levávamos poucas coisas, entre elas uma bolsa antiga, uma espécie de maleta do século passado que continha uma antiga máquina de fotografias. Éramos 3 na jornada, eu e mais dois homens. Meus dois amores.

 

Do outro lado da colina estava o transporte que nos levaria. Inicialmente um carro. Um enorme Jeep. Eu tinha a chave e eu dirigia. Quando partimos, ele se transformou em um barco grande motorizado e, finalmente, após longos anos, depois da onda gigante ter passado, voltamos a navegar.

 

Estava confiante e o barco ia sozinho. Parecia que sabia aonde chegar. Então fiz amor com um dos homens, um dos meus amores. Não me despi. Ele me penetrava por entre o short. Nesse momento havia a presença de uma mulher. Uma espécie de doula que explicava o que estava acontecendo no ato sexual e com a fecundação. Essa mulher também ensinava as nossas mulheres como fazer tricô e como tecer. Ela era a iniciadora do processo de criação e de tecelagem. O outro homem também me penetrou meu corpo. Eu amava esses homens e desfrutava do prazer com eles enquanto o nosso barco nos levava para o nosso propósito maior.

 

Enfim chegamos. Nesse estágio, o transporte já não era nem terrestre e nem aquático. Era aéreo. Paramos no alto de uma falésia. Olhamos para baixo: Um lugar lindo, piscina verde esmeralda formada por entre as pedras. Aguardamos pelo helicóptero que viria nos resgatar. Ele pousou e depois passaram outros pequenos barcos com pessoas...

 

 

Considerei esse sonho como sendo um grande sonho pois traz uma série de elementos arquetípicos, tais como: uma grande onda, subir a montanha, atender ao chamado, consolidação de um legado, rituais de fertilidade, a presença da tecelã que explica sobre os mistérios da fertilidade, assim como aspectos sobre a vida e sobre a morte, entre outros. Entendo que o sonho faz um convite à uma jornada heroica sobre o que posso deixar como legado para o mundo. A partir da passagem da grande onda, acontece uma transformação, uma ruptura com uma vida habitual para a conquista de algo maior, um novo estado de consciência, um desenvolvimento a partir da morte de determinados aspectos para que outros possam acontecer. Existe um mundo, uma forma de existir antes da onda e outra depois dela, assim como existe um mundo de um lado da colina e outro do outro lado. O chamado proporciona uma espécie de integração dos dois lados representada pelo retorno ao outro lado da montanha de onde partimos para a jornada.

Ao escrever o artigo, associei também com a proximidade da morte de meu pai, que veio a acontecer dias depois, provocando profundas transformações em minha vida.  Todo o sonho é percebido e narrado na primeira pessoa do plural, dando ao sonho um aspecto coletivo. A linguagem poética utilizada foi a forma que minha alma encontrou para expressar tamanha comoção diante do sonho, que foi escrito imediatamente ao despertar, e conforme esclarece Jung, poesia significa deixar ressoar através das palavras a palavra primordial (Jung apud Gerhart Hauptmann, 2013, vol. VX: § 124).

O sonho pode até parecer inacabado, mas como cita Jung (2014, vol. VIII/2: § 560) “Acredito que “Quod natura relinquit imperfectum, ars perficit” - “O que a natureza deixa inacabado, a arte completa!”, diz um provérbio da Alquimia. Assim acabou meu sonho, e encerro esse artigo.

 

Autora: Erika Mendel - Analista em Formação do IJEP

Analista didata: Santina Rodrigues

Referências:

JUNG, C.G. A Natureza da Psique, vol. VIII/2, Petrópolis, Vozes, 2014.

JUNG, C.G. Desenvolvimento da Personalidade, vol. XVII, Petrópolis, Vozes, 2014.

JUNG, C.G. O Espírito da Arte e na Ciência, vol. XV, Petrópolis, Vozes, 2013.

JUNG, C.G. Psicogênese das Doenças Mentais, vol. III, Petrópolis, Vozes, 2015.

JUNG, C.G. Vida Simbólica, vol. XVIII/1, Petrópolis, Vozes, 2015.


Erika Mendel - 23/06/2021