POR QUE AS HISTÓRIAS NOS TOCAM? UMA LEITURA SIMBÓLICA DO CONTO A BELA ADORMECIDA

Por que as histórias nos tocam? Uma leitura simbólica do conto A Bela Adormecida CONTO DE FADAS

Ao ler, ouvir ou contar uma história, certamente, estamos também falando de nós, já que, de alguma forma, quando uma história, poesia ou filme nos toca, nos seduz, nos aterroriza, ela também diz sobre o que somos. Desde muito pequena, percebi que algumas delas me tocavam mais que outras, que algumas queria ouvir, ouvir e ouvir novamente. Mais tarde, enquanto mãe e professora, percebi que isso era comum nas crianças e adolescentes com os quais convivia. Contudo, não entendia como uma história que havia me tocado tanto, não despertava o mesmo interesse em outros e vice-versa.

Algumas histórias permanecem vivas, mesmo depois de passados tantos anos, se repetem sempre, em diversas versões, como os contos de fadas, os mitos, algumas obras de Shakespeare, de Victor Hugo, de Machado... e muitas outras, que mesmo passados muitos anos, permanecem no imaginário dos indivíduos humanos. Compreendi que as histórias que amamos falam de nós, mas também que falam de todos nós. De acordo com Italo Calvino (2007, p. 11 e 12), “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tem pra dizer” e “O seu clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.”

Algumas histórias ficam no imaginário de todos e se repetem incessantemente, mesmo que com novas roupagens e visivelmente influenciadas pela cultura em que são contadas. De acordo com Jung essas representações podem, inclusive, nos ajudar em um processo de renovação, até mesmo de cura, já que, segundo ele,

 

“(...) as representações míticas, com seu simbolismo característico, atingem as profundezas da alma humana, os subterrâneos da história, onde a razão, a vontade e a boa intenção nunca chegam. Isso porque elas também provêm daquelas profundezas e falam uma linguagem, que, na verdade, a razão contemporânea não entende, mas mobilizam e põem a vibrar no íntimo do homem. A regressão que poderia assustar-nos à primeira vista é, portanto, muito mais um ‘reculer pour mieux sauter’, um concentrar e integrar forças, que no decorrer da evolução vão constituir uma nova ordem.” (Jung, C.G. , 2007, p. 13).

 

Essa fala esclarece, portanto, a importância das histórias em nossa vida. Ao pensar nisso, lembro do livro de contos de fadas que ganhei ainda muito jovem, por volta dos 7, 8 anos, sequer lembro de quem foi esse presente, mas ainda hoje, com muitos anos passados ainda lembro vivamente das ilustrações do livro e dos contos. Dois desses me tocavam de forma especial, O Barba Azul, porque me dava medo e A Bela Adormecida, porque me dava indignação, não contra a fada má que amaldiçoa, mas a família que exclui convidada tão importante e causa tanto estrago e um adormecimento coletivo.

Então para ilustrar esta discussão, escolhi falar aqui, do conto de fadas A Bela Adormecida. Segue abaixo, a versão resumida, lida por mim na infância. Peço que leiam com atenção, pois esta versão é diferente daquela mais comum, que muitas crianças leem hoje em dia.

A Bela Adormecida no bosque

Texto adaptado por: Andrea Alencar

Livro referência: o volume de P. Saintyves, Les contes de Perrault et les récits parallèles, leurs origines, costumes primitives et liturgies populaires. Paris, 1923

Era uma vez um príncipe que amava a caça de tal sorte que vivia sempre nas florestas e tapadas, procurando por animais que pudesse abater. Uma vez perdeu-se num bosque e tendo caído a noite antes que lograsse sair dele, teve que procurar abrigo por lá. Com a noite cerrada encontrou a cabana de um lavrador que o agasalhou como pôde, dando-lhe de cear. Pela manhã, o príncipe viu por cima do arvoredo as torres de um castelo desconhecido e perguntou quem ali morava. 0 lavrador respondeu que daquele lugar contavam uma história velha do tempo antigo. O príncipe insistiu para saber e o velho contou.

Era ali o palácio de um rei que não tinha filhos quando muito os desejava ter. Finalmente a rainha deu à luz e houve muita festa, convidando o rei todas as fadas para o batizado, mas esqueceu de convidar a fada mais velha porque havia sido afastada do reino por seu mau temperamento de mulher velha e não se ouvia mais falar nela, julgando todos que houvesse morrido. No dia do batizado as fadas compareceram e a fada velha também. Ela vinha zangada por não ter sido chamada e já guardava mágoas de não ser querida no reino.

As fadas foram para perto do berço da menina que nascera e deram os dons de ser bonita, alegre, agradável, trabalhadora, prudente, fiel. Quando acabaram, a fada velha em fúria lança um feitiço que diz que a menina tinha de meter as mãos em um espinho e morreria aos quinze anos. Todos ficaram muito tristes, mas a fada mais moça, que se escondera, apesar de dizer que não podia desmanchar os fados já dados, abençoava a menina para que dormisse por cem anos sem ficar velha.

Sendo assim, o rei ordenou que todas as flores e plantas com espinhos fossem banidas do reino e que a menina fosse criada no bosque, escondida e protegida. Mas, com quinze anos, a princesa em uma de suas escapadelas, passeando em um lugar recôndito avista uma linda flor, algo que nunca havia visto antes e encantada deseja ardentemente nela mexer, ao tocar a flor, imediatamente um espinho enfia-se em seu dedo e ela cai como morta. Todos que estavam no castelo adormeceram também, e os pais da menina morreram imediatamente e do reino só fica o castelo, que é aquele que se vê todo cercado pela floresta e por longas colunas de espinhos e pessoas adormecidas em seu sono de morte.

O príncipe fica ansioso para verificar a verdade e, despedindo-se do lavrador, dirige-se ao castelo, mas não consegue atravessar a mata de espinhos que o cercava. Depois de muito esforço e muita luta, em uma insistência de meses e com alguns ferimentos, o príncipe consegue ultrapassar a floresta de espinhos. Do outro lado encontra um palácio grande e bonito e cheio de gente dormindo por todos os cantos, criados, camareiros, soldados, oficiais, cozinheiros, até os animais dormiam no estábulo e cavalariça. O príncipe sobe e passa por muitas salas douradas onde as damas estavam adormecidas e, num quarto muito adornado, vê uma moça linda dormindo numa cama. Aproxima-se, toma-lhe a mão, beija-a e deita-se com ela. O príncipe fica muitos dias com a princesa, sem ter coragem de deixá-la, era tão bela e assim junta-se a moça adormecida por várias noites. Mas, sendo informado por seu criado que seu pai faleceu e que agora era rei retorna ao seu reino e lá se casa com a noiva indicada pelo seu pai e sua mãe, mas sempre que podia vinha ter ao castelo para ver a linda jovem adormecida e deitar-se com ela.

Acontece uma guerra e o agora rei fica afastado por mais de nove meses da jovem e adormecida princesa que ainda adormecida dá à luz a gêmeos. Os bebês, com fome, buscam o leite materno e acabam chupando um de seus dedos, retirando o espinho envenenado e despertando-a imediatamente. Logo todo o palácio acorda e inicia-se um barulho de ordens e passos, vozes de animais e músicas.

O rei sabendo da notícia manda buscar a princesa e as duas crianças, um menino de nome Cravo e uma menina chamada Rosa e recebe a princesa como rainha soberana. A primeira esposa, que ainda não conseguira ter filhos, fica furiosa e pensa em mandar matar a princesa logo que pudesse.

Sucedeu que o rei teve que ir novamente para a guerra e a primeira esposa resolveu fazer mal à inocente princesa. Chama um criado de sua confiança e manda que agarre o menino Cravo e faça dele um guisado! Para ela comer. O criado furta o menino, mas não tem coragem de o matar; esconde-o na sua casa, mata um cabrito e guisa-o para a rainha velha, que o come todo, dizendo estar muito gostoso. Dias depois faz a mesma coisa com a princesa  Rosa e novamente o criado esconde a menina em sua casa e a rainha velha come uma ovelha, pensando que comia os filhos da Bela Adormecida.

Mas ainda faltava a Bela que vivia chorando com a perda dos filhos. A rainha velha acusa-a de ser falsa com o marido e manda prendê-la, condenando-a a ser queimada viva na praça pública. Arrumam a fogueira e a princesa já estava amarrada ao poste e o carrasco com o archote na mão para pôr fogo a tudo, quando aparece o rei, correndo a brida solta, em socorro de sua mulher, cuja sorte lhe fora comunicada pelo criado que fugira para ir ao seu encontro. O rei agrada muito a mulher, e a rainha velha, logo que o vê, salta pela janela, quebrando o pescoço nas lajes do pátio. O criado vai buscar Cravo e Rosa e os entrega aos pais, contando o que fizera. O rei o recompensou muito bem, trazendo-o sempre perto de si, e todos viveram felizes para sempre.


Bom, é sabido por todos que existem várias outras versões dessa história e penso que ainda vão surgir outras. Existem contos indígenas, africanos e asiáticos que se assemelham a ela, o que confirma que a ideia central da história é arquetípica, ou seja, reflete uma ideia, imagem que apresenta traços, medos, características humanas mais gerais. Ao observar essas diversas versões, existe algo que nunca será extraído ou suprimido que é a maldição da não convidada e o consequente adormecimento da jovem princesa, que sequer tinha ainda a opção de escolher a quem convidar, assim como também a vida de todos em suspenso, em adormecimento, por um longo tempo.

Lembro do incômodo, quando ainda criança, que esse adormecimento me causava. Sendo assim, os dois símbolos que me proponho a trabalhar sobre o conto é, a exclusão, associada ao conceito junguiano de sombra, e sua consequente maldição, o adormecimento. Portanto, a reflexão que proponho é a de que ao não lidarmos com a nossa sombra tendemos a passar uma vida de “adormecimento”.

Podemos ilustrar essa discussão trazendo a personagem da fada má, a representante do mal no conto, que é excluída pelo rei por ser chata e mais velha, e ele achar que essas características são suficientes para desprezá-la e ignorá-la. Mas, o rei, que podemos associar aqui ao conceito de ego, logo percebe que não se descarta fácil aquelas características das quais não gostamos em nós ou no outro. Pelo contrário, podemos ser “amaldiçoados” ao tentar excluí-las.

 Aqui cabe ressaltar, que a sombra é tudo aquilo que poderia ser acrescentado ao complexo do ego mas que, por várias razões, não o é. Pensando na fada em questão como representante da sombra, ela poderia ter sido convidada e nenhuma maldição teria caído sobre a pequena princesa, bastava que o rei (ego) estivesse pronto para lidar com esses conteúdos desagradáveis.

O interessante também é destacar que as outras fadas presenteiam a princesa com aquelas qualidades que satisfazem ao rei (ego), mas não eliminam a maldição da sombra, ela existe, está lá, mascarada. Assim não ocorre na vida? Quanto mais queremos esconder aquilo que nos incomoda, mais aquilo aparece em nossas constelações de complexos. Veja que, independentemente de todo o esforço dos pais para evitar que a menina furasse o dedo em espinhos, isso se torna inevitável.

Ao se excluir, a fada má, o que se tenta suprimir é a sombra, o outro lado, aquele que não queremos ver e compartilhar, um exemplo do que seria o mais apropriado é quando Von Franz (1985, p. 23) afirma que,

 

“(...) em certas tribos da América do Norte, uma pessoa é eleita para realizar de forma ritualística o oposto do estabelecido pelas regras sociais do grupo. Provavelmente, a ideia é que há outro lado que também deve ser reconhecido. Trata-se de um festival de catarse da sombra.”

 

Então, essas tribos entendiam, intuitivamente, a importância de reconhecer e integrar a sombra, já o nosso rei (ego) ao negá-la, na tentativa inútil de esquecê-la e excluí-la, apenas a transforma em maldição.  Se a sombra era supostamente do pai, por que a maldição recai sobre a filha? De acordo com Jung, (2014, vol. 7/1; §143)

 

“A criança tem uma psicologia singular. Assim como o seu corpo, durante a vida embrionária, é uma parte do corpo materno, também sua mente, por muitos anos, constitui parte da atmosfera psíquica dos pais. (...) Apenas em parte a criança tem psicologia própria; em relação à maior parte ainda depende da vida psíquica dos pais.”

 

Ou seja, a criança presa nas teias da negação da psique dos pais, da sombra representada pela fada má, absorve para si a maldição. Como vivenciamos em nossa infância, muitos atos e comportamentos dos nossos pais foram refletidos ou projetados em nós, seus filhos. Penso que todos já vivenciaram e têm recordações positivas ou negativas de alguma herança psíquica de seus pais, embora seja sabido que em sua maioria, estes conteúdos seguem também para a sombra. A pequena princesa, sem opção, vê sua vida vinculada às decisões de seus pais e o afastamento do tratamento adequado da sombra a impossibilita de realizar a integração deste conteúdo.

O ideal seria não sucumbir ao sono, adormecimento e enfrentar o conteúdo sombrio, mas muitas vezes nesta transição de vida infantil para vida adulta, a mulher prefere não olhar para a possibilidade de solução, pois o lugar conhecido e tranquilo do adormecimento, da maldição, a fazem permanecer presa a psique dos pais (que pode ser a cultura, a religião, a família...), ou seja, sem lidar com a sombra e sem tornar-se verdadeiramente adulta.

Nesta versão fica claro que a Bela adormecida continua vivendo, encanta o príncipe que, sem precisar encantá-la, seduzi-la ou mesmo amá-la, a toma como objeto de prazer. A Bela permanece inerte, mas o príncipe, como todo príncipe de contos de fada, reconhece nela a beleza, a vida. Em nossa sociedade não seria equivocado afirmar que muitas mulheres passam boa parte da vida “adormecidas”, apegadas a conteúdos inconscientes do passado, incluindo “maldições herdadas”.

Ao negar-se a ter contato com a sombra, com a fada que é negada em si mesmo, a princesa “adormece”, relaciona-se, tem filhos, mas não acorda. Muitas mulheres passam pela vida assim, é comum na clínica a fala de não terem tempo para ver os filhos crescerem, conviverem com a família ou fazerem coisas de que realmente gostam. Além disso, vivenciam casamentos de encontros furtivos e letargia, de não prazer, apenas de obrigação. Sendo assim, passam a vida amaldiçoadas pelo sono.

A Bela durante todo o conto tem uma postura passiva, mesmo depois que acorda.  Podemos supor que o príncipe seja o seu animus que finalmente lida com a sombra, agora representada pela rainha velha e assim, poderá salvá-la e viverem felizes para sempre, ou seja, seguirem o caminho da individuação.

Vale ressaltar que esta é apenas uma das várias possibilidades de análise deste conto. Afinal, os contos de fadas são histórias que exercem uma influência particular, quando se tornam inesquecíveis e se repetem em todas as épocas, trazendo novos significados e possibilidades simbólicas. Assim como, quando se escondem nas dobras da nossa memória, “mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual” (Calvino, 2007, p. 10).  Ou seja, a leitura simbólica contribui para ampliação da consciência, mas a significação das leituras que me tocam são, antes de mais nada, individuais.

 

Andrea Alencar, membro analista em formação IJEP- RJ

Analista Didata: E. Simone Magaldi membro didata do IJEP

 

 

 

Referências:

CALVINO, Italo (2007). Por que ler os clássico? São Paulo: Companhia das Letras

 

Bonaventure, Jette (1999) O que conta o conto? São Paulo: Paulus

 

JUNG, C. G. (1986). Símbolos da transformação. Petrópolis: Vozes. (Originalmente publicado em 1924)

 

_____________ (2013) A Prática da psicoterapia, Petrópolis: Vozes

 

VON FRANZ, M. L. (1990). A interpretação dos contos de fadas. São Paulo: Paulus

 

_____________ (1985). A sombra e o mal nos contos de fada. [tradução Maria Christina Penteado Kujawski]. São Paulo : Paulus


Andréa Alecar - 13/09/2021