PORQUE A ARTETERAPIA CURA #2 A LINHA

Porque a arteterapia cura #2 A Linha Artereapia

A linha é a somatória de pontos. Imagine uma folha de papel branca e limpa, sem nada desenhado. O olhar corre solto por toda a superfície sem nada para se firmar, como que em busca de algo, perde-se no espaço e a angústia cresce por só encontrar o nada. Segue assim num ciclo incansável – busca, angústia, de novo a busca, de novo a angústia. Usando sua imaginação, agora desenhe um ponto nesta folha de papel branca. Ponto é uma marca no espaço, definição apresentada num artigo anterior a este (#1 O pont0). Ao encontrar este ponto o olhar fixa-se, tranquiliza-se, pois agora está vivendo o cosmos e não o caos como antes de encontrar este ponto. Chamemos este ponto de ponto A. Imagine agora outro ponto desenhado no papel, que chamar-se-á ponto B. Independente do local que você o imaginar o ponto B desenhado, o olhar percorrerá diretamente a trajetória entre ambos os pontos. Seria como se o ponto A se desdobrasse em dois e deslizasse até o local desejado fixando-se e marcando o ponto B no espaço. Um importantíssimo detalhe, que abordarei com maior profundidade em outro artigo, é que o percurso percorrido pelo olhar acontece de forma direta, reta e espontânea. A partir do momento que ponto A e o ponto B estão postos no espaço, esta trajetória acontece na velocidade imediata à detecção do ponto B em detrimento ao ponto A. Esta trajetória definida pelo movimento do ponto no espaço é a linha. Outra forma de pensar a constituição da linha é imaginar um conjunto de pontos que sem fim, sucedem uns aos outros.

Neste artigo, para reflexão sobre o elemento visual linha, temos até aqui, um trio de ideias: a) a linha sugere movimento, b) alinha sugere infinitude e, c) a linha é formada a partir do ponto.

O processo de alfabetização é o mesmo para língua nativa e para as artes. Para o idioma nativo, inicia-se com a diferenciação entre letras e números. A somatória das letras geram sílabas que somadas geram palavras. Seguindo esse raciocínio, temos a sequencialidade crescente com as frases, os parágrafos, os textos, os capítulos, os livros e as bibliotecas. Tudo isso iniciado com a distinção da letra. No desenvolvimento da linguagem, na qual a alfabetização faz parte, temos um complexo processo entre figura - significado - significante. A comunicação entre emissor e receptor só acontece com a premissa de que cada lado tenha desenvolvido a linguagem e dominem o mesmo código. A regulação do código é feita pela gramática e pela ortografia. Dentro da língua portuguesa brasileira, a palavra pasta se escrita com a letra Z (zê) no lugar da letra S (esse), deve ser corrigida. Há aí, uma regra gramatical clara e definida.

Dentro do processo, mesmo que a palavra seja escrita de forma correta, a comunicação ainda depende de mais um elemento que é o contexto aplicado para a palavra. Pois, pasta é uma palavra homônima. Sem o contexto aplicado não se saberá ao certo o sentido que o emissor está dando para a palavra pasta. Ele tanto pode usá-la como “porção de matéria sólida aglutinada, ligada ou amassada com substância líquida ou viscosa e que se caracteriza por sua plasticidade”, como pode usá-la para referir-se a “espécies de bolsa achatada, de couro, plástico, tecido etc., usualmente usada para guardar e transportar livros, documentos etc.”, como ainda para “o posto de ministro de Estado”. (Dicionário eletrônico Houaiss de língua portuguesa-2009). O que descrevi acima, de forma simplificada, como processo de alfabetização, é o mesmo que acontece no processo de alfabetização para a arte.

Até 2005 o ensino das artes na fase escolar chamava-se educação artística, ou seja, educar para a linguagem das artes. Tanto quanto a alfabetização na língua portuguesa, a “alfabetização” na linguagem artística corrobora com o desenvolvimento da linguagem. Desta forma, diferenciar o elemento ponto é o inicio de tudo. Paralelamente à língua portuguesa que, somando-se letras se adquiri sílabas..., somando-se pontos obtêm-se a linha, somando-se linhas têm-se superfícies que em conjunto entre si geram o volume. Os elementos arte-visuais: superfície e volume, assim como outros, serão trabalhados nos próximos artigos.

A proximidade entre alfabetização para a língua portuguesa e para a arte continua, pois também encontramos “gramática” nas artes. As linhas desenhadas que seguem a direção do fio de prumo não podem ser classificadas como horizontais, pois gramaticalmente estaria errada essa classificação. Assim como o contexto da utilização da linha também deve ser considerado.

A posição da linha irá classificá-la como horizontal, vertical e inclinada, a composição da linha nomeia-a entre contínua, tracejada, pontilhada ou mista. A direção da linha, reta, curva, quebrada e mista denomina o direcionamento. Algo fora disto desta nomeação estará “gramaticalmente errado”. A linha é a articulação do ponto no espaço sem deixar de ter características próprias. Essa articulação organizada dos elementos produz a imagem. No caso do elemento trabalhado neste artigo, ela vai dar para o espaço dimensão, direção e temporalidade.

Naturalmente, linha não tem corporeidade, já que o corpo é tridimensional e a linha unidimensional. Essa unidimencionalidade da linha confere proporcionalidade de extensão. Uma linha horizontal contínua é percorrida de forma rápida por não haver nada que interrompa o olhar. Esse percurso também provoca a direção que o olhar deve seguir. A direção pode ser mudada á medida que a linha muda de direção. Se for uma linha curva a agressividade da troca de direção é proporcional ao ângulo da curva. Se a linha observada for quebrada, a mudança de direção do olhar será também quebrada de forma vertiginosa. Linhas mais rápidas são linhas mais leves. Atribuir pequenos traços verticais ou diagonais de forma que “cortem” a linha horizontal em toda sua extensão, atribuirá a ela lentidão. Pois existirão obstáculos a serem vencidos pelo olhar do observador. Na mesma proporção da lentidão que a linha apresenta é simples percebe o peso que a ela ganha com essas interferências. Porém, se ao invés de contínua a linha for tracejada ou pontilhada, o obstáculo a ser vencido e justamente o vão entre as pequenas linhas. Com isso, a velocidade é reduzida mesmo que a linha esteja posicionada na diagonal ou desenhada em curva, características que conferem dinamismo a linha. O oposto, a verticalidade e a horizontalidade, entregam o estatismo. Outra característica fica por conta da justaposição de opostos. Quando uma linha é entrecruzada com pequenas linhas curvas ou diagonais, a velocidade diminui e proporcionalmente o peso aumenta. Ou seja, opostos que aproximam geram tensão que pode ser produtiva ou não. Vidas que são atravessadas por outras vidas geram suficiente tensão para que ambas cresçam e transcendam o limite egóico. Porém, quando se configura relações tóxicas onde a libido, mesmo que “apenas” de uma das partes, diminui, há perda de velocidade aumentando do peso da vida. A expressão: “Sinto um peso nas costas”, ou “A vida está pesada demais”, são claras. Os relacionamentos não devem interditar a vida, devem sim, permitir a fluidez de forma harmônica, visando a coniunctionis.

A linha (cada seguimento linear) cria, essencialmente, uma dimensão no espaço. Ela é vista como portadora de movimento direcional. Introduzindo-se intervalos, ou contrastes, mais diminui a velocidade e, em contrapartida aumenta o peso visual da linha. Assim há sempre um efeito simultâneo que abrange espaço e tempo: maior velocidade = menor peso visual; menor velocidade = maior peso. (Ostrower, 2018, pag.102).

Destaco agora que se temos de um lado a fragilidade da linha por só poder apresentar uma dimensão espacial, do outro lado temos nela o poder de estender e encolher o tempo. O que dá para a linha, pelo menos no meu entendimento, uma extraordinária capacidade de gerir fluidez para as imagens. Com isso, temos expressividade nas linhas.

A linha não existe na natureza. Ao desenhar um rosto, a linha que define a bochecha mudará de lugar no exato instante que você mudar o seu ângulo de observação. “Elas desaparecem e dão lugar a outras linhas, tão incorpóreas quanto as primeiras” (Ostrower, 2018). As linhas que desenham o chão e o teto, vistas como diagonais em um corredor longo se unem no ponto de fuga, são distorções da realidade para conseguirmos entender a profundidade e compreendermos a tridimensionalidade. Ao andarmos pelo corredor as linhas do chão e do teto sempre estarão paralelas, diferente “do que se vê” olhando com distância.

Descrevi até aqui, mesmo que de forma rasteira, o papel da linha enquanto elemento da arte. Pretendo a partir de agora dedicar ás ideias que justificam diretamente essa sequência de artigos sob o título porque a arteterapia cura.

Encontramos nas bases da arteterapia dois principais pilares: a arte e a psique, que juntos possibilitam a edificação da arteterapia. Embora no Brasil ainda não exista espaço de equivalência com sua importância, a arteterapia cura. E cura porque ao observarmos uma rodovia qualquer, num trecho sem curvas, ao olhamos para frente parecem só findar quando encontram a linha do horizonte. Mesmo porque, a capacidade da visão a olhos nus também encontra seu limite. Nesta situação, enxergamos as linhas das margens como diagonais das quais as pontas se tocam junto do horizonte. Formam como que um funil em nossa frente, olhamos a partir da base mais larga e caminhamos para o estreitamento mais adiante. Nesta hora há uma distorção da realidade para sermos capazes de enxergar a realidade. Na psicologia de Jung temos os arquétipos que são os elementos que compõe o inconsciente coletivo. Segundo Jung (2013) “Os conteúdos do inconsciente coletivo, por outro lado, são chamados arquétipos.” Com bases profundas, criadas nos estudos de diversos pensadores, dentre eles Agostinho ou Santo Agostinho de Hipona para respeitar a igreja católica, sugere que nada existe antes de ser ideia compreendida pelo divino. Jung define os arquétipos como “representação essencial de conteúdos inconscientes, que modifica-se através da conscientização e da percepção do indivíduo.” (Jung, 2013).

...no concernente aos conteúdos do inconsciente coletivo, estamos tratando de tipos arcaicos - ou melhor - primordiais, isto é, de imagens universais que existiram desde os tempos mais remotos. (JUNG, OC IX/1, § V).

Didaticamente elucidando, esse recurso ótico atua de forma equivalente a distorção do arquétipo, ação que o diminuiria ao nosso tamanho para podermos acessá-lo. Como não temos acesso ao arquétipo em si, o psiquismo, naturalmente, se encarregou de criar uma maneira para esse encontro - as imagens arquetípicas. Os mundos do inconsciente e do consciente podem agora se encontrar em projeções. Apesar de Jung destacar os sonhos e as visões como lugar de manifestação dos arquétipos como sendo as mais puras, a ideia de arquétipo sempre foi associada ao mundo dos mitos e do conto de fadas. Observe que o arquétipo, essência do inconsciente coletivo, manifesta-se no consciente quando emerge ganhando materialidade nas projeções em imagens, mesmo que sejam imagens oníricas ou advindas de visões. Por serem o canal de conexão, essas imagens ganham importância tanto quanto os próprios arquétipos. Ou seja, as imagens arquetípicas não são os arquétipos, mas sim, a forma encontrada para a fluidez do inconsciente que não se repete de indivíduo para indivíduo. Sendo assim, podemos encontrar infinitas imagens que se ligam ao mesmo arquétipo.

Também, didaticamente, seria como fazer uma distorção da rodovia (que usei acima como exemplo), para ser possível enxerga-la com a devida profundidade. Ação essa, que diminuiria a verdade ao nosso tamanho. Esta distorção é a equiparação da realidade com a capacidade de cada um em absorver fenômenos concretos. A realidade é que a rodovia tem vários metros de comprimento e sua largura mantem-se invariável por toda a extensão. Porém, enxergamos as linhas em diagonal afunilando-se até os encontros totais das vértices. Essa imagem distorcida é a que nos cabe, projetamos e compreendermos a verdade a partir dela, assim como os arquétipos e as imagens arquetípicas. Se enxergássemos a imagem em si, veríamos uma rodovia planificada, em duas dimensões, sem nenhuma percepção de distancia. Mas, a “natureza” se encarregou de criar uma maneira para percebermos a tridimensionalidade do mundo. Falando em 1 para 1: a rodovia está para o arquétipo e a imagem arquetípica está para a imagem tridimensional que se enxerga.

O arquétipo representa essencialmente um conteúdo inconsciente, o qual se modifica através de sua conscientização e percepção, assumindo matizes que fariam de acordo com a consciência individual na qual se manifesta.

(Jung, 2013, OC. IX/1, §7)

Traçar as linhas que sugiram profundidade ou perspectiva com um ou mais pontos de fuga, exige a habilidade de enxergar a distorção e não em saber que as linhas seguem paralelas. Mesmo porque, perceber a distorção é perceber a realidade. Aquele que não consegue enxergar a realidade, não consegue enxergar a distorção. O mesmo acontece com aqueles que não enxergam suas projeções no mundo. Jung explica que o exercício dos alquimistas da idade média, na transformação de metais de menor valor em ouro, consistia numa projeção do processo psíquico interno sobre a tarefa. O indivíduo que mergulha no processo de individuação é capaz de perceber suas projeções. Caso contrário, seu psiquismo será percebido fora, projetado no mundo, sem trazer transformação pessoal. Olhar o mundo, reconhecer nele o conteúdo pessoal projetado, trás ampliação da consciência dos conteúdos antes inconscientes e projetados. Novamente, como no artigo anterior, faço a analogia em 1 para 1: As linhas diagonais que se tocam nas vértices, mostrando tridimensionalidade, estão para as projeções do inconsciente no mundo, assim como os conteúdos do inconsciente estão para a realidade das linhas que seguem paralelas por toda extensão.

A psicologia do indivíduo corresponde à psicologia das nações. As nações fazem exatamente o que cada um faz individualmente; e do modo como o indivíduo age a nação também agirá. Somente com a transformação da atitude do indivíduo é que começara a transformar-se a psicologia da nação. Até hoje, os grandes problemas da humanidade nunca foram resolvidos por decretos coletivos, mas somente pela renovação da atitude do indivíduo. Em tempo algum, meditar sobre si mesmo foi uma necessidade tão imperiosa e a única coisa certa, como nesta catastrófica época contemporânea. Mas, quem se questiona a si mesmo depara invariavelmente com as barreiras do inconsciente, que contém justamente aquilo que mais importa conhecer.   - Jung, OC VII/1, prefácio 1ª edição.

            Sentindo muito em deixar de lado, ao menos momentaneamente, temáticas como o postulado das paralelas de Euclides e a infinitude da reta, fecho este artigo ressaltando que a linha, para destacar o elemento trabalhado no artigo, em si não simboliza nada. A linha não prediz, ela não anuncia nada, não define coisa alguma que seja, apesar de ter sua gramática como expliquei acima. Essa característica de ser que a linha possui, dá para ela a amplitude de sair do contexto estabelecido para ganhar pretexto da e na vida. Se o ponto dá estabilidade, a linha dá movimento para o que está estagnado. Se o ponto ancora, a linha direciona as emoções para a fluidez na vida. A linha dá ritmo, dá forma e velocidade, dá sentido aos conteúdos psíquicos. Quando riscamos, rabiscamos e criamos com linhas os arquétipos se manifestam. Pois, a linha estudada como elemento arteterapêutico, revela-nos autonomamente sem explicações racionais as ideias que nos compõem. Exibi questões de ordem emocional, psíquica e espiritual tocando de forma intima e exclusiva o indivíduo, levando-o ao transcendente, conduzindo-o pelo caminho de tornar-se um ser íntegro.

A linha, ao materializar no papel algo que não pode ser visto diretamente como a avareza, para citar outro pecado capital diferente do que citei no artigo anterior desta série, permite que cada indivíduo entre em contato com sua essência avarenta. O indivíduo avarento é aquele que coloca no dinheiro o valor maior de sua vida. Vive dominado e estagnado defendendo o objeto dinheiro. Este sofrimento não pode ser visto em si, mas através da linha pode ganhar concretude. O poder de cura da arteterapia mora aqui. A linha não é o sofrimento, o sofrimento não é a linha, mas neste momento há uma transmutação entre ambas. A linha passa a ser o sofrimento e o sofrimento é a linha. Assim, a consciência se amplia sobre o sofrimento por agora ele estar transmutado em algo que a consciência tem acesso. E a arteterapia se encarrega de ler estas linhas possibilitando a comunicação entre o consciente e o inconsciente.

Willian Silva - Analista Junguiano em Formação pelo IJEP

Analista didata responsável: Waldemar Magaldi

 

Referências

JUNG, Carl Gustav. Ab-reação, análise dos sonhos, transferência. Rio de Janeiro. Ed. Vozes. 2008.

________________. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Vol. 9/1. 10ª edição. Rio de

Janeiro. Editora Vozes. Ano: 2013.

______________. Psicologia do Inconsciente. 18ª edição. Rio de Janeiro. Ed. Vozes. 2008.

OSTROWER, Fayga. Universo da arte. São Paulo. Ed. Unicamp. 2013.


Willian Silva - 07/10/2021