PORQUE A ARTETERAPIA CURA #3 A SUPERFÍCIE

Porque a arteterapia cura  #3 A Superfície Artterapia Junguiana

A superfície tem limites por sua natureza,

se fosse como a realidade não teria fronteiras.

                                                                                                                                                                                                    Willian Silva

Somando-se pontos se tem linhas, soma-se linhas criamos superfícies. Inicialmente pensando nas linhas retas, com o mínimo de três linhas ou, melhor dizendo, três segmentos de reta, podemos desenhar o polígono triângulo - não abordarei aqui os conceitos dos polígonos. Estes serão abordados em outro artigo. As linhas que outrora são livres e infinitas, independentes e desmesuráveis, agora conectadas entre si, ganham compromisso e objetivo definido. Elas definem um plano, servem como delineadoras (a própria palavra delinear tem dentro dela a palavra linha) de uma área. Não podemos definir nada com a linha em seu estado de natureza, mas quando elas se interligam em seus caminhos observamos fragmentos de reta e, com estes podemos compor. No acaso do triângulo temos os fragmentos de linha comumente denominados de segmento de reta A-B, B-C e C-A. A linha agora é responsável por dar forma e o faz a partir do limite estabelecido por ela. Ainda destacando os polígonos planos, temos infinitas possibilidades nomeadas de acordo com a quantidade de lados que ele é construído (quadrados, pentágonos, hexágonos, heptágonos, octógonos, etc...).

Temos as mesmas características em superfícies irregulares, com a única diferença que na sua composição as linhas são quebradas, curvas e/ou mistas. De qualquer forma, a principal característica da superfície e sua bidimensionalidade, altura e largura. Por essência são integradas umas às outras de tal forma que não se pode pensar nelas separadamente e sua relação com o espaço e o tempo tem o mesmo vínculo. Há, com certa facilidade de identificação, movimento visual naquelas superfícies que uma das duas dimensões possíveis prevaleça. Numa área retangular, por exemplo, nossos olhos precisam de tempo para percorrer todo a extensão da área ocupada para resolvê-la em nós. Porém, se estivermos olhando para um quadrante, a experiência visual é de certa estagnação e rápida resolução. O quadrado é um polígono que tem movimento, apesar de mais limitado do que o do triângulo. O movimento fica preso nos limites da superfície, o que significa que existe movimento, mas sem progressão para o espaço/tempo indeterminado. Num retângulo as linhas dão o limite tanto quanto no quadrado, porém, no primeiro, o olhar percorre ao longo da maior extensão (se for um retângulo com base maior que a altura, e o percurso é horizontal). No segundo caso, o do quadrado, o percurso é de igual proporção e por isso, o observador rapidamente define o objeto observado.

Forma, Polígono

Descrição gerada automaticamente

 

 

 

 

 

 

O mesmo acontece com superfícies circulares. Se tratarmos de superfícies que tem todos os seus pontos de construção equidistantes do centro, perceberemos maior centralização do movimento visual. Neste exemplo, temos uma figura geométrica plana, que para analisarmos vou dividir em duas partes. A primeira é a circunferência, que é a extremidade e que dá forma e limita o tamanho. A superfície interna da circunferência é o que compõe o círculo – continente e conteúdo. Nossos olhos percorrem e permanecem percorrendo livremente toda a extensão do círculo e como não existem ângulos para interromper o fluir do olhar, nem pontas para estimular a movimentação para fora e para longe, a concentração nele mesmo é muito maior do que o fluir que ocorre nas figuras geométricas planas, compostas por ângulos. A fluidez é mais acentuada no círculo do que no quadrado, com seus lados, iguais ou num triângulo com menos lados.

Destaco no parágrafo acima a extinção do tempo e do espaço na imagem. Quando nos deparamos com pinturas de predominância circular ou quadrangular, como a peça que compõe o acervo do museu britânico Núpcias do príncipe Humay com a pricesa Humaynu, produzida no ano 1396, vemos cenas estancadas. Neste exemplo a imagem gera a ideia de suspenção temporal por rapidamente nos apropriarmos do espaço. Resolvemos um quadrante por vez como se não houvesse espaço para além daqueles limites ou o tempo exercendo poder naquele instante de contemplação. A união dos opositores, vertical – horizontal, eleva a consciência para um terceiro grau. Já não é o 1 (um) nem o 2 (dois), encontramos o 3 (três) que advém da somatória do 1 (um) com o 2 (dois), mas que tem características próprias e independentes. A arteterapia cura porque explicita a união dos opostos. Tudo o que acontece fora de nós também acontece dentro. Segundo o princípio hermenêutico da correspondência “Tudo o que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima”.  Essa união possibilita o elemento de transcendência que Jung nos apresenta com a função gerada a partir da reunião dos mundos internos e externos, respectivamente os mundos inconsciência e consciência.  “A função psicológica e "transcendente" resulta da união dos conteúdos conscientes e inconscientes.” (JUNG, 1984).

Ainda referindo às superfícies regulares fechadas, a quadratura encontrada em algumas cruzes serve de elucidação do tema central desta sequência de artigos, que tem como propósito de mostrar o porque a arteterapia cura. A imagem da cruz grega, para destacar uma das inúmeras cruzes com esse perfil, possui uma estrutura quadrangular. Ela é construída com dois retângulos de dimensões iguais com medida múltipla de 3 e são concorrentes pelo terço médio e perpendiculares. Sua intersecção representa o ponto central de união de opostos. Temos então, um dos retângulos posicionado na horizontal que representa o plano da matéria e outro, em sua verticalidade, representando a vida espiritual. Este cruzamento simboliza, para muitas culturas, o ponto de transmutação relacionado com a possibilidade de transcendência que Jung fala.

Ao contrário do que muitos pensam, a cruz é um símbolo que não pertence ao cristianismo, existia antes e em diferentes lugares do planeta. Pode inclusive, não estar associada a doutrinas religiosas e representa distintos significados.

O equilíbrio, a serenidade, o encontro com a unidade dentro da pluralidade, a elevação da arte para o status de supremacia, a maneira de encontrar um instante de libertação da ansiedade existencial, a função transcendente, resultado consciente da união de conteúdos conscientes com conteúdos inconscientes são tópicos desenvolvidos a partir da práxis arteterapeutica. Por isso, e muito mais, ela cura. De acordo com JUNG (2000), o modo que devemos confrontar o inconsciente é uma incógnita. Esta questão permeia áreas do conhecimento como a filosofia e religião, sobretudo o budismo e a filosofia zen. A arteterapia veste muito bem essa roupa do incognoscível.

 

Imagem em preto e branco

Descrição gerada automaticamente

 

 

 

 

 

 

 

 

Todo esse universo imaginal necessita de um loco de manifestação para se tornar acessível para nós humanos, seres tridimensionalisados. Junguianamente falando, os arquétipos precisam de imagens para se tornarem conscientes para nossa verdade relativa. A arteterapia facilita o acesso ao arquétipo. Observando a imagem 2, percebemos a construção direta e indireta da cruz grega. Os quadrantes que compõem a cruz somam 5 (cinco); os quadrados subtendidos quando olhamos a “não imagem” somam mais 4 (quatro); e, um último quadrado indireto, com a visão geral da imagem corresponde a mais 1 (um) quadrante. Na sequencia temos na cruz os quadrantes 1,2,3,4 e 5. Na “não cruz” os quadrantes 6,7,8,e 9. E com o olhar sobre o todo, vê-se o 10º quadrante. Contenho-me por aqui no estudo desta imagem para não alongar e sair do foco do artigo. Mas, antes, evidencio os cinco quadrantes flagrados de forma direta. Quatro formando as pontas e o quinto centralizado. Temos assim, o mesmo princípio do pentagrama, com o número quatro trazendo a estrutura base (quatro elementos da natureza, quatro estações, quatro evangelistas cristãos, etc.) e, o quinto quadrante como a saída criativa, espiritual, estimulando a função transcendente. Contando os outros quadrantes que compõem a área espacial da cruz, temos novamente a quantidade de quatro. Porém, se somarmos chegamos ao 9 (nove). Que em muitas culturas representa o iniciado em ordens de conhecimentos ancestrais (foram 9 os dias que Deméter viajou o mundo a procura de sua filha; São 9 as divindades noturnas astecas...) E, pra finalizar, na imagem total temos 1 (um) único quadrante maior, que abarca toda a imagem. Como  unidade simboliza o princípio, o começo o divino. Se somarmos todos esses números de quadrantes temos o número dez, que também é a unidade o divino de onde tudo vem e tudo retorna. Jung destaca como símbolo unificador, de potência para conciliadora de contrários, de síntese. Como referências podemos usar o tetrakis de Pitágoras (1+2=3; 3+3=6; 6+4=10; 1+0=1+) (imagem 3), a roda zodiacal (imagem 4) e o mandala (imagem 5).

Diagrama, Carta

Descrição gerada automaticamente com confiança média

O inconsciente tem como essência ser a base, o princípio de conteúdos que emergem para o consciente que, devido sua natureza moralista inibe todo material que julga incompatível como a adaptação ao meio. De um lado temos a consciência como momentos de adaptação e, do outro lado o inconsciente que contém toda memória esquecida e todos os traços funcionais que formam a estrutura humana, todas as combinações de fantasias que ainda não reuniram energia suficiente pra emergir para a consciência. Encontramos na ideia de transcendência a junção de complementares. As produções arteterapêuticas surgem autonomamente com a força impulsiva e criadora da inconsciência. Embora exista quem fale que essas produções não são e não dizem nada a mais do que literalmente representam. Segundo Jung, a própria arte em si é simbólica, e qualquer representação artística tem linguagem própria capaz de nos dizer: “Estou em condições de dizer muito mais do que realmente digo.” (JUNG, 2009 § 119). A arte, enquanto complexo autônomo onde é possível identificarmos símbolos, aponta para aspectos profundos do inconsciente que ganham forma visível podendo serem melhor compreendidos assim do que intelectualmente.

Consciente e inconsciente se relacionam de forma compensatória ou complementar. O consciente tem por natureza o determinismo, a regularidade, a intencionalidade e o direcionamento, assim como o inconsciente também. Esses conteúdos tem valor fundamental para o desenvolvimento da humanidade. Mas sempre são diminuídos a partir de expressões equivocadas como: “Isso é coisa de ego!” A divisão entre esses dois mundos – consciência e inconsciência – é superada de forma harmoniosa quando a criatividade é explorada para esse favor. Porém, a unilateralização é inevitável, sem dúvidas nossa sociedade civilizada exige atitude da consciência, ações egocentradas. A dificuldade mora em encontrar a melhor forma de inibir a separação entre esses mundos, integrando-os, sem anular o valor de cada um deles. Para a função transcendente é importante que o material inconsciente emerja fazendo complementação à consciência. De nada adianta reprimir esse material. Desta forma, settings arteterapêuticos elucidam com maior profundidade a capacidade do ser humano em elevar-se para um estado de compreensão simbólica do sofrimento.

Nas superfícies, elementos da linguagem visual, a cena ganha um instante sem influencia do tempo cronológico. Os tempos de cada imagem entram em simultaneidade. Um quadro ou uma fotografia são imagens bidimensionais, a impressão da tridimensionalidade fica por conta da perspectiva, tema que abordei no artigo sobre linha e trarei mais elementos no próximo artigo que falarei sobre volume. Sendo assim, o que estamos vendo são superfícies planas, bidimensionais onde o olhar percorre entre formas e tamanhos com o intuito inicial de definir a imagem. Paralelamente a esse fenômeno, o movimento visual ganha ritmo com a dimensão e posicionamento dos planos, como estão num mesmo nível de espaço, tudo acontece ao mesmo tempo.

As linhas pretas contornam superfícies retangulares, rigorosamente estruturadas e dispostas de tal maneira que cada área desempenha simultaneamente as funções de forma de superfície e forma de intervalo.

... Aparentemente, Mondrian tinha uma personalidade racional e místico-religiosa ao mesmo tempo, buscando um princípio de ordem no acontecer e aspirando ao “absoluto”, à “esfera superior”, como ele declarou algumas vezes.

(Ostrower, 2018, pag.111)

Na arteterapia não olhamos para a obra produzida, olhamos para o fazedor da obra. Para citar diretamente o elemento central deste artigo, ao olhar para as superfícies deve-se ter uma única intenção: a de ler o que foi desenhado como o propósito de entender e compreender o porque e principalmente o para que foi desenhado o que foi desenhado. Quem desenhou, desenhou daquela forma e naquele momento dentre infinitas possibilidades de desenhos e de momentos, esta constatação factual não pode ser desprezada. Ao mesmo tempo que parece ser algo simples a ser observado, é complexa quando adentramos. Quando destacamos de modo simplificado as formas encontramos a saída criativa.  Entretanto, a união dos opostos não é estática.

Na observação da superfície o movimento fica por conta da expansão da área. Saindo das figuras regulares planas, imagine agora uma figura composta por uma linha sinuosa e arredondada... Se existirem várias destas figuras com tamanhos e formas diferentes em uma folha de papel A4, o ritmo, a sequencia e a velocidade se dará pela percepção do observador. Essas imagens, assim como as planas e regulares, são classificadas como superfícies fechadas, pois podemos mensurar sua área a partir do limite estabelecido pela linha usada para compô-la.

Fazem quase 2 anos que a população do planeta está limitada no convívio social por conta da pandemia (COVID-19). O processo epidêmico foi deflagrado em 2019 e chegou ao Brasil no início de 2020. Aquele que escolhe ou aquele precisa romper o isolamento social, limite esse empregado como meio de conter o crescimento do número de pessoas contaminadas pelo vírus, acaba se colocando em risco. Porém, vivemos no século XXI de nosso senhor Jesus Cristo, sendo insustentável por muito tempo uma vida de total reclusão social. A expansão dos limites é necessária e deve acontecer sob medida de ordem sanitária. Em analogia com o processo arteterapêutico, quando trabalhamos a composição de uma imagem plástica no setting arteterapêutico, exploramos as superfícies, sejam elas irregulares ou regulares, sejam com linhas retas ou sinuosas, estamos trabalhando a capacidade do indivíduo em alargar seus limites sem ferir o próprio limite. Do mesmo modo, com a devida orientação, vamos gradualmente expandindo a bolha de isolamento social preventiva, porque devemos usar de prudência para a ampliação do limite psíquico. A não expansão do pensamento infantil para o adulto implica na estagnação do processo de desenvolvimento da personalidade do indivíduo. O que consequentemente cristaliza o processo de individuação. A vivência em dilatar os limites sem rompê-los produz a ampliação da cosmovisão, ampliando a consciência. A ideia é transgredir os modos limitadores, apegados, regredidos, pueris, de pensar e agir e perceber o mundo para assim alargarmos os limites.

Antes de finalizar com um exemplo de minha experiência em ateliê individual, reitero que deixarei, conscientemente, de analisar as superfícies abertas e suas sobreposições. Isso ficará para outro momento. Vamos ao exemplo.

Um rapaz que por volta de 35 anos, solteiro e que morava a sua mãe-rainha, como costumava se referir a ela, gostava de ser identificado como aquele que tem comportamento tranquilo e carregava o lema: “Não se estressar para não envelhecer.” Apresentei para ele algumas reflexões ao longo dos settigs arteterapêuticos. Se a sua mãe continuar no trono você sempre será um príncipe e possivelmente nunca assumirá o reinado da própria vida. Que manter-se tranquilo para não envelhecer pode ser uma armadilha, pois quem não envelhece também não amadurece... Seu dilema me pareceu ser entre crescer, amadurecer com medo de perder a leveza da criança interna e a proteção da grande rainha.

Com ele fizemos a observação de um quadro durante o setting arteterapêutico, identificamos cada superfície que o compões. De forma consciente ou não, o olhar foi de uma área para outra com ritmo até formar o todo do quadro. Fizemos uma analogia: a vida também é feita de quadros das fases da vida, infância, juventude, adulta, maturidade, velhice, morte. Na sequencia pedi que ele desenhasse superfícies fechadas de forma aleatória num papel de forma que se sobrepusessem umas as outras (imagem 6). Apresentei para ele o desafio de expandir a área destas superfícies sem perdê-las em essência. Ao término do setting arteterapêutico ele apagou algumas linhas (imagem 7) e percebeu que não é preciso (nem possível) apagar (matar a infância) para surgir a vida adulta. Que o rei só é rei por antes ter sido príncipe.

Diagrama

Descrição gerada automaticamente

 

 

 

 

 

 

 

Willian Silva - Analista Junguiano em Formação pelo IJEP

Analista didata responsável: Waldemar Magaldi

Referências

Jung, Carl Gustav. Natureza da psique. Rio de Janeiro. Ed. Vozes. 1984.

______________. Psicologia do Inconsciente. 18ª edição. Rio de Janeiro. Ed. Vozes. 2008.

______________. O Espitito na Arte e na Ciência. 5ª edição. Rio de Janeiro. Ed. Vozes. 2009.

OSTROWER, Fayga. Universo da arte. São Paulo. Ed. Unicamp. 2013.

INICIADOS, Três. O Caibalion. Ed. Pensamento. São Paulo. 2015.


Willian Silva - 09/11/2021