PSICOLOGIA ANALÍTICA: EM DEFESA DE UM LOGOS PARA A ALMA

PSICOLOGIA ANALÍTICA: EM DEFESA DE UM LOGOS PARA A ALMA Psicossomática, Psicologia Junguiana, Arteterapia

No presente artigo, proponho uma reflexão crítica sobre os efeitos da medicalização psiquiátrica no sofrimento psíquico contemporâneo, e especialmente, nas influências do discurso biomédico sobre a prática psicoterapêutica.

Iniciemos pelos fatos: uma reportagem publicada na Revista Galileu deste mês apresenta um breve resumo de uma pesquisa liderada por um pesquisador americano que propõe a realização de exames de sangue para detectar depressão e distúrbio bipolar (REVISTA GALILEU, ABRIL/2021).

Nas palavras do celebrado pesquisador da Universidade de Indiana, Alexander B. Niculescu: “Isso é parte do esforço para trazer a psiquiatria do século 19 para o século 21. Para ajudá-la a ser como outras áreas contemporâneas, como a oncologia”.

Ainda segundo a reportagem, por meio de “análise de biomarcadores RNA” será possível identificar a “depressão do paciente, o risco de desenvolver depressão severa no futuro e o risco de desenvolver distúrbio bipolar”.

E o mais intrigante, além disso, o referido teste também apontaria quais seriam os melhores medicamentos para cada tipo de paciente, já que na análise de Niculescu “os diagnósticos contemporâneos não são realmente confiáveis, nem mesmo para diferenciar depressão e distúrbio bipolar”.

Deste modo, conclui o pesquisador: Biomarcadores do sangue estão despontando como ferramentas importantes em doenças para as quais depoimentos pessoais subjetivos ou um parecer clínico de um profissional de saúde não são sempre confiáveis. Esses exames de sangue podem abrir portas para a indicação precisa e personalizada de medicamentos e o monitoramento objetivo da resposta ao tratamento".

Agora, vamos refletir juntos! Essa notícia me faz pensar como a psiquiatria do séc. 19 era bem mais psicológica e inspiradora do que a que se pretende no século 21! Afinal, equiparar a busca de critérios diagnósticos biológicos para mania e depressão como se faz em pesquisas e tratamentos oncológicos é definitivamente um golpe fatal em qualquer noção de ciência que se preocupe com alma ou psique. Daí, uma primeira conclusão diante de notícias como esta - que diga-se de passagem, não é a primeira -, é que a psiquiatria se rendeu completamente à narrativa biomédica e finalmente alcançou o sonho de estar em pé de igualdade com as demais disciplinas médicas, diante das quais sempre foi tratada como uma espécie de filha bastarda.

Mas que lástima, especialmente quando se pretende identificar tais marcadores a fim de prever possíveis transtornos psíquicos por meio de exames de sangue e provavelmente medicar pessoas para que não desenvolvam tais sintomas no futuro. A questão que se coloca, então, é onde terá ido parar a noção de escuta “clínica” que marcou a história de uma especialidade que em seus primórdios buscava ser aquela no campo da medicina mais atenta aos sinais de sofrimento da alma? Por fim, teria Freud e Jung e toda a psicologia profunda vindo à luz no contexto de uma tal psiquiatria contemporânea? Duvido muito!

Na atualidade, estamos diante de uma tentativa de reduzir os sofrimentos psicológicos cada vez mais ao estatuto de doença mental para que seja controlada por meio de exames clínicos e medicações especificamente farmacológicas. Seria uma espécie de atualização da famigerada camisa de força, já que é mais fácil controlar os corpos do que a alma? - conforme uma terapeuta comentou em relação à referida reportagem?

Podemos dizer que a medicação nesse sentido é apenas a ponta de um iceberg que denuncia uma fantasia social e política que paira na sombra de nossa sociedade, mas que encontra na medicina uma de suas fiéis escudeiras, como já denunciou Foucault (2008), para manter um controle maior e cada vez mais precoce sobre a vida, prevendo o que pode “dar errado” no futuro e medicando, é claro, antecipadamente. Tal método, que parte de uma psiquiatria baseada em pesquisas “científicas” de caráter positivista, propõe reduzir a depressão e outros sofrimentos psicológicos a causalidades explicadas por uma ficção biológica e neuro-anatômica. Nessa ficção do homem neuronal/cerebral, não há lugar para o fator humano, tampouco, psíquico ou contexto social, já que tudo fica reduzido ao poder do discurso bioquímico, neuropsicológico.

Precisamos debater mais criticamente a aceitação tácita de psicólogos e terapeutas a esse discurso da psiquiatria contemporânea que tenta cada vez mais reduzir o psíquico ao biológico a fim de medicar e controlar os indivíduos, mantendo-os produtivos e adaptados, especialmente para sobreviver aos efeitos perversos de uma rotina extremamente estressante da vida em grandes metrópoles, pautada em ideias neoliberais de produtividade e performance. É preciso mobilizarmos uma escuta mais “atenta e forte” que faça frente a esse discurso que invade a vida cotidiana e nossos consultórios, a fim de não confundir interdisciplinaridade com subserviência ao ato médico, porque em geral, uma prescrição psiquiátrica carrega uma suposta marca objetiva de cientificidade amparada em pesquisas neuropsicológicas que embaçam, por assim dizer, os princípios que norteiam a prática psicológica e a percepção do cidadão leigo sobre a vida em termos mais complexos do que uma mera manipulação neurofarmacológica para garantir uma vida melhor, como disse o referido pesquisador em suas declarações: “Ao final, nossa missão é salvar e melhorar vidas”.

A pergunta que podemos fazer é o que esse pesquisador e outros tantos que desenvolvem pesquisas inspirados nessa ficção materialista entendem por vida? E como, afinal, é possível separar vida anímica de vida biológica ao detectar e tratar o sofrimento psicológico? Desse modo, como pretender excluir a subjetividade e os aspectos da vida social, não só da narrativa do paciente que sofre de depressão, como daquele que se propõe a “tratar” dele, em pesquisas sobre a depressão?

A falaciosidade do discurso biomédico nega questionamentos usados pelos próprios neurocientistas, como já alertou Sidarta Ribeiro no programa Roda Viva há pouco mais de um ano. Na ocasião, o neurocientista comentou sobre o risco decorrente da falta de pesquisas a respeito de interações medicamentosas prescritas acintosamente pela psiquiatria contemporânea[i], embora a mídia se renda prontamente e contribua na disseminação do discurso de superioridade da medicina e da psiquiatria sobre o mal-estar dos indivíduos num mundo cada vez mais devastado e devastador, como ficou mais do que evidente desde o surgimento da pandemia em 2020.

Pouco se debate junto da população e dos profissionais de saúde ligados às práticas psicoterapêuticas a contribuição nefasta dessa narrativa médica em termos biopolíticos, como já alertou Foucault[ii]; pouco se problematiza sua influência para a anestesia geral que mantém os indivíduos no “cabresto” determinado por impossíveis ideais de sucesso, contribuindo para a banalização de seu sofrimento, em busca de uma “vida melhor”, porém com riscos cada vez mais individualizados, como apontam diversos cientistas sociais também contemporâneos (BECK, 2002,2006;  HAN, 2019).

Por fim, pouco se implica tal narrativa em relação a todas as denúncias já feitas por diversas entidades e pesquisadores de saúde pública em todo o mundo, em relação à forte conexão de pesquisas fomentadas por grandes laboratórios associados à expansão das categorias diagnósticas nos manuais de psiquiatria americana, como o DSM (2019) e a CID (2019). Apenas a título de ilustração, vale lembrar que o número de diagnósticos saltou exponencialmente ao longo do tempo, partindo de 106 categorias na primeira edição do DSM publicada em 1952, para mais de 300 na última edição, publicada em 2013, com 947 páginas, o que lhe rendeu o título de “Bíblia da psiquiatria”[iii] (MARTINHAGO, F; CAPONI, S. 2019, p.2).

Como analistas junguianos, devemos ter consciência dessas questões que podem nos ajudar a ter mais clareza dos princípios éticos que norteiam nosso olhar para o sofrimento humano e do planeta como um todo, a partir de uma cosmovisão junguiana. Seguimos uma proposta clínica inaugurada por Jung e reafirmada por Hillman, entendendo que o consultório é um espaço para a alma que só se faz ouvir por uma psicologia que sustenta e se oferece como um logos da alma e não se reduz à busca de doenças por meio de indicadores neuronais ou em exames de sangue, fezes ou urina. Afinal, seguir essa trilha é deixar-se seduzir por uma literalização rasteira dos anseios de um ego prometeico que domina a ciência médica desde seus primórdios, principalmente no Ocidente.

Temos de nos responsabilizar pelos esforços de manter a opus analítica no centro de nossas intenções e prática clínica, independentemente da proeminência de outros saberes, mas isso não é suficiente. Temos também de sair de nossos consultórios e nos posicionar publicamente esclarecendo e enfatizando a importância das bases psicológicas para lidar com o sofrimento psíquico, a fim de manter com a psiquiatria um diálogo efetivamente interdisciplinar, em que a voz dos psicoterapeutas e analistas - validada por teorias psicológicas que prezam a escuta simbólica da alma -, tenham lugar nessa concepção de teorias e métodos para tratar das chamadas “doenças mentais”. Afinal, apesar de as pesquisas neuropsicológicas serem também importantes, não podem ser tomadas como absolutas, algo aliás que caracteriza toda e qualquer ciência. Lembremos, conforme esclarece Hillman, que:

Um analista defronta-se com problemas e esses não são meramente atos comportamentais classificáveis ou categorias médicas de doença. São acima de tudo experiências e sofrimentos, problemas com um ‘lado de dentro’. A primeira coisa que um paciente quer de um analista é torná-lo consciente de seu sofrimento e atraí-lo para seu mundo de experiências. A experiência e o sofrimento são termos de há muito associados à alma. (HILLMAN, 1993, p.55 – grifo meu)

 

Pensando numa possível resposta à questão que apresentei neste artigo, se teria a psicologia profunda vindo à luz na perspectiva de uma tal psiquiatria contemporânea, acredito que muito possivelmente não, embora ela certamente não deixaria de ter sido inventada, ainda que por outros caminhos. E, nos dias de hoje, quando suas bases psicológicas são recorrentemente desqualificadas por pesquisas que definem o ser humano a partir de uma análise parcial de comportamentos ou de manipulações biomédicas e neuroquímicas, torna-se cada vez mais necessário mantermo-nos conscientes da perspectiva ética que pauta a prática psicoterapêutica.

Este artigo é uma espécie de convocação a uma crítica coletiva de todos nós, terapeutas e analistas junguianos, para resistirmos à influência de discursos biológicos que buscam reduzir a alma ao funcionamento de neurônios, exames laboratoriais, e à tão celebrada manipulação farmacológica inaugurada a partir da década de 1980, quando ganharam vulto as pesquisas pautadas nas neurociências e o concomitante surgimento dos antidepressivos “modernos” que prometiam cumprir a mítica função de “pílula da felicidade”[iv], algo que, aliás, nunca se consolidou como já era de se esperar. Tal fantasia pueril é para os tolos, pois junto de Jung, podemos dizer que embora os deuses tenham virado doenças na modernidade, não deixaram de manter suas influências arquetípicas poderosas que estão sempre a nos lembrar da necessidade imperiosa de nos mantermos dentro dos limites de uma medida humana, a fim de não sermos punidos por tão arrogante hybris.

Santina Rodrigues - Membro Didata do IJEP

REFERÊNCIAS:

BECK, U. La sociedad del riesgo: hacia una nueva modernidad. Barcelona: Paidós, 2006.

BECK, U., BECK-GERNSHEIM, E. Individualization: institutionalized individualism and its social and political consequences. London, SAGE Publications, 2002.

CASTRO, Edgardo. Introdução à Foucault. Belo Horizonte: Autêntica Ed., 2014.  

 

CID – Classificação estatística internacional de doenças e problemas relacionados à saúde. Disponivel em: <https://books.google.com.br/books?id=s469_WXryq4C&printsec=frontcover&dq=CID&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjz_sO55dDjAhV-JLkGHUxRBSMQ6AEIKTAA#v=onepage&q=CID&f=false>. Acesso em 20 maio 2019.

 

DUNKER, C. I. L. Questões entre a psicanálise e o DSM. J. Psicanal., São Paulo, v. 47, n. 87, dez, p. 79-107, 2014.

 

DSM 5 – Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Disponível em <https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=QL4rDAAAQBAJ&oi=fnd&pg=PT13&dq=manual+dsm+psiquiatria&ots=nQ3FsGBdJS&sig=R3ykFErxzPEQClCo2-DbN1JQMec#v=onepage&q=manual%20dsm%20psiquiatria&f=false>. Acesso em 01 jul. 2019.

FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica: curso dado no Collège de France (1978-1979). São Paulo: Martins Fontes, 2008.

 

HAN, B-C. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2019.

 

JUNG, Carta ao Dr. Gilbert, 02/01/1929 (JUNG, 2018, p.73).

 

MARTINHAGO, Fernanda; CAPONI, Sandra. Controvérsias sobre o uso do DSM para diagnósticos de transtornos mentais. Acesso em 01/jan/2021. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/physis/v29n2/0103-7331-physis-29-02-e290213.pdf

 

REVISTA GALILEU. Cientistas criam exame de sangue que detecta depressão e distúrbio bipolar. Acesso em: 11/04/2021. Disponível em:

https://www.instagram.com/p/CNhjy0VpP7w/?igshid=17jndkq2kekah

 

RIBEIRO, S. Programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, levado ao ar em 06/01/2020. Disponível em: https://tvcultura.com.br/videos/72552_roda-viva-sidarta-ribeiro-06-01-2020.html. Acesso em 06/01/2020.

 

 

 

[i] Sidarta Ribeiro, ao ser entrevistado no Programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, levado ao ar em 06/01/2020. Disponível em: https://tvcultura.com.br/videos/72552_roda-viva-sidarta-ribeiro-06-01-2020.html. Acesso em 06/01/2020.

[ii] “Na obra foucaultiana, as categorias biopolítica e biopoder pretendem abarcar a complexa questão da normalização biológica dos seres humanos, no caminho que o autor trilhava na investigação do problema da ‘governamentalidade’. Por biopolítica, Foucault vai designar o movimento segundo o qual, a partir do século XVIII, a vida biológica começa a se converter em objeto da política, ou seja, a vida biológica passa a ser produzida e, além disso, administrada, com a particularidade de que, mesmo sendo objeto de normalização, a vida biológica nunca fica exaustivamente retida nos mecanismos que pretendem controlá-la, pois sempre os excede e deles, por fim, escapa” (CASTRO, 2014).

[iii] Historicamente, o marco da mudança de paradigma da psiquiatria contemporânea ocorreu no DSM-III, que passou a usar critérios de uma medicina “baseada em evidências”, e não mais em critérios psicodinâmicos, como vinha ocorrendo até então, contabilizando 265 categorias diagnósticas. Na quarta edição, publicada em 1994, esse número subiu para 297, distribuídos em 886 páginas (DUNKER, 2014).

[iv] Prozac foi lançado no Brasil em 1986. Segundo dados da ANVISA e da OMS, houve um salto de 74% no número de antidepressivos adquiridos por consumidores brasileiros entre os anos 2010 e 2016. Esse número, por sua vez, cresceu entre 18 e 20% durante o primeiro ano da pandemia (2020).


Santina Rodrigues - 12/04/2021