QUANDO A ÁGUA BATE É QUE SE APRENDE A NADAR

Quando a água bate é que se aprende a nadar Psicologia Junguiana

Existe um ditado popular que diz “quando a água bate na bunda, ou você aprende a nadar ou morre afogado". Encontra-se uma sabedoria enorme neste ditado, afinal muitas vezes, diante das dificuldades, somos obrigados a parar. Somos levados a tirar a exclusividade da nossa atenção do mundo externo para voltarmos o olhar para o nosso mundo interno: neste mundo possivelmente encontraremos muitos afetos que acabam por guiar a nossa vida sem que tomemos conhecimento disto. As crises, essas dificuldades, nos visitam não apenas para entendermos como algumas coisas se dão dentro de nós, não apenas para adquirirmos o conhecimento meramente curioso (O famoso “porquê”), mas sim para entendermos qual situação está escondida da nossa consciência, esta situação que através da luz colocada nela, nos faz entender o nosso ponto de transformação (O “para que” de tudo disso). “O conflito patogênico está sobretudo no presente (...). É no presente que residem sobretudo as causas eficientes e as possibilidades de superar as dificuldades”. (JUNG, 2019, § 373)

JK Rowling, criadora de Harry Potter, que o diga, na verdade Joanne Rowling em entrevista para Oprah alegou que o fracasso foi crucial para que ela criasse Harry Potter e os sete livros que contam a saga do personagem “Se eu tivesse conseguido de fato algo mais!, explicou, “talvez nunca tivesse encontrado a determinação para obter sucesso na única área a que eu pertencia”. Essa fala da autora mais bem paga do mundo, se refere ao fato de que ela escreveu o primeiro livro de Harry Potter em meio a uma crise pessoal e financeira: Recém-separa, sendo uma mãe solo, desempregada e sem dinheiro. Em depressão pela falta de dinheiro e de futuro, Joanne precisava cuidar da filha ainda bebê (No Reino Unido a educação gratuita é somente para crianças acima de 3 anos), então quando a menina dormia, Joanne seguia com a filha no carrinho de bebê até um café, onde ali passava horas escrevendo as aventuras do jovem bruxo enquanto não encontrava uma saída para suas dificuldades presentes. Bom o resto da história é famosa, Harry Potter é uma das sagas mais valiosas do mundo tendo, além dos livros, sete filmes, parque temático e diversos produtos licenciados com os personagens. J.K. Rowling certamente não teve uma história de vida fácil, sem dificuldades, uma vida perfeita em todas as suas imperfeições conforme nos traz Jung: “não existe luz sem sombra, nem totalidade psíquica sem imperfeição (...). A vida não clama por perfeição, mas por completude; e, para isto, é necessário o ‘espinho na carne’, o sofrimento de defeitos sem os quais não há progresso” (JUNG,1991a, p.208)

Encontramos essa dinâmica através dos tempos, de bibliografias famosas, nas nossas experiências pessoais, aos contos míticos. Essa é uma temática recorrente na humanidade, como por exemplo no mito do nascimento de Eros segundo o banquete de Platão: Eros – pobreza e recurso geram o amor. Nessa versão Eros não é filho de Afrodite, mas sim de Pênia e Poros.

De forma muito resumida, o enredo deste mito nos conta que houve um banquete entre os Deuses no Olimpo para comemorar o nascimento de Afrodite. Poros, Deus do Recurso, acaba se embriagando de Néctar e adormece no Jardim de Zeus. Quando Pênia, a pobreza, vê Poros adormecido, ela que sempre esteve a sua procura, resolve ter um filho com ele. De forma muito discreta, sem ruídos Pênia deita-se ao lado de Poros e calmamente o abraça, despertando-o e concebendo o filho tão desejado com Poros: Eros

Existem muitos simbolismos nesse mito, obviamente uma delas é a condição dual de Eros, o Amor: Falta e Excesso; Escassez e Prosperidade; Carência e Abundância. Mas aqui quero dar o devido enfoque que não há Eros sem a falta, Pênia, se aproximar e despertar de forma cuidadosa o Recurso (Civita,1973). O Coniunctio só se dá através desse encontro. Conforme pontuei, nossas dificuldades, nossas crises, são oportunidades de que a falta desperte a consciência, e somente através delas é que conseguiremos despertar os recursos para progredir.

A “falta” pode aparecer devido a um excesso também, quando alcançamos algum patamar do lado de fora, não é incomum que o mundo interno comece a chamar. O próprio Jung vivenciou com extrema dedicação este processo: abastado financeiramente, com a clínica estabelecida, produção científica já abundante, casado, filhos e mesmo assim aos 40 anos Jung viveu uma crise emocional, como ele mesmo relata no Livro Vermelho: “(...) por volta dos meus quarenta anos de vida, havia alcançado tudo o que eu desejara. Havia conseguido fama, poder, riqueza, saber e toda felicidade humana. Cessou minha ambição de aumentar esses bens, a ambição retrocedeu em mim, e o pavor se apoderou de mim” (JUNG, 2013b, p116)

Durante esse momento de dificuldade pelo qual passou, Jung aproveitou para se aprofundar ainda mais no conhecimento da psique humana, produzindo muito conteúdo conforme ele vivenciava seu mundo interior, seu inconsciente (Stevens, 1993). Jung descobriu que a completude da vida não está em tê-la previsível e até mesmo externamente bem-sucedida: Quando vos dirigis à vossa alma, ireis sentir falta logo de imediato de sentido. Acreditais que estais aprendendo no sem sentido, no eterno desordenado. Tendes razão! Nada vos redime do desordenado e insensato, pois esta é a outra metade do mundo (JUNG, 2013b, p. 126)”

Uma outra história nem tão famosa assim e rentável, tiro da minha experiência própria. Após me graduar em administração em uma excelente universidade, fui trabalhar no mundo corporativo: ali exercia minha habilidade analítica, tinha facilidade em juntar dados, identificar padrões e propor soluções para que as metas de vendas fossem atingidas. Se por um lado eu era muito elogiada pelos resultados do lado pragmático, direto e racional, por outro os aspectos emotivos, intensos e instáveis de minha personalidade eram condenados aos olhos deste mundo. Por mais que eu me dedicasse, eu não conseguia as promoções almejadas, pois me faltava algo muito importante: ter a habilidade de neste ambiente externar apenas o Logos, algo que me consumia psicologicamente e fisicamente. Foram anos sombrios e aos 32 anos de idade eu já somava no meu físico duas doenças crônicas e um afastamento por Burnout. Abençoados problemas, foi diante deste cenário que resolvi estudar astrologia e depois Jung, apenas por autoconhecimento, para poder pensar em algo que não fossem assuntos empresariais, para poder dar vazão às demais facetas emocionais que eu suprimia durante as longas jornadas de trabalho. O que era para ser apenas um hobby, um alívio temporário para a minha mente, se tornou um grande chamado: hoje atuo exclusivamente como psicoterapeuta junguiana e astróloga, sinto reduzirem os sintomas no corpo, ainda que existentes, tenho uma vida recheada de sentido e autenticidade e a possibilidade de experienciar às múltiplas facetas que vivem em mim. A verdade é que se o barco no qual eu me encontrava (mundo empresarial) não me afundasse, eu jamais teria nadado até uma ilha paradisíaca que é a plenitude de viver a serviço da minha própria vida e por isso sou grata pelas melhores piores coisas que me ocorreram.

É um fato estranho que uma vida vivida apenas pelo ego em geral é uma vida sombria, não só para a pessoa em si, como para aqueles que a cercam. A plenitude de vida exige muito mais do que apenas um eu; ela tem necessidade de um espírito, isto é, de um complexo independente e superior, porque é manifestamente o único que se acha em condições de dar uma expressão vital a todas aquelas virtualidades psíquicas que estão fora do alcance da consciência do eu.” (JUNG, 2013a, p.645)

 

Renata Fraccini Pastorello – Analista em Formação pelo IJEP

Analista Didata: Ajax Salvador

BIBLIOGRAFIA

CIVITA, Victor. Mitologia. São Paulo: Abril Cultural, 1973

JUNG, Carl. G. Psicologia e Alquimia, 4.ed. Petrópolis: Vozes,1991a

A natureza da psique.8/2 Petrópolis: Vozes, 2013a

O Livro Vermelho 2ª edição, Petrópolis: Vozes,2013b

Freud e a psicanálise Volume IV, Petrópolis: Vozes,2019

STEVENS, Anthony. Jung – Vida e Pensamento. Petrópolis: Vozes, 1993

ENTREVISTA Oprah & JK Rowling in Scotland: https://www.youtube.com/watch?v=gTotbiUjLxw


Renata Fraccini Pastorello - 23/06/2021