QUANDO A POSITIVIDADE É TÓXICA?

Quando a positividade é tóxica? Psicologia Junguiana

“Pense positivo”, “vai dar tudo certo”, “querer é poder”, “mentalize o que deseja e se tornará realidade”, “basta acreditar”... Essas e outras frases otimistas pululam nas redes sociais diariamente, criando uma verdadeira “cultura do pensamento positivo”. Como essa pessoa “pra cima”, que “segue em frente”, “cheia de energia” combina com o ideal da sociedade de consumo — basta ver os modelos das diversas propagandas —, esse tipo de ensinamento ganha força, surgindo inclusive treinamentos e técnicas para reforçá-lo. Passa a ser uma mentalidade comum, algo que as pessoas dão como certo e normativo e ao que, diante de uma dificuldade própria, tentam se encaixar e, diante da dificuldade de outro, usam como conselho. Mas até que ponto tamanho otimismo é saudável?

Alguns profissionais da saúde mental vêm partilhando suas preocupações com esse tipo de atitude que busca escapar do negativo para evitar o sofrimento, sufocando as emoções. E até nome já foi cunhado para ela: positividade tóxica. Segundo reportagem da BBC News[i], é

precisamente nisso que consiste a positividade tóxica ou positivismo extremo: impor a nós mesmos — ou aos outros — uma atitude falsamente positiva, generalizar um estado feliz e otimista seja qual for a situação, silenciar nossas emoções ‘negativas’ ou as dos outros.

A maior toxina do excesso de positividade é, negando o polo oposto, fugir das próprias emoções e acabar por se perder de si mesmo. A negação é, portanto, desonestidade consigo (consequentemente com os outros) e bloqueia em lugar de libertar.

Refletir sobre essa tendência atual à luz da Psicologia Analítica é o objetivo deste artigo, que pretende evidenciar o círculo vicioso no qual se cai ao não se assumir as emoções que fazem parte, indo contra o fluxo natural da energia psíquica.

 

O avanço e o retrocesso da energia psíquica

Em sua obra Símbolos da transformação, Jung conceitua a energia psíquica, ou libido, de forma ampla, abrangendo todas as dimensões do humano, do corpo ao espírito. Para ele, a libido

é um appetitus em seu estado natural. Filogeneticamente são as necessidades físicas como fome, sede, sono, sexualidade, e os estados emocionais, os afetos, que constituem a natureza da libido. [...] Esta consideração nos leva a um conceito de libido que se amplia para um conceito do ‘tender para’ de modo geral. [...] É mais prudente, por isso, ao falarmos de libido, entender com este termo um valor energético que pode transmitir-se a qualquer área, ao poder, à fome, ao ódio, à sexualidade, à religião etc., sem ser necessariamente um instinto específico. (2018b, §§194 e 197)

Diverge, portanto, de Freud, que considera a libido apenas no aspecto da sexualidade. Sinteticamente Jung fala dela como “força do desejo e do anseio” (2016, §98), como “a intensidade do processo psíquico, [...] sua força determinante” (2020, §869).

A psique é um sistema relativamente fechado, com uma quantidade de energia constante, de distribuição variável, isto é, que não aumenta ou diminui, mas se movimenta dinamicamente. Assim, quando se fala no senso comum “estou cheio de energia!” ou “estou sem energia”, na verdade não houve acréscimo ou diminuição de libido, apenas um deslocamento da energia, como diz Jung: “após o desaparecimento de um quantum de libido, surge um valor correspondente sob outra forma.” (2016, §35)

De fato, a energia psíquica pode se movimentar em vários sentidos, pois tem um dinamismo, sustentado na contraposição de pares de opostos. Um dos eixos do movimento é a progressão e a regressão. A primeira é orientada pela consciência e se trata de uma adaptação ao ambiente, às demandas externas. Nela, os pares de opostos estão de certa forma integrados, ocorrendo um avanço diante das exigências da vida, na resolução de conflitos e tomadas de decisão. Que os polos estejam integrados ou em equilíbrio significa que um está na consciência e o outro no inconsciente.

O tempo corre para a frente, é progressivo, e assim é o nosso movimento adaptando-nos ao ambiente, às circunstâncias, às exigências da vida, determinando “a direção do caminho escolhido e desejado”, “uma possibilidade particular, à custa de todas as outras” (JUNG, 2018a, §136). Os elementos psíquicos que são ou parecem ser incompatíveis com essa direção ficam inibidos.

No entanto, o mundo, em constantes mudanças, cada vez mais rápidas, coloca novos desafios, e chega um momento em que algo surge como um obstáculo que nos paralisa, diante do qual não conseguimos continuar, pois não temos atitude adequada para lidar com a situação. Como diz o famoso verso de Drummond, “no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”.

Nessa hora, a libido começa a se represar diante do obstáculo, e o outro polo do par de opostos, no inconsciente, vai ganhando energia. Na mesma medida em que a atitude consciente, agora não mais adaptada, perde valor, “aumenta o valor de todos aqueles processos psíquicos, os quais, devido à adaptação, não são levados em conta”; antes mantidos afastados, agora “são forçados a ultrapassar o limiar da consciência” (JUNG, 2016, §63).

Esse é o movimento da regressão, levado pelo inconsciente pela necessidade de adaptação ao mundo psíquico interior. Ao falhar a atitude consciente, “uma atitude totalmente voltada para o mundo interno tornar-se-á indispensável, e isso pelo tempo necessário até atingir o ajustamento”, quando a progressão poderá ser retomada (JUNG, 2016, §67). Na regressão, portanto, a pessoa é levada a retomar algo do que ficou para trás na adaptação externa, precisa considerar um aspecto que desconsiderou ou até reprimiu porque a consciência tomou como inadequado. E, claro, esses aspectos não vêm à tona de maneira agradável, uma vez que não foram até então utilizados, exercitados, desenvolvidos. Vêm como vêm, às vezes como uma explosão, outras como uma prostração, mas trazem aquilo que faltou, mesmo que de forma embrionária.

O que a regressão traz à luz é realmente um fundo de lodo. [...] neles podemos vislumbrar não só restos incompatíveis — e por isso rejeitados — da vida cotidiana, ou tendências condenáveis [...], mas [...] os germes de novas possibilidades de vida. (JUNG, 2016, §63)

Assim, como o próprio Jung explica (cf. 2016, §§ 69-70), não é possível assemelhar progressão a evolução nem regressão a retrocesso. O passo atrás é necessário para a pessoa integrar aspectos de si mesma antes “desconhecidos” e que respondem aos novos desafios, voltando a seguir em frente.

A pessoa humana [...] só pode corresponder de forma ideal à necessidade externa se também estiver ajustada ao seu próprio mundo interno, isto é, se estiver em harmonia consigo mesma. E, inversamente, ela só pode ajustar-se a seu próprio mundo interno e alcançar a harmonia consigo mesma se também estiver adaptada às condições do ambiente. (JUNG, 2016, §75).

 

O círculo vicioso da polarização na positividade

          Quando temos que exercitar a repetição positiva, o mantra “vai dar tudo certo”, provavelmente é porque nos deparamos com o “negativo”, a dificuldade e os obstáculos, com a própria insuficiência diante de novos desafios. No meio do caminho tem uma pedra. Tropeçamos nela, e isso dói. Adianta fechar os olhos e negar tanto a pedra como a dor? Levar a positividade ao extremo só aumenta o sofrimento do qual se quer fugir e impede a evolução.

Como vimos, o movimento da energia psíquica faz um constante equilíbrio-desequilíbrio nos pares de opostos que estruturam a psique — bem e mal, alegria e tristeza, fé e dúvida, céu e terra, otimismo e pessimismo etc. O processo de amadurecimento se dá em meio a conflitos e dificuldades, na vida, através dos encontros e desencontros, erros e acertos, conhecimento e ignorância, passagens e obstáculos.

Assim, a regressão está a serviço do desenvolvimento psíquico, pois quando ela ocorre é que é possível trazer algum conteúdo para ser integrado na consciência, ampliando-a. Parece bonito, mas, na prática, diante das barreiras que encontramos e nos paralisam, na dimensão que for — profissional, afetiva, familiar, de saúde, financeira —, perdemos o sono, sentimos tristeza, desânimo, raiva, ansiedade e até dores físicas. É o momento de lidar com isso, de não fechar os olhos, mas reconhecer os sentimentos e olhar para o que vem daí, as imagens que surgem, as fantasias, escutar-se, prestar atenção nas memórias, nos sonhos, no que o acompanhamento psicoterapêutico muito ajuda.

Se a pessoa, no entanto, negar — “está tudo bem” —, isso não vai deixar de existir, mas capturá-la. Ao não reconhecer, passa a viver aquilo, com o qual fica identificada. “Identificação é um alheamento do sujeito de si mesmo em favor de um objeto que ele, por assim dizer, assume [...], caindo sua verdadeira individualidade em poder do inconsciente.” (JUNG, 2020, §§ 825-826). Não é à toa o índice de depressão atual e a venda cada vez maior de antidepressivos. Quanto mais a pessoa nega a tristeza e a indisposição, mais cresce esse polo, tornando-se um círculo vicioso. Se não assumir o seu real estado, olhando para o que a interioridade quer trazer à consciência, não sairá dele.

A interioridade não interessa, no entanto, à cultura atual, que fomenta pessoas “cheias de energia”, empoderadas, sempre em frente, que são as que consomem, performam, produzem. Esse é o “ideal” apresentado, que está por trás da positividade doutrinada, e antinatural. Para manter-se aí, só com muita medicação — também objetos de consumo, vide a quantidade de vitaminas, energéticos, ansiolíticos, estimulantes e até “bombas” — e grande parcela de mentira, para si e para os demais. É preciso sorrir sempre, dar conta de tudo, fazer mil coisas ao mesmo tempo, tirar foto diante da delícia gastronômica e com o abdome trincado, exibir conquistas, não se abalar por nada. Alguém vive assim mesmo? Muitos se esforçam por viver. A serviço de quê?

          Enquanto fortalecem o sistema, enfraquecem a própria humanidade. A sabedoria dos antigos considerava forte a pessoa experimentada, ou seja, que já passou “por poucas e boas” na vida, por montes e vales. Jung mostra que no conflito se gera força e estabilidade. “Após fortes oscilações iniciais, os opostos vão se equilibrando, e pouco a pouco surge uma nova atitude, cuja estabilidade resultante é tanto maior quanto maiores eram as diferenças iniciais.” (2016, §49). Viver o fluxo da vida gera fortaleza interior na ampliação da consciência.

          Ficar na unilateralidade, querendo apenas um lado, forma pessoas frágeis, que quebrarão na primeira tormenta, e quanto mais lutarem contra o medo, a dor, o sofrimento, a perda de entusiasmo, com mais força eles virão, aí se lutará mais, na afirmação da positividade, aumentando o polo oposto até arrebentar. É neste momento que se instala um terreno fértil para o adoecimento, por exemplo, uma depressão, um câncer, um infarto, ou até mesmo uma fratura.

          A pessoa vai ao encontro do que mais teme. Negando o sofrimento, sofre mais. Portanto, a positividade que nega o seu contrário é tóxica e prejudicial à saúde. A aceitação e acolhida da vida com tudo o que ela traz, por fora e por dentro, com seus opostos e contradições, é um caminho de saúde integral.

 

Tania Pulier — analista em formação/IJEP

Lilian Wurzba — analista didata/IJEP

 

Referências:

Jung, Carl Gustav. A energia psíquica. Petrópolis: Vozes, 2016.

___. A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 2018a.

___. Símbolos da transformação. Petrópolis: Vozes, 2018b.

___. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2020.

[i] BLASCO, Lucía. O surpreendente efeito da positividade tóxica na saúde mental. BBC News Mundo, 14 dez. 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-55278174. Acesso em: 29 jun. 2021.


Tania Pulier - 06/08/2021