REFLEXÃO DO USO DA FOTOGRAFIA COMO TÉCNICA EXPRESSIVA NO SETTING TERAPÊUTICO: RESGATE DE MEMÓRIAS

Reflexão do uso da fotografia como técnica  expressiva no setting terapêutico: resgate de memórias Psicologia Analítica

                          “As fotografias são, na verdade, emocionalmente “carregadas”, como que gravadas eletromagneticamente de forma que as pessoas nunca podem ver suas fotos pessoais desapaixonadamente. De um lado, são apenas pedaços de papel, mas os sentimentos investidos nelas são intensos e complexos.”

Judy Weiser

 

          A fotografia é o registro de um momento capturado no tempo e no espaço, onde acontece um evento qualquer. Revela uma imagem estática de um momento que jamais se repetirá. Um corte de espaço, num tempo em que  não podemos reviver. Enquanto técnica expressiva,  não é apenas uma imagem. Ela traz consigo uma série de lembranças, sentimentos, emoções e sensações daquele momento. Por isso, como toda imagem, é muito reveladora.  

          A foto fala daquilo que foi. Não é somente a imagem que importa, mas a forma como foi capturada, a disposição dos elementos que constituem a imagem,  o porquê e o para que daquela foto. Todo o contexto é importante como recurso expressivo para o trabalho analítico, podendo  tornar manifestos  conteúdos que se encontram latentes.

          Sempre que observamos uma fotografia, revisitamos o passado e o confrontamos com a realidade do presente. Não olhamos simplesmente por olhar. Algumas fotografias prendem mais a nossa atenção do que outras. Isto porque elas trazem algum conteúdo que são importantes para nós. Seja de momentos que trazem boas recordações, ou momentos que podem nos calar revivendo a dor ou o sofrimento vivido naquele instante. Então, podemos dar a essa imagem um novo significado ou um novo contexto, e isto acontece por meio das projeções.

 Segundo Jung (1999), as projeções são processos inconscientes nos quais o sujeito  transfere para um objeto, no caso a foto,  aquilo que o incomoda, como se isso  pertencesse a esse objeto, dando a ele um significado.

          Dentro do processo terapêutico, a fotografia, como técnica expressiva, possui o objetivo de promover a transformação interior do indivíduo e um maior sentimento de realização, através da ampliação da consciência e da integração de aspectos dissociados da sua personalidade, dando início ao processo de autoconhecimento.

          A partir do momento em que o indivíduo toma consciência de seus conflitos através do diálogo que se estabelece entre consciente e inconsciente, passa a ter maior conhecimento sobre si mesmo, favorecendo seu amadurecimento psíquico, social e emocional, contribuindo para  o principal objetivo do trabalho terapêutico, que  é promover o processo de individuação.

           Jung diz que  estimular a arte e a criatividade no processo de individuação humaniza ainda mais o homem, colocando-o em contato mais íntimo com sua própria alma. O processo de individuação é um processo interpessoal e intersubjetivo de relacionamento, pois  " a relação com o Si-Mesmo é ao mesmo tempo a relação com o próximo. E ninguém se vincula com o outro,  se antes  não se vincular consigo mesmo". (Jung, 2016).      Sempre houve no homem uma profunda motivação para criar, e é no ato criativo que reside sua capacidade de compreender, relacionar, ordenar, configurar e significar.

          O indivíduo quando se entrega ao trabalho criativo dá espaço para sua mente experimentar coisas novas, saindo de  seu lugar comum. Sua visão se expande, criando novas possibilidades de interpretar sua realidade e de se relacionar. Agir criativamente é apropriar-se do objeto e com ele se envolver, experimentar, brincar.  O ato de criar é, sobretudo, uma forma de manter o mundo interior sempre estimulado, o que vai possibilitar ao indivíduo uma visão de mundo cada vez mais transformadora para  si mesmo.

          As imagens fotográficas, podem informar muito sobre o universo de afetos, relações, valores e da cosmovisão de uma pessoa.

          Revisitar imagens dentro de um setting terapêutico é bastante enriquecedor, Podem ser fotos de encontros casuais, espontâneas ou elaboradas, álbuns de viagens, de família.  Todas elas nos  dão a possibilidade de fazer associações, ampliar contextos e histórias. Através da observação da imagem, podemos revelar o enredo pessoal, explicitar conflitos e chegar ao complexo.

          Como arte, ou como um registro de memória, a fotografia conta uma história, informa e possibilita uma identificação.

          No trabalho arteterapêutico, a técnica ou estética ficam em segundo plano. Questões como a beleza, a iluminação, a nitidez da imagem, todos esses valores são irrelevantes para o trabalho terapêutico. Tanto faz se a fotografia foi feita por um profissional ou amador, se ela está desfocada, mal enquadrada, desbotada, ou até mesmo  rasgada. Se ela for objeto de apreciação por parte do cliente, será de grande valor terapêutico.  O importante é o  significado que a imagem tem e a maneira como ele a vê, sente e interpreta. Qualquer que seja o significado que lhe for atribuído, a fotografia terá valor quando despertar memórias, associações, afetos, ampliando a consciência,  possibilitando reviver lembranças, e transformá-las através da sua ressignificação .

 

        [...] podemos tornar a imagem, antes “emoção cristalizada”, em forma mutante, que se amplia e se transforma. E, às vezes uma pequena e antiga foto em preto-e-branco, quando reproduzida e ampliada, traz-nos uma sequência de fatos esquecidos e pistas perdidas, recuperando trilhas para territórios internos, esquecidos e longínquos. (Philippini, 2009)

 

          Presente em nossas vidas desde muito tempo, os álbuns fotográficos cumprem um importante papel ao guardarem recordações e registrar muitas histórias. Imagens congeladas, mas repletas de significados, seja nas expressões, na circunstância ou local onde foram capturadas. Ao rever fotos antigas, relembrar fatos passados, exercitamos a imaginação ao pensar nas circunstâncias em que tal foto foi tirada, o que acontecia em torno do local, quem as tirou, o que se passava pela mente daqueles que foram fotografados, que fatos ocorreram naquela ocasião. Histórias vão sendo narradas e dessa forma lembranças vão sendo acessadas, e  a memória é reativada e revitalizada.  É o encontro do passado no presente, podendo ser ressignificado.

 

 

Cristiana Tupinambá, analista em formação

 

Didata responsável:  Maria Cristina  Mariante Guarnieri

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico. São Paulo: Papirus, 2019

GUARNIERI, Maria Cristina. Fotografia: Relações familiares e Complexos . Apostila Curso de Arteterapia IJEP, 2020

JUNG, Carl Gustav. Fundamentos da psicologia analítica. Rio de Janeiro: Vozes, 1999

____. Ab-reação, análise dos sonhos e transferência - Rio de Janeiro: Vozes, 2016 

PHILIPPINI, Ângela. Linguagens e Materiais Expressivos em Arteterapia: Uso, Indicações e Propriedades, Rio de Janeiro, WAK, 2009.  


Cristiana Tupinambá - 28/06/2021