REFLEXÕES SOBRE O BEM E O MAL QUE NOS COABITAM E A FUNÇÃO SENTIMENTO, EM TEMPOS DE PANDEMIA.

Reflexões sobre o bem e o mal que nos coabitam e a função sentimento, em tempos de pandemia. Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia

"Dentro de mim há dois cachorros: um deles é cruel e mau; o outro é muito bom. Os dois estão sempre brigando. O que ganha a briga é aquele que eu alimento". (provérbio índio americano)

 

Causa-nos perplexidade acompanhar o atual mosaico planetário de relacionamento humano, exacerbado pela pandemia do coronavírus, que nos revela um quadro de amplificação de conflitos e violência, exemplificados pelas inúmeras situações de agressões, assassinatos, demonstrações de racismo e discriminações, entre tantos outros, que a mídia não cansa de nos oferecer diariamente. No centro desses episódios situa-se a eterna antinomia do bem e do mal, separados entre si, não pela psique humana, pois são inerentes a esta, mas pela racionalidade dominante, que se recusa a assimilar o lado escuro e inevitável que existe em nossa natureza. Aprofundar esse tema com um olhar psicológico nos traz nuances que escapam ao senso comum.

Bem e mal, como temas arquetípicos, acompanham a humanidade desde o surgimento da consciência, quando pela primeira vez um hominídeo, provavelmente um australophitecus, teve a percepção de si e do outro (sujeito e objeto). Bem e mal foram cultuados ao longo da evolução humana pelas tradições, pela cultura, pelas religiões, humanizados através dos mitos, e, também, pelos contos de fada que iluminaram nossas infâncias. Na mitologia egípcia temos Set, o deus mau e Osiris, seu irmão bom. Os persas contribuíram com Aura-Mazda, criador da vida e da luz, que derrama a verdade e bençãos sobre os homens, mas, também, Arimã, de quem procede a morte, as trevas, as mentiras e as doenças. Do norte da Europa o deus Loqui personifica o mal, em oposição a Baldur, que irradiava luz por onde passava. Os gregos, por outro lado, não personificaram deuses bons e maus exclusivamente, pois suas divindades eram capazes tanto do bem como do mal, como os próprios homens. Os índios da América do Norte cultuavam o Grande Espírito, bondoso e justo, sob cujo controle está toda a natureza, a humanidade e os espíritos menores, mas reconheciam a existência do mal no mundo, representada pelo “Embusteiro”, com consciência pequena, mas poder malévolo grande (SANFORD, 2007). Os contos de fada, por sua vez, contribuíram com histórias como João e Maria, Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, e tantas outros, em cujas narrativas desfila a eterna luta entre o bem e o mal.

As religiões cristãs também são pródigas na descrição dessas forças antagônicas, como nas tentações de Cristo e nos escritos de Paulo, cujos ensinamentos se apoiam na defesa unilateral da prática da bondade, que atravessaram os séculos e perduram até hoje como padrão de referência na consciência coletiva. Ensina-nos a tradição cristã que o bem deve ser perseguido a qualquer custo e o mal evitado, mas a realidade se contrapõe a isso, pois o mal é tão ou mais presente que o bem. Observa-se o mal nas relações conflituosas generalizadas pelo orbe terrestre, na destruição ambiental, nas desigualdades econômicas e sociais da sociedade planetária, no fundamentalismo político e religioso, nas discriminações étnicas, enfim, o mal está por toda parte.

O bem, é o que desejamos, mas o mal não pode ser evitado. Se queremos o bem, produzimos o mal, o que é paradoxal. Há um desejo intrínseco na humanidade, fundamentado nas tradições religiosas, e de certa forma alavancado durante a pandemia atual, de se construir uma sociedade perfeita, onde o mal não tenha lugar. É possível? Dificilmente, pois fomos contemplados pelo inconsciente coletivo com um jogo duplo, caracterizado por polaridades e antinomias, das quais não se furta o bem e o mal que nos coabitam, pois são conteúdos arquetípicos inconscientes compartilhados com a psique humana, e como tal não podem ser eliminados. Como abordar, então, o problema do mal, que tanto nos aflige? Jung nos auxilia nesse propósito:

         Quem, por conseguinte, desejar encontrar uma resposta ao problema do mal, tal como é colocado hoje em dia, necessita em primeiro lugar de um conhecimento de si mesmo, isto é, de um conhecimento tão profundo quanto possível de sua totalidade. Deve saber, sem se poupar, a soma de atos vergonhosos e bons de que é capaz, sem considerar os primeiros como ilusórios ou os segundos como reais. Ambos são verdadeiros enquanto possibilidades e não poderá escapar a eles se quiser viver sem mentir a si mesmo e sem vangloriar-se (JUNG, 1978, p. 285).

 

Apesar da dualidade intrínseca da psique, a cultura e as tradições nos empurram a sermos melhores do que realmente somos, norteados por padrões religiosos e históricos de bondade, constelados por santos, profetas, altruístas, mecenas e messias, o que é um grande engodo, pois somos forçados a viver unilateralidades, muitas vezes sem perceber adequadamente as forças antagônicas que nos coabitam. A verdadeira psicologia nos convida a abandonar qualquer pretensão de desenvolver uma persona bondosa que nos obrigue a esconder de nós próprios, o nosso lado mau. Tais atitudes produzem unilateralidades perigosas com efeitos adversos, tanto individual como coletivamente. Essas colocações nos convidam a um aprofundamento reflexivo sobre a necessidade de conscientização sobre o bem e o mal, e nossa incapacidade de abordá-los adequadamente, tão comum na esfera humana.

O que é bom ou mal não segue padrões rígidos, pois está atrelado a culturas, a padrões, a normas, a paradigmas. Mal e bem são, portanto, relativos, o que é bom para um não o é para outro e, mesmo um acontecimento que seja considerado como mal pode, futuramente, ser interpretado como algo bom, seja como resultado do próprio autoconhecimento em constante evolução, seja pela pressão da consciência coletiva, na qual estamos imersos como sociedade. Por sua complexidade inerente não é simples julgar se algo é bom ou ruim, mas três perspectivas distintas podem nos ajudar nessa tarefa:

  • A primeira é egocêntrica, ou seja, julgamos algo por nossos padrões egóicos, quando contrapomos os acontecimentos com nossos objetivos, ambições e anseios. Neste caso, bem e mal são relativos a cada um.
  • A segunda depende do sentimento humano, ou seja, é a função sentimento que vai definir o que é bom e mal, cujo julgamento depende de qual papel esta função ocupa na personalidade individual.
  • O terceiro e último ponto de vista pode ser chamado de perspectiva divina, determinado pela imagem de Deus que habita em nós, o Si mesmo.

A perspectiva egóica, pode ser ampliada do indivíduo para o coletivo, ou seja, o mal pode ser cultuado pela consciência coletiva. Nós a identificamos a partir de posições antagônicas assumidas, e de suas particularidades culturais, políticas, sociais, geográficas, que muitas vezes levam a profundos conflitos, tão comuns em nossa atualidade, e amplificados pela pandemia global. Lembremos das palavras do Novo Testamento, Livro de Mateus, 12:25, que reza: "Todo reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda cidade ou casa, dividida contra si mesma não subsistirá". É insípida a percepção atual da necessidade de se conviver com as diferenças e opiniões contrárias que refletem as próprias características do bem e do mal que coabitam a população humana, ainda psiquicamente infantilizada. Nesses cenários de polarizações acirradas, cada lado atribui seus males às causas políticas e econômicas preconizadas pelo lado contrário, e acreditam que, de uma forma simplista, estes podem ser eliminados simplesmente com a mudança política, com uma educação direcionada, com condicionamento psicológico favorecido pelas mídias sociais globalizadas e com “guerras” para acabar com o inimigo. Infelizmente, ainda é pouco perceptível que o inimigo está nos diabos e demônios que convivem em cada um (SANFORD, 2007).

A perspectiva egóica dominante, portanto, facilita a dicotomia e o olhar unilateral do bem e do mal, e inibe a criatura humana de se conectar com o Si-mesmo, a “imago dei”, a imagem interna de Deus, sua centelha divina, sua verdade mais profunda, debilitando-a e levando-a a confrontos com forças destrutivas que não conhece devidamente, colocando empecilhos em seu caminho de ampliação psíquica. É necessário que se enfrente psicologicamente o lado escuro da psique, como tantas vezes apontado por Jung, caso contrário há um preço a pagar: distúrbios que geram sofrimento psíquico, além de desequilíbrios psicossomáticos. Não há crescimento da alma sem que se lide com forças opostas, sombrias em sua essência. Paradoxalmente, entretanto, não se pode prescindir da presença do mal, embora, frequentemente, ele se imponha ao fraco espírito humano, alimentando, a partir de seu arquétipo, a busca pelo poder, antagônico ao amor.

Destas reflexões percebem-se duas vertentes opostas sobre como lidamos com o bem e o mal, uma que reside na consciência identificada com o ideal do ego, que se opõe às qualidades que o contradizem, embora estas, ainda que rejeitadas, não sejam eliminadas, permanecendo dentro de nós e formando nossa sombra. Outra, arquetípica, imagética, numinosa, a “imago dei”, que nos convida, à ampliação da consciência por meio da integração dos opostos, para retornar metaforicamente à nossa origem, o inconsciente coletivo, como nos lembra a lenda do Tao, em que a divindade solitária se dividiu em inúmeros seres que a ela deveriam retornar, após viverem experiências e adquirirem aprendizados no mundo mortal. Mas é quando se permite que o Si-mesmo se realize na personalidade, que a alma humana passa a conviver com o bem e o mal, sem ser encantada pelo primeiro e sem ser subjugada pelo segundo. Integrar a visão egóica com os impulsos do Si-mesmo representa a busca pelo nosso Santo Graal, o sentido da vida, a nossa “Via Crucis”, que exige abnegação, evitar atitudes conscientes rígidas, aceitar o lado obscuro e continuar a jornada inconsciente rumo ao Si-mesmo. É um dos maiores desafios do ser humano. Embora difícil, a psique nos oferece um recurso valioso para interligar o ego ao Si-mesmo, um “caminho do meio”, a função sentimento

Segundo Hillman, as quatro funções da personalidade são fruto do desenvolvimento da consciência, mas observa-se de uma forma generalizada que a função sentimento tem sido relegada a segundo plano e desvalorizada, o que favorece o crescimento do mal em suas variadas formas. Hillman afirmava que o sentimento é o grande problema de nossa civilização e a psicoterapia é alimentada pela inadequação da função sentimento, em nível coletivo (HILLMAN, 2020). A função sentimento permite afirmações de valor, com a qual separamos o genuíno do espúrio, sendo que pessoas em cuja personalidade ela se encontra relativamente bem desenvolvida, têm uma melhor percepção e discernimento sobre o bem e o mal, podendo conviver com ambos; ao passo que aqueles que têm pouco ou nenhum contato com a função sentimento, acabam se tornando presa fácil do mal, podendo se tornar, inconscientemente, seu instrumento. Todos nós possuímos a condição arquetípica de acessar essa função, e não somente o tipo sentimental, para o qual o sentimento é sua função superior, que representa nosso traço de personalidade dominante, sobre o qual temos maiores facilidades. Porém, sem o mal não se aprimora o sentimento, e sem este não se aprende a conviver com o mal, o que é paradoxal e intrigante, e que nos remete a concluir que o mal é necessário para o desafio psicológico da integração ego/inconsciente, sendo o sentimento, por sua vez, necessário para este propósito, conforme esclarece o próprio Hillman: “o sentimento é a via régia para o inconsciente, não apenas na nossa vida pessoal, como também no plano dos dominantes arquetípicos mais amplos que nos fazem suas reivindicações impessoais por meio dos sentimentos” (HILLMAN, 2020, p. 129).

Se o sentimento é um possível caminho para mudar o atual status quo psíquico da humanidade, porque ainda não se observa essa tendência de forma amplificada, uma vez que uma parte significativa da sociedade global possui o sentimento como função superior? A resposta, amarga em sua essência, nos direciona a reconhecer a influência das atitudes massificadas dos povos, o domínio do mundo patriarcal, de suas condicionantes políticas e econômicas, o que debilita até os tipos sentimentais, agravado pelo fato de que sua função inferior, o pensamento, se alinha com as tendências inferiores de nossa época, materialismo e racionalismo exacerbados. A função inferior, ao contrário da superior, é o traço de nossa personalidade que nos aproxima do primitivo e do infantil e que se revela por nossas inabilidades. Como dizia Von Franz, a função inferior é tirânica, verdadeiro algoz inconsciente do ego, e provoca infantilização nas pessoas quando é ativada (VON FRANZ, 2020).

Essas ponderações sobre os arquétipos do bem e do mal e sua integração acabam por conduzir a impasses e paradoxos, que dificultam muitas vezes o propósito da união de opostos, o que depende de se desenvolver sentimentos sublimados, tarefa difícil de se realizar, pois ainda somos muito suscetíveis ao mal generalizado de nossa época, reforçado pela consciência coletiva, unilateralmente intelectual e racionalista, alimentada por ideais econômicos neoliberais que nos enraízam cada vez mais no materialismo, em detrimento de nosso mundo inconsciente. Transcender essas dificuldades é uma necessidade humana, conforme advertido por Jung e Von Franz: 

Necessitamos mais que entendimento e razão, porque as últimas irritam mais ainda os jovens; deveríamos poder lhes oferecer uma nova visão de conjunto, criadora do ser e, por certo, não materialista como totalidade – segundo minha opinião, deveríamos poder estabelecer uma relação com o inconsciente como uma realidade transcendente, relação que não só deveria ser feita com o entendimento, senão também com o sentimento e a emoção (JUNG e VON FRANZ, 2008, p.6).

As discussões precedentes reforçam a ideia de que o desenvolvimento psíquico individual e coletivo exige a reeducação do sentimento e aprimoramento da relação sentimental, que nasce no indivíduo e se irradia pela coletividade. Depende da revivificação do princípio feminino de Eros, através de uma nova forma de Amor curativo e totalizador, que constrói uma ponte firme entre o coletivo e o individual. Não basta que o desejemos, deve ser praticado continuamente como forma de incorporá-lo, começando pelo amor pelas pequenas coisas, para, então, ser absorvido em nossa essência e coletivizado. Hillman nos oferece um último recado:

         ...enquanto a nossa cultura não tiver restabelecido a harmonia com as principais forças arquetípicas da vida – os ritmos cotidianos e as estações, as marcas do tempo na biografia e no espírito dos lugares, os ancestrais, os descendentes, a família e a nação, os movimentos dos eventos históricos, bem como a morte – em termos de Deuses e Deusas que governam o pessoal, nossa função sentimento permanece necessariamente inferior, e até patológica, num sentido essencial. Porque ela se acha privada, pelo mundo secular em que nos encontramos, de sustentar os valores da realidade arquetípica, assim como de vincular a eles a existência (HILLMAN, 2020, p. 232)

Homero Jorge Mazzola, Membro analista em formação pelo IJEP

Referências bibliográficas

HILLMAN, James. A função sentimento. In: Von Franz, Marie-Louise e Hillman, James - A tipologia de Jung – Ensaios sobre Psicologia Analítica. São Paulo: Ed. Cultrix, 2020.

JUNG, Carl Gustav. Memórias, sonhos, reflexões.  3. ed.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978

JUNG, Carl Gustav e VON FRANZ, Marie-Louise. A reabilitação da função sentimento, 2008. Disponível em:

http://movimentojunguiano.blogspot.com/2008/10/reabilitao-da-funo-sentimento-por-c-g_681.html. Acesso em 23 de janeiro de 2021.

SANFORD, John A. Mal, o lado sombrio da realidade. São Paulo: Ed. Paulus. 2007.

VON FRANZ, Marie- Louise. A função inferior. In: Von Franz, Marie-Louise e Hillman, James - A tipologia de Jung – Ensaios sobre Psicologia Analítica. São Paulo: Ed. Cultrix, 2020.


Homero Mazzola - 12/04/2021