SíNDROME DE BURNOUT NA PERSPECTIVA JUNGUIANA

Síndrome de Burnout na Perspectiva Junguiana

Relacionada diretamente ao labor, para falarmos sobre a Síndrome de Burnout, antes de tudo, faz-se necessário entendermos a origem da palavra trabalho. A palavra trabalho, segundo o Dicionário Etimológico - Etimologia e Origem das Palavras, vem do latim tripalium - nome de um instrumento de tortura constituído de três estacas de madeira bastante afiadas, comum em tempos remotos na região europeia. Desse modo, originalmente, "trabalhar" significava "ser torturado". A partir do latim, o termo passou para o francês travailler, denotando "sentir dor" ou "sofrer". Com o passar do tempo, a palavra passou a exprimir "fazer uma atividade exaustiva, difícil, dura".

Associando esta concepção à religiosa, o trabalho pode ser entendido como algo negativo, como um castigo incutido de culpa e sofrimento, uma vez que Adão e Eva, comendo do fruto proibido, constituíram o pecado e foram condenados a conseguir o alimento para sobrevivência, por meio do trabalho e de seu suor. Por outro lado, o homem moderno encontra dificuldade em dar sentido à vida senão pelo trabalho, assim, trabalho significa necessidade e sentido de vida.

O conceito Burnout foi encontrado na literatura a partir de 1974, associado ao estado de estafa por estresse crônico. Apareceu nos Estados Unidos com o psiquiatra Herbert Freudenberger, posteriormente descrito pela psicóloga social Christina Maslach (1981), autora do Maslach Burnout Inventory (MBI) - Inventário de Análise Fatorial, aplicado nos trabalhadores com o intuito de verificar a presença de Burnout. Atualmente, o termo é utilizado por especialistas da saúde mental para designar um estado avançado de estresse, cuja causa é o ambiente de trabalho.

Segundo Chafic (2008), Burnout tem origem inglesa, Burn que significa "queimar" e Outque é "fora", "exterior". Traduzindo literalmente significa "queimar para fora" ou "consumir-se de dentro para fora", denotando uma "combustão completa" iniciando-se em aspectos psicológicos e culminando em problemas físicos, comprometendo o desempenho profissional do indivíduo.

É comum a Síndrome do Burnout ser confundida com estresse, mas vai muito além disto, uma vez que há significativas diferenças. Burnout apresenta-se como um sentimento de desistência, embotamento das emoções, apatia, exaustão emocional, sentimento de desmoralização, perda de ideias e desesperança e insatisfação com a vida, ao passo que, no estresse, o forte envolvimento da pessoa com o problema faz com que as emoções se tornem hiper-reativas, ocorrendo a exaustão física, sentimento de pânico, fobias e ansiedade. Trata-se de uma intensa desmotivação que compromete o desenvolvimento profissional, inclusive a capacidade de concentração e raciocínio, causando fortes prejuízos emocionais ao indivíduo. O trabalhador com Burnout perde o sentido de sua relação com o trabalho, de forma que este já não o importa mais e qualquer esforço lhe parece desgastante e inútil.

Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço, fundador da psicologia analítica, teve importante contribuição na compreensão e auxílio aos indivíduos com Burnout, a partir de sua obra Tipos Psicológicos, um de seus estudos mais importantes no contexto da personalidade humana, permitindo-nos compreender e distinguir as atitudes do ser humano em suas mais variadas dimensões.

No contexto do funcionamento da psique, Jung encontrou quatro funções psicológicas, nomeando-as de pensamento, sentimento, sensação e intuição, dividindo-as em dois grupos: irracionais (percepção) - sensação e intuição e, racionais (julgamento): pensamento e sentimento. Desenvolveu os conceitos de personalidade extrovertida e introvertida vistas como um continuum, arguindo que todas as pessoas têm os dois lados, sendo um mais dominante que o outro, no qual a introversão se manifestaria em comportamentos mais reservados e solitários ao passo que a extroversão estaria presente em comportamentos falantes e mais energéticos. Segundo Jung (2013, § 864 e § 932, p. 471 e 506) "Chamo introversão o voltar-se para dentro da libido. O interesse não se dirige para o objeto, mas dele se retrai e vai para o sujeito. (...) Falamos de extroversão sempre que um indivíduo volta seu interesse todo para o mundo externo, para o objeto e lhe confere importância e valor extraordinários". Jung se concentrou na atitude, definindo a introversão como uma atitude caracterizada pela orientação na vida através de conteúdos psíquicos subjetivos, focando na atividade psíquica interna e, a extroversão, como uma atitude caracterizada pela concentração de interesses no mundo exterior.

Partindo da premissa de que há pessoas introvertidas e extrovertidas, podemos inferir que há atividades e profissões que se adequam mais a determinado tipo de atitude/pessoa (introversão e extroversão), de modo que colocar o indivíduo no ambiente de trabalho em que ele melhor se adapte, pode ser uma das formas de se minimizar o desenvolvimento do Burnout. Todavia, tanto extrovertidos como introvertidos podem desenvolver a síndrome.

Jung, ao se referir aos arquétipos, trouxe outra importante contribuição para refletirmos sobre Burnout. Carregados de significado universal, presentes no inconsciente coletivo, os arquétipos têm uma característica sagrada, numinosa. Não temos acesso ao arquétipo em si, mas as imagens arquetípicas, deste modo, ele é um modelo que dependerá de quem e quando o vivencia. Exemplo: o arquétipo materno, dual, composto de luz e sombra, em que seus atributos numinosos são: maternagem, proteção, bondade, cuidado, sustento, amor, fertilidade, condições de crescimento, a pureza etc., e, seus atributos sombrios são: manipulação, ciúmes, repressão etc., dependerá de como cada um vivenciará a sua experiência com a sua mãe, uma vez que há uma gama de possibilidades a ser experimentada e vivenciada.

Segundo Jung "Parece-me provável que a verdadeira natureza do arquétipo é incapaz de tornar-se consciente, quer dizer, é transcendente, razão pela qual eu a chamo de psicóide. Além disto, qualquer arquétipo se torna consciente a partir do momento em que é representado, e por esta razão difere, de maneira que não é possível determinar, daquilo que deu origem a essa representação". (JUNG, 2013, § 417, p. 163). No Inconsciente Coletivo partilhamos todas as dores e alegrias da humanidade, o que nos torna possível compreender o outro. Todos os comportamentos humanos são arquetípicos.

Em seu livro A Natureza da Psique, ao citar os arquétipos, Jung (2013, §738, p. 338) postula que "os conteúdos do inconsciente coletivo são, como já foi visto, o resultado do funcionamento psíquico de toda a nossa ancestralidade; em sua totalidade, eles compõem uma imagem natural do mundo, uma condensação de milhões de anos de experiência humana. Estas imagens são míticas e, portanto, simbólicas, porque expressam a harmonia do sujeito que experimenta, com o objeto experimentado".

O sofrimento do indivíduo com Burnout pode, nesse contexto, ser olhado a partir da ótica do arquétipo, na qual a pessoa com essa síndrome estaria identificada com um determinado arquétipo, exemplo: arquétipo do herói, vendo-se, então, obrigado a "salvar as pessoas", correspondendo às expectativas de seu cargo, que pode ter deixado de ter sentido para ele. Toda unilateralização gera sintoma que pode desencadear doença como tentativa do Self de resgate do amor próprio. A saúde somente é reestabelecida a partir do momento em que os opostos conseguem manter um certo equilíbrio entre si, enquanto houver a predominância de um determinado estilo em detrimento aos demais, haverá mal-estar e adoecimento. Todo sintoma ou fenômeno de crise que mobiliza um indivíduo, vem como possibilidade de tomada de consciência.

Ramos (2006) observou que as expressões do fenômeno psique-corpo e suas alterações fisiológicas sincrônicas, se davam por meio de um complexo que se manifesta, ajudando a uma compreensão mais ampla da doença. O corpo é a visibilidade da alma, da psique, e a alma é a experiência psicológica do corpo. Os sintomas físicos são retratos simbólicos do complexo patológico. (JUNG, 2011).

Via de regra, a doença causa um mal-estar no doente e este mal-estar significa que não se está onde se deveria estar. É preciso se perguntar: "onde eu queria/deveria estar que não estou? ". Muitas vezes a doença é um pedido de cura do indivíduo, quer tirá-lo de onde ele está, quer libertá-lo, curá-lo.

A doença evidencia uma disfunção no eixo Ego-Self. Compreender e tornar consciente estes símbolos, ajudará na ampliação da consciência e na integração dos conteúdos inconscientes, religando o Ego ao seu eixo com o Self, tendo sido a doença um caminho para restaurar a saúde, atuando diretamente no processo de individuação. Nesse processo, a psicoterapia junguiana pode ser de grande auxílio.

Andreia Araujo - Analista Junguiana em Formação, Especialista em Psicologia Junguiana e Psicossomática e Especializanda em Arteterapia pelo IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa.

Contatos: 11 99730-8737 / deh.faraujo@gmail.com.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

JBEILI, Chafic. Síndrome de Burnout: Identificação, Tratamento e Prevenção. Cartilha Informativa de Prevenção à Síndrome de Burnout em Professores. Brasília, 2008.

Dicionário Etimológico - Etimologia e Origem das Palavrashttps://www.dicionarioetimologico.com.br/trabalho/. Acesso em 02/09/2018.

JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

________________. Estudos Experimentais. 2a. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.

________________. Tipos Psicológicos. 7a. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

________________. Arquétipos do Inconsciente Coletivo, 11 ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

________________. Psicologia do Inconsciente. 24 ed. Petrópolis, Vozes 2014.

RAMOS, Denise Gimenez. A Psique do Corpo: A Dimensão Simbólica da Doença. 3ª. Ed. São Paulo, Summus, 2006.


- 19/06/2019