SONHOS: UMA PONTE PARA O INCONSCIENTE

Sonhos: uma ponte  para o inconsciente

Como é sabido, a física moderna utiliza a equação E=mc2  como parte da Teoria ou Princípio da Relatividade, desenvolvida pelo físico alemão Albert Einstein (1879-1955). Na minha prática como analista junguiana, eu me norteio pela equação Ψ=3SC. De um lado, empregando o  símbolo Ψ (lê-se: "psi"), letra  do alfabeto grego que simboliza a área da psicologia. Do outro, os pilares dos métodos da psicologia junguiana: a  compreensão dos sintomas, sincronicidades e dos sonhos, bem como o emprego das terapias criativas, na tentativa de, quando necessário, reorganizar a contraparte não física do ser humano que chamamos de psique.

Este artigo faz uma abordagem introdutória dos sonhos, que o psicoterapeuta junguiano Robert H. Hopcke denomina de "pedra fundamental" da técnica analítica junguiana (HOPCKE, 2012, p. 35). E porque é fundamental? Em seu texto mais recomendado sobre o assunto (JUNG, 2012), Jung deixa claro que os sonhos têm um significado prático fundamental porque são uma expressão direta do inconsciente, sendo um canal para a compreensão das etiologias ( determinação das causas e origens) das neuroses. Criado pelo médico escocês William Cullen (1710-1790)  em 1787, o termo neurose indica transtornos que, embora não severos,  se instalam como um aviso de que algo não vai bem, obviamente causando tensão e interferindo em alguma medida na capacidade do indivíduo se ajustar ao seu meio. 

O objetivo da análise dos sonhos em terapia é "a descoberta e a conscientização de conteúdos até então inconscientes" (JUNG, 2012,  § 294). A abordagem freudiana entende os sonhos como fachadas, que dissimulam os conteúdos oníricos. Já a junguiana os entende como uma linguagem simbólica, como quando nos deparamos frente a um texto desconhecido. Assim, para Jung, os sonhos são o que são.

Para decifrá-los, por assim dizer, Jung propõe um método simples e eficaz. Enquanto um psicanalista usa seu conhecimento para interpretar o sonho trazido pelo paciente, o analista junguiano trabalha a partir do contexto que cerca a narrativa onírica na perspectiva do analisando. "É só a partir do conhecimento da situação consciente que se pode descobrir que sinal dar aos conteúdos inconscientes" (JUNG, 2012,  § 333).

O psiquiatra suíço lembra que muitas vezes "os sonhos iniciais são de uma clareza e transparência espantosas" (JUNG, 2012,  § 313), no que concordo com ele. Certa vez um paciente me trouxe na primeira consulta  um sonho no qual sua privada transbordava de material fecal, e a água que impulsionava o conteúdo para fora era clara e cristalina. Ao cair no chão, as fezes se transformavam em tartarugas, cujo significado em várias culturas pode ser ligado ao masculino e feminino, ao humano e ao cósmico,  como suporte do mundo e garantia de estabilidade (CHEVALIER, 1988).

Por mais promissor que um sonho desta natureza seja como parte do diagnóstico, funcionando como um prognóstico e norteando o processo analítico, o que importa na análise junguiana dos sonhos num primeiro momento não é o que o analista sabe sobre o símbolo. Como uma parteira, ele deve deixar aflorar o que o analisando sabe. O que importa, portanto, é a comprensão do paciente desse conteúdo que ainda não é consciente.

Para isso, Jung recomenda foco no contexto do sonho, sem se dispersar muito nas associações livres. "As associações livres nos fazem descobrir os complexos, mas, raramente, o sentido de um sonho", adverte Jung (JUNG, 2012,  § 320). "Para compreender o sentido de um sonho tenho que me ater tão fielmente quanto possível à imagem onírica", explica (JUNG, 2012,  § 320). Voltemos à tartaruga. Na cabeça do analista rondam algumas perguntas possíveis: qual é o contexto dessa tartaruga para aquele analisando específico? O que havia ocorrido nos dias precedentes? Há algo no seu histórico ligado à esta imagem? Com qual finalidade o insconsciente teria empregado aquela imagem? Para que ela foi usada? Ajuda também ter em mente a regra básica que remete à teoria das compensações do sistema autorregulador da psique: se o que falta de um lado cria um excesso do outro, que atitude consciente estaria sendo compensada pelo sonho? (JUNG, 2012,  § 330). Se o analisando verbalizar espontaneamente que a tartaruga para ele representa as forças ctônicas de estabilidade, a pergunta seria: o que o estaria desestabilizando, deixando sem chão naquele momento? Neste caso ajuda sempre remeter à queixa que o trouxe até ali para não se perder na seara de problemas que podem emergir concomitantemente. É por isso que em análise junguiana não estamos propondo interpretações, mas ampliações de sonhos.

Não raro, a clareza dos sonhos iniciais se perde no processo. Neste momento o analisando pode apresentar uma pressa neurótica e o desejo de progredir mais e rápido. Na minha experiência clínica, o insconsciente costuma enviar sonhos de alerta, como elevadores que sobem velozmente em prédios antigos sem segurança, locais muito altos onde o indivíduo se sente isolado, desprotegido, e outras imagens que sugerem que é preciso reduzir o ritmo. Em geral, o sonhador não percebe, por si só, de maneira consciente, essa necessidade.

O fato é que nesses momentos a tentação pode ser grande, por parte do analista, de entrar com sua erudição e "seu" conteúdo e "resolver o problema" para o analisando. O que está longe de ser recomendado, uma vez que o próprio inconsciente está emitindo sinais claros de que há uma situação de conflito ainda não resolvida, que pede mais tempo para ser transcendida. "Em outras palavras, é melhor renunciar a tudo o que se sabe melhor, e de antemão, para pesquisar o que as coisas significam para o paciente" (JUNG, 2012,  § 342).

Na assimilação gradual dos conteúdos oníricos,"é de extrema importância não ferir e muito menos destruir os valores verdadeiros da personalidade consciente" (JUNG, 2012,  § 338). O motivo é simples: o processo de análise junguiana se faz por meio do ego do analisando. Se o desestruturarmos, "não haveria mais quem poderia assimilar" (JUNG, 2012,  § 338). E o processo seria no mínimo ineficaz. Da mesma forma, é importante o analista considerar as convicções filosóficas, religiosas e morais conscientes do analisando, para trabalhar em parceria com elas, e não impor seu sistema de crença e valores.

Ir contra a maré, por assim dizer, pode por em risco todo o processo analítico. "Falha também por antecipar o desenvolvimento do paciente, o que o paralisa" (JUNG, 2012,  § 314). Nesse momento, é preciso ter paciência de ambos lados, como numa gestação que ainda não chegou a termo. Até porque Jung adverte que "existem sonhos que simplesmente não são compreendidos pelo médico, nem pelo paciente" (JUNG, 2012,  § 318). Há, claro, limites ao método de ampliação, e este é um deles.

Por outro lado, para que o método possa ser empregado com o máximo de chances de ser bem-sucedido, é vital que os analisandos mantenham um diário, registrando de forma clara seus sonhos logo ao acordarem, pois se trata de material volátil que segundos depois do despertar pode estar perdido. Um cadernino na mesa de cabeceira ainda é a melhor forma para fazer anotações, se bem que o onipresente smartphone está se tornando um equipamento indispensável de registro para muitos analisandos. De toda forma, é importante não cair na tentação e fazer o registro por meio da gravação de um áudio. Isso porque a escritura ajuda o conteúdo a se fixar no ego, estimulando o diálogo entre o inconsciente e o consciente.

O analista junguiano Daniel Gomes dá uma dica interessante: "quando se lembrar de um sonho, encare-o com a curiosidade de uma criança, mas com grande respeito, pois estes sonhos podem conter o mapa com os caminhos de sua realização" (GOMES, 2016).

Para a sessão, é importante o analisando levar este registro e, se possível, juntamente com o material referente ao seu contexto. Jung salienta que faz parte do método encorajar os analisandos a trabalhar ativamente na elaboração de seus conteúdos oníricos, aprendendo "a lidar corretamente com seu inconsciente, mesmo sem o médico" (JUNG, 2012,  § 322).

O resultado de quando o processo está bem encaminhado é visível, pois no momento em que o analisando passa a assimilar seus conteúdos inconscientes os níveis de tensão e ansiedade vão sendo gradualmente diminuídos, uma vez que o conteúdo reprimido ou que era visto como perigoso passa a ser integrado.

Finalmente, uma andorinha sozinha não faz verão. Jung sugere que a ampliação "só adquire uma relativa segurança numa série de sonhos, em que os sonhos posteriores vão corrigindo as incorreções cometidas nas interpretações anteriores" (JUNG, 2012,  § 322). Sim, o percurso pode sofrer desvios - afinal analisando e analista são humanos -, mas o curso correto é possível de ser retomado se o foco continuar nos conteúdos trazidos pelos sonhos.  Mas os sonhos seriados já são um tema para um próximo artigo.

Referências

CHEVALIER, J. G. A. Dicionário dos símbolos. 24. ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1988.

GOMES, Daniel. Os sonhos e seu papel na historia da humanidade. 5 jul 2016. Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa (Ijep). Disponível em: . Acesso em: 30 dez. 2018.

HOPCKE, R. H. Guia para a obra completa de C. G. Jung. 3. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

JUNG, C. G. A aplicação prática da análise dos sonhos. In: Ab-reação, análise dos sonhos e transferência (OC 16/2). 9. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012. p. § 294-352.

Dra. Monica Martinez, analista em formação do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa, especialista em Psicologia Junguiana, jornalista, Atende na Vila Madalena, zona Oeste de São Paulo. E-mail: analisejunguianasp@gmail.com.


- 19/06/2019