TÉCNICAS DE RELAXAMENTO: RESGATANDO O TERAPEUTA INTERIOR

Técnicas de relaxamento: resgatando o terapeuta interior Psicologia Junguiana Psicossomática Arteterapia

Falamos de sonhos, fantasias, imaginação, de vôos, de jornada, de margem, fogo, paixão, de homens e mulheres, de comunidades utópicas, relações, amizades, de criatividade e de Ser.

Essas idéias, símbolos e modos de ser representam meu renascimento para a vida. Esse círculo sagrado que nos abarca hoje simboliza a nova vida que foi criada por meio de minha relação com você.

Agora estou aprendendo a fazer essas coisas por mim mesma e estou descobrindo que tudo é sagrado, que tudo tem sentido.

Também descobri uma fonte eterna de força e de profunda energia, em cujos domínios profundos eu progressivamente aprendo a ter acesso à minha alma e a cuidar dela. Minha alma fala comigo, e eu continuamente busco meios de alimentá-la, cultivá-la e comunicar-me com ela.

O caminho está bem na minha frente, e não há volta.

Lonnie, Resumo poético de sua terapia ( in Elkins, 2000 p.112 )

 

            Na pratica psicológica, o uso de Técnicas de Relaxamento e/ou de Visualização são muito uteis como métodos que auxiliam tanto como recurso auxiliar no controle da dor quanto no manejo de estresse, causando repouso físico e psicológico, que permite ao corpo repor as energias e regressar a um estado de equilíbrio físico e mental, que melhora a capacidade de concentração e favorece a cura e crescimento.

            O relaxamento e a visualização têm sido usados nos processos de cura desde os tempos mais remotos. Há informações de curas na China, no século XVII a.C, assim como nos antigos Egito, Tibet, Grécia, África, e ainda, entre os esquimós e índios norte e sul americanos.Também Asclépio, Aristóteles e Hipócrates utilizavam a visualização para o diagnóstico das doenças e para os tratamentos, de vez que a imagem mental é um processo psicobiológico natural ao homem.

            Para Muller et all. (2009) a intervenção do relaxamento e da visualização na Psicologia da Saúde tem auxiliado no tratamento de doenças, possibilitando um maior entendimento do processo saúde-doença. As imagens mentais advindas desta experiência muitas vezes despertam para uma ampliação de consciência acerca da doença, possibilitando uma integração destes aspectos à vida da pessoa. Para as autoras, as imagens visualizadas de cura utilizadas nas técnicas de relaxamento tendem a estimular o sistema imunológico na recuperação da saúde do paciente e este bem-estar pode auxiliá-lo como participante ativo do seu processo psicoterapêutico.

            O uso das técnicas de relaxamento, imaginação e visualização tendem a contribuir para o autoconhecimento, propiciando a ampliação da consciência, bem como, o fortalecimento do sistema imunológico através da compreensão do processo integrado corpo e psiquismo. Assim, pode ser um eficaz método complementar na psicoterapia, ajudando o paciente a mobilizar seu próprio potencial curador.

            As técnicas de relaxamento, visualização e imagens mentais também podem ser poderosas auxiliares para o paciente em final de vida.  Estudo realizado por Elias (2003) integrou a técnica de relaxamento e visualização de imagens mentais para ressignificar ou não a dor simbólica da morte, representada pela dor psíquica e dor espiritual. Após a realização da intervenção, os pacientes obtiveram uma melhor qualidade de vida no processo de morrer, auxiliando também a ressignificar a dor simbólica da morte.

            Existem muitas técnicas de relaxamento, que podem ser escolhidas de acordo com a situação ou com a vontade do sujeito. Importa lembrar que em estados extremos de relaxamento do nível básico de energia mental, estamos menos propensos a experimentar emoções de natureza negativa como a ansiedade e a depressão. Aqui falaremos de algumas das mais importantes.

 

1. Imagens mentais: Visualizar ou imaginar é produzir imagens mentais. Todas as pessoas fazem isso o tempo todo. Não existe nada mais natural. E este é um recurso com o qual, cada vez mais, médicos estão envolvidos e observando os resultados comprovadamente positivos nos pacientes, de vez que é impossível ter uma imagem mental sem alguma alteração fisiológica. Além disto, não há restrição tempo-espaço. Como exemplo pode-se pensar no bolo que a avó fazia na infância e esta lembrança provocará alterações sensoriais olfativas, gustativas e mesmo afetivas. Por outro lado, imagens assustadoras podem ter repercussões psicossomáticas negativas, como visto nos casos TEPT ou ansiedade antecipatória.

Para Sant’anna (2001; 2005), a imagem não é apenas uma representação visual, resultado da percepção sensorial, da atividade mnemônica ou da transferência da energia psíquica, mas a linguagem básica da psique, criativa e autogeradora em si mesma. Assim, a imagem é também resultado da capacidade inerente da psique de agrupar elementos, de natureza perceptiva ou não, em gestalten – imagens primordiais –, que lhes atribuem forma, significado e dinamismo específicos. A imagem primordial é “um organismo de vida própria, ‘dotado de força geradora’, pois é uma organização herdada de energia psíquica, sistema sólido que não é somente expressão, mas também possibilidade de desencadear o processo energético” (Jung, 1921/1991, p. 422 in Sant’anna, 2005).       Na Psicologia Analítica, a imagem é vista como “mensageira” do self, o que a transforma numa concepção espiritualizante. Jung preconizava a realização de um diálogo direto e dinâmico com as imagens psíquicas que favorecesse a conscientização e a integração das dimensões inconscientes da psique e o estabelecimento do eixo ego-self (Sant’anna, 2005). Ela pode ser trabalhada, na prática clinica, por meio das técnicas de imaginação ativa, trabalho com sonhos e atividades expressivas (desenhos, pinturas, escrita espontânea, jogo de areia etc.) trabalho de base corporal, contato com imagens artísticas ou míticas e ainda na própria relação terapêutica.

À medida que o sujeito desenha, imagina ou representa algo que está vivendo, aspectos até então inconscientes, são revelados e tornados conscientes. Desta forma, aumenta a possibilidade de reconhecer, identificar, compreender, ressignificar estes conteúdos, em um processo de reorganização e resolução de conflitos trazidos à consciência (Simões, 2004).

Aspectos físicos, emocionais, sensoriais, mentais e comportamentais podem ser representados nestas imagens, como símbolos psiquicamente construídos para os conflitos e soluções. Símbolos arquetipicamente definidos para nossas angustias e crises assim com para nossa cura e transcendência.

 

       2. Meditação: a meditação pode ser entendida como um processo mental consciente que, através da auto-regulação da atenção, induz um conjunto de alterações fisiológicas integradas.

Talvez seja a técnica de relaxamento mais antiga, surgida desde a descoberta do fogo. Historicamente a meditação vem sendo praticada em muitas culturas como parte de sua prática religiosa. Segundo a tradição budista, Buda ensinou inúmeras técnicas de meditação, como diferentes maneiras de pacificar emoções negativas.

Atualmente a meditação atravessou os limites da religião e vem sendo utilizada como coadjuvante terapêutico em alguns centros médicos. Dentre os efeitos terapêuticos da meditação, destacam-se aqueles relacionados à inibição do sistema nervoso simpático. A ativação mantida desse sistema é observada nas situações de estresse (Camargo, 2004).

            Meditar significa alcançar uma harmonia\sintonia entre o corpo e a mente, auxilia na postura, incentiva a concentração e traz mudanças significativas no equilíbrio psicossomático dos praticantes, reduzindo a ansiedade, o nervosismo e melhorando a oxigenação dos tecidos. Entre as alterações fisiológicas, destacamos: redução da freqüência cardíaca, da freqüência respiratória e das trocas gasosas; menor resistência galvânica da pele; redução ou alteração da atividade cerebral.

 Definição operacional

Utilização de técnica específica:  Procedimento técnico, claramente definido e regularmente praticado

Estado alterado de consciência: Distinto do estado de sono, diferente da hipnose e drogas, altera EEG ou “Mapping”

Relaxamento muscular: alteração psico-física

“Relaxamento da lógica”: sem julgamento dos efeitos nem expectativas

Estado auto-induzido

Artifício de “auto-focalização” ou “âncora”: Foco de concentração e foco de desligamento

Percepção não sensorial: Contato com o interior; ausência de análise; sem objetivo específico

Tipos: Ativas (catárticas ou de movimento); Passivas (concentrativas, perpectivas) e Mistas

 

3. Relaxamento Muscular Progressivo (Jacobson):

Desenvolvida pelo médico americano Jacobson em 1920. Através de estudos identificou que é possível reduzir a ansiedade através do relaxamento da tensão muscular. É uma técnica  antiga, mas os seus resultados são comprovados por diversos especialistas. Pode ser utilizado como resposta às sensações de tensão ou ansiedade. Consiste em ensinar o individuo a relaxar através de exercícios, em que há a contração muscular seguida de relaxamento progressivo de uma série de 16 grupos de músculos do corpo, um de cada vez, de forma alternada. É necessário um treino bastante intenso até que o individuo seja capaz de realizar esta técnica sem acompanhamento.  Permite um relaxamento geral, ou um relaxamento mais específico quando o individuo treinado é capaz de reconhecer os sinais de tensão nos músculos e proceder ao seu relaxamento.

Técnica aplicada:

Grupo 1: -Feche a mão direita. Sinta a tensão na mão e antebraço. Solte e repita

Grupo 2: -Empurre o cotovelo da direita contra a cadeira ou contra o chão. Sinta a tensão que isto causa nos biceps. Quando se sentir bem, largue a tensão e note a diferença. Repita

Grupo 3: -Como 1 à esquerda

Grupo 4: -Como 2 à esquerda

Grupo 5: -Levante as sobrancelhas e faça rugas na testa. Solte e repita

Grupo 6: -Feche os olhos com força e levante o nariz. Solte e repita

Grupo 7: -Cerre os dentes com uma força média e puxe os cantos da boca para trás Relaxe

Grupo 8: -Tensione o pescoço, puxando o queixo para o peito sem deixar tocar.

Grupo 9: -Inspire, suspenda a respiração e puxe os ombros para trás até as omoplatas se tocarem. Sinta a tensão nos ombros, peito e costas.

Grupo 10: -Ponha os músculos da barriga duros, como se fosse receber um murro na barriga. Relaxe

Grupo 11: -Contraia os músculos da coxa da direita. Solte.

Grupo 12: -Empurre os dedos do pé direito para cima de forma a que a barriga

da perna fique dura.

Grupo 13: -Vire o pé direito para dentro e encolha o pé com os dedos para

baixo. Sinta bem a tensão que isto causa na parte do meio do pé.

Grupo 14: -Como 11 à esquerda

Grupo 15: -Como 12 à esquerda

Grupo 16: -Como 13 à esquerda

 

4. Biofeedback: técnica muito utilizada no controle da dor, sustenta o pressuposto que que a pessoa é capaz de aprender, discriminar, prestar atenção e exercer controle sobre as respostas fisiológicas ao receber uma informação (feedback. Assim, respostas fisiológicas são detectadas através de aparelhos eletrônicos e repassadas para o paciente. À medida que este passa a reconhecer estes estímulos, aprende a discriminá-los e manejá-los.

 

5. Técnicas de relaxamento pela respiração diafragmática

• Concentre o ar inspirado na parte inferior dos pulmões

• Coloque uma mão abaixo do umbigo e outra em cima do estômago

• Dirija o ar para a parte inferior do abdômen, levantando a mão que está abaixo do umbigo

• Continue a inspirar, levantando em seguida a mão que está em cima do estômago

• Por fim, deixe o ar chegar à parte superior dos pulmões

• Faça essa inspiração em três tempos

 

Exercício para aumentar a fé e a confiança

Rita de Cassia Macieira (in Macieira, 2004)     

1.         Sente-se da forma mais confortável possível. Faça um breve relaxamento, prestando atenção à sua respiração, percebendo a diferença do ar que sai e do ar que entra. Solte-se. Sinta o seu corpo e perceba a inteligência que se manifesta em cada célula. Respire lenta e confortavelmente, levando oxigênio a cada parte do seu corpo.

2.         Com o seu corpo mais relaxado, comece agora a imaginar o seu próprio coração. Sinta que ele bate calma e tranqüilamente enviando o fluxo da vida a todo seu ser. Veja mentalmente seu coração como um grande diamante. Use sua capacidade de visualização e imagine-se dentro deste diamante, em um espaço de saúde, plenitude e amor.

3.         No centro deste lugar espaçoso e claro você se sente em paz. Inspire novamente e goze da harmonia que flui.

4.         E agora veja no centro deste espaço uma escadaria clara e brilhante. Suba por esta escada que conduz você a um templo de cristal.Este é o templo da sua alma, carregada de amor e alegria. Ele é habitado por um mestre, o mestre da Cura Sutil que vem lhe acolher amorosamente. Deixe que a sua Sabedoria Interior se manifeste da forma que desejar, como uma figura religiosa, uma criança ou até uma luz No início a imagem não é muito clara, mas vai ficando cada vez mais nítida e familiar. Este ente acolhe você e o encaminha até o centro do templo, onde está a sala de cura sutil.

5.         No centro da sala de cura sutil, há um grande espelho e o mestre leva você até ele. Você pode agora visualizar sua própria imagem, seu corpo, as várias camadas do seu ser. Veja, sinta nitidamente as cores, imagens e até objetos que possam ser representantes de como você está agora. Você também pode ver as etapas que foram superadas, os desafios vencidos.

6.         Agora, o mestre da cura sutil traz uma maca até você. Veja-se deitando e deixe que o mestre da cura sutil cuide amorosamente de você. Entregue-se confiantemente. Sinta o que ele faz, perceba, intua, capte.

7.         Do teto da sala descem raios de luzes verdes e douradas que chegam da Fonte Criadora para fortalecer o seu corpo, aumentando sua fé e confiança. Sinta, respire, perceba, intua a cura sutil que você está recebendo.

8.         Vou deixá-lo 1 minuto em silêncio para que o trabalho se complete em você.

9.         Agora, o mestre da cura sutil te leva novamente até o grande espelho, onde você pode ver refletido todo o planeta Terra.E você junto com o seu mestre e outros seres de luz, pode agora enviar vibrações de cura em forma de luzes multicoloridas para todo o planeta Terra.

10.      Mas agora é hora de retornar. O mestre te leva até a porta do templo, onde você se despede dele, sabendo que ele está sempre aí à sua espera e o convida para voltar sempre que achar necessário. Despeça e agradeça a você mesmo por se dar esta oportunidade.

11.      E agora vá voltando, sentindo-se bem, em paz e harmonia, em perfeito bem estar físico, mental e espiritual. Faça uma inspiração profunda e quando desejar faça os movimentos que seu corpo necessitar e abra os olhos.

 

 

Exercício – Trabalhando com Imagens Mentais

Manoel Simões, 2004 (in Macieira, 2004)

 

Material:

Folhas de papel A4 ou A3

Giz pastel, lápis colorido ou canetinhas

Caneta.

 

1)   Identifique algum tema que está lhe incomodando, recorrente, que queira conhecê-lo melhor e resolvê-lo.

 

2)   Pegue as folhas de papel e coloque-as ao lado.

 

3)   Faça um breve relaxamento corporal e concentre-se no problema a ser representado.

 

4)   Imagine uma representação para o problema – sendo por exemplo, em cor, forma, imagem, representação do reino na natureza vegetal, animal ou qualquer cena que lhe viver a consciência.

 

5)   Represente-a no papel.

 

6)   Anote o que ela significa para você – anote emoções, pensamentos, sensações e lembranças associadas.

 

7)   Em seguida anote os comportamentos e dificuldades que esta representação lhe oferece na vida – fique atento aos dados reais da dificuldade e aqueles criados pela dificuldade mas que podem ser transformados e transcendidos.

 

8)   Se preciso for imagine conversando com a dificuldade representada, no intuito de perceber os pontos fracos desta representação e possibilidades de saída e resolução.

 

9)   Agora relaxe novamente e imagine como seria a resolução desta imagem – imagine, após todo o processo, como seria se o elemento proposto resolvesse o problema, como o faria, com que recursos, de que forma, com que ajuda – interna ou externa. Faça a visualização da primeira imagem representada resolvendo o problema – utilize todos os canais senso-perceptivos, visão interna, sensação e emoções.

 

10)                No final perceba como se sente na imaginação com o problema resolvido.

 

11)                Anote os recursos utilizados na sua criatividade e resolução – comportamentos utilizados, ajuda se foi necessária, frases intuitivas, significados novos, mensagens provindas do supraconsciente e todos os detalhes da resolução.

 

12)                Faça um novo desenho da representação saudável e mantenha por vários dias em local visível para estimular seus recurso pessoais de motivação para atingir as suas metas propostas.

 

Mestre Rita de Cassia Macieira

Professora do IJEP de Psicossomática

Coordenadora do curso de PSICOLOGIA INTEGRATIVA TRANSPESSOAL

 

 

Referencias

CAMARGO, L. S. Resgatando o terapeuta interior - Processos Naturais de Cura Evocados Através da Meditação. In MACIEIRA, R.( Org.). – Despertando a Cura: Do Brincar ao Sonhar – Aspectos Psíquicos e Espirituais da Cura Existencial, Ed. Livro Pleno, S. Paulo, 2004

ELIAS, A. (2003). Re-significação da dor simbólica da morte: relaxamento mental, imagens mentais e espiritualidade.Psicologia Ciência e Profissão, 21(3), 92-97

ELKINS, D.N., Além da Religião - Um Programa Personalizado para o Desenvolvimento de uma Vida Espiritualizada Fora dos Quadros da Religião Tradicional, São Paulo, Pensamento, 2000.

MULLER, M.C. et all. Técnicas de relaxamento e visualização na Psicologia da Saúde.  Revista de Psicologia da IMED, vol. 1,n. 1, p. 39-45, 2009

SANT´ANNA,  P.A. As imagens no contexto clínico de abordagem junguiana : uma interlocução entre teoria e prática. Tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo.  São Paulo, 2001.

SANTANNA, Paulo Afrânio. Uma contribuição para a discussão sobre as imagens psíquicas no contexto da psicologia analítica. Psicol. USP,  São Paulo,  v. 16,  n.3, set. 2005. . acessos em  25  jul.  2012.

SIMÕES, M.J.P. O uso de imagens mentais na resolução de conflitos – abordagem transpessoal e das neurociências. In MACIEIRA, R.( Org.). – Despertando a Cura: Do Brincar ao Sonhar – Aspectos Psíquicos e Espirituais da Cura Existencial, Ed. Livro Pleno, S. Paulo, 2004


Rita de Cassia Macieira - 19/03/2019